Muito além da narrativa direitista: os mil anos de Islã na Hungria

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Sendo um dos bastiões da direita política no assim concebido Ocidente moderno, a Hungria de Viktor Orbán se destaca como uma das nações onde diversos clichês de antagonismos com as comunidades muçulmanas encontram lugar comum no discurso político. O primeiro-ministro do país chegou a comparar a vinda de refugiados sírios com uma nova invasão otomana, ocultando, como não poderia deixar de ser, a longa e complexa história da formação da Hungria em relação ao Islã. Para quem analisa a história da relação do Islã com os húngaros, é preciso voltar no tempo, antes da conquista húngara, em Levedia, e dos avanços aos Cárpatos. As tribos húngaras pertenciam ao Canato da Cazária — ou melhor, eram seus vassalos.

Mapa da extensão do Canato da Cazária

A nossa principal fonte sobre essas tribos foi o imperador bizantino Constantino VII, que dedicou escritos inteiros a esses povos. A título de fácil compreensão, utilizarei o topônimo húngaro conhecido como Böszörmény para classificar os povos islâmicos. Aqui temos o elo que interliga as tribos magiares à construção do primeiro principado húngaro.

Porém, as origens dos Böszörmény remontam a um confronto no canato khazar. Três tribos cazares, conhecidas coletivamente como Kabars (ou Kavars), deixaram as fronteiras da Cazária, refugiaram-se junto aos húngaros e tornaram-se parte de sua confederação tribal, o Het-Magyar — ou “Sete Tribos”.

De acordo com os historiadores Al-Kufi, Ibn Kathir e Al-Baladhuri, alguns cazares adotaram o islamismo após sua derrota para o Califado Omíada em 737 d.C. Posteriormente, quando a elite governante da Cazária se converteu ao Judaísmo, alguns de seus súditos muçulmanos foram autorizados a integrar a associação dos Kabars e se uniram aos húngaros. Embora sua ligação com a região centro-asiática da Corásmia não seja clara, o autor árabe Al-Gharnati, que viajou à Hungria no século XII, referiu-se a eles como corasmianos, ou seja, de lá provenientes. Outros muçulmanos da Cazária que mantiveram sua religião mas permaneceram a serviço dos judeus-cazares eram chamados de al-Arsiyah. Eles formavam a cavalaria dos cazares.

Os muçulmanos que se juntaram aos magiares (ou húngaros) também passaram, nessa época, a ocupar cargos importantes na organização militar do Het-Magyar. Neste contexto, deve-se notar que os húngaros chamavam os muçulmanos korásmios que se estabeleceram na Hungria pelo nome de Kalis. O nome húngaro Kalis corresponde ao gentílico étnico al-Khazar — alternativamente al-Khazar-Khalis —, que se referia à sua etnia, segundo os historiadores árabe-persas medievais Al-Istakhri e Ibn Hawqal, que viviam no oeste de Atil, a capital cazar.

Assim, os muçulmanos húngaros provavelmente migraram para as planícies da Panônia (atual Hungria e adjacências) com outras tribos magiares e eram de origem cazar, já que seus nomes eram análogos na Hungria e na Cazária.

Retornando aos Böszörmény, eles eram, sem dúvida, uma tribo secundária, agregada, e de menor prestígio, o que pode ser comprovado pelo fato de que, como nação auxiliar armada, serviam nas frentes de defesa, tanto na linha de frente quanto na retaguarda. Portanto, eram os primeiros a entrar em batalha e os últimos a sair. Os Böszörmény tornaram-se uma nação bilíngue e, além de sua própria língua turca, também falavam húngaro, ou magyar. Entre os húngaros conquistadores, a proporção de Böszörmény – especula-se – era de 20% a 30%. Além deles, outras nações muçulmanas também se juntaram à confederação tribal liderada pelos magiares.

Invasões dos magiares e das Sete Tribos rumo aos Cárpatos.

