Farinha envenenada: a nova tática de extermínio em Gaza

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Há algumas semanas, veio à tona uma grave acusação por parte dos médicos de Gaza, que afirmaram ter encontrado comprimidos de oxicodona, um analgésico opiáceo (na classe dos opioides), dentro de sacos de farinha distribuídos em postos de ajuda humanitária geridos pelos EUA e por Israel. A alegação, que se espalhou rapidamente online em junho de 2025 e alcançou importantes veículos de comunicação, sugere uma contaminação deliberada de alimentos essenciais (como farinha) destinados a uma população já sitiada e em crise. Esta denúncia foi formalizada através de um comunicado do gabinete de comunicação social de Gaza, que manifestou a sua “profunda preocupação e condenação” perante o caso.

O gabinete de comunicação social de Gaza responsabilizou totalmente Israel por este ato, que descreveu como um “crime hediondo” com o objetivo de “espalhar a dependência e destruir o tecido social palestino a partir de dentro”. A declaração vai mais longe, enquadrando o emprego de drogas como uma “arma branda [soft weapon] numa guerra suja contra civis” e como parte de um “genocídio contínuo contra os palestinos”. A possibilidade de os comprimidos terem sido deliberadamente moídos ou dissolvidos na farinha foi levantada como um fator que agravaria o crime, transformando-o num “ataque direto à saúde pública”, visto que seria impossível de distingui-lo do alimento, diferentemente de um comprimido que embora pequeno ainda é muito mais fácil de identificar no meio da farinha.

Essa, contudo, não é a única acusação: a distribuição de ajuda em Gaza tem sido palco de ações gravíssimas por Israel e alguns de seus aliados, como mostra a matéria do jornal israelense Haaretz publicada recentemente aqui na página (17/07) intitulada ‘Soldados de Israel admitem: as ordens são para matar’. Para contextualizarmos melhor a situação: Israel estabeleceu quatro pontos de distribuição no sul e centro de Gaza, um plano que, segundo a comunicação social israelense, visava evacuar os palestinos do norte para o sul. Este mecanismo foi contestado pela comunidade internacional e pela ONU, que o viram como uma tentativa de Israel de contornar os canais de distribuição de ajuda humanitária das próprias Nações Unidas. Não obstante, a situação é agravada pela violência nas proximidades destes centros humanitários, com o Ministério da Saúde de Gaza relatando que, desde 27 de maio de 2025, pelo menos 549 palestinos foram mortos e mais de 4.000 feridos por fogo israelense perto de centros de ajuda e de caminhões de alimentos da ONU.

Conforme a tradução que realizamos recentemente de um artigo do Haaretz, o uso de armas letais em palestinos aguardando por ajuda humanitária foi uma estratégia deliberada e não mero acidente. Apesar da gravidade das acusações, a verificação dos fatos tem sido complexa, visto a impossibilidade de “monitores” externos acompanharem a situação [1]. 

A Gaza Humanitarian Foundation (GHF), uma das organizações envolvidas na distribuição, obviamente negou a acusação também, classificando-a como “propaganda do Hamas” e afirmando que a farinha que distribuem é embalada comercialmente e não é manuseada pela sua equipe. A GHF acrescentou que os seus protocolos de segurança impedem a distribuição de qualquer caixa de ajuda que tenha sido aberta previamente. 

Displaced Palestinians carrying relief supplies from the Gaza Humanitarian Foundation (GHF).

Palestinos deslocados carregam suprimentos da GHF.

A questão é: seria a GHF uma instituição confiável? As circunstâncias do estabelecimento da fundação e seu financiamento são nebulosas: sabe-se que foi criada por Israel em coordenação com evangélicos dos EUA e empresas de segurança privadas. Seu atual CEO é um líder evangélico próximo ao ex-presidente dos EUA, Donald Trump, e ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Sabemos também que a mera alegação “propaganda do Hamas” já foi utilizada outras vezes para tentar descredibilizar as denúncias dos crimes cometidos por Israel na região, mas que no fim demonstraram que o “Hamas” estava correto, vide o caso dos paramédicos. 

