Desde os primórdios do Islã, o que o Alcorão pede é modéstia feminina no vestir e do homem no olhar, estabelecendo um ideal social de respeito muto no aspecto indumentária de ambos os gêneros. Ao longo dos séculos, diversas sociedades muçulmanas adaptaram desde a arquitetura até a moda para atingir estes ideais gradativa e muito lentamente. Mulheres como Khadija, a primeira esposa do Profeta, eram comerciantes que negociavam diretamente com homens, os empregavam e tocavam grandes caravanas, sem que isso fosse tratado como problema ou que fosse fruto de uma “libertação feminina”. O véu que cobre todo o rosto, como em particular niqab ou burqa, nunca foi uma exigência da fé universal para as mulheres, e sim a adesão por algumas culturas muçulmanas de algo que ja existia antes.
No Alcorão, a base textual nos ajuda a entender esse fenômeno. Os versículos mais citados sobre o tema tratam de cobrir o colo e usar um manto por cima da roupa, e o versículo mais forte sobre reclusão, o do “hijab” propriamente dito (33:53), foi revelado num contexto específico, o da casa do Profeta, que funcionava como espaço público. Nada disso equivale a uma ordem de velar o rosto dirigida a toda mulher muçulmana, que mulheres que ainda nao tivesse atendido a estes ideias merecessem violência o morte. E nas décadas após a morte do Profeta, o tema do véu na Arábia ainda era uma evolução orgânica, e as estátuas de estuque do palácio omíada Khirbat al-Mafjar do século VIII ( na atual Jordânia) demonstram isso, representando figuras em trajes comuns as escravas do mundo árabe da época: peitos desnudos com um izar (saia) que cobria da cintura a abaixo dos joelhos, joias e cabelo em estilos elaborados. O véu islâmico (hijab ou khimar), era de uso mais comum entre as mulheres muçulmanas com certo status social nesta primeira fase da civilização islâmica. Temos inclusive as reclamações contemporâneas sobre este tema do traje das servas sendo comentando pelo grande jurista Malik ibn Anas, contemporâneo ao reinado de al-Walid II (r. 743–744), califa construtor do palácio, em desaprovação:
“Ele (Malik) desaprovava fortemente o comportamento das mulheres escravas de Medina em saírem descobertas acima da roupa mais baixa. Ele disse:” Conversei com o sultão (ou seja, governante omíada) sobre isso, mas não recebi resposta.”
O que veio depois foi trabalho de gerações de juristas, cada uma lendo o texto a partir do seu próprio ambiente cultural. Entretanto, essa construção jurídica não foi uniforme e nem simplista. E Ibn Battuta, um dos maiores viajantes da história, é um dos melhores exemplos que poderíamos ter a nossa disposição para esse tema.
Nascido em Tânger em 1304, vinha de uma família da elite religiosa, com tradição de servir como juízes da lei islâmica (qadis), e ele próprio atuou como qadi da escola Maliki. Por carregar essa origem magrebina, sofria choques culturais com certa frequência ao chegar em regiões relativamente recém-convertidas ao Islã há poucos séculos, e mais distantes dos centros islâmicos tradicionais, onde os costumes locais não batiam com o que aprendeu. Três regiões o surpreenderam em especial, dado o modo de vestir: as Maldivas, a Anatólia turca e partes da África subsaariana, que ele considerava “reveladoras” demais.
A Anatólia foi a primeira dessas paradas marcantes. Ibn Battuta a atravessou por volta de 1330-1331, quando a região estava sob domínio turco, herdeira do poder seljúcida e repartida entre os beilhiques turcomanos. Ali ele registrou, com surpresa, o respeito e a posição de destaque das mulheres turcas, que andavam de rosto descoberto. Chegou a comentar que, ao ver um casal, um estranho poderia confundir o marido com um “criado da esposa”. Disse Ibn Battuta:
“Uma coisa notável que vi neste país foi o respeito demonstrado pelos turcos às mulheres, pois elas ocupam uma posição mais digna do que os homens. … Vi também as esposas dos mercadores e [homens] comuns … [Seus rostos são] visíveis porque as mulheres turcas não usam véu. Às vezes, uma mulher está acompanhada de seu marido e qualquer um que o veja o tomará por um de seus servos.”
Por sua vez, o Mali dos Mansa (linhagem do famoso Mansa Musa) foi ainda mais desconcertante para ele. Já em Iwalatan, porta do “país dos negros”, Ibn Battuta observou uma sociedade em que a herança passava pelos sobrinhos por parte de mãe, os homens não sentiam ciúme e as mulheres conviviam livremente com amigos fora da família. No Saara, os homens cobriam o rosto por modéstia, e não as mulheres. Mesmo cumprindo as orações com fidelidade, essas mulheres não demonstravam a modéstia islâmica que ele esperava diante dos homens, nem se cobriam com nada. Era a combinação, estranha a seus olhos, de gente devota no ritual e indiferente a normas que ele considerava parte essencial da religião. Disse ele:
“Estas pessoas são muçulmanas, observam rigorosamente as horas da oração, estudam os livros de jurisprudência e decoram o Alcorão. No entanto, suas mulheres não demonstram acanhamento diante dos homens e não usam véu, embora sejam assíduas nas orações.”
