Como Theodor Herzl explorou o temor cristão medieval ao domínio muçulmano de Jerusalém para promover o sionismo na Europa

Facebook
Twitter
WhatsApp

Texto de Shokoofeh Rajabzadeh, publicado originalmente na Acacia Magazine.

Novembro de 2026 marca mais de três anos do genocídio em curso perpetrado por Israel em Gaza. Como ativista e estudiosa de literatura especializada em islamofobia pré-moderna, testemunhar essa destruição me assombra, e não apenas devido ao desprezo abjeto pela vida humana. Desde o século XIV, os cristãos europeus fantasiavam com violência e conquista em suas histórias mais populares. Hoje, os sionistas estão concretizando essas fantasias. A criação do Estado de Israel em território palestino não apenas resolveu a “Questão Judaica”, levantada pelo pai fundador do sionismo, Theodor Herzl, como também concretizou um sonho iniciado pela cristandade latina séculos atrás, com as Cruzadas: libertar Jerusalém dos governantes muçulmanos.

Em abril, durante um evento do “Dia da Independência” em um assentamento na Cisjordânia, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, afirmou: “As profecias de consolo já não são um sonho, mas a vista da janela… Não estamos apenas lendo as profecias, temos o privilégio de ser a geração que as cumpre.” A profecia à qual ele se refere é o estabelecimento de Israel em território palestino. O que o cumprimento dessa profecia tem significado é o assassinato de 74 mil palestinos em Gaza, dos quais 21 mil são crianças, apenas nos últimos três anos. Não resta uma única universidade de pé em Gaza.

Durante séculos, a terra da Palestina esteve ligada a fantasias e profecias. No século XI, o Ocidente cristão latino acreditava que era vontade de Deus que a Palestina fosse entregue aos cristãos. Por isso, instigaram as “Cruzadas”. Essa tentativa fracassou. Séculos mais tarde, o Ocidente cristão encontrou uma esperança renovada no sionismo, com a ideia de que a Terra Santa seria “uma terra sem povo para um povo sem terra”. No século XX, Herzl, um jornalista e advogado judeu húngaro, utilizou a promessa de uma pátria judaica como uma poderosa estratégia em sua defesa da causa. Em um diário que manteve entre 1895 e 1904, refletiu sobre encontros com líderes mundiais e redigiu cartas destinadas a políticos, generais e chefes de Estado. Em suas páginas, podemos observar como o sionismo combinou a profecia judaica de uma pátria com as fantasias cristãs das Cruzadas em uma campanha para substituir os muçulmanos como governantes da Terra Santa.

II.

Herzl nasceu em 1860, em Budapeste, filho de pais de língua alemã. Aos dezoito anos, mudou-se para Viena, onde, de 1891 a 1895, foi correspondente do Neue Freie Presse, um jornal liberal vienense. Como jornalista, acompanhou de perto o caso Dreyfus — a condenação injusta de um capitão judeu na França — e o considerou parte de um padrão mais amplo de antissemitismo em Viena. Em 1896, publicou o panfleto Der Judenstaat (O Estado Judeu) — uma defesa e uma visão para a criação de um Estado judeu. Apenas um ano depois, organizou o primeiro Congresso Sionista, na Basileia.

Herzl usava uma longa barba preta e um bigode tão bem cuidado que suas pontas se curvavam para cima e para fora. Apesar de ser considerado o político mais conhecido do sionismo em seus primórdios, Herzl revelou em seu diário que “preferia muito mais a literatura à política”. Escreveu um romance, ensaios de viagem e peças de teatro. Várias de suas peças chegaram a ser encenadas. Em seu diário, escreveu que, sempre que “encontrasse alguém a quem [ele] quisesse agradar”, “imporia [seus] escritos a [essa pessoa]”. Herzl faleceu em 1904, muito antes da Nakba de 1948, mas a ele é atribuído o mérito de ter dado início ao projeto colonial de Israel.

Para estudiosos como eu — interessados na forma como contadores de histórias e políticos manipulam a retórica para promover o colonialismo —, o diário de Herzl é indispensável. Tem quase 2 mil páginas e inclui os rascunhos de milhares de cartas que Herzl enviou a líderes mundiais defendendo o sionismo. Sua extensão e abrangência reforçam ainda mais o que os estudiosos palestinos afirmam: o sionismo não começou com o Holocausto, mas foi um projeto proativo que exigiu esforços incessantes de convencimento muito antes da Segunda Guerra Mundial. Em carta após carta dirigida a chefes de Estado, imperadores, sultões, reis, ministros das Relações Exteriores, ao papa e a outras autoridades, Herzl defendeu a criação de uma pátria judaica. Foi persistente. Em muitas cartas, solicitou que o apresentassem a outros líderes, a quem também pudesse defender a ideia de uma pátria judaica.

