A percepção popular sobre o véu islâmico no Ocidente é profundamente distorcida, sendo na maioria das vezes alimentada por uma narrativa que retrata a vestimenta de forma exclusiva como uma ferramenta de imposição e opressão fanática. Embora existam, de fato, nações que obrigam legalmente o uso do hijab, como o Irã e o Afeganistão, a realidade (global, não apenas restrita aos países islâmicos) aponta para um cenário matematicamente oposto: há hoje muito mais países que limitam, proíbem ou criminalizam o uso do véu do que governos que obrigam o seu uso.
Esse recorte altamente seletivo serve frequentemente para demonizar a figura das mulheres muçulmanas e pintar o Islã como intrinsecamente opressor, ignorando por completo que o próprio aparato estatal atua com a mesma — ou até maior — força punitiva para despir as mulheres contra a vontade delas. Isso, claro, para não mencionarmos os inúmeros casos de mulheres muçulmanas sendo agredidas em plena luz do dia por justamente usarem suas vestes tradicionais, conforme noticiamos recentemente.
Para entender essa obsessão quase patológica pelo véu, é essencial olhar para a perseguição colonial. Em quase todos os países muçulmanos, o véu sofreu restrições brutais durante o século passado. Projetos de modernização forçada e secularização, muitas vezes inspirados ou diretamente impostos por potências coloniais europeias e por regimes autoritários locais, viam a modéstia islâmica como um atestado de atraso. O caso do Irã na década de 1930 é muito emblemático ao demonstrar essa violência de Estado, que foi ironicamente disfarçada de libertação, onde a retirada da roupa foi uma política imposta com espancamentos policiais e assédio nas ruas durante a era Pahlavi.
Reza Shah em visita a escola para garotas.
A agenda secularizadora (ou secularizante, como preferir) não é um mero eco dos livros de história e nem uma teoria da conspiração, mas sim um projeto ativo que podemos observar em vários países de maioria muçulmana na Ásia Central e no Oriente Médio, que enxergam a religiosidade no espaço público como uma ameaça política ao seu establishment. Nações como Kosovo, Azerbaijão, Cazaquistão e Quirguistão possuem um longo histórico de restrições ao hijab. Muito recentemente, países da antiga esfera de influência soviética chegaram ao extremo de apertar ainda mais o cerco para apagar costumes que não se alinham à dita identidade oficial. Para citarmos um exemplo, o Tajiquistão aprovou em 2024 regulações proibindo roupas islâmicas sob o falso pretexto de proteger a cultura local e barrar vestimentas estrangeiras.
O objetivo declarado do governo do Tajiquistão é “proteger valores culturais nacionais” e “prevenir da superstição e do extremismo”.
No continente europeu, a cruzada contra a vestimenta feminina ganha contornos de política institucional sob a roupagem luxuosa dos valores progressistas e liberais. Atualmente, várias nações da União Europeia criminalizam o uso do véu islâmico (seja o próprio hijab nas escolas ou os véus de rosto total, como niqab e burca) no dia a dia da vida pública. Dinamarca, Áustria, Bulgária e Holanda aderiram fervorosamente à onda proibicionista que foi capitaneada anos antes pela França e pela Bélgica. Aquilo que é vendido no noticiário como uma pauta necessária de integração social e emancipação é, na realidade prática, a aprovação legal para o policiamento contínuo e hostil de corpos femininos nas ruas. Isso, evidentemente, para não falarmos em outros “policiamentos”, como a absurdidade da Suíça incluir na sua própria constituição a proibição de minaretes. Isso, contudo, é tema para outro momento.
Os motivos declarados por políticos ocidentais para justificar as proibições são variados, mas costumam focar na neutralidade cívica, na segurança antiterrorismo e, de maneira totalmente paradoxal, na igualdade de gênero. A retórica baseia-se na presunção de que todas as mulheres são forçadas a cobrir seus rostos, necessitando que o Estado aplique multas financeiras severas e as exclua do direito de caminhar na rua como um método para “salvá-las”. É um complexo de salvador branco (white savior) que desumaniza e ignora a agência da mulher, convertendo diretrizes legítimas de direitos humanos em desculpas jurídicas para perseguir abertamente uma minoria muitas vezes de origem imigrante (ignorando totalmente também as inúmeras convertidas que optam pelo uso do véu). A contradição evidente em homens impondo que mulheres usem menos roupas para serem “de fato livres” não passa pela mente de tais legisladores.
Protesto anti-islâmico realizado em frente a uma mesquita em Phoenix, Arizona (EUA).
