A esquecida batalha entre Vikings e Muçulmanos em Portugal – A Batalha do Arade

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A Batalha do Arade, travada em 966, foi um dos episódios mais dramáticos das diversas incursões nórdicas no al-Andalus (Península Ibérica) e representa o desfecho da terceira grande campanha lançada contra aquelas terras pelos chamados Majūs (ou Majūsi), denominação usada em fontes árabes medievais para os povos nórdicos, associados aos vikings. O confronto ocorreu no rio Arade, no Algarve (hoje Portugal), quando uma frota nórdica que havia penetrado profundamente no território andalusino tentou alcançar Silves, importante centro urbano e portuário do sul da Península Ibérica. A batalha terminou com uma vitória decisiva da frota do Califado de Córdova e é tradicionalmente considerada o último grande ataque viking ao al-Andalus. 

O contexto dessa batalha remonta a mais de um século antes. Os nórdicos já haviam demonstrado que eram capazes de penetrar profundamente nas costas da Península Ibérica através dos rios, explorando justamente uma vulnerabilidade que os poderes locais tinham dificuldade em combater. 

Arte do livro “A Batalha do Arade“, ilustração de Luís Peres. Disponível no site ICreateWorlds.

A primeira grande campanha viking contra al-Andalus ocorreu em 844, quando os vikings atacaram áreas como Lisboa, Cádis, Sevilha, Faro e Beja. Uma segunda grande incursão ocorreu em 859, atingindo novamente a fachada atlântica do al-Andalus. Esses ataques fizeram com que os governantes muçulmanos passassem progressivamente a considerar a defesa marítima uma questão estratégica, desenvolvendo frotas e sistemas de vigilância costeira.

Em meados do século X, entretanto, a situação política do al-Andalus era muito diferente daquela existente durante as primeiras incursões. O território encontrava-se sob o Califado Omíada de Córdova, e o califa al-Hakam II governava um dos Estados mais poderosos do Mediterrâneo ocidental. A administração do Califa possuía recursos suficientes para manter uma marinha organizada e distribuída por diferentes portos. Sevilha constituía um dos principais centros navais, enquanto cidades como Silves (perto do Arade, no Algarve) desempenhavam importante papel econômico e marítimo no extremo ocidental do mundo islâmico.

Arte do livro “A Batalha do Arade“, ilustração de Luís Peres. Disponível no site ICreateWorlds.

A terceira campanha nórdica começou pelo norte da Península: os invasores atacaram a costa da Galiza e depois dirigiram-se para Lisboa, onde desembarcaram e combateram nos arredores da cidade, fazendo razias e numerosos prisioneiros. Segundo a tradição historiográfica baseada nas fontes árabes, o governador de Alcácer do Sal comunicou a Córdoba a presença de uma grande força inimiga: 28 navios e aproximadamente 2.240 homens. Outras versões e sínteses apresentam o contingente como cerca de 2.500 homens. A diferença provavelmente deriva das diferentes formas de transmissão dos números nas fontes, mas a dimensão da expedição é inequívoca: tratava-se de uma força naval considerável e preocupante de nórdicos ávidos por riquezas e terras.

Depois dos ataques na região de Lisboa, os nórdicos voltaram seus navios para o Sul, mais especificamente para Silves. A escolha não era casual, já que a cidade estava ligada ao rio Arade, que funcionava como uma estrada aquática penetrando no interior da região. No século X, a cidade era um importante centro urbano do Gharb al-Andalus e viria a adquirir grande importância cultural, econômica e militar. Assim, a existência de um porto e de acesso fluvial tornava Silves particularmente atraente para uma expedição cujo método de guerra dependia da mobilidade dos navios e da possibilidade de atacar centros urbanos a partir da água.