Herzl recorreu a diferentes estratégias para convencer seus interlocutores dos benefícios do sionismo — por vezes, descrevendo-o como um “movimento legítimo” com “objetivos humanitários”. Também mencionava frequentemente que a criação de uma pátria judaica proporcionaria incentivos monetários ou financeiros aos destinatários de suas cartas. Mas talvez sua estratégia retórica mais calculada, e ainda assim mais ignorada, tenha sido o uso da expressão italiana “Gerusalemme Liberata”. Jerusalém Libertada.

Em uma carta a Alexander Kireyev, um general russo, Herzl escreveu: “Estou profundamente envolvido com o sofrimento de meus irmãos, mas não como um chauvinista ou um fanático de mente estreita. Isso talvez fique evidente em meu plano de conceder extraterritorialidade aos lugares sagrados, tornando-os res sacrae extra commercium gentium [lugares sagrados acima do comércio das nações]. Isso seria um grande símbolo; e sonhos muito antigos seriam realizados. La Gerusalemme liberata.”

Com essa invocação, Herzl estava despertando a fantasia medieval do Ocidente cristão e os “sonhos muito antigos” dos cruzados. Na verdade, é como se Herzl tivesse retomado a narrativa de onde os textos medievais a haviam deixado. Em 1095, o papa Urbano II organizou o que ficou conhecido como Concílio de Clermont, um encontro de cerca de 300 clérigos. Ali, mobilizou os religiosos para dar início a uma série de expedições militares que hoje conhecemos como as Cruzadas. Convocou os cristãos do Ocidente a seguir para o Oriente, a fim de defender e apoiar os cristãos bizantinos na reconquista de Jerusalém das mãos dos muçulmanos. Pouco se sabe sobre esse encontro de dez dias, mas um discurso proferido por Urbano II no último dia foi registrado repetidamente nos relatos escritos de vários clérigos; é lembrado como aquele que mobilizou e incitou os soldados a dar início à Primeira Cruzada.

Perto do final do discurso, Urbano II teria dito: “Esta cidade real, portanto, situada no centro do mundo, encontra-se agora cativa de Seus inimigos e está submetida àqueles que não conhecem Deus, ao culto dos pagãos. Por isso, ela busca e deseja ser libertada e não cessa de implorar a vocês que venham em seu auxílio.” Oitocentos anos depois, em 1903, Herzl posicionou deliberadamente a si mesmo e ao movimento sionista em uma identidade diaspórica mais ampla, compartilhada entre judeus e cristãos: uma visão comum de quem está fora de Jerusalém, olhando para a cidade com saudade e preocupação.

Não importava quem governaria Jerusalém. O que importava, como Herzl deixou claro, era que a diáspora judaica e os cristãos fossem “irmãos” em seu sonho comum de libertar Jerusalém do domínio árabe e muçulmano. O que importava era que os sionistas judeus e seus irmãos cristãos tinham um inimigo em comum. A história na qual tanto Herzl quanto Kireyev estavam envolvidos começou com as Cruzadas, mas, segundo Herzl, provavelmente terminaria com o sionismo. Após oitocentos anos, “Gerusalemme Liberata”, prometeu Herzl. Jerusalém libertada!

A história das Cruzadas não terminou com Urbano II e o Concílio de Clermont. Tampouco terminou com as próprias expedições militares. Entre 1095 e 1903, quando Herzl escreveu essa carta, as Cruzadas haviam se transformado em lenda. Foram ficcionalizadas e sensacionalizadas. E, mais importante ainda, foram alvo de revisionismo histórico. É por isso que Herzl conseguiu escrever sobre a “libertação” de Jerusalém como se fosse inevitável.

Embora nenhum grupo cristão tenha jamais “reconquistado” permanentemente a Terra Santa ao longo da história, os relatos populares das Cruzadas incentivavam os cristãos a fazer exatamente isso. Na Inglaterra, as expedições das Cruzadas foram reinterpretadas e recontadas de tal forma que aquilo que havia sido um fracasso da cristandade latina na história se transformou em uma demonstração da superioridade cristã inglesa na ficção. Protagonistas que eram cavaleiros valentes — Bevis, em Sir Bevis de Hampton, e Guy, em Sir Guy de Warwick — partiam da Inglaterra e viajavam para o Oriente, matavam milhares de muçulmanos pelo caminho e, por fim, estabeleciam o domínio cristão em Jerusalém. Essas histórias estavam entre as mais populares da Idade Média. As aventuras e expedições coloniais a Jerusalém eram enriquecidas com donzelas em perigo, aventuras cavalheirescas, gigantes armados com porretes, anéis mágicos e muito mais. Circulavam tanto como relatos históricos quanto como entretenimento.

