Longe das representações simplistas que reduzem a arquitetura africana a meras cabanas de palha, a arquitetura hauçá do norte da Nigéria é um dos exemplos mais belos — e menos conhecidos — do patrimônio cultural africano. Influenciada pelo chamado estilo sudano-saheliano, difundido com a expansão do islamismo a partir do século XIII, os habitantes da região passaram a incorporar elementos dessa tradição, que ficou conhecida como Tubali, criando a partir dela, edificações vibrantes, coloridas e ricamente ornamentadas.
Portão do Palácio do Emir de Zazzau. Zaria, Nigéria.
Os hauçás formam o maior grupo étnico da África Ocidental, concentrando-se principalmente nas regiões de savana e do Sahel, entre o sul do Níger e o norte da Nigéria. Eles vivem em países como Gana, Níger, Nigéria e Chade, especialmente nas cidades-estado hauçás, como Kano, Gobir, Zaria e Katsina. Essas cidades formavam uma rede cultural ativa frequentemente referida como Hauçalândia. Antes do advento do islamismo, os hauçás eram pagãos que praticavam o bori, uma religião tradicional animista baseada na adoração ou no controle de espíritos. Com a adesão ao Islã, os que continuaram praticando o bori foram expulsos para as periferias rurais, levando a prática à clandestinidade, embora também tenha ocorrido sincretismo religioso em ambientes urbanos.
Nas cidades e reinos murados onde o islamismo predominou, as tradições arquitetônicas dos hauçás, assim como outras expressões da arquitetura islâmica, foram influenciadas pelos ensinamentos do Islã. Esses ensinamentos incluem valores como discrição, privacidade, modéstia e hospitalidade, que orientam diretamente a construção das casas muçulmanas, a organização dos espaços e as formas de interação social. Por isso, a arquitetura prioriza os espaços internos, a fim de maximizar a privacidade. Costuma apresentar muros altos com poucas e pequenas aberturas, amplos pátios e varandas para acolher visitantes — ao mesmo tempo que separam visitantes masculinos estranhos aos aposentos internos. Além disso, tais elementos funcionam como uma adaptação ao clima, garantindo maiores áreas de sombra, ajudando a controlar a temperatura e reduzindo a intensa radiação do sol, uma adaptação essencial nas regiões quentes e áridas do Sahel.
Casa em Zinder, no Niger.
As coberturas em forma de cúpula têm uma função prática: facilitam o escoamento rápido da água da chuva e ajudam a moderar os efeitos climáticos. Essa também é uma função do Indararo que serve como calha para escoar a água. A variação na quantidade de chuva entre o norte e o sul da Hauçalândia contribuiu para a diversidade dos estilos de telhados, formas e técnicas construtivas. As construções raramente assumem uma forma definida, essa flexibilidade permite a expansão conforme necessário, visto que muitas famílias são polígamas. Uma casa típica hauçá é praticamente duas casas em uma. Ainda assim, existem certas características que são consistentes em qualquer layout, independentemente do tamanho da residência.
A Mesquita de Sexta-Feira de Zaria, construída nos anos 1830 ilustra a tradição histórica da construção religiosa hauçá.
Entre elas, estão o Zaure, a entrada e espaço de recepção principal — e os Zanko, pináculos que ficam nos cantos do telhado. Originalmente, os Zanko eram erguidos como andaimes para auxiliar os construtores a subirem no telhado durante a construção, mas posteriormente foram deixados como decoração, tornando-se um elemento de identificação tão grande que, sem eles, um edifício é considerado um “touro sem chifres”, tornando o funcional em um elemento estético indispensável nas construções. A parte externa da arquitetura tradicional Hausa é composta por três elementos essenciais – Zanko, Rawani e Indararo –cuja função vai além do mero ornamento. Esses elementos carregam forte simbolismo e representam status, espiritualidade, e continuidade da memória cultural. As fachadas das casas, muitas vezes, apresentam formas abstratas que remetem à figura humana, especialmente à representação dos emires — importantes líderes políticos e religiosos na cultura hauçá. Essa abstração costuma incluir elementos como a cabeça, o turbante e a coroa, exercendo uma função tanto artística quanto cultural.
Pequena mesquita em arquitetura tradicional hauçá numa escola em Kano, Nigéria.
As gravuras que preenchem os vazios das fachadas, deixando-as mais atraentes e acolhedoras. Os detalhes são ricos e são projetados por construtores tradicionais, artesãos especializados e gravadores manuais altamente qualificados, que conseguem traçar contornos mínimos diretamente na superfície da parede, pouco antes da gravação. Os motivos coloridos e decorações geralmente demonstram prestígio e riqueza socias dos proprietários do prédio. O uso das cores na arquitetura hauçá também serve como forma de comunicação visual da hierarquia social. Edifícios públicos, como mesquitas, e espaços reais, como palácios, costumam exibir uma paleta mais rica e vibrante do que as residências comuns, sinalizando sua importância dentro da comunidade. Além disso, os diferentes motivos e padrões coloridos carregam significados variados — alguns de caráter sagrado, outros ligados a aspectos sociais e identitários.
Palácio do Emir de Dutse, atualmente localizada no Estado de Jigawa, Nigéria.
Assim, a arquitetura hauçá é uma parte integrante de como o povo hauçá constrói um senso de inter-relação com seu ambiente físico. Mesmo em sua simplicidade, é uma das criações estéticas mais belas e criativas da África, superando, em beleza, muitas construções modernas, marcadas pela monotonia, vidros e pelo cinza. Hoje em dia Kano é a cidade que mais conserva, em sua arquitetura, aspecto geral das cidades medievais da Hauçalândia, quase todas já desaparecidas. Infelizmente o colonialismo contribuiu muito para o desaparecimento e descontinuidade dessa tradição, que ao desvalorizar as expressões locais, interrompeu-se um processo de evolução autônoma que poderia ter levado a soluções arquitetônicas ainda mais sofisticadas e adaptadas ao contexto africano.
Referências
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HARUNA, Ibrahim Abdullahi. Hausa Traditional Architecture. 2016.
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UMAR, Gali Kabir et al. The practice of Hausa traditional architecture: Towards conservation and restoration of spatial morphology and techniques. Scientific African, v. 5, 2019.