Outro aspecto que o impressionou foi o fato de homens e mulheres manterem amizades normalmente entre si despudoradamente. Conta o viajante:
“Um dia entrei na casa do qadi de Iwalatan depois que ele me autorizou e o encontrei na companhia de uma jovem de beleza maravilhosa. Quando a vi, fiquei em dúvida e quis voltar. Ela riu de mim sem corar. O juiz me disse: ‘Por que você vai embora? Ela é minha amiga.’ Tal comportamento me deixou perplexo…”
Na corte de Mansa Sulayman o contraste foi ainda maior, e seria um choque inclusive para nós nos dias de hoje. Ibn Battuta descreve escravas e até as filhas do sultão circulando nuas diante dos homens, inclusive durante o Ramadã, e conta que na noite 25 viu cerca de duzentas escravas saírem do palácio sem roupa, acompanhadas de duas princesas. Ainda interessante é o oposto do que ocorreria hoje: quando a rainha Qāsā passou a se apresentar velada, de rosto encoberto, isso virou assunto entre os emires. Numa sociedade em que o corpo descoberto era a regra, foi a mulher coberta quem chamou atenção, tal qual é hoje uma mulher muçulmana velada em um país como o Brasil. Na corte de Mansa Sulayman, o véu demonstrou ser a exceção.
Por mais estranho que pareça, há uma explicação para essas populações se verem como muçulmanas e ainda assim ignorarem costumes como o véu. A islamização da África Ocidental se deu por adaptação, encaixando a prática religiosa nas estruturas locais, muitas delas matriarcais. A própria escola Maliki, a mesma de Ibn Battuta, ofereceu instrumentos para essa acomodação, como o reconhecimento do costume (‘urf, em árabe) e a noção de interesse público (maslaha), pela qual “a necessidade torna as coisas proibidas permissíveis”. O resultado foi um Islã que preservava o substrato pré-islâmico sem vislumbrar contradição em atitudes a princípio diametralmente opostas à religião, a ponto de alguns preferirem falar não em islamização do Sahel, mas em africanização do próprio Islã. Hoje, o veu é adotado como determina o Alcorão nesta região, porém, o foi de forma gradual por mil anos.
Passemos para as Maldivas. Lá, Ibn Battuta foi além de mero viajante e observador. Nomeado qadi-chefe de um reino havia pouco convertido do budismo ao Islã, tentou endurecer a aplicação da lei islâmica, mas percebeu que ali as pessoas viam as coisas de modo diferente. Nem a rainha se cobria da cintura para cima, assim como as demais mulheres locais, e o esforço dele para mudar isso simplesmente não vingou.
Essa rainha que não se cobria é a Sultana Khadijah. Filha mais velha de Omar I, chegou ao trono em 1347 e governou as Maldivas por cerca de trinta anos, em três reinados, mesmo tendo sido deposta duas vezes pelos próprios maridos vizires. Ibn Battuta a registrou como uma das maravilhas das ilhas, uma mulher no comando, cujo nome era mencionado no sermão de sexta-feira. Uma soberana muçulmana poderosa e reconhecida, que não usava véu, sob cujo reinado o corpo descoberto seguia sendo costume.
“Uma das maravilhas dessas ilhas é que sua governante (sultana) é uma mulher chamada Khadija… Os habitantes das ilhas Maldivas preferiam Khadija como soberana, e ela era a esposa do orador (khatib) deles, Jamal-ud-din, que se tornou vizir.”
A trajetória de Ibn Battuta evidencia que o uso do véu e a adoção de vestimentas conservadoras nas sociedades muçulmanas não ocorreram de forma imediata ou uniforme forçadamente. Isso, contudo, não é uma relativização, como se o Islã não tivesse o véu como uso obrigatório, dentre outras regras de vestimenta. Longe disso, o intuito é mais simples e realista: o de demonstrar que o mundo islâmico não é e nunca foi um bloco monolítico, como se muçulmanos compartilhassem uma “mentalidade de colmeia”. E também demonstrar que, dizer que grupos radicais islâmicos querem um “retorno a idade media, não passa de pura projeção imaginaria, visto que ate mesmo se estivessem em terras califais pristinas do Islã, se sentiriam deslocados.
A difusão do Islã dependeu de uma constante negociação entre os preceitos teológicos e a identidade local anterior e bem estabelecida das populações nativas. A modéstia “padrão” da religião foi continuamente ressignificada em cada território, permitindo que o Islã se expandisse e se consolidasse sem aniquilar o tecido cultural pré-existente. É por essas e outras razões que, historicamente, vemos sociedades onde as mulheres se cobriam (e ainda se encobrem) mais do que dita a religião, e ao mesmo tempo em outro canto encontrávamos, tal qual encontrou Ibn Battuta, mulheres nuas e de reconhecida devoção.
Referências
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