Podemos ir além: as graves acusações de soldados israelenses sobre os tiroteios próximos aos centros de distribuição, bem como o apoio israelense às gangues locais (como Abu Shabab) que roubam mantimentos da população, nos fazem duvidar da sinceridade da GHF e de qualquer alegação vinda de Israel ao afirmar estar preocupado com os moradores de Gaza. 

Yasser Abu Shabab can be seen holding a gun in this image posted on the Popular Forces’ Facebook page.

Yasser Abu Shabab pode ser visto segurando uma arma nesta imagem publicada na página do Facebook da gangue. O grupo, opositor do Hamas, é acusado de receber apoio israelense.

Dando continuidade, vamos ver o porquê dessa denúncia ser tão grave. A oxicodona é descrita como “o remédio mais perigoso do mundo”, pois se trata de um opioide altamente viciante, com a capacidade de anular a dor física e, ao mesmo tempo, induzir uma sensação de relaxamento e euforia. A sua origem remonta à papoula, a “planta da alegria”, utilizada pela humanidade há milênios. O seu poder viciante é comparável ao do crack, criando uma dependência não só física, mas também psíquica, com os usuários podendo desenvolver pensamentos obsessivos sobre o consumo da droga.

Os riscos associados à oxicodona são gravíssimos, indo desde paradas cardiorrespiratórias a erupções alérgicas. O risco de overdose é elevado, pois os usuários tendem a consumir doses cada vez maiores, que o organismo não consegue processar, levando frequentemente à morte. Há casos inclusive de artistas famosos que perderam a batalha contra a oxicodona e outras drogas similares, como o lendário cantor Prince e a atriz Carrie Fisher, conhecida por interpretar a princesa Leia em Star Wars.

A exposição à oxicodona é especialmente perigosa para populações vulneráveis, por motivos mais que óbvios e que aumentam a gravidade da acusação e a crueldade dos fatos se comprovados. Estudos sugerem uma associação entre a exposição à oxicodona durante a gravidez e um aumento do risco de crescimento fetal alterado e parto prematuro. Além disso, a depressão respiratória, um efeito secundário grave, é mais provável em idosos ou em pessoas com doenças respiratórias ocultas. Os efeitos secundários gerais dos opiáceos incluem náuseas, vômitos, alucinações, obstipação, tonturas e assim por diante, o que torna as crianças, os idosos e as grávidas particularmente suscetíveis de seus efeitos perniciosos.

Curiosamente, em Auschwitz o veneno também era uma realidade, mas o seu uso diferia significativamente do atual promovido por Israel. O movimento de resistência clandestino no campo conseguiu organizar e contrabandear vários tipos de veneno, como cianeto, flúor, arsênico e estricnina. No entanto, estes venenos serviam principalmente como um “último recurso” para os próprios prisioneiros, o exato oposto do que é feito hoje em Gaza por Israel, uma curiosa ironia da história.

O veneno em Auschwitz era uma ferramenta da resistência das vítimas, mas não uma arma utilizada pelos nazistas para extermínio em massa através da comida, ato de crueldade que talvez não tenha precedentes recentes na história, exceto por parte do próprio Estado de Israel, como veremos mais abaixo. O veneno em Auschwitz era dado a prisioneiros que serviam de “correio” e contrabandistas ou que participavam em fugas para que pudessem suicidar-se em caso de captura, evitando assim a tortura e a denúncia de outros membros da resistência. Houve também casos em que o veneno foi usado para eliminar informantes dentro do próprio campo de concentração. Não somente, mas também existiu um plano para envenenar a comida dos guardas da SS, embora nunca tenha sido implementado.