Essas obras de ficção permaneceram populares até muito depois, chegando à época de Herzl. Por exemplo, em 1825, Sir Walter Scott publicou The Talisman, o segundo livro de uma série intitulada Contos dos Cruzados. A obra narrava a história de Saladino e Ricardo Coração de Leão, inspirando-se em uma narrativa sobre as Cruzadas do século XIV, Richard Coer de Lyon.

A tradição das Cruzadas fez mais do que oferecer a Herzl uma conexão entre o sionismo e as Cruzadas. Proporcionou aos primeiros sionistas um público cristão já predisposto contra os muçulmanos em Jerusalém. A libertação de Jerusalém era apresentada incessantemente como uma solução para os muçulmanos retratados como desordeiros, desorientados, traiçoeiros e imundos, que desrespeitavam a santidade da cidade. O estereótipo islamofóbico mais recorrente no contexto das Cruzadas diz respeito à relação dos muçulmanos com a própria Jerusalém. Segundo essa representação, os muçulmanos que viviam em Jerusalém e seus arredores não pertenciam àquele lugar, nem desejavam viver ali. Não tinham qualquer vínculo significativo com a terra. Os muçulmanos apenas ocupavam espaço em Jerusalém para impedir e dificultar o acesso dos cristãos à cidade. De acordo com esse estereótipo, essa característica era tão central à identidade dos muçulmanos que se tornou a base do termo depreciativo utilizado pelos cristãos para se referir a eles na Idade Média: sarracenos.

Nos tratados antimuçulmanos que circularam pela cristandade latina, os cristãos afirmavam que os muçulmanos eram descendentes de Ismael, o filho que Abraão teve com a serva Hagar. Segundo essa interpretação, os muçulmanos teriam tanta vergonha de sua linhagem que se autodenominavam “sarracenos”, para sugerir falsamente que eram descendentes de Sara, esposa de Abraão. Consequentemente, os muçulmanos não apenas seriam mentirosos, mas também, assim como Ismael, seriam excluídos e errantes sem rumo. Teriam chegado a Jerusalém por acaso e permanecido ali apenas para contrariar os cristãos.

Essa lógica constitui uma estratégia central do projeto colonialista na região, pois transforma os corpos muçulmanos em ameaças. No início do mesmo discurso proferido por Urbano II no Concílio de Clermont, ele descreveu Jerusalém sob o domínio muçulmano, acusando os muçulmanos de vandalismo: “Eles destroem os altares, depois de profaná-los com sua impureza.” A presença dos muçulmanos colocaria em perigo aquilo que é sagrado em Jerusalém. Esse estereótipo é tão persistente que, mesmo oitocentos anos depois, Herzl ainda podia afirmar que esses locais deveriam ser libertados do domínio muçulmano. Essa lógica também legitimou atos extremos de violência. Em seu relato da Primeira Cruzada, publicado em uma obra traduzida como Uma História da Expedição a Jerusalém, 1095–1125, o padre francês Fulcher de Chartres escreveu que os “sarracenos” engoliam pedras preciosas após a derrota, “para que os francos não ficassem com nada que lhes pertencesse”. As mulheres supostamente chegavam a escondê-las em suas vaginas. Os francos cristãos empilharam os corpos dos muçulmanos mortos e os queimaram “com o objetivo de encontrar os besantes que alguns haviam engolido e outros haviam escondido na boca”.

Tão persuasiva é a caracterização islamofóbica do muçulmano como “sarraceno” em Jerusalém que, quando o pastor Alexander Keith visitou a Palestina em sua Missão de Investigação, em 1839, observou um “vale… [que] apresentava por todos os lados sinais de atividade industrial”, avistou “duas ou três pequenas aldeias em um vale” e, ainda assim, concluiu que aquela terra era “um país sem povo”. Na verdade, estudiosos argumentam que o provocativo slogan “um povo sem terra para uma terra sem povo” foi popularizado não pelos sionistas judeus, mas por líderes e escritores cristãos do século XIX. Em um sermão, o pastor metodista britânico Richard Watson proclamou: “Embora Israel esteja disperso, ainda assim será reunido. Todas as Escrituras apontam para isso. E isso é corroborado por dois fatos singulares: primeiro, que os judeus sempre foram um povo distinto; segundo, que seu país está desprotegido e à espera deles.” Essa crença, que viria a justificar deslocamentos violentos durante décadas, não se baseava na realidade, mas nas poderosas ficções que moldaram a identidade cristã europeia em oposição aos “sarracenos”.