Alguns historiadores defendem que Sámuel Aba, que foi rei da Hungria, também era um böszörmény, ou pelo menos detinha tal ascendência. Seus ancestrais eram os príncipes das três tribos. Foi nessa época que Sámuel Aba se casou com uma das irmãs mais novas do rei Santo Estêvão da Hungria. Naturalmente, uma condição para esse casamento foi a conversão de Sámuel Aba ao cristianismo. Graças a essa união, o primeiro rei firmou uma forte aliança com os böszörmény.

Sámuel estabeleceu o mosteiro de Abasár na época de seu casamento. Com a conversão ao cristianismo, ele perdeu o título de chefe tribal, mas, ao mesmo tempo, ingressou na corte do rei Estêvão, tornando-se membro do corpo consultivo que liderava a política do país. Como parente do rei, ocupava uma posição de destaque. Recebeu o título de tenente palaciano (nádorispán), organizado com base em um modelo germânico. Esse título foi posteriormente denominado palatino.

É nesse ínterim que assistimos ao nascimento do Reino da Hungria e ao seu processo de cristianização. Foi com Estêvão I, grão-príncipe dos húngaros, coroado rei em 1000 ou 1001, que se iniciou um esforço intenso de conversão. Por meio de sua autoridade centralizada, ele forçou seus súditos a aceitar o cristianismo. A fé cristã foi adotada como religião de Estado pela dinastia Árpád, cujos reis usaram o título de “reis apostólicos”.

A dinastia Árpád governou a bacia dos Cárpatos por quatrocentos anos, influenciando quase toda a Europa por meio de suas extensas conexões dinásticas. Pelo menos oito membros da dinastia foram canonizados ou beatificados pela Igreja Católica. Cabe lembrar que ao menos dois Árpáds também foram reconhecidos como santos pela Igreja Ortodoxa do Oriente.

Conquista. Mihály Munkácsy, 1893.

O Islã na Hungria Medieval e seu declínio

Os böszörmény e sua comunidade foram acompanhados por grupos menores de colonos muçulmanos. Esses se dedicavam principalmente ao comércio e às finanças, embora alguns tenham sido empregados como mercenários pelos reis-lordes da Hungria. Outros muçulmanos também atuaram no exército do rei, participando de guerras contra o Império Bizantino.

O autor Yaqut al-Hamawi diz que a população muçulmana falava a língua húngara no início do século XIII. No que tange aos direitos dessa comunidade, eles eram severamente restringidos. Ainda assim, os muçulmanos mantiveram uma presença significativa até o século XIII, desaparecendo gradualmente por assimilação e conversões forçadas após as invasões mongóis da Hungria. Muitos provavelmente se converteram ao cristianismo, ou posteriormente ao bektashismo — um ramo sufi do Islã, popular na região dos Bálcãs, onde conduzia extensa atividade missionária.

No século XI, com o Sínodo de Szabolcs, diversas leis que regulavam as relações entre cristãos e não-cristãos acabaram por, formalmente, dificultar a vida dos muçulmanos e a prática do Islã na região. A legislação se referia aos muçulmanos como “ismaelitas”:

§ 46 Se alguém surpreender ismaelitas jejuando, comendo, abstendo-se de carne de porco, praticando lavagens rituais ou outras falsas práticas, esses ismaelitas deverão ser enviados ao rei, e quem os processou receberá uma parte de suas propriedades.

§ 47 Ordenamos que todas as aldeias ismaelitas construam uma igreja e a financiem. Após a construção da igreja, metade da aldeia deverá se mudar e se estabelecer em outro lugar para se tornar semelhante a nós na convivência e também em Cristo e na Igreja.

§ 48 Ismaelitas não devem casar suas filhas com pessoas de sua própria nação, mas apenas com pessoas de nossa nação.

§ 49 Se um ismaelita tiver um convidado ou convidar alguém para comer em sua casa, ele e seus convidados deverão comer apenas carne de porco.

