Terrorismo: a nova Investidura Papal

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Na Europa medieval, houve momentos em que o poder de depor um monarca era a ferramenta política mais potente do papado, uma autoridade suprema que podia, por decreto, declarar um imperador legítimo ou herege, absolvendo seus súditos de qualquer lealdade. Hoje, o termo “terrorismo” funciona de maneira análoga, como uma bula papal secular emitida pelo Ocidente coletivamente. Não se baseia em critérios objetivos de violência política, mas sim na submissão ou oposição a um projeto de poder hegemônico. A análise histórica revela um padrão consistente no qual grupos e indivíduos são arbitrariamente ungidos como “combatentes da liberdade” ou excomungados como “terroristas”, dependendo de sua utilidade geopolítica momentânea ou a quem se opõem ou prestam vassalagem.

A gênese desse padrão moderno pode ser rastreada até a fundação do Estado de Israel, embora seja discutível a sua aplicação já durante o período colonial. Durante a década de 1940, organizações sionistas como o Irgun e o Lehi (Stern Gang) empreenderam uma campanha de violência sistemática contra autoridades britânicas e civis árabes. Suas ações, que incluíam bombardeios a hotéis, assassinatos e massacres, foram projetadas para expulsar os britânicos e criar um “fato consumado” no terreno. Essas táticas, hoje universalmente definidas como terrorismo, foram o instrumento escolhido para alcançar um objetivo político claro, estabelecendo um precedente para a violência política na região.

O atentado a bomba ao Hotel King David realizado em 1946 em Jerusalém, foi uma das ações mais letais do Irgun.

No entanto, após o sucesso de sua campanha, os líderes desses grupos receberam uma anistia política de fato. Homens que chefiaram o que eram descritos como “gangues terroristas sionistas” não foram apenas perdoados, mas ascenderam aos mais altos cargos do novo Estado. A transição de líderes de milícias para primeiros-ministros, como Menahem Begin e Yitzhak Shamir, exemplifica a concessão de uma indulgência política plena, onde a legitimidade é retroativamente conferida a atos de terror uma vez que seus objetivos se alinham com a nova estrutura de poder apoiada pelo Ocidente (CHARIF, 2023).

Cartaz de procura-se da Força Policial Palestina oferecendo recompensas pela captura de membros do Lehi: Yaakov Levstein (Eliav), à esquerda, Yitzhak Yezernitzky (Shamir), ao centro, e Natan Friedman-Yelin (Yellin-Mor), à direita. Yitzhak Shamir se tornaria primeiro-ministro de Israel em 1983.

Engana-se, porém, quem imagina que esse duplipensar se daria apenas com judeus. Décadas mais tarde, um padrão semelhante emergiu no Afeganistão. Osama Bin Laden, antes de se tornar o arqui-inimigo do Ocidente, foi retratado como um “guerreiro anti-soviético”. Sua luta contra a “invasão comunista” nos anos 1980 foi apoiada e financiada pelos Estados Unidos e seus aliados, que o viam como um valioso peão na Guerra Fria. Em entrevistas da época, ele era apresentado como um empresário e herói que ajudou a derrotar uma superpotência, um “amigo” cujas ações serviam perfeitamente aos interesses ocidentais.

Artigo do jornal The Independent de 1993 entitulado “Guerreiro anti-soviético coloca seu exército no caminho da paz”.

A “bula papal” foi revogada quando os interesses de Bin Laden divergiram dos de seus antigos patronos. Sua oposição à presença de tropas americanas na Arábia Saudita após a Guerra do Golfo marcou o ponto de inflexão. O mesmo homem, com a mesma ideologia e os mesmos métodos, foi reclassificado de aliado para inimigo. A “excomunhão” foi formalizada, e ele foi transformado no epítome do terrorismo global, não porque sua natureza mudou, mas porque seu alvo se tornou o próprio poder que antes o apoiava. É a Controvérsia das Investiduras de nosso tempo.

Cartaz de procura-se do FBI oferecendo recompensas por informações que levassem à captura de Bin Laden.

Essa transformação foi sustentada por uma poderosa construção de mitos. A narrativa de Bin Laden como uma figura que “controlava o ‘terrorismo’ mundial sozinho a partir de um bunker” serviu tanto para justificar uma “Guerra ao Terror” ilimitada quanto para dar ao próprio Bin Laden uma aura de poder desproporcional. A criação desse mito demonstra que além de uma “etiqueta” (ou labeling, como dizem os criminólogos), trata-se também de uma narrativa para mobilizar a opinião pública e legitimar ações militares em larga escala. O atentado do 11 de setembro será o apogeu desse discurso, culminando na invasão de diversos países majoritariamente muçulmanos e ocasionando na morte e deslocamento de milhões de pessoas, como já foi abordado exaustivamente na página (seja em nosso site, perfil em rede social ou nos vídeos do YouTube).