III.

Graças a séculos de retórica islamofóbica, os primeiros sionistas não precisaram se esforçar muito para convencer os cristãos europeus de que os muçulmanos eram prejudiciais a Jerusalém. A islamofobia resolvia metade do problema. Bastava convencê-los de que a colonização judaica era a solução. Para realizar essa tarefa, Herzl recorreu à diplomacia — cartas, petições e propostas — e à literatura. Quando chegou sua vez de fantasiar e sensacionalizar, Herzl escreveu um dos primeiros romances sionistas que imaginavam o sucesso do Estado judeu, Altneuland.

Publicado em 1902, Altneuland, de Herzl, conta a história de Friedrich Lowenberg, um misantropo de coração partido e deprimido que vive em Viena e responde a um anúncio de jornal publicado por um desconhecido à procura de um companheiro para viver em uma ilha deserta e remota no Pacífico. Desesperado, ele responde ao anúncio e aceita a proposta. A caminho da ilha, os dois passam pela Palestina. É um lugar triste e abandonado, com habitantes que não parecem ter qualquer ligação real com a terra. “Não havia nada mais miserável do que uma aldeia árabe… As crianças estavam nuas e desamparadas, tendo as ruas como espaço para brincar”, escreveu Herzl. Lowenberg e seu companheiro deixam a ilha e voltam a passar pela Palestina vinte anos depois. Dessa vez, encontram um cenário de sonho sionista. Graças ao sionismo, “essas pessoas [os árabes] estão em condições muito melhores… são saudáveis, têm uma alimentação melhor, seus filhos frequentam a escola… só têm a ganhar com o bem-estar social”.

Seu romance era fantasioso. Israel ainda não existia. Faltavam décadas para a Nakba de 1948. Em Altneuland, Herzl articulou a “utopia” que motivava sua atividade política. No entanto, o romance foi tão influente que, em 1910, os primeiros colonos de Jaffa batizaram seu povoado com o nome da tradução hebraica do título do livro: Tel Aviv. Se a experiência sionista na Palestina era tão perfeita quanto aquela retratada em Altneuland, de Herzl, era uma questão secundária diante da crença de que estavam cumprindo uma profecia transmitida pelo romance. Era como se os colonos se enxergassem como personagens da obra. Se as Cruzadas foram o mito que sustentou o projeto sionista inicial, Altneuland, nascido da imaginação de Herzl, tornou-se seu futuro predeterminado.

Quando Herzl escreveu “Gerusalemme Liberata”, sabia que estava evocando um profundo anseio que persistia entre muitos cristãos europeus: uma Jerusalém à espera de ser libertada de uma população muçulmana imaginada como ocupante, e não como nativa de sua própria terra. Não atribuímos responsabilidade suficiente a essas histórias — aquelas que os sionistas contavam antes do Holocausto e, menos ainda, aquelas que a imaginação ocidental herdou da Idade Média. Do século XI até os dias atuais, os meios de comunicação podem ter mudado, mas a narrativa permaneceu a mesma.

A islamofobia continua sendo um dos pilares da indústria do entretenimento. A cultura popular continua representando os muçulmanos como os “sarracenos” da Idade Média: um povo tratado indiscriminadamente como um grupo homogêneo, sem levar em conta diferenças regionais, religiosas, étnicas ou geográficas, desprovido de individualidade real e de vínculos genuínos com a terra. Esses estereótipos são predominantes em Hollywood. Não é preciso ir muito além do vencedor do Oscar de 2014, American Sniper (Sniper Americano). Dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Bradley Cooper, o filme é uma adaptação das memórias homônimas escritas por Chris Kyle, considerado o atirador de elite mais letal da história militar americana. O filme acompanha o protagonista enquanto ele tenta conciliar a vida familiar com seu trabalho como atirador de elite no Iraque. O contraste é gritante entre a profundidade e a complexidade de sua vida interior e a representação reducionista do povo iraquiano. Em uma cena, Kyle atende a uma ligação emocionante de sua esposa enquanto está sobre um telhado. Segura o telefone em uma das mãos e mantém a outra no gatilho de seu rifle de precisão. Enquanto conversam sobre berços e sobre como ela parecia sensual usando uma camisola rosa, Kyle mata iraquianos anônimos. Um deles é apenas uma criança.

