O frade Anselm Turmeda, posteriormente conhecido como ʿAbd Allāh al-Tarjumān al-Mayūrqī, foi possivelmente um dos personagens mais singulares e interessantes do Mediterrâneo medieval. Nascido em Palma de Maiorca, nas Ilhas Baleares (hoje Espanha) por volta de 1352 a 1355 (a datação é incerta), morreu em Túnis provavelmente depois de 1423. Franciscano, teólogo, poeta e polemista, Turmeda pertence a uma categoria seleta: escreveu tanto em uma língua europeia , o catalão, quanto em árabe, alcançando reconhecimento nas duas tradições literárias. Sua vida atravessou o mundo cristão latino e o mundo muçulmano magrebino, fazendo dele um exemplo das intensas trocas culturais do Mediterrâneo no final da Idade Média.
Palma é capital de Maiorca, uma das Ilhas Baleares, hoje pertencentes à Espanha.
Sua formação inicial ocorreu dentro da Ordem Franciscana. Turmeda estudou teologia, e as fontes catalãs mencionam também estudos de física e astrologia em Lleida, Bolonha e provavelmente Paris. Essa formação é importante para compreender sua produção posterior: ele não era simplesmente um mero religioso ignorante que viria a abandonar o Cristianismo, mas um acadêmico bem familiarizado e versado na teologia cristã, com a literatura religiosa e com os debates intelectuais de seu tempo. Essa bagagem seria posteriormente utilizada tanto em sua literatura catalã quanto em sua polêmica islâmica contra o cristianismo.
Por volta dos 35 anos, Turmeda viajou para a Sicília e, depois, para Túnis, então capital do Sultanato Hafsida. O relato de sua conversão é conhecido principalmente através de sua própria obra árabe, a Tuḥfat al-Adīb fī al-radd ʿalā ahl al-ṣalīb, geralmente conhecida como Tuḥfa. Segundo sua narrativa autobiográfica, ele chegou a Túnis durante o reinado do sultão Abū al-ʿAbbās Aḥmad II, procurou um muçulmano que conhecesse a língua dos cristãos e foi apresentado ao médico da corte, Yūsuf. Turmeda teria declarado que pretendia abraçar o Islã e foi então apresentado ao sultão, que autorizou sua conversão e lhe ofereceu uma posição remunerada, com Turmeda afirmando ter encontrado no próprio Evangelho de João elementos que o conduziram à verdade do Islã. A conversão é geralmente situada entre 1385 e 1387, havendo alguma divergência nas fontes.
Território governado pela Dinastia Hafsida no século XV.
Depois de sua conversão, adotou o nome ʿAbd Allāh ibn ʿAbd Allāh al-Tarjumān al-Mayūrqī, que pode ser livremente traduzido como “Abd Allāh, filho de Abd Allāh, o Tradutor, de Maiorca”. Bem-sucedido na sua integração na corte e ao ambiente tunisianos, a Tuḥfa o apresenta como funcionário da alfândega e intérprete a serviço do sultão, além de relatar sua proximidade com a corte e com a administração Hafṣida. Algumas fontes modernas o descrevem como vizir, mas elas não são inteiramente uniformes quanto ao título exato. Fato é que Turmeda não permaneceu um convertido marginal: tornou-se uma figura integrada à elite política e administrativa de Túnis.
Essa posição política também explica parte de sua importância intelectual. Turmeda viveu justamente numa região em que cristãos, muçulmanos, judeus, comerciantes europeus, escravizados, diplomatas e convertidos circulavam constantemente. Sua própria existência demonstra que as fronteiras religiosas do Mediterrâneo medieval, embora reais e frequentemente conflituosas, não eram impermeáveis. Ele era simultaneamente mallorquino e tunisiano, catalão e arabófono, formado como franciscano e posteriormente muçulmano. A historiografia catalã o considera, por isso, um caso excepcional de aculturação mediterrânica antes da crescente polarização entre Espanha cristã e mundo islâmico que marcaria os séculos XVI e XVII, com o estreitamente e aprofundamento do processo que viria a ser chamado de Reconquista.