Em 1232, o rei André II proibiu novamente a prática do Islã na Hungria. Apesar dessa proibição formal, muitos muçulmanos continuaram sujeitos ao pagamento de tributos (jizya) aos cristãos. Curiosamente, moedas reais húngaras datadas entre os séculos XII e XIII continham inscrições em árabe.

Moeda húngara com detalhes pseudocúficos (imitação estética da caligrafia árabe) do reinado de Bela III.

Otomanos na Hungria e a relação com os cristãos

As relações entre os otomanos e os húngaros se dividem em três períodos principais.

O primeiro período começou no século XIV, no ano de 1375, com o primeiro conflito militar direto documentado entre forças húngaras e otomanas na Valáquia (atual Romênia), e durou até a aniquilação do exército húngaro na Batalha de Mohács (1526), às mãos do sultão Suleyman, o Magnífico. Nesse primeiro período, os objetivos otomanos eram caracterizados pela expansão gradual nos Bálcãs, ao sul do Reino Medieval da Hungria (1000–1526), e pela reação dos húngaros, que procuravam deter o avanço otomano estendendo sua influência nos Bálcãs e construindo um sistema de defesa antiotomano ao longo das fronteiras meridionais da Hungria.

A segunda fase teve início com a Batalha de Mohács, que não apenas marcou o fim do Reino Medieval da Hungria, em 1526, como também deu início a um longo período de confronto militar entre os Habsburgos e os otomanos na Europa Central. Como consequência, os Habsburgos passaram a governar as partes norte e oeste remanescentes da Hungria a partir daquele ano. Nesse período, a Hungria tornou-se o principal campo de batalha da rivalidade habsburgo-otomana por 150 anos. Em 1541, a Hungria Central foi incorporada ao Império Otomano e passou a ser administrada como província otomana até 1699.

Rei Luís II de Jagel encontrado morto após a Batalha de Mohács. Bertalan Székely, 1860.

O terceiro período, que durou de 1699 até o colapso dos impérios Otomano e Austro-Húngaro na Primeira Guerra Mundial, foi marcado pela derrota otomana e sua retirada da Hungria, mantendo-se apenas nos Bálcãs.

Do ponto de vista administrativo, a Hungria otomana assemelhava-se às zonas centrais do Império Otomano. A parte controlada pelos otomanos era dividida em eyalets (zonas administrativas); seus recursos eram mapeados e registrados durante levantamentos periódicos de terras, conhecidos como tahrir; e seus habitantes eram tributados conforme os códigos de leis provinciais otomanos, denominados kanunnames.

No entanto, a Hungria otomana nunca foi integrada da mesma forma que as zonas centrais nos Bálcãs, mantendo sua identidade húngara e cristã durante todo o domínio otomano. O país foi conquistado apenas parcialmente e, ao contrário dos Bálcãs, a elite governante derrotada e suas instituições não foram destruídas. Os aristocratas e a maioria da nobreza se transferiram para a Hungria Real ou para a Transilvânia. De lá, com o apoio de guarnições húngaras, continuaram a administrar suas propriedades na Hungria otomana, taxar seus camponeses e aplicar justiça.

Os otomanos, que consideravam esses camponeses como súditos do sultão, inicialmente se opuseram a tais práticas, mas provaram ser incapazes de selar rigidamente as fronteiras. No Tratado de Paz de 1547, Istambul reconheceu um governo conjunto ou condomínio húngaro-otomano. A partir de então, os otomanos passaram a compartilhar o poder administrativo e judicial, bem como os tributos dos súditos, com os reis Habsburgos da Hungria, a nobreza húngara e as igrejas Católica e Protestante.

Eyalets, estados vassalos otomanos e outros páises na região da Hungria em 1683.

A tolerância religiosa dos otomanos permitiu que o protestantismo na Hungria, como a Igreja Reformada Húngara, sobrevivesse à repressão nos territórios húngaros governados pelos Habsburgos católicos. Os otomanos mantinham relações mais harmoniosas com a Igreja Ortodoxa do Oriente (o que também se aplicava aos Bálcãs) e com seus súditos protestantes.

