Benjamin Franklin e o mufti de Constantinopla

Benjamin Franklin e o mufti de Constantinopla
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Poucas frases dos fundadores dos Estados Unidos voltaram com tanta força ao debate público das últimas décadas quanto a que Benjamin Franklin escreveu sobre o mufti de Constantinopla, em especial dada as tensões atuais de Donald Trump com o Oriente Médio, fora as dos últimos 30 anos. 

 

A frase costuma aparecer solta, como prova de que os pais fundadores queriam muçulmanos no país, mas vale a pena aprofundarmos a fala de um dos founding fathers. Em 1739, o evangelista britânico George Whitefield atraía multidões à Filadélfia e não conseguia púlpito nas igrejas locais, o que o obrigava a pregar ao ar livre. Benjamin Franklin, então impressor e articulador de projetos cívicos na cidade, apoiou a arrecadação para erguer um prédio que resolvesse o problema. O edifício não pertenceria a nenhuma denominação, e esse era o objetivo da coisa: qualquer pregador de qualquer matriz religiosa que quisesse falar aos habitantes da cidade poderia usá-lo.

 

A frase famosa aparece quando Franklin, décadas depois, conta o caso na autobiografia e resolve mostrar até onde ia aquela neutralidade. O prédio não foi desenhado para acomodar seita alguma, escreveu, de modo que, se o mufti de Constantinopla mandasse um missionário pregar o “maometanismo” aos moradores, ele encontraria um púlpito à sua disposição. 

 

O ocorrido foi em 1739, quase quarenta anos antes da independência dos Estados Unidos, e o texto foi escrito ainda depois. O que isso diz exatamente? Que Franklin não estava desenhando a arquitetura religiosa de uma república futura, mas sim descrevendo um local de pregação na Filadélfia colonial. É Denise Spellberg quem lê o gesto como sinal de que ele admitia o Islã entre as religiões possíveis do país que viria a se formar.

 

Escolher o mufti de Constantinopla como remetente do “missionário hipotético”, por assim dizer, não foi mera obra do acaso e nem ignorância. Franklin apontava para a maior autoridade religiosa do império que a Europa cristã aprendeu a temer por séculos e que habitava no imaginário Ocidental (basta ver, tempos depois, as viagens de Dom Pedro II), e Spellberg entende que a menção revela algum conhecimento do peso daquela potência, existente desde o século XIII e ameaçadora até o fim do XVII. 

 

Outro ponto bem característico da época é justamente o vocabulário empregado por Franklin: “maometanismo” era o termo padrão no mundo anglo-americano de então, numa época em que a palavra “Islã” quase não circulava em inglês, e carregava um erro embutido, porque sugeria que os fiéis adoravam Muhammad quando adoravam Deus. Hoje em dia o termo foi abandonado totalmente, exceto por grupos polemistas que insistem em usar o termo de propósito para tentar reduzir o Islã a uma espécie de seita ou culto à personalidade. Na época de Franklin, contudo, o significado era mais neutro.

 

Meio século antes, John Locke tinha usado a mesma figura, mas  com o sinal trocado. Na Carta sobre a Tolerância, de 1689, ele argumentava que seria ridículo alguém se dizer maometano e ao mesmo tempo súdito leal de um magistrado cristão enquanto devesse obediência cega ao mufti de Constantinopla, que por sua vez obedeceria ao sultão. Apesar de alguns problemas de imprecisão por parte de Locke, a expressão já circulava no repertório inglês da tolerância (isso para não falarmos da França Iluminista). Voltemos a Benjamin Franklin. 

 

Entre o que o prédio prometia e o que ele provavelmente seria, havia uma distância considerável. Se um clérigo muçulmano fosse mesmo despachado pelos turcos, Whitefield e os outros protestantes teriam monopolizado o espaço para atacar o Islã, e não para acolhê-lo. Apesar da abertura teórica de Franklin ser de grande relevância, em especial quando consideramos a época, não podemos ignorar que: numa cidade em que a maioria protestante via o Islã como uma fé falsa fundada por um falso profeta, sugerir que um púlpito da Filadélfia pudesse receber um pregador muçulmano já bastava para empurrar Franklin para fora da corrente dominante.

 

Parte dessa disposição vinha da religião do próprio pai fundador, que se afastou cedo do dogma puritano em que foi criado. Ele deixou de aceitar as ideias centrais dos puritanos sobre salvação e sobre a divindade de Jesus, passou a considerar-se deísta na autobiografia que começou a escrever em 1771 e, ainda assim, continuou a se ver como cristão, mantendo a crença num Deus que seria fonte da moralidade e agente providencial na história. Quem pensa assim tende a medir a religião pelo efeito prático que ela produz na conduta das pessoas, e não pela exatidão do credo ou no grau de aceitação dos dogmas, o que ajuda a explicar por que a hipótese de um pregador muçulmano lhe parecia menos escandalosa do que aos seus pares.

