As organizações sionistas na Palestina inauguraram o terrorismo no Oriente Médio. Sob pretexto inicial de proteger os assentamentos judaicos, os colonos sionistas criaram na primeira metade do século XX grupos paramilitares que atacavam a população palestina bem como as autoridades coloniais britânicas. Dentre esses grupos estavam a Haganah (fundada em 1920), o Irgun (fundado em 1931) e o Lehi (fundado em 1940, também conhecido como “Gangue Stern”, por causa de um de seus fundadores, Avraham Stern).
Combatentes do Lehi na década de 1940.
Enquanto a Haganah era o braço armado oficial do “Yishuv” (comunidade formada pelos colonos judeus sionistas na Palestina) dirigido pelos sionistas trabalhistas de esquerda, o Irgun e o Lehi eram grupos clandestinos com orientação política mais à direita. Apesar disso, os três grupos possuíam uma visão mais secularista, já que o sionismo no começo do século XX ainda era rejeitado pela maioria dos judeus religiosos praticantes. Essas milícias atuavam por meio de assassinatos políticos, sequestros, atentados a bomba, sabotagem de infraestrutura e ataques armados contra povoados e vilarejos.
Se hoje as potências ocidentais classificam grupos armados palestinos como “terroristas” enquanto apoiam o Estado de Israel e suas forças militares, a situação anterior era diversa: as autoridades britânicas (que governavam a Palestina através de uma ocupação militar desde 1920) classificavam os grupos armados sionistas como “terroristas”, reprimindo-os com a força e serviços de inteligência.
A cobertura da imprensa britânica à época reforça como esses grupos eram percebidos dentro do próprio Reino Unido. O jornal Western Daily Press, em sua edição de 25 de agosto de 1947, noticiava que organizações sionistas conclamavam os judeus ao redor do mundo a declararem uma “guerra total” contra a Grã-Bretanha. Essa retórica não surgia no vácuo: estava diretamente ligada à decisão britânica de impedir a imigração judaica ilegal e, de forma particularmente controversa, de devolver refugiados do navio Exodus à Europa — inclusive à Alemanha, poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. O episódio gerou indignação da comunidade judaica e foi explorado pelos grupos sionistas como justificativa para intensificar a luta armada.
Ainda segundo o mesmo periódico, a mobilização não se limitava à Palestina. Havia apelos para boicote a produtos britânicos, manifestações simbólicas como jejuns coletivos e até sinais religiosos de alarme, como o toque do shofar. Esse enquadramento midiático mostra que, longe de qualquer ambiguidade, a imprensa britânica tratava tais ações como uma escalada deliberada de confronto, caracterizando-as explicitamente como terrorismo e como uma ameaça organizada contra o Estado britânico. No campo político interno, figuras como Morgan Phillips, então secretário do Partido Trabalhista, também se posicionavam dentro desse clima de forte pressão, tendo que equilibrar o apoio tradicional do partido ao sionismo com a crescente percepção de que grupos armados estavam desafiando diretamente a autoridade britânica por meios violentos.
Manchete do The Western Daily Press and Bristol Mirror de 25 de agosto de 1947 denuncia terrorismo sionista.
Em 2016, o governo britânico retirou o sigilo de documentos de seus serviços de inteligência referentes ao Mandato militar na Palestina (que durou até maio de 1947). Esses documentos revelaram mais detalhes sobre a atuação das milícias sionistas e o esforço da inteligência britânica para monitorar e conter esses grupos. Através dessas fontes é possível observar como o modus operandi da inteligência britânica na década de 1940 se aproximava muito dos métodos de contraterrorismo dos serviços de inteligência atuais.
Um dos exemplos de monitoramento de ações terroristas foi a investigação de um plano de assassinato orquestrado pelo Lehi contra o general Evelyn Barker em 1946, o que obrigou os agentes britânicos a modificarem continuamente as rotas do oficial entre seu trabalho e sua residência. Os investigadores também descobriram a existência de células terroristas sionistas em Paris. Através da troca de informações com o FBI, os britânicos buscavam também observar a atuação de outros grupos em Nova York. Para evitar o risco de atentados em solo britânico, foi estabelecido um controle mais rigoroso sobre viajantes judeus que desembarcaram no Reino Unido.
Por meio de relatos de informantes em 1947, a inteligência britânica tomou conhecimento do risco de ações terroristas dos sionistas no Reino Unido, França e Itália. Os informes também apontavam que insurgentes sionistas haviam adquirido em Alexandria, no Egito, um navio de 200 toneladas para transporte de armas. Os arquivos secretos britânicos mostram, portanto, que os terroristas sionistas buscavam atuar não somente na Palestina, mas também na Europa e outras regiões do Oriente Médio, visando ampliar a pressão para o fim do Mandato para a Palestina e abrir o vácuo de poder necessário para o estabelecimento do que viria a ser Israel.
É interessante observar que, enquanto o Irgun e o Lehi atuavam abertamente contra a ocupação britânica, a Haganah fazia um jogo duplo: oficialmente defendia a necessidade de lutar ao lado das forças britânicas no combate aos nazistas durante a 2ª Guerra Mundial (1929-1945) e a cooperação com as Nações Unidas para uma solução pacífica na partilha da Palestina entre árabes e judeus; secretamente, contudo, apoiava ataques contra alvos britânicos e contra a população palestina.
Devido ao alto custo de manutenção do contingente de 100 mil soldados e do clima de terror criado pela ação dos terroristas sionistas, a opinião pública britânica – especialmente expressa através de jornais – passou a defender a retirada das tropas e o fim do Mandato para a Palestina. Diante da incapacidade de conter a insurgência sionista e mediar os conflitos com os palestinos, os britânicos decidiram retirar-se da Palestina em maio de 1948.
Resultado do atentado realizado pelo Irgun no King David Hotel, em Jerusalém.
Após a fundação do Estado de Israel, logo após a retirada britânica, a Haganah foi transformada nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Embora o Irgun e o Lehi tenham sido dissolvidos pelo governo, muitos de seus combatentes foram incorporados ao exército israelense, sem receberem punição por seus crimes. Além disso, muitos de seus membros foram posteriormente integrados ao cenário político israelense, ocupando importantes cargos na administração e governo de Israel. Dentre eles podemos citar o membro do Irgun, Menachem Begin (primeiro-ministro de Israel entre 1977 e 1983) e o membro do Lehi, Yitzhak Shamir (primeiro-ministro de Israel de 1983 a 1984 e de 1986 a 1992). Assim, o sionismo e seus aliados escreveram a história, transformando terroristas em “heróis nacionais”.
Referências:
ADERET, Ofer. “Assassinations, Terror Attacks and Even Castration – the Hidden Actions of Israel’s Prestate Militia”. Haaretz. 13 jun. 2020.
BELL, J. Bowyer. “Terror out of Zion: Irgun Zvai Leumi, Lehi, and the Palestine underground, 1929-1949”. New York: Avon Books, 1977.
HEWITT, Ibrahim. “Turning terrorists into ‘heroes'”. Middle East Monitor. 14 out. 2023.
KATZ, Gregory. “UK opens secret files on 1940s ‘Jewish terrorists’ in Palestine and beyond”. The Times of Israel. 29 set. 2016.
SELLERS, Brandon. “The Irgun Zcai Leumi: From Terrorists to Politicians”. Schemata, 2013.