A maioria dos fiéis ortodoxos era formada por sérvios. Uma numerosa congregação ortodoxa sérvia já habitava a Hungria antes mesmo da Batalha de Mohács. No século XV, os sérvios formavam a maioria da população nos territórios mais ao sul do Reino Medieval da Hungria (como Sirmio, a região de Temes, e outras). Continuaram chegando em ondas migratórias juntamente com os conquistadores otomanos, estabelecendo-se em áreas onde a população húngara havia fugido ou sido aniquilada durante as guerras.

Na segunda metade do século XVI, a área étnica sérvia se estendia até a linha do rio Maros, ao leste, e, no século XVII, grandes comunidades sérvias foram estabelecidas nas proximidades de Buda.

Por outro lado, as crenças protestantes se espalharam pela Hungria em grandes ondas e, por volta de 1570, os protestantes constituíam a maioria da população nas três divisões do país. No final do século XVI, cerca de 90% dos habitantes da Hungria otomana eram protestantes, sendo a maioria calvinistas. Um sínodo calvinista foi realizado em 1567, na cidade de Debrecen — principal centro do calvinismo húngaro —, onde foi adotada a Segunda Confissão Helvética como confissão oficial dos calvinistas húngaros.

Quase todas as vertentes do protestantismo estavam representadas na Hungria, mas três se destacaram em importância nacional: o luteranismo (presente no oeste e noroeste da Hungria, especialmente em cidades com forte população germânica), o calvinismo (predominante no norte da Hungria, na Transilvânia e nas áreas sob domínio otomano) e o antitrinitarismo, também chamado de unitarismo húngaro (na Transilvânia e em regiões ocupadas pelos otomanos).

Na Hungria, a Reforma cristã ocorreu de maneira muito mais pacífica do que em outras regiões da Europa. Isso se deve, em parte, à fragilidade do Estado húngaro e da hierarquia católica local, e também ao fato de que as classes dominantes se alinharam quase completamente à nova religião protestante.

Durante esse período de soberania otomana sobre terras húngaras, foram, também, conduzidas atividades missionárias islâmicas no território – particularmente da Ordem (ou tariqa) sufi Bektashi. Os bektashis, que vinham já num grande esforço de converter as populações dos Bálcãs ao Islam, tornando-se inclusive nesse processo a ordem sufi oficial dos Janízaros (que por sua vez eram recrutados dentre as populações cristãs europeias através do devshirme), fizeram seu caminho até localidades tão longínquas quanto as cidades de Buda e Pest – hoje, uma só cidade, Budapest, a capital da atual Hungria.

Lá, figuras como o Pir bektashi Gül Baba, reverenciadas na corte e círculos místicos do Império Otomano, pregaram o Islã a populações locais, arrematando um pequeno e tímido, mas sólido, número de convertidos. Gül Baba morreu e foi sepultado em Budapeste, num túmulo (turbe) construído pelas autoridades otomanas entre 1543 e 1548. O túmulo foi posteriormente convertido em uma capela católica romana pelos jesuítas e, após passar por diferentes proprietários e restaurações ao longo dos séculos, o túmulo foi declarado monumento nacional em 1885 e atualmente é propriedade da República da Turquia, tendo passado por uma reforma em larga escala concluída em 2018, quando o local foi reinaugurado como um santuário islâmico funcional pelo então primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán e pelo presidente turco Recep Tayyip Erdoğan.

Tumba-santuário (turbe) de Gül Baba em Budapeste, localizado na Rua Mecset (mesquita), a uma curta, mas íngreme caminhada da Ponte Margarida, no distrito de Rózsadomb.

O fim da Hungria Otomana e a perseguição ao Islã

Após o cerco bem-sucedido dos Habsburgos a Pécs, os muçulmanos foram convertidos ao catolicismo entre 1686 e 1713. Com a derrota dos otomanos na Grande Guerra Turca, eles reconheceram a perda da Hungria pelo Tratado de Karlowitz, em 1699.