 

Dois anos depois, Benjamin Franklin publicaria no Poor Richard de maio de 1741 uma alfinetada contra a conversão ao Islã, perguntando se seguir Muhammad seria pior do que seguir o Diabo, numa referência aos cativos britânicos e americanos que trocavam de fé nas mãos dos corsários norte-africanos. Nas décadas seguintes, já na França como ministro plenipotenciário, ele recebeu de eruditos europeus um dicionário espanhol-latim-árabe, um tratado sobre a lei sucessória islâmica enviado por Sir William Jones e a Législation orientale de Anquetil-Duperron, livro que contestava a tese corrente do despotismo muçulmano e veio acompanhado de um bilhete dirigido ao ministro da primeira nação livre da América. 

 

O caso mais interessante talvez seja o de 1764. Depois que os Paxton Boys mataram vinte Conestoga pacíficos (o que restava dos Susquehannock, povo que vivia no atual centro-sul da Pensilvânia), em dezembro do ano anterior, Franklin escreveu A Narrative of the Late Massacres como provocação: pegou os muçulmanos, que seus leitores e compatriotas tinham como bárbaros, e os apresentou como exemplo moral. Contou o episódio registrado na vida de Muhammad em que o general Khalid manda executar prisioneiros já rendidos, mas seus soldados se recusam a obedecer e o profeta elogia os homens pela humanidade enquanto chama o comandante de “açougueiro” (butcher). A conclusão seria de que os indígenas assassinados estariam mais seguros entre turcos do que entre vizinhos que se diziam cristãos.

 

Além dele, outros founding fathers foram respeitosos ao Islã, embora não necessariamente no mesmo nível. Thomas Jefferson copiou em 1776 a passagem de Locke segundo a qual nem pagão, nem maometano, nem judeu deveria ser excluído dos direitos civis da comunidade por causa de sua religião, e levou o princípio à lei. O Estatuto da Virgínia para a Liberdade Religiosa, aprovado em 1786, foi descrito por ele na autobiografia como texto de intenção universal, feito para abrigar judeus e gentios, cristãos e maometanos, hindus e infiéis de qualquer denominação. 

 

George Washington fez algo parecido em 1784: ao pedir a um amigo que lhe arranjasse um carpinteiro e um pedreiro para Mount Vernon, avisou que a crença dos trabalhadores lhe era indiferente e que eles podiam vir da Ásia, da África ou da Europa, ser muçulmanos, judeus, cristãos de qualquer seita ou ateus. Quatro anos mais tarde, na convenção de ratificação da Carolina do Norte, o federalista James Iredell respondeu ao temor de que a ausência de teste religioso deixasse pagãos e maometanos chegarem a cargos públicos perguntando como se poderia excluir um grupo qualquer sem destruir o próprio princípio de liberdade religiosa que os presentes diziam defender. 

 

Em todos esses casos o muçulmano aparece como caso extremo, exótico, mas também escolhido justamente por ser o mais difícil de “engolir”, e é aí que a frase de Franklin sobre o mufti encontra seu lugar.

 

Referências

 

FRANKLIN, Benjamin. A Narrative of the Late Massacres, in Lancaster Co. (1764). In: The Writings of Benjamin Franklin, 1906 apud NAZZIEPATERROV. Benjamin Franklin Quoted The Prophet Muhammad (SAW). Teaching Children about Islam in America, 12 nov. 2017. p. 2.

 

FRANKLIN, Benjamin. Autobiography and Other Writings. Edição de Russell B. Nye. Cambridge, MA: Riverside Press, 1958. p. 97 apud SPELLBERG, Denise A. Thomas Jefferson’s Qur’an: Islam and the Founders. New York: Knopf Doubleday Publishing Group, 2013. cap. 1, p. 21-22.

 

LOCKE, John. A Letter Concerning Toleration (1689). p. 50 apud SPELLBERG, Denise A. Thomas Jefferson’s Qur’an: Islam and the Founders. New York: Knopf Doubleday Publishing Group, 2013. cap. 2, p. 75-76.

 

NAZZIEPATERROV. Benjamin Franklin Quoted The Prophet Muhammad (SAW). Teaching Children about Islam in America. [S. l.], 12 nov. 2017. Disponível em: <https://nazziepaterrov.wordpress.com/2017/11/12/1307/>. Acesso em: 21 de agosto de 2026.

 

SPELLBERG, Denise A. Benjamin Franklin and Islam. 2018.

 

SPELLBERG, Denise A. Thomas Jefferson’s Qur’an: Islam and the Founders. New York: Knopf Doubleday Publishing Group, 2013.

 

WASHINGTON, George. Carta sobre a contratação de trabalhadores para Mount Vernon, 1784 apud SPELLBERG, Denise A. Thomas Jefferson’s Qur’an: Islam and the Founders. New York: Knopf Doubleday Publishing Group, 2013. Introdução, p. 6-7.

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