Como a opinião da futura geração brasileira está sendo formada sobre a Questão Palestina

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Texto de Francisco Fernandes Ladeira.

Em 2018, na minha dissertação de mestrado, intitulada “A geopolítica mundial na mídia: conceitos, valores e discursos presentes no ensino de Geografia na Educação Básica”, busquei compreender se os discursos dos noticiários internacionais da imprensa hegemônica brasileira influenciam os imaginários geopolíticos de alunos do ensino médio. Em outras palavras, procurei verificar em que medida as representações midiáticas sobre outros povos, países, chefes de Estado e civilizações são compartilhadas pelos estudantes. Para tanto, realizei uma análise sobre os discursos dos noticiários internacionais da grande mídia brasileira e apliquei questionários e decodificação de imagens que remetem a temáticas geopolíticas para seiscentos estudantes de todo o país. Alguns realizaram a atividade presencialmente e a maioria online. Posteriormente, as respostas dos participantes do estudo foram comparadas aos conteúdos veiculados pelos noticiários.

Concluí que os imaginários geopolíticos dos alunos são influenciados pela mídia hegemônica. Países, personalidades políticas e sistemas econômicos representados positivamente nos noticiários foram igualmente mencionados de forma favorável pelos estudantes. Em contrapartida, povos, nações, crenças, ideologias e políticos estigmatizados pela grande mídia receberam representações negativas. O islamismo, por exemplo, foi compreendido a partir de sua representação midiática – predominando estereótipos associados ao terrorismo, fundamentalismo e à misoginia. Assim, os alunos construíram imagens mentais sobre a civilização islâmica como a alteridade negativa do Ocidente – onde supostamente imperam valores como “liberdade”, “democracia” e “respeito às diferentes”. O “conflito” entre Israel e Palestina foi visto como rivalidade religiosa e não como um genocídio. Outra constatação relevante foi que, entre os temas recorrentes na mídia, os noticiários internacionais estavam entre os que despertam menor interesse do público.

No entanto, desde então, houve mudanças significativas – tanto na geopolítica global quanto no cenário informacional – que me levaram a repensar os resultados apresentados acima. Após a Operação Dilúvio de Al-Aqsa, em outubro de 2023, quando grupos da resistência palestina liderados pelo Hamas romperam o cerco colonial à Faixa de Gaza e promoveram uma contraofensiva no Sul de Israel, a geopolítica deixou de ser uma temática secundária dos noticiários e passou a ocupar um espaço central na agenda pública. Além disso, os acontecimentos na Palestina têm sido amplamente noticiados, não apenas na grande mídia (com seu costumeiro discurso maniqueísta de “defesa de Israel” e “palestinos terroristas”), mas também nas redes sociais e na chamada imprensa progressista. Pela primeira vez, os grandes grupos de comunicação não possuem a exclusividade de pautar a narrativa geopolítica. Com as imagens que vêm de Gaza compartilhadas mundo afora, não há mais como ocultar o primeiro genocídio instagramável da história.

Assim, em 2025, fui levado a realizar outra pesquisa sobre imaginários geopolíticos de estudantes, com foco na Questão Palestina, utilizando a mesma metodologia: aplicação de questionários. Dessa vez, o público foi bem menor, apenas 20 alunos, mas os resultados já apontam para uma outra forma de consumo de informações sobre geopolítica entre os jovens, diferente daquela registrada oito anos antes. Primeiro, o aumento do interesse sobre a temática. Segundo e mais importante ponto: os imaginários geopolíticos dos estudantes, pelo menos no que diz respeito à Palestina, já não são moldados de forma predominante pelos noticiários internacionais veiculados pela grande mídia. Nesse sentido, a internet tem desempenhado um papel central na formação de visões alternativas sobre a geopolítica palestina, sem as tradicionais manipulações presentes nos meios hegemônicos.

No estudo, todos os alunos que afirmaram ter conhecimento substantivo sobre as relações entre Israel e Palestina apresentaram, em suas respostas ao questionário proposto, posicionamentos críticos que divergiam das narrativas predominantes nos noticiários internacionais da imprensa hegemônica. A observação de um dos participantes da pesquisa, ao afirmar que “antigamente tinha uma imagem meio ‘santa’ sobre eles [Israel], agora só os associo ao genocídio em Gaza”, ilustra, de maneira emblemática, a passagem de um imaginário geopolítico permeado pelos discursos da grande mídia para um posicionamento sobre a geopolítica global baseado em diferentes fontes de informação.

Neste ano, no pós-doutorado, ampliei o público participante para quase quatrocentos alunos, e os resultados obtidos foram semelhantes. Claro que mais pesquisas devem ser feitas. Mas os números apresentados em outras investigações realizadas em todo planeta – pelo Pew Research Center, Quaest e Nira Data, entre outros – corroboram o aumento do apoio à causa Palestina e sugerem uma imagem negativa sobre Israel em praticamente todo o planeta (inclusive entre a juventude estadunidense).

Consequentemente, é possível visualizar a emergência de um cenário informacional mais dinâmico e descentralizado, no qual os estudantes demonstram capacidade de acessar e mobilizar discursos divergentes daqueles tradicionalmente difundidos pelos meios de comunicação hegemônicos. Plataformas digitais, redes sociais, canais independentes e iniciativas educativas online têm contribuído significativamente para a construção de análises geopolíticas mais complexas e críticas. Isso reforça a importância de se considerar o papel da mediação digital no processo de formação de imaginários geopolíticos entre jovens, bem como o potencial educativo da internet como espaço de circulação de narrativas plurais.

Falando diretamente aos professores da Educação Básica, considero ser fundamental que haja uma abordagem pedagógica que valorize a leitura crítica da mídia e o debate fundamentado sobre temas internacionais nas escolas, promovendo a autonomia intelectual e o pensamento crítico dos estudantes frente aos discursos geopolíticos contemporâneos. Ou seja, proponho ensinar o domínio da linguagem midiática da mesma forma que se ensina o domínio da linguagem escrita para que se possa utilizá-la da forma mais abrangente possível.

Notas

[1] Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)

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