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Ibn Qasi, santo-guerreiro muçulmano de Portugal

Ahmad Ibn Qasi foi um dos mais celebres e famosos líderes muçulmanos no al-Andalus do século XII, e como seu sobrenome sugere, sua família provavelmente tinha origens muladis de habitantes romanos da Ibéria pré islâmica que se converteram ao Islã pós-conquista de 711, sendo “Qasi” uma arabização do nome “Cassius”, e “Ibn Qasi” portanto “filhos de Cassius”, remetendo as origens latinas de seu clã .

Ele nasceu em uma família abastada, de Silves ou Mértola, no Algarve andaluz. Segundo Ibn al-Abbār, era um oficial menor do governo em Silves, enquanto Ibn al-Khaṭīb o descreve como um jovem bon vivant. Foi nesta altura de sua vida, durante seus 20 e poucos anos, que sentiu seu chamado místico, decidindo volta-se ao ascetismo dedicado ao tassawuf (sufismo), a ciência islâmica da purificação do coração, desfazendo-se de todos os seus bens, e doando metade aos necessitados, bem como deixando para trás a vida de dissipação mundana.

Tornando-se um dervixe errante, passou a peregrinar por todo al-Andalus, estudando com os mestres Khalaf Allāh al-Andalusī e Ibn Khalīl em Niebla, embora ele também possa ter conhecido Ibn al-Arīf em Almeria, que naquela cidade mantinha um centro sufista ou zawiya de relativa importância. Após concluir seu treinamento sufi, voltou à sua Silves natal, reunindo em torno de si um secto de seguidores, ou murids, que passaram a frequentar o Ribat de Jilla nos arredores da cidade, e ali naquele monastério-fortaleza islâmico, se dedicar a Cavalaria Espiritual islâmica (futuwwa) sob a tutela de Ibn Qasi, agora seu murshid (guia).

A ele também são atribuídos diversos milagres (karamat), e a autoria de um tratado sobre purificação espiritual islâmica sobrevivente intitulado Kitab Khal Al-Nalayn ou “Livro do Descalçar das Sandálias”, fazendo dele um autentico wali u-llah, o equivalente muçulmano de um santo na tradição cristã.

O al-Andalus, a porção muçulmana da Ibéria, nos anos 1140 passava por turbulências políticas. Governado pelo Império Almorávida de origens saarianas, a tensão religiosa trazida pelos escritos recém divulgados de Abu Hamid al-Ghazali vindos do Oriente, que propunham o Reavivamento das Ciências Religiosas em contra ao fanatismo externalista dos juristas da época, não foram bem recebidos naquela porção da Morada do Islã, e os ensinamentos místicos do Imã foram rechaçados pelo establishment religioso almorávida.

Ibn Hamdin, o juiz principal (qadi) de Córdoba, chegou até mesmo ao ponto de declarar al Ghazali como descrente.  Os eruditos religiosos de Córdoba escreveram ao emir almorávida Ali Ibn Yusuf [1106-1143] para que desse ordens de proibição contra os ensinamentos ghazalianos, e este, temendo a oposição dos ulemás e o surgimento de outro movimento religiosos rival, assim o fez, ordenando a incineração pública dos manuscritos de al-Ghazali.

A perseguição aos seguidores dos tratados de al-Ghazali se intensificaram em 1141 dentro do Império Almorávida. O mestre sufi de Sevilha Ibn Barrajan, fora executado por ordem do próprio Ibn Yusuf, e todos os seus seguidores condenados ao carcere ou açoitamento público. Quanto ao professor de Ibn Qasi, o almeriense Ibn al-Arif, fora envenenado após sua soltura da prisão.

“Certas pessoas possuem erudição, porém não tem o verdadeiro conhecimento quando a utilizam, o que lhes aumenta a crueldade e a cegueira. São estas pessoas eruditas que só falam por falar, para serem ouvidas e vistas. Isto apenas aumenta-lhes o distanciamento de Allah. Erudição e sabedoria são coisas completamente distintas.”

