O atlas javanês e os navegadores que conheciam o mundo antes dos portugueses

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Em 1511, quando Afonso de Albuquerque conquistou Malaca, os portugueses não encontraram apenas um dos grandes entrepostos comerciais da Ásia: encontraram também um mundo marítimo cuja escala e sofisticação eram muito maiores do que a experiência europeia até então lhes permitira compreender. Malaca era o ponto de encontro de comerciantes árabes, indianos, chineses e nusantaranos, e os portugueses tiveram acesso a conhecimentos náuticos acumulados durante gerações. Entre esses objetos estava um enorme e misterioso mapa de origem javanesa. O mapa impressionou profundamente Albuquerque, que decidiu mandar fazer uma cópia de sua parte oriental para enviá-la ao rei D. Manuel. O original, infelizmente, perdeu-se posteriormente, deixando-nos apenas a descrição portuguesa e a cópia parcial de Francisco Rodrigues. 

Conquista de Malaca, por Ernesto Condeixa

A descrição de Albuquerque é interessante pois o documento não apresenta o mapa como uma mera representação regional do arquipélago indonésio. Segundo sua carta, tratava-se de uma grande carta que continha “o Cabo da Boa Esperança, Portugal e o país do Brasil, o Mar Vermelho e o Mar da Pérsia”, além das ilhas das especiarias e das rotas marítimas percorridas pelos chineses e por outros navegadores asiáticos. Albuquerque acrescentava que estavam representados os rumos seguidos pelos navios, os territórios interiores e a maneira como os diferentes reinos faziam fronteira entre si. Para um almirante português que acabava de penetrar no Oceano Índico, aquilo deveria parecer quase uma revelação sobrenatural: havia ali uma representação do mundo marítimo que não nascera nas escolas cartográficas de Lisboa, mas em uma sociedade asiática até então tida como retrógrada e isolada, mas que se mostrava naquele momento profundamente integrada às rotas do Índico e do Pacífico. 

A admiração de Albuquerque pelo objeto transparece na própria linguagem utilizada. Ele escreveu que o mapa lhe “pareceu a coisa mais linda que eu já vi”, e explicou a D. Manuel que os nomes estavam escritos em caracteres javaneses, razão pela qual precisou recorrer a um javanês que sabia ler e escrever a língua. Ele se punha, então, diante de uma tradição cartográfica que possuía sua própria linguagem, seus próprios sistemas de orientação e uma memória geográfica independente da Europa. Francisco Rodrigues recebeu a tarefa de copiar parte da carta, permitindo que a Coroa Portuguesa absorvesse rapidamente aquele conhecimento e o transformasse em instrumento de sua própria expansão asiática. 

Retrato de Afonso de Albuquerque, Vice-Rei da Índia Portuguesa”. Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.

Mais impressionante ainda era a finalidade prática do mapa. Albuquerque não descrevia uma coleção de territórios imaginários, mas uma espécie de manual estratégico das grandes rotas comerciais asiáticas. A carta mostrava de onde vinham os chineses, quais cursos seus navios seguiam, como alcançar as ilhas das especiarias, onde estavam as regiões produtoras de ouro e onde se encontravam Java, Banda e as terras do rei do Sião. Também registrava o limite da navegação chinesa e as rotas que levavam até esse limite. O próprio Albuquerque garantia a D. Manuel que o mapa era “muito verdadeiro e muito certo”, porque correspondia às rotas efetivamente utilizadas pelos javaneses em suas viagens. Em outras palavras, o que os portugueses estavam adquirindo não era apenas geografia, mas conhecimento náutico operacional. 

É nesse ponto que surge o elemento mais fascinante: o Brasil. Se aceitarmos literalmente o testemunho de Albuquerque, um mapa produzido por navegadores javaneses (ou pelo menos conservado e utilizado em Java) apresentava uma região identificada como “Brasil”. Isso alimentou durante séculos especulações sobre possíveis viagens asiáticas à América antes dos portugueses. Entretanto, é necessário separar o fato documentado da hipótese. O fato documentado é que Albuquerque afirma ter visto essa representação em uma carta javanesa; infelizmente, não possuímos o mapa original, nem uma prova independente de quando aquela informação entrou na tradição cartográfica javanesa.

Parte do litoral do Brasil, copiada do “Atlas Javanês”. 

Existe ainda uma questão cronológica: o mapa foi obtido em 1511, apenas alguns anos depois das viagens portuguesas de exploração do Atlântico Sul e da chegada de Pedro Álvares Cabral à costa brasileira em 1500. Portanto, a presença do “Brasil” no mapa não demonstra por si só uma descoberta javanesa anterior a Cabral. Conhecimentos portugueses poderiam ter chegado à Ásia através das próprias redes comerciais e militares portuguesas, ou informações sobre a geografia atlântica poderiam ter sido incorporadas a uma carta asiática mais antiga. A historiografia sobre o documento permanece dividida quanto à interpretação dessa informação. O ponto verdadeiramente extraordinário, portanto, é menos a afirmação de uma suposta “descoberta javanesa do Brasil” e mais a existência de uma carta asiática que, aos olhos de Albuquerque, já integrava o Brasil à geografia de um mundo marítimo conectado a Java.

