Com frequência, o a percepção ocidental tende a enxergar o tal “mundo islâmico” como um bloco político e religioso monolítico e uniforme, uma visão simplista que ignora a vasta diversidade de sistemas de governo que coexistem entre as nações de maioria muçulmana. Todas são “teocracias islâmicas”.. Em verdade, o próprio termo “mundo islâmico” é por si só bastante problemático, conforme a análise de Cemil Aydin em sua obra The Idea of the Muslim World (2017). A noção de um mundo muçulmano unificado, com uma identidade e um destino político coletivos, não é um conceito antigo e intrínseco ao Islã, mas sim uma invenção moderna. Aydin argumenta que essa ideia, embora frequentemente confundida com o conceito tradicional de ummah (comunidade islâmica, isto é, a comunidade de fiéis), na verdade começou a se desenvolver no final do século XIX, consolidando-se na década de 1870.
Para Cemil Aydin, o surgimento da ideia de um “mundo muçulmano” está diretamente ligado à globalização e à racialização do Islã. Durante o auge da hegemonia europeia, discursos sobre a inferioridade racial muçulmana tornaram-se comuns. Em resposta, intelectuais e líderes muçulmanos desenvolveram argumentos em favor da solidariedade pan-islâmica como forma de contestar essa inferioridade. Durante esse processo, a identidade muçulmana foi transformada em uma tradição religiosa universal e uniforme, tornando-se uma força na política internacional e um objeto distinto no discurso das civilizações, lado a lado com um “Ocidente” igualmente construído.
“Em outras palavras, o mundo muçulmano chegou com a globalização imperial e sua concomitante ordenação da humanidade por raça. A racialização do Islã esteve ligada à sua transformação em uma tradição religiosa universal e uniforme, uma força na política internacional e um objeto distinto no discurso das civilizações” (AYDIN, 2017, p. 16).
A persistência dessa ideia geopolítica até os dias atuais não é, segundo o autor, um resultado de uma história compartilhada ou de uma ideologia imutável dentro das sociedades muçulmanas. Pelo contrário: é uma função das narrativas civilizacionais e geopolíticas criadas nos encontros entre as sociedades muçulmanas e os impérios europeus, e que foram posteriormente reconfiguradas de acordo com as exigências de novos contextos, como a Guerra Fria, tendo como pico na verdade a Primeira Guerra Mundial.
Aydin conclui que as narrativas a-históricas atuais sobre o “mundo muçulmano” e o Ocidente ignoram o contexto político em que essas categorias nasceram: o império. A necessidade de preservar fronteiras imperiais, manter alianças estratégicas e buscar um ideal cosmopolita de direitos e dignidade dentro e através dos impérios foi o que moldou esse conceito. Mais do que qualquer interpretação “fundamentalista” do Islã, foi a “identidade muçulmana” construída no diálogo entre orientalistas europeus e modernistas muçulmanos que criou as atuais obsessões com textos islâmicos, desconectados de um milênio de diversa experiência religiosa e política [1].
A tese contida no livro de Aydin é de extrema valia para o artigo que hoje apresentamos: a diferença na estrutura política entre alguns dos principais países islâmicos, que em uma análise mais detida também refuta a noção de “mundo islâmico” como um bloco monolítico, como se muçulmanos e Estados muçulmanos fizessem parte de uma grande colmeia onde todos pensam ou agem de maneira uniforme, a tal “hive mind”.
Este mapa foi extraído do livro “The Moslem World”, do missionário protestante americano Samuel Zwemer, Movimento de Estudantes Voluntários para Missões Estrangeiras, Editora da Igreja Metodista Unida, Sul, 1908. Ele mostra a conceituação do Mundo Muçulmano como uma unidade geopolítica, apesar da consciência de que as sociedades muçulmanas eram governadas por vários impérios, principalmente europeus.
Para isso, analisaremos detalhadamente as estruturas políticas do Irã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, um verdadeiro mosaico de modelos que vão desde repúblicas “teocráticas” e monarquias absolutistas até democracias presidenciais, cada um moldado por sua história, cultura e interpretação religiosa únicas.
Comecemos pelo Irã.
O sistema político iraniano é frequentemente mal compreendido como uma teocracia pura, ou seja, um governo regido diretamente por Deus. Esse é, na verdade, um estereótipo típico no Ocidente secular a respeito de governos regidos por valores religiosos.
