Muralha de Ferro: a política israelense de dominação total

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A política externa e de defesa de Israel, desde as suas fundações, foi profundamente influenciada pelo conceito da “Muralha de Ferro” ou “Muro de Ferro”, uma doutrina que defende o uso de uma força militar inabalável como pré-condição para qualquer negociação de paz. Esta estratégia, originalmente articulada por Ze’ev Jabotinsky, parte do pressuposto de que um acordo voluntário com os árabes é impossível até que eles percam qualquer esperança de derrotar o estado judeu. A paz, portanto, não seria alcançada através de concessões, mas como resultado da exaustão e do desespero do adversário diante de uma demonstração de poderio militar intransponível, forçando-o a aceitar a existência de Israel como um fato consumado.

É verdade que embora Jabotinsky tenha sofrido ampla oposição dentro das fileiras sionistas, no fim do dia as ideias do “pai espiritual” do Sionismo Revisionista prevaleceram, em que pese cada vez mais radicalizadas conforme o passar dos anos e o surgimento de novas figuras da ala direitista da política israelense. Nas palavras do próprio Jabotinsky, citado por Avi Shlaim:

“É minha esperança e crença de que ofereceremos a eles garantias que os satisfarão e que ambos os povos [judeus e árabes] viverão em paz como bons vizinhos. Mas o único caminho para esse acordo é através da muralha de ferro, ou seja, o estabelecimento na Palestina de uma força que não será de forma alguma influenciada pela pressão árabe. Em outras palavras, a única maneira de alcançar um acordo no futuro é evitar todas as tentativas de chegar a um acordo no presente.”

Essa filosofia foi pragmaticamente adotada por líderes como David Ben-Gurion, que, embora pertencente a uma corrente política diferente de Jabotinsky, chegou às mesmas conclusões. Ben-Gurion percebeu que a oposição árabe ao projeto sionista era inevitável, concluindo que apenas a guerra, e não a diplomacia, poderia resolver o conflito [1]. A paz só seria possível após os árabes sentirem um “desespero total”, não apenas pelo fracasso de suas rebeliões, mas também como consequência do crescimento e fortalecimento contínuo de Israel, tornando a força militar o principal instrumento de sua política externa e de sobrevivência (SHLAIM, 2014).

O Plano Yinon, um artigo estratégico publicado em 1982, pode ser interpretado como a aplicação da doutrina da Muralha de Ferro. O plano defende a fragmentação do mundo árabe em vários estados menores e, consequentemente, mais fracos. A premissa do plano é que o mundo árabe-muçulmano é uma construção artificial, um “castelo de cartas erguido por estrangeiros” (franceses e britânicos), e que sua dissolução em entidades menores e hostis entre si eliminaria qualquer desafio significativo à hegemonia regional de Israel. Em resumo, é a velha e conhecida estratégia de dividir para conquistar.

O plano detalha uma estratégia de “balcanização” para os principais adversários de Israel. Para o Iraque, considerado a maior ameaça estratégica devido a sua riqueza petrolífera, o plano previa a divisão em três mini-estados: um xiita ao sul, um sunita no centro e um curdo ao norte. O Egito seria desmembrado com a possível formação de um estado copta cristão. O Líbano seria dividido em cantões etno-nacionalistas. Essa estratégia de fragmentação visava criar um ambiente regional permanentemente instável e dividido, onde Israel pudesse manter sua superioridade militar e política sem enfrentar uma frente árabe unida.

Para garantir a eficácia da Muralha de Ferro e a viabilidade de uma estratégia tão ambiciosa como o Plano Yinon, a posse de um poderio militar absoluto e incontestável tornou-se um pilar central da política de defesa israelense. Foi nesse contexto que David Ben-Gurion, o primeiro homem a ocupar o cargo de primeiro-ministro de Israel, se tornou praticamente obcecado em obter armas nucleares. Ele acreditava que a capacidade nuclear era a única garantia real contra um novo Holocausto e a única forma de dissuadir uma agressão existencial por parte dos seus vizinhos, assegurando a sobrevivência do Estado a longo prazo. Certa vez ele disse: “o que Einstein, Oppenheimer e Teller, os três judeus, fizeram para os Estados Unidos, também poderia ser feito por cientistas em Israel, para seu próprio povo.” (COHEN, 2010, p. 104)

Entretanto, devido às implicações que a posse de armas nucleares causariam, o programa nuclear israelense é envolto em uma política de “ambiguidade deliberada” (amimut), na qual Israel oficialmente não confirma nem nega a posse de armas nucleares (COHEN 2010). Esta postura permite que o país projete uma ameaça sem provocar as repercussões internacionais diretas que uma declaração oficial acarretaria. A frase recorrente de que “Israel não será o primeiro país a introduzir armas nucleares no Oriente Médio” é interpretada como uma promessa de não ser o primeiro a testar abertamente ou a reconhecer formalmente seu arsenal, mantendo assim um poderoso elemento de dissuasão implícita. Novamente segundo Cohen (2010), em termos históricos, a postura amimut se tornou uma constante para Israel e não apenas um estágio intermediário como foi para a Índia e o Paquistão.