A transposição da costa oeste do Brasil, do atlas de Java para um mapa moderno.

A capacidade marítima que torna esse mapa plausível como produto de uma cultura navegadora não era pequena. Os grandes jong ou djong – enormes embarcações associadas sobretudo às tradições marítimas de Java e do Sudeste Asiático, eram construídos para viagens oceânicas e comércio de longa distância. Fontes europeias descrevem embarcações asiáticas de dimensões impressionantes, com múltiplos mastros, compartimentos internos e capacidade para transportar grande quantidade de carga e passageiros. Nicolò de’ Conti, que percorreu a Ásia entre 1419 e 1444, descreveu navios muito maiores que os europeus de sua época. Esse universo náutico ajuda a compreender por que Java podia funcionar não como uma periferia marítima, mas como um dos grandes centros de circulação entre o Índico, o Sudeste Asiático e o Extremo Oriente.

Ilustração europeia antiga de jungs e outras embarcações menores em Banten.

E aqui entra o segundo testemunho extraordinário: o do cartógrafo veneziano Fra Mauro. Em seu famoso mapa-múndi de meados do século XV, Fra Mauro registrou uma tradição segundo a qual, por volta de 1420, um grande navio asiático (chamado no texto de zoncho de India, isto é, um grande junco ou jong asiático) teria sido levado para além do extremo sul da África. Segundo a inscrição do mapa, a embarcação navegou durante quarenta dias para oeste e sudoeste, sem encontrar senão “ar e água”, percorrendo, segundo seus cálculos, cerca de 2.000 milhas, antes de retornar ao sul da África em uma viagem que teria levado setenta dias. A narrativa é notavelmente semelhante, em sentido inverso, ao problema náutico que Vasco da Gama enfrentaria décadas depois: contornar a África pelo sul e penetrar no Atlântico a partir do Índico.

Busto de Fra Mauro Camaldolese, obra de Giuseppe Soranzo de 1881.

Fra Mauro, porém, não apresentava essa história simplesmente como uma invenção sua. Ele afirmou ter recebido a informação de uma fonte considerada confiável, alguém que teria estado relacionado à expedição. A identificação dessa testemunha com Nicolò de’ Conti é uma hipótese tradicional, não uma certeza absoluta. Além disso, a narrativa contém elementos claramente lendários: depois de retornar à costa, os marinheiros teriam encontrado o ovo gigantesco de uma ave capaz de carregar um elefante. Apesar disso o que ele demonstra, no mínimo, é que em meados do século XV circulava entre geógrafos e viajantes europeus uma tradição sobre navegadores asiáticos que haviam explorado águas além do extremo sul da África.

Tomados em conjunto, o mapa javanês de Albuquerque e o testemunho de Fra Mauro oferecem uma perspectiva fascinante sobre a história da exploração marítima: antes de Vasco da Gama transformar a rota do Cabo em um dos grandes feitos da expansão portuguesa, existia um universo asiático de navegação oceânica capaz de atravessar enormes distâncias e acumular informações geográficas em escala intercontinental. O que elas demonstram, de maneira muito segura para além de relatos mitológicos, é que a história dos oceanos não começou com as caravelas portuguesas: quando Albuquerque abriu uma carta javanesa em Malaca, encontrou nela um mundo que os navegadores asiáticos já haviam percorrido, descrito e organizado segundo suas próprias rotas, e quando Fra Mauro registrou a aventura do zoncho de 1420, preservou a memória de uma possível expedição asiática que ousara enfrentar o mesmo grande obstáculo geográfico que os portugueses posteriormente transformariam em caminho para o Índico. 

Referências

OLSHIN, Benjamin B. A sixteenth century Portuguese report concerning an early Javanese world map. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, p. 97–104, fev. 1996. DOI: 10.1590/S0104-59701996000400005. Disponível em: SciELO. Acesso em: 11 ago. 2026. 

ALBUQUERQUE, Afonso de. Carta a D. Manuel, 1 de abril de 1512. In: PATO, Raymundo António de Bulhão. Cartas de Affonso de Albuquerque, seguidas de documentos que as elucidam. Lisboa: Typographia da Academia Real das Sciencias, 1884. t. 1, p. 29–65.

FRA MAURO. Mappa mundi. Veneza, c. 1450–1459.

FRA MAURO. Inscrição sobre o navio asiático que teria contornado o Cabo Diab por volta de 1420. In: Mappa mundi. Veneza, c. 1450–1459. Disponível em: Transcrições das inscrições do mapa de Fra Mauro. Acesso em: 11 ago. 2026. 

SEZGİN, Fuat. Amerika’nın Keşfinde Müslümanlar. SDÜ Fen-Edebiyat Fakültesi Sosyal Bilimler Dergisi, Mayıs 2017, Sayı: 40, ss. 33-50.

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