Em uma análise mais profunda, como a de Reza Aslan, sugere que o país opera mais como uma “mulácracia” (mullahcracy), um governo dos clérigos. Embora a Constituição da República Islâmica do Irã incorpore elementos de um Estado moderno, com algumas liberdades fundamentais de expressão, religião e educação, a estrutura de poder demonstra que a autoridade divina é, na prática, secundária ao poder da oligarquia clerical que governa o país. Segundo o autor: “Mas o Irã não é, na verdade, uma teocracia. Uma teocracia sugere o governo de Deus e, como qualquer iraniano lhe dirá, Deus está visivelmente ausente no Irã.”
A base do sistema iraniano é o conceito de Velayat-e Faqih, ou a “Tutela do Jurista”. Este princípio estabelece que, na ausência do Imã Oculto, a liderança da nação cabe a um jurista islâmico justo e piedoso, conhecido como o Líder Supremo. A Constituição iraniana é, portanto, um híbrido que combina elementos teocráticos, onde a soberania final em tese pertence a Deus, com elementos democráticos, como eleições populares para a presidência e o parlamento. Contudo, todos os procedimentos democráticos estão subordinados à autoridade do Líder Supremo e do Conselho dos Guardiões, que irão debater com vários setores eleitos da sociedade os rumos do país, que podem ou não estar de acordo com as diversas interpretações da jurisprudência xiita.
No início dos anos 1970, o aiatolá Ruhollah Khomeini realizou uma série de palestras sobre a necessidade da Tutela do Jurista em uma governança islâmica – publicando, inclusive, um livro chamado “Governo Islâmico: a Tutela do Jurista” em 1970, amplamente difundido entre seus apoiadores e central para a revolução.
Em contraste direto com o modelo iraniano, a Arábia Saudita funciona como uma monarquia absolutista, onde o poder político está concentrado nas mãos do Rei, que atua como chefe de Estado e de governo. O sistema se baseia em linhas islâmicas tradicionais, e as decisões são tomadas após consulta entre o Rei, o Conselho de Ministros, sábios islâmicos e dentre outros membros da elite da sociedade saudita. A legitimidade do governo e a estrutura legal do país, por sua vez, derivam diretamente em aplicar o conceito do Alcorão e da Suna, na interpretação wahabita, que são considerados a constituição de fato do reino, embora a interpretação dos textos sagrados esteja submetida a uma linha exegética muito específica predominante no país.
A dinâmica de poder na Arábia Saudita é dominada pela vasta família real, a Casa de Saud, cujos membros ocupam os postos mais importantes do governo, garantindo uma presença em todos os níveis da administração pública. A participação política fora da família real é extremamente limitada e não há eleições nacionais ou partidos políticos. Este sistema garante que a influência e o controle permaneçam firmemente dentro da linhagem real, com poucas vias para a participação política da população em geral.
Rei Salman ibn Abdulaziz preside sessão de gabinete em Riade.
Os Emirados Árabes Unidos apresentam um terceiro modelo, distinto tanto do Irã quanto da Arábia Saudita. O país não é uma monarquia absolutista e nem uma república de juristas, mas sim uma federação de sete monarquias constitucionais. Cada emirado (Abu Dhabi, Ajman, Dubai, Fujairah, Ras al-Khaimah, Sharjah e Umm al-Quwain) é governado por seu próprio monarca, e juntos, esses sete governantes formam o Conselho Supremo Federal, a mais alta autoridade do país. Apesar de sua estrutura federativa única e de seu sistema constitucional (ou semi-constitucional).
Presidente dos Emirados Árabes Unidos, ao centro, Mohamed bin Zayed, e demais emires do país.
Já a Indonésia, a nação de maioria muçulmana mais populosa do mundo, oferece o mais forte contraponto à ideia de um mundo islâmico politicamente homogêneo, visto não se tratar de uma monarquia. O país é uma república democrática presidencial e representativa, com um sistema multipartidário, sendo o mais parecido da lista com o sistema brasileiro (guardadas as devidas proporções e diferenças, evidentemente).