A abertura do filme resume a dinâmica em questão. O cenário principal no Iraque parece ser sempre uma cidade iraquiana que antes era pacífica e civilizada. Agora, está bombardeada, cinzenta e destruída. Na abertura, Kyle está sobre um telhado com vista para uma rua iraquiana, observando através da mira de seu rifle de precisão. Lá embaixo, soldados arrombam porta após porta, entrando e saindo de casas de civis. Uma mulher usando hijab e uma criança pequena saem por uma porta. Kyle acredita ter visto a mulher entregar uma granada ao menino, que não deve ter mais de dez anos. Enquanto a criança corre pela rua em direção ao tanque americano, Kyle aponta sua arma para ela e o público ouve o som de um disparo. A cena muda para a infância de Kyle, quando ele está em um campo, segurando uma espingarda. Acaba de abater um cervo, e seu pai está orgulhoso. Nesse momento, estabelece-se uma associação entre os iraquianos e as presas selvagens que vagam pela natureza.

Chris Kyle, que foi morto a tiros em 2013 por um fuzileiro naval no Texas, via a si mesmo como um caçador. Os muçulmanos no Iraque eram suas presas. Em suas memórias, Kyle afirma que extraía sua força como caçador dos cruzados. Escreveu: “Na parte da frente do meu braço, eu tinha uma cruz dos cruzados tatuada. Queria que todos soubessem que eu era cristão. Mandei tatuá-la em vermelho, para simbolizar o sangue. Odiava aqueles malditos selvagens contra os quais lutava. Sempre os odiarei.”

Como alguém que estuda a islamofobia na Idade Média, frequentemente fico abalada com o poder dessas histórias. É difícil aceitar a maneira como continuam motivando a violência nos dias de hoje. Mas também reconheço que, apesar de seu poder, são apenas histórias.

K. Jemisin, uma das criadoras de mundos mais talentosas do nosso tempo, escreveu sobre o imenso poder que a fantasia exerce na formação da nossa percepção da realidade. Ela afirma: “A ficção que absorvemos tem um impacto na realidade que tendemos a perceber.” Ela ilustra isso em seus próprios livros, mas também nos mostra que, para mudar o mundo em que vivemos, precisamos primeiro compreender a ficção que levou à sua criação. Depois, precisamos imaginar novos mundos.

A sabedoria de Jemisin nos oferece uma saída para o problema persistente da islamofobia medieval. Os estereótipos que possibilitam e alimentam o sionismo persistem há séculos. Mas nossas histórias também são poderosas. Só precisamos de mais delas. Como nos lembram os artistas e ativistas negros, indígenas e palestinos, precisamos conceber visões mais radicais de libertação e fazer isso com frequência.

O trabalho da nossa imaginação não pode ser separado da nossa atuação política, da organização e do ativismo. Herzl escreveu um romance, mas se dedicou principalmente à política. Em outras palavras, fez as duas coisas. As histórias sustentaram suas reivindicações. Não basta protestar contra a opressão e deixar para outros a tarefa de imaginar a libertação. Imaginar nosso futuro utópico e contar histórias detalhadas que o representem deve fazer parte da nossa organização e resistência tanto quanto as próprias ações diretas. E precisamos imaginar a libertação em seus mínimos detalhes. Nossas histórias devem ser tão ricas em detalhes que possamos habitá-las em nossas mentes como algo inevitável, mesmo enquanto lutamos contra as condições da nossa realidade atual.

Os governos fascistas conhecem o poder da narrativa, e é por isso que silenciam as minorias étnicas e cortam o financiamento das artes e das humanidades. Em 2025, o governo Trump cortou milhões de dólares em subsídios destinados às humanidades em todo o país, depois que instituições como o Smithsonian e a Galeria Nacional de Arte já haviam encerrado seus programas de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) em cumprimento a um decreto presidencial. Felizmente, a imaginação não conhece limites. Não está sujeita à burocracia nem às leis. Nossos artistas, nossos escritores, nossas mães e nossos anciãos que contam histórias, nossos arquivistas que as documentam e preservam, todos são agentes na construção de novas profecias — aquelas às quais podemos recorrer e das quais podemos falar como se fossem inevitáveis. É nas obras de escritores, organizadores e artistas que surgem novas possibilidades.

ÚLTIMOS ARTIGOS PUBLICADOS