A Catedral de Mostar – uma história de tolerância, violência e harmônia

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A Catedral da Santíssima Trindade em Mostar, na Bósnia e Herzegovina, é muito mais do que um marco arquitetônico ou um amontoado de “tijolos”: ela é um testemunho vivo das complexas camadas da história balcânica, região de experiências intensas que não podemos resumir a meros conflitos. Dito isso, a própria existência e trajetória da Catedral, desde a fundação em solo otomano com o patrocínio do próprio Sultão até sua destruição deliberada durante a guerra da década de 1990 e sua subsequente reconstrução, é um marco físico e imponente de como a história é muito mais nuançada do que somos levados a crer, não sendo em “preto e branco” como em filmes de super-heróis. 

A construção da monumental catedral ortodoxa sérvia, entre 1863 e 1873, foi consequência direta de um período de profundas reformas no Império Otomano. As reformas Tanzimat, iniciadas em 1839, visavam modernizar o império e garantir maior igualdade entre seus súditos, independentemente da religião. Foi essa política imperial que facilitou a revitalização cultural e religiosa de diversas comunidades, incluindo a sérvia ortodoxa, permitindo, após séculos de restrições, a construção de edifícios monumentais como a catedral em Mostar.

O apoio otomano à construção da catedral não se limitou a uma permissão. O próprio terreno onde a igreja foi erguida foi doado por Omar Lütfi Pasha, um marechal de campo e governador otomano da época. A história de Omar Pasha é, por si só, um emblema da complexidade otomana: ele nasceu em uma família cristã sérvia ortodoxa e, mais tarde, converteu-se ao Islã, ascendendo a uma das mais altas posições militares do império. 

Omar Pasha em 1855.

Além da doação do terreno, a construção recebeu um apoio financeiro direto e substancial do mais alto poder do Império Otomano. O Sultão Abdul Aziz, que reinou de 1861 a 1876, contribuiu pessoalmente com 100.000 kuruş (moeda da época) para o projeto. Este ato de patrocínio de um califa muçulmano à construção de uma das maiores igrejas ortodoxas dos Bálcãs desmantela o mito de uma história monocromática, como mencionamos no começo do texto, bem como a ideia de que sob um Estado muçulmano prevalece a opressão e hostilidade ao cristianismo.

Igreja no início do século XX.

Projetada pelo proeminente arquiteto Andrey Damyanov, a catedral serviu como sede da Eparquia da Zahumlje e Herzegovina de 1873 até sua destruição. Durante mais de um século, sua presença imponente na paisagem de Mostar foi um símbolo da proeminência da comunidade sérvia ortodoxa, dividindo espaço com outros templos importantes como mesquitas e igrejas católicas.

É possível ver a igreja ao fundo desta fotografia do final do século XIX.

Entretanto, este símbolo de coexistência foi tragicamente aniquilado em 1992, durante a primeira fase da Guerra da Bósnia. A catedral foi sistematicamente destruída em meio aos intensos confrontos entre as forças bosníacas e croatas (quando ainda formavam uma aliança) e as forças sérvias. Em junho daquele ano, a igreja sofreu extensos danos por bombardeios, e no dia 15 de junho, sua torre sineira foi deliberadamente demolida, o templo foi incendiado e, por fim, a estrutura foi minada com explosivos. A tensão étnica e religiosa durante a guerra era imensa, e todo monumento e construção associada a uma dessas identidades era visada como alvo de destruição. São inúmeros os casos de mesquitas e igrejas católicas e ortodoxas destruídas nesta guerra – um ódio interétnico que visava apagar a marca cultural e histórica de diferentes povos na Bósnia.

Imagens da igreja pegando fogo em junho de 1992.

A narrativa da Guerra na Bósnia frequentemente simplifica a história balcânica como um conflito quase que ancestral entre cristãos e muçulmanos. No entanto, o caso da Catedral de Mostar revela o exato oposto do que narrativas simplistas nos querem levar a crer: um líder muçulmano (o próprio Sultão) e um convertido ao Islã (Omar Pasha) foram fundamentais para sua construção, enquanto forças cristãs (católicos croatas) estiveram envolvidas no contexto de sua destruição.

Após a guerra, um esforço hercúleo dos habitantes locais foi levado a cabo para reconstruir a catedral, obra essa que começou por volta de 2010, ou seja, quase 20 anos depois de sua destruição. Restaurando o espírito ecumênico que motivou sua criação, a prova mais tocante desse novo espírito veio na forma de um presente mais que especial: três grandes relógios para a torre da igreja, doados por três amigos que pediram para permanecer anônimos: um muçulmano bosníaco, um católico croata e um sérvio ortodoxo.

Cada um dos relógios apresenta numerais diferentes, arábicos, romanos e eslavos, para simbolizar cada fé em harmonia.

Para simbolizar a harmonia entre as fés, cada um dos três relógios apresenta numerais diferentes: um com numerais árabes, outro com romanos e o terceiro com eslavos (cirílicos). É um gesto simbólico, mas claramente muito significativo e que faz alusão ao passado de convivência entre essas três grandes religiões, não podendo ser manchado ou desfeito por tiranos e opressores. A destruição da catedral em tempos modernos e sua reconstrução sob a cooperação das três principais fés da região mostram que as verdadeiras rupturas nem sempre são necessariamente entre religiões, mas entre ideologias de coexistência e ideologias de exclusão, bem como pessoas dispostas a insistir nas diferenças e ignorar as semelhanças.

Catedral da Santíssima Trindade em restauração em Mostar, Bósnia-Herzegovina, 19 de janeiro de 2021. (Foto AA)

Referências

ANADOLU AGENCY. Bosnian Orthodox church built on Ottoman land symbolizes peace, unity. Anadolu Agency, 20 jan. 2021. Disponível em: <https://www.dailysabah.com/life/religion/bosnian-orthodox-church-built-on-ottoman-land-symbolizes-peace-unity>. Acesso em: 29 ago. 2025.

OKILJ, Milijana; MALINOVIĆ, Miroslav. Cathedral Church of Holy Trinity in Mostar – history of its building and rebuilding. Hercegovina Serija 3 časopis za kulturno i povijesno nasljeđe, v. 9, p. 237-256, set. 2023. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/373900813_Cathedral_Church_of_Holy_Trinity_in_Mostar_-_history_of_its_building_and_rebuilding>. Acesso em: 29 ago. 2025

RUGGLES, D. Fairchild. On Location: Heritage Cities and Sites. Springer Science & Business Media, 19 de nov. de 2011.

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