-Ahmad Ibn Qasi, Kitab Khal Al-Nalayn

Diante de tal opressão à via mística bem como demais tiranias contra o povo, Ibn Qasi deflagrou sua oposição aos almorávidas e suas injustiças, e seus murids o aclamaram mahdi no Algarve em 1144. Ibn Qasi ao que parece, o fez despido de qualquer amor pelo mundo ou desejo político, pois sua motivação era plenamente o estabelecimento de um reino pautado pelo espirito da verdade e cavalarias espiritual islâmica, em oposição à opressão seja ela de onde viesse. Em uma linha de seus poemas, lê-se: “Na lua (do mês) de Safar, um poder chegou a mim, que não me foi doce ou amargo…

Inicialmente, Ibn Qasi e seus murids tentaram tomar sem sucesso a fortaleza de Montiqut (Mone Agudo), onde vários de seus homens foram capturados, contudo, a investida estratégica contra Mértola fora bem sucedida, e a fortaleza local no Alentejo capturada. Ele adentra a cidade em 1 de Setembro de 1144, recebido com a pompa cerimonial aos louvores de takbir wa tahil ( “Allahu Akbar”, “Deus é maior”, e ”La Ilaha illa Allah”, “Não há divindade além de Deus). As tentativas seguinte dos almorávidas de retomarem Mértola foram infrutíferas, devido ao forte apelo da população local a Ibn Qasi.

Estátua em homenagem a Abu-l-Qasim Ahmad ibn al-Husayn ibn Qasi em frente a Fortaleza de Mértola, Portugal.

Ibn Qasi adquire ainda mais apoio popular com a suspensão dos impostos abusivos e políticas de filantropia e caridade para com os pobres, enviando também emissários por todo Algarve para que se unam a sua causa. O governador de Beja e Évora Ibn Wazir e al-Mundhir de Silves se apresentam em Mértola para prestarem-lhe vassalagem, tomando-o também como mestre espiritual, e este último, al-Mundhir, tornando-se também comandante de seus exércitos.

As forças de Ibn Qasi adentram ao domínio almorávida, e tomam Huelva e Niebla com facilidade. A importante Sevilha também é cercada, porém a resistência almorávida não sede. Batendo em retirada derrotado, al-Mundhir se refugia em Niebla, onde enfrenta um cerco de três meses dos almorávidas sevilhanos, que somente é interrompido por uma rebelião instaurar-se em Córdoba. Querendo tomar ainda mais esta cidade, Ibn Qasi dirige al-Mundhir e Ibn al-Qabila à Córdoba para tentar agregar apoio, porém sem sucesso.

Vendo a estagnação da expansão de seu pequeno estado, Ibn Wazir trai Ibn Qasi, rebelando-se contra o mesmo. Al-Mundhir é enviado para derrotá-lo, porém acaba sendo ele mesmo derrotado e capturado. O cruel Ibn Wazir ordena que seu outrora irmão no caminho espiritual receba uma pena horrivel, e al-Mundhir tem seus olhos arrancados. Perdendo tanto as praças fortes de Beja e Évora, e também a de Silves com a derrota de al-Mundhir, Ibn Qasi se vê desolado, As forças de Ibn Wazir tomam Mértola nos primeiros dias do ano de 1146, e o mestre sufi tem de escapar de seu dicípulo traidor, primeiro para Silves e depois para Arcos.

Ibn Qasi decide continuar sua luta contra os almorávidas, dessa vez aliando-se a outro líder místico, o segundo califa almóada Abdul Mumin, que de sua base norte-africana agora apresenta a maior ameaça de aniquilação final aos almorávidas.  Partindo para Ceuta, ele encontra o califa entre janeiro e fevereiro de 1146 na região mais ocidental do Magrebe.