Os territórios restantes ocupados pelos otomanos, que abrangiam as regiões da fronteira sul do Reino da Hungria — como o eyalet de Temesvár, Sirmia e Belgrado —, foram reconquistados pelos Habsburgos durante a Guerra Austro-Turca (1716–1718), sendo isso reconhecido com a assinatura do Tratado de Passarowitz, em 1718.

Esse processo foi extremamente violento. Em 1697, as tropas do príncipe Eugênio de Saboia, aproveitando a presença militar otomana enfraquecida na Europa, penetraram na Bósnia otomana e chegaram à capital Sarajevo, onde massacraram protestantes e minorias islâmicas.

A cidade de Hatvan tornou-se um refúgio para comerciantes turcos, convertendo-se em um assentamento majoritariamente muçulmano. No entanto, após sua queda diante das tropas húngaras em 1686, todos os colonos turcos foram expulsos à força e suas propriedades na cidade foram entregues a mercenários estrangeiros que haviam participado da “libertação” de Buda.

Cerca de um quarto da população da Eslavônia no século XVI era composta por muçulmanos, que viviam principalmente em áreas urbanas — com Osijek e Požega sendo os principais centros. Após a derrota otomana na guerra Habsburgo-otomana (1683–1699), muçulmanos e não eslavos que viviam na Hungria, Croácia e Dalmácia fugiram para a Bósnia-Herzegovina. Esse êxodo é considerado por historiadores como o primeiro exemplo de limpeza étnica da população muçulmana em uma área “abençoada pela Igreja Católica”. Estima-se que cerca de 130.000 muçulmanos da Croácia e da Eslavônia tenham sido levados para a Bósnia e Herzegovina otomana.

Praticamente todos os muçulmanos dessas regiões foram exilados, mortos ou escravizados pelas forças conquistadoras dos Habsburgos e venezianos.

A herança muçulmana foi alvo de extensas perseguições. De acordo com pesquisas contemporâneas, cerca de 20.000 edifícios de todos os tamanhos foram registrados em documentos otomanos oficiais. No entanto, muito pouco dessa herança otomana sobreviveu na maioria dos países balcânicos. A maior parte das mesquitas otomanas dos Bálcãs foi destruída; as poucas ainda de pé tiveram, muitas vezes, seus minaretes derrubados.

Um exemplo simbólico é a mesquita de Pasha Qasim, em Pécs, que foi convertida em igreja católica. Localizada na Praça Széchenyi, centro da cidade, a mesquita foi transformada em igreja em 1702, após as invasões habsburgas, e teve seu minarete destruído por jesuítas em 1766.

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Antiga mesquita de Pasha Qasim, atual Igreja da Candelária da Bem-Aventurada Virgem Maria. Pécs, Hungria.

Antes da conquista habsburga, Osijek contava com entre 8 e 10 mesquitas — nenhuma das quais sobrevive até hoje. Durante as Guerras dos Bálcãs, ocorreram numerosos episódios de profanação e destruição de mesquitas e cemitérios muçulmanos. Das 166 madraças existentes nos Bálcãs otomanos no século XVII, apenas oito permanecem — cinco delas nas imediações de Edirne. Estima-se que 95% a 98% dessas instituições foram destruídas.

Por volta de 1923, apenas a Anatólia, a Trácia Oriental e uma parte do sudeste do Cáucaso ainda permaneciam sob controle muçulmano. Milhões de muçulmanos — a maioria deles turcos — morreram; outros milhões fugiram para o que hoje é a Turquia. Essas ondas traumáticas ocorreram em dois grandes períodos: 1821–1878 e 1912–1923. No total, estima-se que 5,5 milhões de muçulmanos tenham morrido e outros 5 milhões tenham se tornado refugiados.

O Islã na Hungria contemporânea

Depois de toda essa nossa viagem pela história, voltemos ao presente.