Sua produção em língua catalã continuou sendo escrita depois de sua conversão. Entre suas obras encontra-se o Llibre dels Bons Amonestaments (“Livro das Boas Admoestações”, 1398), uma coleção de versos morais que se tornou extremamente popular nos territórios de língua catalã e permaneceu em circulação durante séculos. Também escreveu as Cobles de la divisió del Regne de Mallorques (1398), além de profecias de caráter político e religioso compostas entre aproximadamente 1404 e 1407.
O Llibre de Tres, uma coleção de provérbios e sentenças, também lhe é tradicionalmente atribuído, embora a atribuição seja menos segura. Essas obras mostram que o “Turmeda muçulmano” não apagou o escritor catalão que havia sido formado dentro da cultura cristã, num caso mais do que claro de que “virar muçulmano” não significa, nem acarreta, em necessariamente “virar árabe” (ainda que ele tenha aprendido e escrito em árabe).
Sua obra catalã mais famosa é a Disputa de l’Ase (“Disputa do Asno”), composta em Túnis entre 1417 e 1418. Trata-se de uma sátira em que um frade, ninguém menos que o próprio Turmeda, debate com um asno sobre a suposta superioridade dos seres humanos sobre os animais. A obra é particularmente interessante porque, apesar de terminar com um argumento cristológico — o homem seria superior porque Cristo assumiu forma humana, grande parte do texto é uma crítica mordaz à humanidade, à sociedade e sobretudo às instituições eclesiásticas. Essa anticlerical (bem como, com certeza, o fato de seu autor ser um reconhecido apóstata do Cristianismo) contribuiu para que a obra fosse posteriormente proibida pela Inquisição, de modo que o original em catalão desapareceu, restando-nos apenas uma antiga tradução francesa.
Edição de 1922 do célebre livro em catalão.
Sua principal obra islâmica foi a já citada Tuḥfat al-Adīb fī al-radd ʿalā ahl al-ṣalīb (1420), normalmente traduzida como “O Presente do Homem Ilustrado em Refutação aos Partidários da Cruz”. Escrita em árabe, ela possui três dimensões: uma narrativa autobiográfica de sua juventude, formação e conversão, como já vimos; uma exposição relacionada aos soberanos hafṣidas e à sua experiência na corte; e uma extensa polêmica contra o cristianismo, defendendo a verdade do Islã e a missão profética de Muhammad. A obra teve uma vida intelectual muito mais longa que seu autor: foi traduzida para o turco-otomano e tornou-se posteriormente um dos textos de polêmica anticristã mais conhecidos entre leitores muçulmanos do Império Otomano, ultrapassando largamente o contexto original de Túnis.
Edição de 2022 de sua refutação. Publicado pela Al-Nashir Al-Mutamayyiz em colaboração com Dar Al-Naseehah (Arábia Saudita).
Assim, Turmeda (ou Tarjuman) nos mostra que a conversão religiosa podia (e pode) produzir novas formas de identidade cultural, nas quais o convertido continuava carregando a memória intelectual de sua tradição anterior. Sua obra tornou-se, assim, uma ponte entre o Mediterrâneo cristão e o muçulmano. Turmeda morreu em Túnis e foi sepultado ali; sua tumba permanece associada à memória local.
Tumba de Anselm em Túnis.
Referências
- TURMEDA, Anselm / ʿAbd Allāh al-Tarjumān. Tuḥfat al-Adīb fī al-radd ʿalā ahl al-ṣalīb (1420).
- KRSTIĆ, Tijana. “Leyendo la Tuḥfa de Abdallāh b. Abdallāh al-Tarŷumān (1420) en el Imperio Otomano: Polémica Cristiano-Musulmana e Intertextualidad en la época de la ‘Confesionalización’.” Al-Qanṭara, 2015. (Al-Qantara)
- Associació d’Escriptors en Llengua Catalana. “Anselm Turmeda.” Biografia e bibliografia. (Escriptors)
- Gran Enciclopèdia Catalana. “Anselm Turmeda / ʿAbd Allāh al-Tarǧumān.” (Enciclopédia)
- ALEMANY FERRER, Rafael. Estudos sobre La Disputa de l’ase e a obra de Turmeda. (Ahlm)
- EScriptors.cat. Página oficial da Associação de Escritores em Língua Catalã dedicada a Turmeda. (Escriptors)