Todavia, a hipocrisia dessa justificativa baseada na “segurança” ficou escancarada para todo o planeta durante a pandemia de COVID-19. Países que até então criminalizavam o niqab afirmando que rostos cobertos representavam perigo à nação, ou que era fisicamente impossível se integrar na Europa sem mostrar a boca e o nariz, obrigaram suas populações a usar máscaras cirúrgicas em todos os espaços possíveis. Pessoas interagiram normalmente com seus médicos, colegas e caixas de supermercado de rosto coberto, sem colapso civilizacional.
É evidente que o uso de máscaras teve motivação sanitária, mas isso não altera o fato de que se tratava, objetivamente, de uma cobertura do rosto ou da cabeça. Ainda assim, observa-se um paradoxo curioso: políticos alinhados a setores mais à direita se opuseram às imposições de uso de máscara, seja por negacionismo em relação à pandemia, seja sob o argumento de defesa da liberdade individual, mas figuram entre os primeiros a apoiar a proibição de vestes islâmicas tradicionais, recorrendo a todo o peso e poderio estatal para tanto.
A cobertura facial se tornou um dos ícones da pandemia.
A liberdade, nesse caso, parece ser (e de fato é) um princípio seletivo. O que é defendido como direito individual em um contexto passa a ser tratado como ameaça em outro. Essa contradição no mínimo pitoresca pode decorrer de ignorância, desonestidade intelectual, delírio ou, possivelmente, de uma combinação desses fatores.
Além de tudo, é desonesto debater essa questão fingindo que a regulação da aparência é uma anomalia restrita ao Oriente. Todos os países do mundo, ocidentais ou não, impõem fronteiras legais sobre o que pode ser vestido, limitando a escolha dependendo do ambiente, do local ou da ocasião formal. O limite à liberdade e a narrativa da opressão parecem virar um problema fundamental de direitos humanos apenas quando as regras fogem da janela de percepção liberal. Se um ambiente de costumes islâmicos cobra modéstia, é visto como tirania intolerável, mas se os mais altos tribunais europeus autorizam que empresas laicas proíbam o hijab para forçar uma uniformidade asséptica sobre a mulher que trabalha, isso é engolido como direito corporativo padrão, vide os casos da Corte Europeia em 2017 (Bélgica) e 2021 (Alemanha).
Leis de ordem pública, inclusive normas antigas voltadas ao controle de arruaceiros ou à regulamentação de protestos, chegam a ser resgatadas e adaptadas por prefeitos com a finalidade específica de atingir e excluir mulheres de praias, quadras e escolas. Quando essas restrições passam a valer, a mulher muçulmana acaba sendo empurrada para fora do espaço público, afastada de oportunidades econômicas e submetida a uma vida social mais limitada e a deslocamentos mais difíceis do que antes da entrada em vigor da lei ou decisão (supostamente) redentora.
É o contrário daquelas imagens de antigamente de uma cena comum em outras eras, quando o agente estatal avaliava se o maiô da moça era curto demais, considerado imodesto, exigindo que se cobrisse. Hoje ocorre o oposto: examina-se se a roupa “cobre demais” e, por isso, deveria ser substituída por vestes que exponham o rosto e outras partes do corpo – sempre sob o argumento da liberdade de escolha, por óbvio.
No fim do dia, a vigilância sobre a indumentária da mulher muçulmana só demonstra a repressão demográfica impulsionada pelo que se cunhou islamofobia, ou “lahabismo”, como prefere o professor Abdal Hakim Murad (Timothy Winter) de Cambridge. O fato de que grande parte das populações não-muçulmanas ocidentais, mesmo aquelas que afirmam possuir visões positivas da religião e minoria islâmica significativa em seus países (ex: França e Alemanha), defenda leis duras contra as roupas demonstra como esse preconceito está fundido na cultura contemporânea e não se resolve com assimilação superficial ou bravatas secularistas de “liberdade religiosa”.
É mandatório entender que forçar uma mulher a se despir contra a sua vontade com o porrete do Estado é um ato persecutório que aniquila a verdadeira liberdade civil moderna, tal qual as imposições de vestimentas religiosas que tanto criticam – sendo talvez até pior, pois manchado pela hipocrisia de uma civilização que arroga para si a posição de paladino das virtudes e liberdades.
Referências
BBC NEWS. The Islamic veil across Europe. 31 mai. 2018.
BULLOCK, Katherine. We are all niqabis now: Coronavirus masks reveal hypocrisy of face covering bans. The Conversation, 2020.
MANCHANDA, Stuti; SAIYA, Nilay. Why veil restrictions increase the risk of terrorism in Europe. LSE European Politics, 2019.
OPEN SOCIETY FOUNDATIONS. Restrictions on Muslim Women’s Dress in the 28 EU Member States: Current Law, Recent Legal Developments, and the State of Play. 2018.
SALAZAR, Ariana Monique; GARDNER, Scott. Most Western Europeans favor at least some restrictions on Muslim women’s religious clothing. Pew Research Center, 2018.







