A influência islâmica na roupa da Baiana

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O traje da baiana é, sem dúvidas, um dos principais símbolos da cultura afro-brasileira. Ele é usado tradicionalmente pelas mulheres negras da Bahia e pode ser encontrado também entre as negras do Rio de Janeiro e São Luís do Maranhão. No passado, ele marcou uma visualidade própria da mulher negra brasileira, fosse ela livre ou escravizada. Ele consiste no uso de turbantes, saia comprida e armada, bata rendada, pano da costa e chinelinhas. Muitas vezes, é acompanhado de ricos adornos, como colares, pulseiras, e balangandãs de ouro ou prata.

À primeira vista, pode parecer tratar-se de uma herança exclusivamente africana, mas na verdade uma análise mais aprofundada revela outras influências, como a árabe e islâmica, que chegou através dos negros islamizados que vieram para o Brasil. Outro engano comum é o uso de termos reducionistas, como ‘influência negra’, ao tratar das nossas heranças culturais. Muitas vezes, esses termos são influenciados pelo racialismo do século XIX, que classificava povos e culturas com base na cor da pele, sem considerar sua etnia.

A herança africana na cultura brasileira é complexa, englobando uma diversidade de povos e etnias, tão distintas entre si quanto um português é de um libanês ou de um alemão. Entre os africanos trazidos ao Brasil estavam os iorubás, hauçás, bacongos, angolas, ovimbundos, fulas, ouolofes, mandingas, entre outros, que, por meio de um intenso intercâmbio cultural, formaram uma nova cultura de raízes africanas, comumente chamada de ‘cultura crioula’ ou ‘afro-brasileira’. Embora esses termos não sejam incorretos, quando usado de forma simplificada pode obscurecer a riqueza das diferentes etnias africanas que chegaram ao Brasil e deixaram marcas visíveis até os dias de hoje.

Essa vestimenta é um exemplo de como essas diversas culturas se fundiram no Brasil pois carrega influências iorubas, angolano-congolesas e dos negros muçulmanos, principalmente da etnia hauçá. Embora os últimos sejam lembrados apenas por levantes populares como a Revolta dos Malês, os negros islâmicos tiveram um papel cultural notável no Brasil Imperial, nesse período a cidade de Salvador chegou a abrigar uma das maiores comunidades islâmicas do Novo Mundo. Entre 1800 e 1850, estima-se que cerca de 15% a 20% dos africanos na região eram muçulmanos. Eles foram responsáveis por introduzir muitos traços da cultura árabe entre os afro-brasileiros, dos quais se refletiram na vestimenta típica da baiana.

Sem desconsiderar a influência dos africanos centrais (bantos), é necessário destacar que a figura da baiana tem origem, sobretudo, na África Ocidental. De acordo com Pierre Verger, a maioria dos africanos trazidos para a Bahia durante o século XVIII era oriunda da Costa da Mina e, posteriormente, no século XIX, da Baía de Benim — o que explica a predominância da influência da África Ocidental, especialmente da região que hoje corresponde à Nigéria.

Mapa de Domingos Teixeira representa a Costa da Mina em detalhes. Século XVI.

Introduzidos com a escravidão, os hauçás e os iorubás (nagôs) foram os que mais influenciaram a formação da roupa típica da baiana. O turbante, reconhecidamente afro-islâmico, chegou ao continente africano por meio das rotas comerciais com o mundo árabe. Na África, ele era usado principalmente para proteger a cabeça do forte sol dos desertos e de outras regiões quentes do continente. As chinelinhas de ponta curvada (marroquins), usadas pelas baianas, assim como as batas longas com bordados manuais, também são referências islâmicas.

As batas (Camisú) são largas, soltas e não marcam o corpo da mulher, seguindo os princípios de vestimenta defendidos no Alcorão. Outra reminiscência que pode passar despercebida é o costume de vestir-se de branco às sextas-feiras, tradição islâmica associada à oração comunitária, que foi incorporada no Brasil pelos escravizados muçulmanos e posteriormente adaptada pelas religiões afro-brasileiras, como o candomblé, em reverência a Oxalá — também cultuado nesse dia. Com o tempo, essa prática se espalhou e foi assimilada por grande parte da população de Salvador.