De acordo com o censo húngaro de 2011, havia 5.579 muçulmanos na Hungria, representando apenas cerca de 0,057% da população total. Desses, 4.097 (73,4%) declararam-se etnicamente húngaros, enquanto 2.369 (42,5%) declararam-se etnicamente árabes. Como na Hungria é possível declarar mais de uma etnia, a soma das porcentagens excede 100%. Os dados de 2011 não apresentam números específicos da população turca, que era de 1.565 pessoas no censo anterior, de 2001. No entanto, a maioria dos muçulmanos na Hungria é de origem árabe ou turca.

Em 2013, o Conselho Islâmico Húngaro solicitou que o Grão-Mufti da Bósnia e Herzegovina, Husein Kavazović, também assumisse a função de Grande Mufti da Hungria.

A nova “Lei sobre o Direito à Liberdade de Consciência e Religião, e sobre Igrejas, Religiões e Comunidades Religiosas” foi promulgada em 12 de julho de 2011 e reconheceu apenas 14 grupos religiosos. O Islã não estava inicialmente incluído nessa lista, e os muçulmanos precisaram solicitar reconhecimento oficial de acordo com os critérios da nova lei.

Segundo os termos da legislação, apenas 14 das 358 igrejas e associações religiosas registradas mantiveram o reconhecimento legal, enquanto as demais foram obrigadas a solicitar novo registro, sujeito à aprovação por dois terços do Parlamento. Em 27 de fevereiro de 2012, o Parlamento húngaro alterou a lei, ampliando a lista de organizações religiosas reconhecidas oficialmente e incluindo o Conselho Islâmico Húngaro.

Além disso, há um número crescente de convertidos húngaros étnicos ao Islã.

O número real de muçulmanos na Hungria provavelmente é superior a 5.579. Após o início da guerra na Síria, houve um fluxo significativo de requerentes de asilo em 2014, 2015 e 2016, com mais de 200.000 pedidos de asilo apresentados na Hungria. No entanto, a partir de 2017, as autoridades húngaras registraram apenas algumas centenas de pedidos.

Essa mudança está diretamente ligada à postura política do atual governo húngaro, sob a liderança de Viktor Orbán, que se apoia fortemente numa retórica anti-imigração e anti-islâmica. Segundo o primeiro-ministro, a Hungria se recusou a receber refugiados porque sua população “não é favorável à abertura de fronteiras”.

A construção de novos locais de culto ou salas de oração deve ser comunicada às autoridades, e novos estabelecimentos exigem autorização formal. Os projetos são inspecionados pela autoridade local de construção, que pode emitir ou negar a permissão. A opinião dos moradores das proximidades também é levada em consideração.

Em Budapeste, várias salas de oração são utilizadas como mesquitas, adaptadas de apartamentos, prédios de escritórios ou armazéns. Essas instalações não apresentam as formas tradicionais das camis (mesquitas clássicas) e não têm causado oposição significativa por parte da vizinhança. Não há registros de distúrbios ou protestos civis motivados por esses estabelecimentos.

Atualmente, existem oito mesquitas no país. A mais famosa é a Mesquita Yakovalı Hasan Paşa, construída pelos otomanos em 1630, que permanece intacta até hoje. No entanto, mesquitas com arquitetura tradicional — cúpula e minarete — ainda não foram construídas na Hungria. Há apenas uma com essas características em território da antiga Hungria histórica, na cidade de Subotica (atualmente na Sérvia).

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Mesquita de Paxá Yakovalı Hasan, construída em 1630. Pécs, Hungria.

O edifício mais significativo atualmente é a Mesquita de Budapeste, que funciona como sede da Igreja dos Muçulmanos Húngaros (MME). Está localizada na Rua Fehérvári e ocupa um antigo edifício de escritórios de vários andares.

Além disso, o conselho distrital de Újbuda autorizou a construção do primeiro centro islâmico em Budapeste. Esse centro contará com uma biblioteca de 50.000 volumes e capacidade para 2.000 pessoas — um marco importante, apesar da retórica hostil de Orbán.

Referências

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