O Presidente da Indonésia é simultaneamente chefe de Estado e chefe de governo, eleito diretamente pelo povo, e o poder executivo é exercido pelo governo, enquanto o poder legislativo é investido tanto no governo quanto na Assembleia Consultiva do Povo.
A democracia indonésia, no entanto, enfrenta seus próprios desafios, que paradoxalmente a assemelha e diferencia das demais democracias globais. Após a era autoritária de Suharto, o período de “Reformasi” (Reforma) inaugurou um ambiente político mais aberto. Contudo, o sistema é frequentemente descrito como uma “democracia de apadrinhamento” (patronage democracy), na qual os recursos do Estado são distribuídos entre os partidos políticos para formar coalizões de governo. Embora enfraqueça as instituições e a responsabilidade com as contas públicas, esse sistema serve como um poderoso incentivo para o compromisso e a cooperação entre diferentes forças políticas.
Prabowo Subianto é o oitavo e atual presidente indonésio.
Como podemos ver, embora alguns desses países possuam semelhanças notáveis, há determinados momentos em que eles não poderiam ser mais distintos. Em que pese compartilhem o Islã como religião, até nisso haverá divergências, vide a rivalidade histórica entre sauditas e iranianos, sendo o primeiro wahabita e o segundo xiita. Muito embora xiitas e sunitas não devam ser classificados como “grupos rivais” tal qual católicos e reformados no século XVI, não há espaço para ignorar que existem diferenças fundamentais na interpretação da religião islâmica e consequentemente no modelo político instaurado em seus respectivos países.
Poderíamos ir mais além e nos aprofundarmos na formação histórica de cada país, como a revolta Wahhabista na Arábia Saudita, a Revolução Islâmica no Irã e até mesmo os conflitos entre comunistas e anticomunistas na Indonésia, que levaram o general Suharto ao poder de forma similar ao ocorrido no Brasil em 1964. Resumindo, cada país possui sua formação histórica, cultural e política, estando inserido num contexto único apesar de compartilharem a mesma fé. E só colocamos aqui nesta análise 4 países de maioria muçulmana, que são dezenas, e cada um com seu sistema político único.
A simplificação e redução grosseira desses países a mero pertencentes de um “mundo islâmico” em abstrato, e pior, simplesmente teocrático, seria o mesmo que comparar o Brasil com a Inglaterra e a Itália ao mesmo tempo, afinal todos possuem um passado cristão e são “democracias”. Nesse caso, não importaria o histórico anglicano da Inglaterra, nem nossa colonização por Portugal e não pela Itália, apenas a crença comum em Jesus, sendo possível ignorar o que nos distingue e nos torna verdadeiramente únicos.
Notas
[1] Nas palavras do próprio autor: “More than Wahhabi and other fundamentalist interpretations of Islam, it was the Muslim-ness constructed in the conversation between European Orientalists and Muslim modernists that created current obsessions with Islamic texts, cut off from a millennium of diverse Muslim religious and political experience.” (AYDIN, 2017, p. 231).
Tradução: “Mais do que as interpretações wahabitas e outras interpretações fundamentalistas do Islã, foi a identidade muçulmana construída na conversa entre orientalistas europeus e modernistas muçulmanos que criou as obsessões atuais com textos islâmicos, separados de um milênio de experiências religiosas e políticas muçulmanas diversas.”
Referências
ABRAHAMIAN, Ervand. A History of Modern Iran. Cambridge University Press, 2008.
AL-RASHEED. Madawi. A History of Saudi Arabia. Cambridge University Press, 2010.
AMANAT, Abbas. Iran: A Modern History. Yale University Press, 2017.
ASLAN, Reza. From Here to Mullahcracy, or, Iran Is Not a Theocracy. Beacon Broadside, 2020. Disponível em: <https://www.beaconbroadside.com/broadside/2020/01/from-here-to-mullahcracy-or-iran-is-not-a-theocracy.html>. Acesso em: 04 de agosto de 2025
AYDIN, Cemil. The Idea of the Muslim World: A Global Intellectual History. Harvard University Press, 2017.
KRANE, Jim. Energy Kingdoms: Oil and Political Survival in the Persian Gulf. Columbia University Press, 2019.
O’ROURKE, Kevin. Reformasi: The Struggle for Power in post-Soeharto Indonesia. Allen & Unwin, 2010.