Já a presença iorubá se manifesta especialmente nos tecidos vistosos, nos xales de pano da costa, nas saias rodadas, braceletes e grandes argolas. Nina Rodrigues afirma categoricamente que os nagôs foram o grupo africano mais numeroso e influente na Bahia, a ponto de o iorubá ter se tornado uma espécie de língua franca entre os negros. O tradicional pano da costa, por exemplo, tem suas raízes na antiga tradição africana de tecelagem manual, e seu nome remete diretamente à Costa Ocidental da África. Parte da população iorubá também era muçulmana, o que favoreceu essa síntese cultural. Já as missangas e os balangandãs revelam influências tanto angolano-congolesas quanto iorubás, incorporando elementos talismânicos de proteção espiritual.

Mina Nagô. Augusto Stahl, 1865. Instituto Moreira Salles

Importante notar que apesar de determinados padrões, o traje da baiana não segue um modelo único. Ele foi ganhando variações influenciadas por diferentes fatores, como a época, os materiais disponíveis para a confecção, a posição social da mulher que o vestia e a quantidade e o tipo de adornos usados. Esses elementos não só compunham o visual, mas também revelavam muito sobre a condição econômica da mulher que os usava.

A explicação para a preservação da indumentária baiana reside no papel da mulher negra na sociedade. Entre os negros da África Ocidental, as mulheres exercem um papel importante, fundamentado no matriarcalismo. Por aqui, diferentes formas de matriarcado existentes e praticadas no continente africano foram recriadas na diáspora brasileira, por meio de relações comerciais, sociais e religiosas. Um exemplo são as negras de ganho, que se vestiam “à baiana”. Assim, dois fatores foram decisivos para a fixação dessa tradição através das gerações: o papel socioeconômico da mulher negra e seu papel religioso. O trabalho e a religião sempre estiveram envolvidos no traje da baiana. A “baiana” também é um uniforme profissional: são vendedoras de doces como bolinhos de tapioca, cocada, cuscuz, bolo de milho, entre outros. Quanto ao costume religioso, podemos observar a indumentária no candomblé e na umbanda; isso é notável principalmente nas festas do Senhor do Bonfim, em Salvador.

Escrava de ganho. José Christiano de Freitas Henriques Júnior, 1864. Museu Histórico Nacional: BR RJMHN AV-V-872V (036.644).

Por fim, o traje da baiana é resultado de uma herança vinda de várias Áfricas que chegaram ao Brasil e aqui se fundiram. Nele, a tradição africana se entrelaçou com influências árabes e islâmicas, todas reinterpretadas na realidade colonial brasileira. Mais do que uma simples vestimenta, o traje é símbolo de resistência cultural, adaptação criativa e da profunda identidade das mulheres afro-brasileiras, que, com seus panos, adornos e símbolos, mantêm viva uma história que atravessou oceanos e séculos.

Referências

RAMOS, Arthur. Introdução à antropologia brasileira: v. As culturas não-européias. Casa do Estudante do Brasil, 1943.

LOPES, Nei. Enciclopédia brasileira da diáspora africana. Selo Negro Edições, 2014.

VERGER, Pierre. Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos.

São Paulo: Corrupio, 1987.

VIANA, Fausto; BORGES, Maria Eduarda Andreazzi. O traje de baiana do carnaval: um cadinho cultural. Revista INTERFACES, v. 30, n. 1, p. 82-99, 2020.

CORREIO DA BAHIA. Salvador também é árabe: acarajé, cuscuz, vestir branco na sexta-feira… confira. Correio 24 Horas, Salvador, 2 abr. 2015.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro. São Paulo: Editora Global, 2004.

RIBEIRO, Joaquim. Folclore baiano. 1956.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835, 2003.

MONTEIRO, Juliana; FERREIRA, Luzia Gomes; FREITAS, Joseania Miranda. As roupas de crioula no século XIX e o traje de beca na contemporaneidade: símbolos de identidade e memória. Mneme-Revista de Humanidades, v. 7, n. 18, 2005.

BORGES, Manuela. Ogum, Orfeu e Anastácia: gênero no discurso e práticas culturais dos grupos culturais negros em Salvador, Bahia, Brasil: um estudo de caso: A escola de música  e dança Didá. III Simpósio internacional do Caribe. Goiânia, out. de 2004.

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