Abdul Mumin primeiramente lhe inquiriu reprovadamente sobre a declaração de seus discípulos de que Ibn Qasi seria o “Mahdi”, ou “o Bem Guiado”, figura apocalíptica da escatologia islâmica que no entendimento popular virá no fim dos tempos antes de Jesus Cristo para fixar os problemas da comunidade muçulmana. O sheykh somente respondeu: “Acaso não há duas auroras? A verdadeira e falsa? Eu sou a falsa!”. O califa teria sorrido diante da resposta e desculpado-lhe pelo mal entendido.

Ibn Qasi permanece na corte almóada, e aconselha Abdul Mumin a prosseguir no combate aos almorávidas, e este o faz, dirigindo suas tropas ao al-Andalus em junho 1146 e tomando importantes cidades e fortalezas, pondo fim por sua vez completamente ao regime no ano seguinte. Ao derrotar seu ex-discípulo traidor Ibn Wazir com apoio das forças almóadas, Ibn Qasi o perdoa de forma magnânima, e o mantém em seus domínios, libertando o cego al-Mundhir, a quem restaura o governo de Silves, não mantendo qualquer autoridade senão espiritual.

Contudo, percebendo integrismo tirânico também presente nos almoádas, notado principalmente em perseguições após a tomada de Sevilha pelos irmãos do fundador do movimento Abdul Aziz e Isa, este rompe com eles, assim como os demais emires e chefes militares andaluzes, e passam a lhes fazer oposição. Contudo, cedendo a pressões do sempre mais poderoso califa de Marraquexe, estes desmancham seus levantes, e novamente juram fidelidade a Abdul Mumin em 1150, que exige que todos se apresentem pessoalmente perante a corte. Entretanto, Ahmad Ibn Qasi se mantém firme em oposição e guerra aberta ao Califado Almóada, ainda que se valendo apenas de sua fé e seus ainda murids ainda vivos.

Estátua de D. Afonso Henriques I, Guimarães, Portugal.

Sem maiores esperanças de manter o pequeno potentado sufi centrado em Silves no Algarve e proteger seus seguidores do integrismo e tirania dos almóada, ele torna sua aliança a outro líder independente do lado oposto, o também próximo de uma ordem de monges-guerreiros, Dom Afonso Henrique I de Portugal, que não se submetia a suserania de Leão e Castela, primando também por sua independência. O rei cristão e o místico muçulmano firmaram sua aliança, com Dom Afonso envidando a Ibn Qasi o presente simbólico de um cavalo, lança e escudo.

A aliança de Ibn Qasi com o rei cristão contra os almóadas entretanto não passou despercebida. Um complô liderado pelo cego al-Mundhir que Ibn Qasi havia libertado do cativeiro pouco tempo antes, planejou a morte do sheykh. Fazendo uso de um assassino disfarçado, mataram Ahmad Ibn Qasi traiçoeiramente, arrancam-lhe a cabeça, e espetaram-na na lança que lhe havia sido dada por Dom Afonso, enquanto bradavam: “eis aqui o mahdi dos cristãos!”. O sheykh deixou este mundo entre agosto e setembro de 1151, como havia dito que faria em um de seus poemas místicos, para se juntar as ostes dos awliya (santos) martirizados por líderes integristas, como Ibn al-Arif e Ibn Barrajan antes dele.

Com ele morreu o sonho do estabelecimento de um reino justo, pautado pela cavalaria e espiritualidade islâmica no al-Andalus, que acabou se rendendo a uma secessão de líderes tirânicos, cristãos e muçulmanos, a sua maneira até seu trágico fim.

Bibliografia:

-Carlos Fernández, José, ”Ibn Qasi, o Rei iniciado do Algarve e seus Dicípulos Muridinos”: https://is.gd/STYxgy

-Raymond Goodrich, David, A “sufi” Revolt in Portugal: Ibn Qasi and His “Kitab Khal Al-N’alayn”

-William Elliot, The Career of In Qasi as Religious Teacher and Political Revolutionary in 12th Century Islamic Spain, University of Edinburgh, 1979.

Equipe História Islâmica

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