Foi nesse momento que a resposta do Califado se tornou decisiva. A notícia da movimentação dos majūs chegou às autoridades andalusinas, e o Califa mobilizou a esquadra de Sevilha. O comando é tradicionalmente atribuído ao almirante ‘Abd al-Rahmān ibn Rumahis (Abd ar-Rahman ibn Romahis), identificado nas fontes como qā’id al-baḥr, literalmente o comandante ou almirante da frota. Em vez de esperar que os invasores alcançassem Silves e desembarcassem, os andalusos procuraram interceptá-los no próprio ambiente em que sua superioridade naval poderia ser explorada.

Quando os navios nórdicos penetraram no Arade, a geografia começou a trabalhar contra eles. O que no litoral aberto oferecia aos dracares grande mobilidade transformava-se num espaço muito mais restrito quando a frota avançava pelo estuário e pelo rio. A esquadra andalusa conseguiu enfrentar os invasores em condições nas quais estes tinham menos possibilidades de dispersão. A tradição das fontes descreve então uma cena particularmente impressionante: os defensores utilizaram nafta incendiária, lançada contra os navios inimigos por meio de máquinas de guerra. O fogo, uma das armas mais temidas da guerra naval medieval, transformou o rio num campo de batalha dominado pelas chamas.

Arte do livro

Arte do livro “A Batalha do Arade“, ilustração de Luís Peres. Disponível no site ICreateWorlds.

O efeito foi devastador. A frota andalusa conseguiu afundar grande parte dos navios nórdicos, enquanto os sobreviventes foram obrigados a abandonar a tentativa de alcançar Silves e fugir. A descrição transmitida pelas fontes apresenta a batalha como uma derrota esmagadora: os invasores haviam atravessado o Atlântico e penetrado no al-Andalus com a expectativa de pilhagem, mas encontraram uma força naval organizada que não lhes permitiu repetir os sucessos das campanhas anteriores. A vitória também demonstrava que o Califado havia aprendido a responder às incursões marítimas utilizando precisamente o elemento que os nórdicos haviam transformado em sua principal vantagem – a guerra naval.

Em 1970, durante trabalhos de dragagem no porto comercial de Portimão, foram encontrados dois antigos cascos de embarcações na foz do Arade, acompanhados, segundo o relato da RTP, de possíveis moedas de ouro. Um dos navios chegou a ser considerado presumivelmente viking por suas características construtivas. O achado despertou enorme entusiasmo porque poderia estar relacionado aos famosos combates navais de 966. 

Contudo, as embarcações não foram devidamente estudadas e acabaram desaparecendo no lodo, de modo que não se pode afirmar arqueologicamente que esses restos sejam navios da Batalha do Arade. A própria história desses naufrágios tornou-se, assim, uma espécie de posfácio da batalha que encerrou a terceira grande campanha nórdica contra o al-Andalus e marcou o fim definitivo das incursões vikings contra o território andaluso. 

Referências

  • DOMINGUES, José Garcia. História luso-árabe. Silves: Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, 2010.
  • GOMES, Rosa Varela. Silves (Xelb), uma cidade do Gharb al-Andalus: território e cultura. [S. l.: s. n.], 2013.
  • NUNES, Natália Maria Lopes. Shilb (Silves) no período islâmico – a “Bagdad do Ocidente”. Cadernos de História, Belo Horizonte, v. 18, n. 28, p. 331, 2016. DOI: 10.5752/P.2237-8871.2017v18n28p331. Disponível em: https://doi.org/10.5752/P.2237-8871.2017v18n28p331
  • HISTÓRIAS DE PORTUGAL EM MARROCOS. Os Vikings no Al-Andalus. Histórias de Portugal em Marrocos, 24 fev. 2014. Disponível em: https://historiasdeportugalemarrocos.com/2014/02/24/piratas-majus/
  • REI, António. Cronologia Gharb al-Andalus (711–1250). Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. Disponível em: Cronologia Gharb al-Andalus (711–1250)
  • RTP. Os misteriosos barcos do Arade. Lisboa: Rádio e Televisão de Portugal. Disponível em: RTP — Os misteriosos barcos do Arade

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