Três rabinos espanhóis que moldaram o Mundo Islâmico

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Um dos artifícios retóricos mais usados pelos sionistas para justificar suas práticas criminosas no Oriente Médio, desde o século XX, consiste em prolongar as hostilidades recentes entre árabes e judeus para milhares de anos no passado, como se se tratasse de povos irremediavelmente rivais cuja existência histórica é pautada, única e exclusivamente, pelo desejo mútuo de destruição. Esse estado eterno de belicosidade é mais uma peça teológica de propaganda do que efetivamente uma relação histórica bem fundamentada. Aliás, quanto à historiografia, deparamo-nos com uma imagem diametralmente oposta!

Comecemos no Califado de Córdoba. Nascido no ano de 915, filho do abastado rabino de Xaém, Isaac ben Ezra, Hasdai ibn Shaprut (Abu Yusuf) foi iniciado no mundo das letras desde muito cedo e teve acesso ao ensino do hebraico e do árabe, além do latim, língua reservada apenas aos círculos mais altos do clero andaluz. Seus dotes intelectuais foram rapidamente reconhecidos pelo califa Abd al-Rahman III (929-961), que o tornou na prática seu vizir (conselheiro) mais proeminente e passou para suas mãos a administração da alfândega e da cobrança das taxas de embarque do porto de Córdoba.

Seu currículo enquanto diplomata é extenso. Como resultado de suas exitosas tratativas junto à Bizâncio, o então imperador Constantino VII enviou uma embaixada para Córdoba em 949, por meio da qual o mundo árabe adquiriu os códices do fármaco grego Pedanius Dioscorides sobre botânica, traduzido para o árabe graças a ele. Em 958, intermediou as solicitações de ajuda de Toda de Navarra a Abdul Rahman III para que reintegrasse seu neto Sancho I no trono de Leão, convencendo ambos a ir ao Califa em pessoa para suplicar pelo seu exército. Além disso, enviou valiosos presentes às academias talmúdicas na Babilônia e intercedeu, junto à Helena de Bizâncio, em prol da liberdade religiosa de seus súditos judeus. Fundou um centro de estudo teológico em Al-Andalus que passou a rivalizar com os circuitos mesopotâmicos dominados pelo califado abássida. Enfim, Hasdai marca um dos picos do florescimento da cultura judaica andaluza e da ascensão da poesia e do estudo da gramática hebraica.

Hasdai ibn Shaprut apresentando o embaixador de Oto I, João de Gorze, a Abd al-Rahman III na Medina Azahara, por Dionisio Baixeras Verdaguer, 1885.

Séculos mais tarde na cidade de Córdoba, mas num período de certo declínio dessa mesma estrutura de poder judaica no al-Andalus, mais especificamente no ano de 1138, nasce aquele que é considerado o maior erudito e filósofo judaico do medievo, Maimônides, amplamente reconhecido pelos seus comentários à lei e à ética judaica e pela obra “O Guia para os Perplexos”, que inaugura uma interpretação aristotélica à tradição teológica judaica. Desde cedo, adquiriu o hábito de estudar ciências e filosofia, estando a par das traduções árabes dos filósofos gregos e profundamente imerso no aprendizado da cultura islâmica. Entretanto, em 1148, sob o governo da dinastia berbere do movimento milenarista Almóada, no Al-Andalus é retirado o estatuto de dhimmi (proteção assegurada pela polis islâmica) que salvaguardava a autonomia de seus súditos cristãos e judeus, obrigando sua família a partir para o exílio, junto com muitos muçulmanos sunitas também perseguidos pela seita de Ibn Tumart. Depois de passar pelo Marrocos, faz morada no Cairo desde o ano de 1171 e exerce a medicina como ofício, primeiramente na corte de Al-Qadi al-Fadil, vizir do sultão Saladino, o conquistador de Jerusalém no auge das Cruzadas, depois na guilda pessoal deste. Após a morte de Saladino em 1193, ele permaneceu servindo aos aiúbidas até a sua própria morte em 1204. 