A dimensão final dessa estratégia é a “Opção Sansão” (b’rerat shimshon), a doutrina de retaliação nuclear massiva como último recurso em caso de uma ameaça militar existencial à nação. Esta doutrina representa a materialização máxima da Muralha de Ferro, garantindo que qualquer tentativa de destruir Israel resultaria em uma aniquilação mútua, tornando o custo de tal agressão inaceitavelmente alto para qualquer adversário. Acredita-se que Israel possua um arsenal de 90 a 400 ogivas nucleares, com uma tríade de sistemas de lançamento que inclui mísseis balísticos, submarinos e aeronaves de combate.

Durante suas audiências de confirmação perante o Senado dos Estados Unidos em 2006, referentes à sua nomeação como Secretário de Defesa de George W. Bush, Robert Gates admitiu que Israel possuía armas nucleares e, dois anos depois, em 2008, o ex-presidente americano Jimmy Carter declarou que o número de armas nucleares em posse de Israel era de “150 ou mais”.

Em seu livro de 2008, “A Cultura da Guerra”, Martin van Creveld, professor de história militar na Universidade Hebraica de Israel, escreveu que, como Gates admitiu que Israel possuía armas nucleares, qualquer discussão sobre armas nucleares israelenses dentro de Israel pode levar a “julgamento e prisão”. Assim, comentaristas israelenses usam eufemismos como “armas do Juízo Final” e a Opção Sansão.

Entretanto, há um entrave importante para a concretização do plano israelense: não basta adquirir armas nucleares, é necessário manter o monopólio nuclear do Oriente Médio e impedir que outros países também desenvolvam seu próprio programa nuclear. Nesse sentido, a “Doutrina Begin” estabelece uma política de ataques preventivos contra qualquer nação do Oriente Médio que tente adquirir suas próprias armas de destruição em massa. Os ataques aéreos que destruíram os reatores nucleares do Iraque em 1981 (Operação Ópera), da Síria em 2007 (Operação Pomar) e o mais recente conflito com o Irã (2025) que teve apoio direto dos EUA são manifestações claras desta política. Ao impedir a proliferação nuclear na região, Israel garante que sua Muralha de Ferro permaneça única e insuperável, mesmo que para isso tenha de atentar contra a soberania de outros Estados, desestabilizar outros países e “arrastar” potências do outro lado do mundo para um conflito que, ao menos em tese, não lhes diz respeito diretamente.

Embora o foco principal seja o programa nuclear, acredita-se que a capacidade bélica de Israel se estenda a outras armas igualmente poderosas. O Gabinete de Avaliação Tecnológica do Congresso dos EUA registrou Israel como um país que, segundo relatos, possui capacidades não declaradas de guerra química e um programa ofensivo de guerra biológica, muito embora o uso dessas armas seja proibido pelo Direito Internacional. Essa suspeita, em que pese não ter sido confirmada oficialmente (mas com evidências de seu uso, como o fósforo branco), adiciona uma camada de incerteza e complexidade ao cálculo estratégico de qualquer adversário que busque se opor ao domínio israelense, reforçando ainda mais a postura de dissuasão do Estado sionista.

Em resumo, a estratégia israelense para o Oriente Médio é um sistema interligado de doutrina política, planejamento geopolítico e capacidade militar: a “Muralha de Ferro” fornece a base ideológica, postulando que a força precede a paz. O Plano Yinon oferece um modelo para a aplicação geopolítica dessa força, visando um ambiente regional fragmentado e enfraquecido por disputas internas (por exemplo, xiitas contra sunitas) e externas. Por último, o programa de armas de destruição em massa representa a garantia militar última dessa muralha, projetada para assegurar a dominação regional e a sobrevivência de Israel a longo prazo. Diferentemente de uma muralha convencional, essa não está coberta por espinhos ou com arqueiros a guarnecendo, mas com urânio e toda a radioatividade e caos de uma ameaça nuclear. 

Notas

[1] Embora as discordâncias envolvendo o movimento revisionista e seus sucessores, bem como figuras que chegaram a conclusões parecidas mesmo estando fora do Sionismo Revisionista, a questão do “método” a ser utilizado para o estabelecimento de um Estado Judeu na Palestina – se por vias diplomáticas ou outras (ex: compra de terras) – já era antiga, remontando ao tempo do próprio Theodore Herzl.

Referências

AMNESTY INTERNATIONAL. Evidence of Israel’s unlawful use of white phosphorus in southern Lebanon as cross-border hostilities escalate. 2023. Disponível em: <https://www.amnesty.org/en/latest/news/2023/10/lebanon-evidence-of-israels-unlawful-use-of-white-phosphorus-in-southern-lebanon-as-cross-border-hostilities-escalate/>. Acesso em: 25 jul. 2025.

COHEN, Avner. The Worst-Kept Secret: Israel’s Bargain with the Bomb. Columbia University Press, 2010.

CREVELD, Martin van. The Culture of War. Random House Publishing Group, 2008.

SHLAIM, Avi. The Iron Wall: Israel and the Arab World. New York: W. W. Norton & Company, 2014.

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