Despina Hatun, batizada em 1420 como Mara Brankovich antes de adentrar o harém do sultão Murad II no ano de 1431, foi uma figura proeminente na corte otomana do século XV. Por ter se mantida como cristã até o final de sua vida, tornou-se uma das principais defensoras da comunidade de súditos cristãos sob administração do império, tendo influência inclusive na seleção dos patriarcas da Igreja Ortodoxa de Constantinopla, além de agir como intermediária oficial entre o sultanato e os reinos da cristandade ocidental e oriental.
Sultão Murad II retratado por Konstantin Kapıdağlı (Konstantinos Kyzikinos)
Sua relevância diplomática era amplamente reconhecida, atestada pela avaliação que os embaixadores de Veneza e da república dálmata de Ragusa faziam de sua pessoa, e sua sabedoria era reverenciada pelo sultão Mehmed II, o Conquistador (1451 – 1481), filho de seu esposo Murad e de quem Mara foi madrasta e conselheira pessoal. Os principais documentos que comprovam sua origem são os manuscritos do secretário-geral italiano do Concílio de Trento (1545-1563), Angelo Massarelli, constantes nos arquivos do Vaticano, e uma carta de doação ao monastério do Monte Athos. Neles, há a citação nominal da princesa Mara como herdeira do déspota George Brankovich e da rainha Irene Cantacuzene, herdeira direta da última linhagem bizantina que ficou conhecida como “dinastia dos paleólogos”.
George havia lutado ao lado do sultão Bayezid I contra as forças timúridas na batalha de Ancara (1402) e era sobrinho de sua esposa, Olivera Hatun. Por ter recebido uma educação erudita em Constantinopla e pelos feitos em campo de batalha, o conselho dos nobres o elegeu Lorde da Sérvia em 1427, tendo recebido o título de déspota 2 anos depois pelo imperador bizantino João Cantacuzeno. Apesar de nominalmente vassalo do império otomano, o reino da Sérvia, temendo por sua integridade, transfere sua capital para Smedrevo em 1430, na confluência dos rios Danúbio e Sava. O viajante e espião burgúndio, Bertrandon de la Broquière, deixa relatos sobre a pujança do reino por meio das cifras anuais que recebia pela exploração de suas minas de prata e de ouro (200 mil ducados) e pelo arrendamento que era cobrado ao Reino da Hungria (50 mil ducados).
Timur revisa suas tropas na planície de Sivas na Batalha de Ancara em meados do verão de 1402.
No ano seguinte, George oferece a mão de sua segunda filha, Mara Maria, no intuito tanto de evitar um avanço ainda maior por parte dos otomanos – que já vinham realizando razias em regiões fronteiriças, motivados pelo potencial econômico da região – quanto de sinalizar ao sultão Murad II (1421-1451) um possível apoio contra o império húngaro na fronteira do Danúbio. A cerimônia de casamento oficial ocorreu no dia 4 de Setembro de 1435 na capital otomana de Edirne. Mara recebeu como dote paterno toda a região de Dubocicla e Toplica; 400 mil moedas de prata; e indumentárias cozidas a ouro. Em 1438, quando as tensões entre húngaros e otomanos atingiram seu cume, Murad II dá um ultimato a George e pede para que rompa alianças com os húngaros, o que é prontamente negado. Em agosto de 1439, a capital Smedrevo cai e as terras passam ao controle otomano.
Em 1444, Mara foi uma das principais artífices do Tratado de Paz de Szeged firmado em 15 de setembro do mesmo ano, dando um fim aos conflitos entre os reinos cristãos capitaneados pela Sérvia e o império otomano. O tratado obrigou o sultão a devolver 24 cidades sérvias; a libertar os irmãos de Mara, Gregory e Stefan; e a retirar o condado de Vlad Dracul II da Valáquia de suas obrigações senhoriais para com o sultanato.
Após a abdicação de Murad, seu filho de treze anos de idade, Mehmed II, passa a assumir o trono provisoriamente e, com a morte definitiva de seu pai no ano de 1451, Mehmed se torna sultão oficial aos 21 anos. Mara retorna à Sérvia, mas continua acompanhando a vida pessoal e oficial de seu afilhado. Todos os familiares de Mara estavam notavelmente vivos e, com sua volta, voltaram as vastas faixas da Sérvia que lhe serviram como dote.
Retrato do sultão Mehmed II, 1480, por Gentile Bellini.
Quando George morreu em 1456, uma luta fratricida pelo poder tomou conta da casa Brankovich: Gregory, o irmão mais velho de Mara (e apoiado por ela) foi desafiado por Lazar, o irmão mais novo. As lutas internas se tornaram tão terríveis que Mara é obrigada a voltar ao Império Otomano, sendo recebida de braços abertos pela corte de Mehmed II. Ela recebeu várias cidades como propriedades régias suas e passou o resto de sua vida em Ježevo, perto do Monte Athos. É notável ela ter residido nesta área, pois as mulheres eram, e ainda são, proibidas de se aproximar do Monte Athos. Mara foi a segunda mulher a entrar na área e teve que receber permissão especial dos monges da região. No entanto, pelo fato de ter o título de muitas dessas terras, obter permissão não foi uma dificuldade para ela.
Atuou como mediadora entre a poderosa República de Veneza e o Império Otomano durante a Primeira Guerra Otomano-veneziana de 1463-79. Os venezianos enviavam seus emissários para a residência dela nas regiões monasteriais de Athos e ela, por sua vez, passava suas mensagens ou acompanhava os emissários até Constantinopla. Era um terreno propício para negociações pelo status de neutralidade do terreno. Outra intervenção política notável de Mara envolveu a eleição do Patriarca da Igreja Ortodoxa Oriental: em 1465, Mara convence Mehmed a nomear seu padre pessoal, Dionísio, como patriarca. Dionísio, entretanto, não durou muito no papel por não conseguir sustentar os custos monetários dessa indicação, mas Mara articulou para que vivesse pacificamente sua vida em Athos, junto dela.
Referências
BUXTON, Anna Ivanova. THE EUROPEAN SULTANAS OF THE OTTOMAN EMPIRE. Carolina do Sul: Create Space, 2016, pp 91 – 115
FINE, J.V.A. THE LATE MEDIEVAL BALKANS: A Critical Survey from the Late Twelfth Century to the Ottoman Conquest. Michigan: Michigan Uniersity Press, 1987, p. 531
NICOL, Donald M. THE BYZANTINE LADY: Ten Portraits, 1250-1500. Cambridge: Cambridge University Press, 1996, pp. 115 – 121
BURBANK, Jane. EMPIRES IN WORLD HISTORY: Power and the Politics of Difference. Princeton: Princeton University Press, 2010, p. 134