De todas as ocupações mundanas, os judeus consideravam a medicina a mais honrosa e os rabinos da Idade Média frequentemente se sustentavam dessa forma. Porém, como médico real, suas responsabilidades clínicas tomavam grande parte de seu tempo, como diz o próprio Maimônides em uma carta enviada a um discípulo: “Meus deveres para com o Sultão são muito árduos. Sou obrigado a visitá-lo todos os dias, logo pela manhã, e quando ele ou qualquer membro de sua casa não está bem, não ouso deixar o Cairo, mas devo permanecer durante a maior parte do dia no palácio. Também acontece frequentemente que um dos oficiais reais adoece e devo atender às suas ordens. Portanto, como regra, vou para o Cairo muito cedo e, mesmo que nada de incomum aconteça, não retorno a Mizr até a tarde. Encontro as antecâmaras cheias de pessoas, tanto judeus quanto gentios, nobres e plebeus, juízes e oficiais de justiça, amigos e inimigos – uma multidão mista, que aguarda o momento do meu retorno (…)”.

Monumento a Maimônides em Córdoba, Espanha.

Tempos depois, outro judeu de origem sefardita como os seus anteriores, nascido em Granada no ano de 1490, emerge como uma figura proeminente junto à equipe de médicos de outra corte imperial: o Império Otomano de Suleiman, o Magnifico. A relação entre Moses Hamon e o sultão transcendeu a mera relação médico-paciente, caracterizando-se por uma profunda estima e confiança, a ponto de Hamon acompanhar o sultão em suas diversas expedições militares, demonstrando não apenas proficiência na medicina, mas também notável habilidade linguística graças ao seu domínio do árabe, do turco e do persa. Além de suas funções médicas, Hamon demonstrou um profundo apreço pelo aprendizado judaico, atuando como mecenas e financiando a impressão de obras hebraicas em Constantinopla já em 1515 e 1516. Sua filantropia se estendeu à construção de uma escola na cidade, sob a direção do erudito Joseph Taitazak, de Salônica.

Quando, por volta de 1545, os judeus de Amasya foram falsamente acusados de terem assassinado um cristão para fins rituais, e a inocência daqueles que haviam sido executados foi estabelecida logo depois pelo reaparecimento do homem desaparecido, Hamon induziu o sultão a decretar que, dali em diante, nenhuma acusação desse tipo deveria ser aceita por nenhum juiz provincial, mas deveria ser encaminhada à corte real. Hamon também foi chamado para decidir dificuldades comunitárias. Após uma briga que surgiu na comunidade judaica de Salônica, Hamon convocou os instigadores a Constantinopla e induziu o sultão a enviar um juiz a Salônica para investigar o caso e punir os culpados. Por conta de seus serviços à corte, pede a Suleiman I que isente seus filhos da cobrança de todos os impostos, que atende ao pedido. Morre em paz no ano de 1554, sendo um dos mais importantes políticos judeus sefarditas numa longa carreira de poder que começa na Espanha e termina na Turquia. 

Gravura do Doutor Moses Amon pelo diplomata francês do século XVI Nicolas de Nicolay.

Referências

FRANK, Julia Bess. MOSES MAIMONIDES: Rabbi of Medicine. The Yale Journal of Biology and Medicine. nº 54, 1981, pp. 79-88

GOTTHEIL, Richard; KAYSERLING, Meyer. HASDAI, ABU YUSUF. Disponível em: https://www.jewishencyclopedia.com/articles/7304-hasdai-abu-yusuf-ben-isaac-ben-ezra-ibn-shaprut. Acesso em: 10/01/2025

_____________________________________. HAMON. Disponível em: https://www.jewishencyclopedia.com/articles/7304-hasdai-abu-yusuf-ben-isaac-ben-ezra-ibn-shaprut. Acesso em: 10/01/2025

GAMPEL, Benjamin R. “Jews, Christians, and Muslims in Medieval Iberia: Convivencia through the Eyes of Sephardic Jews”. IN: CONVIVENCIA: Jews, Muslims, and Christians in Medieval Spain. Mann, Vivan B. et al. eds. New York; George Braziller, Inc., 1992.

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