Se durante a segunda guerra mundial os judeus utilizaram o veneno como arma defensiva, por vezes eles próprios vindo a tomá-lo para evitar um destino pior que a morte, hoje aqueles que dizem suceder as vítimas do Holocausto se valem de táticas similares (mas inversamente perversa) para drogarem uma população inocente e faminta. Se em Auschwitz o objetivo era envenenar seus algozes, hoje o objetivo parece ser envenenar e causar dependência em civis inocentes que se encontram em situação análoga à dos judeus perante o jugo do Reich alemão. Não por acaso os sionistas histéricos de hoje chegam ao ponto de acusar os próprios sobreviventes do Holocausto de “antissemitas”, conforme Ichak Kalderon Adizes em recente matéria no Haaretz (18/07/2025).

A acusação de envenenamento em Gaza é enquadrada por alguns analistas como um ato de bioterrorismo. Em opinião publicada no Middle East Monitor, os autores recordam que tais táticas não são novas para o Estado de Israel, mencionando que, em 1948, durante a limpeza étnica dos palestinos, os poços da população palestina foram envenenados com febre tifoide. Este precedente histórico, tão antigo quanto Israel e muito mais velho que o “Hamas” – o bode expiatório perfeito para as sandices sionistas –, demonstra que as acusações devem ser levadas a sério e investigadas por agentes externos e independentes. A palavra de Israel já se demonstrou indigna de confiança há tempos, mas os limites de sua crueldade são atualizados a cada dia que passa, bastando uma nova manchete sobre seus crimes bárbaros em Gaza que desafiam todas as noções pré-concebidas de até onde o ser humano pode chegar em níveis de maldade.

Notas

[1] Sobre esse assunto, recomendamos nossa outra tradução de artigo publicado no Haaretz e disponível em nosso site: “Historiador francês consegue entrar em Gaza e fica horrorizado”. Disponível em: <https://historiaislamica.com.br/historiador-frances-consegue-entrar-em-gaza-e-fica-horrorizado/>

Referências

ADIZES, Ichak Kalderon. Israelis Are Even Calling Holocaust Survivors Antisemitic. Haaretz. Disponível em: <https://www.haaretz.com/opinion/2025-07-18/ty-article-opinion/.premium/israelis-are-even-calling-holocaust-survivors-antisemitic/00000198-1e38-d3be-a5bc-3e7b6b140000>. Acesso em: 21 jul. 2025.

BROWNE, Brendan Ciarán; KEELAN, Emma. Oxycodone laced flour is not ‘humanitarian aid’ it is bioterrorism. Middle East Monitor, 1 jul. 2025. Disponível em: <https://www.middleeastmonitor.com/20250701-oxycodone-laced-flour-is-not-humanitarian-aid-it-is-bioterrorism/>. Acesso em: 20 jul. 2025.

CONHEÇA OS RISCOS DA OXICODONA, O REMÉDIO MAIS PERIGOSO DO MUNDO. Prev-One, 2020. Disponível em: <https://prev-one.com.br/artigo/conheca-os-riscos-da-oxicodona-o-remedio-mais-perigoso-do-mundo>. Acesso em: 20 jul. 2025.

DENG, Grace. What we know about reports of oxycodone in flour bags distributed by U.S.-Israeli aid centers in Gaza. 2025. Disponível em: <https://www.yahoo.com/news/know-reports-oxycodone-flour-bags-230500261.html>. Acesso em: 20 jul. 2025.

KŁODZIŃSKI, Stanisław. Poison, the last resort in Auschwitz: Dr Jan Zygmunt Robel. Medical Review Auschwitz, 25 jul. 2022. Disponível em:<https://www.mp.pl/auschwitz/journal/english/show.html?id=302878>. Acesso em: 20 jul. 2025.

MAJED, Mohamed; SHAMALA, Rania Abu. Gaza authorities say drugs found inside US-dispatched flour bags. Anadolu Ajansi. 27 jun. 2025. Disponível em: <https://www.aa.com.tr/en/middle-east/gaza-authorities-say-drugs-found-inside-us-dispatched-flour-bags/3615641>. Acesso em: 20 jul. 2025.

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