A arbitrariedade dessa política de classificação é ainda mais evidente na relutância histórica do Ocidente em condenar aliados, mesmo quando estes cometem atos de violência análogos ao que tacham como terrorismo. A lógica é de pura conveniência, transformando critérios puramente objetivos em altamente subjetivos, um “mas veja bem” geopolítico. Um exemplo claro foi a postura dos EUA após a tomada do Afeganistão pelo Talibã em 1996, um grupo com uma ideologia não muito diferente da de Bin Laden. Naquele momento, como o grupo não representava uma ameaça direta aos interesses americanos, um porta-voz do Departamento de Estado declarou que os EUA não viam “nada de questionável” em suas políticas, demonstrando que a condenação é seletiva e adiável.

Essa dinâmica de padrões duplos persiste até hoje, onde a aplicação da etiqueta de “terror” permanece fluida. Há uma longa história de administrações americanas que, em certos momentos, condenaram as ações de Israel como terror, para depois apoiá-las incondicionalmente. O verdadeiro critério não é a natureza do ato, mas o cálculo político do momento. A designação de “terrorista” é, portanto, a ferramenta final de arbitrariedade na política externa, concedida ou revogada não por princípio, mas por poder.

O ponto mais recente e absurdo dessa hipocrisia foi alcançado com a reabilitação de um ex-comandante da Al-Qaeda, enquanto um grupo de protesto não-violento era simultaneamente “excomungado” pela autoridade infalível norte-americana. Os Estados Unidos removeram oficialmente o Hayat Tahrir al-Sham (HTS), a antiga filial da Al-Qaeda na Síria, de sua lista de organizações terroristas designadas. Isso ocorreu no momento em que seu líder, Ahmed al-Sharaa (anteriormente Abu Muhammad al-Julani), uma figura chave no grupo que lutou contra as tropas dos EUA no Iraque, passou a ter reuniões amigáveis com autoridades americanas e britânicas e a manter conversações com Israel.

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A tomada de poder pelo HTS, encabeçado pela figura de Ahmad al-Sharaa foi rapidamente saudada e aceita pelo Ocidente.

No mesmo momento em que esta bula de absolvição era concedida, o Reino Unido adicionava o grupo de ativistas não-violentos Palestine Action à sua lista de organizações terroristas, equiparando-os legalmente a grupos extremamente violentos como o Estado Islâmico (Daesh). O “terrorismo” em questão consistia em “terríveis” e perigosíssimos atos de vandalismo, como jogar tinta vermelha em fábricas de armas em protesto contra o apoio britânico a ações em Gaza. A hipocrisia atingiu um clímax grotesco quando o secretário de Relações Exteriores britânico, David Lammy, apertou as mãos de al-Shara na Síria — na mesma semana do 20º aniversário dos atentados de 7 de julho em Londres, perpetrados pela Al-Qaeda, da qual al-Shara era membro — enquanto cidadãos britânicos eram presos por simplesmente expressarem solidariedade ao Palestine Action.

O grupo Palestine Action ficou conhecido graças às suas ações em oposição à exportação de equipamentos militares britânicos para Israel.

Como alguns dos nossos seguidores devem ter reparado no recente debate com o Marcio Pitliuk, a definição de terrorismo se tornou sinônimo de “islâmico”, onde qualquer ato análogo ou idêntico perpetrado por algum sujeito fora da esfera do Islã é automaticamente tachado de “insanidade” ou qualquer outro eufemismo para descrever alguém fora de si. É tudo, menos terrorismo.

Referências

CHARIF, Maher. The Roots of Zionist Terrorism. Policy Paper, Institute for Palestine Studies, 2023. Disponível em: <https://www.palestine-studies.org/en/node/1654849>. Acesso em: 27 ago. 2025.

FISK, Robert. 6 December 1993: Anti-Soviet warrior puts his army on the road to peace. The Independent, 1993. Disponível em: <https://www.independent.co.uk/news/long_reads/robert-fisk-osama-bin-laden-interview-sudan-1993-b1562374.html>. Acesso em: 27 ago. 2025.

LEEBAERT, Derek. Israel’s forgotten terror. Al Jazeera, 2024. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/opinions/2024/10/11/israels-forgotten-terror>. Acesso em: 27 ago. 2025.

OLENDE, Ken. Bin Laden—from friend to foe of US imperialism. Socialist Worker, 2011. Disponível em: <https://socialistworker.co.uk/news/bin-laden-from-friend-to-foe-of-us-imperialism/>. Acesso em: 27 ago. 2025.

SOFUOGLU, Murat. A lookback at the Zionist terrorism that led to Israel’s creation. TRT World, 2023. Disponível em: <https://trt.global/world/article/15767166>. Acesso em: 27 ago. 2025.

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