Israel, lobby sionista, omissão proposital de contextos e como isso traz paz ao leitor leigo
O que A Guerra de Narrativas, de Rafael Rozenszajn, não conta
Por Cláudia Assaf[1]
Durante algum tempo estudei árabe na Síria. No início, sabia apenas algumas frases. Quando as pronunciava diante de amigos brasileiros que não conheciam o idioma, ouvia: “Nossa, você fala árabe!”. De fato, aquelas frases estavam corretas. Se alguém me ouvisse pronunciá-las, poderia constatar: Cláudia fala árabe. Não era mentira, mas o que as pessoas não sabiam é que era apenas uma meia-verdade.
Entre brasileiros que não conheciam o idioma, essa parcela da verdade bastava para produzir uma realidade bastante confortável: eu me passava por falante fluente de árabe quando mal começava meu curso na Síria e assim ficava em paz — afinal, estava estudando árabe num país árabe e, portanto, não passava pela cabeça de ninguém que eu estivesse blefando. Meu interlocutor também ficava em paz, admirado com os progressos da amiga.
O problema estava justamente no que faltava àquela constatação: quem me ouvia, por desconhecer o idioma, não poderia saber o quanto eu ainda não sabia. Na Síria, porém, entre falantes nativos de árabe, aquilo que a constatação escondia aparecia todos os dias. Só eu sabia o esforço hercúleo que fazia, naquela fase inicial, para conseguir me comunicar nas situações mais banais do dia a dia.
Lembrei-me disso ao ler A Guerra de Narrativas: Israel, Hamas, a batalha pela opinião pública e como isso pode afetar a sua vida, do brasileiro-israelense Rafael Rozenszajn, militar da reserva das Forças de Defesa de Israel (FDI) e seu ex-porta-voz para o público lusófono. A meia-verdade tem uma vantagem sobre a mentira: pode ser construída com fatos que realmente aconteceram. Basta selecionar alguns, retirar outros e escolher convenientemente onde a história começa. Para funcionar, porém, é preciso que quem ouve desconheça a parte que ficou de fora. É por isso que meus amigos se impressionavam com meu árabe quando eu ainda engatinhava no aprendizado do idioma. E é por isso que, nesta análise, não me interessa apenas perguntar se determinado fato mencionado por Rozenszajn aconteceu. Se fosse uma simples mentira, bastaria demonstrá-lo. Interessa-me sobretudo perguntar o que aconteceu antes, o que não foi mencionado e o que ficou fora da página.
Essa é a paz das omissões. A mentira precisa enfrentar a prova e, por isso mesmo, pode ser desmentida. A omissão é mais traiçoeira: não há o que desmentir naquilo que simplesmente não foi contado. O que foi retirado da narrativa permanece silencioso, não contradiz o autor e não exige explicação – sobretudo diante do leitor que desconhece aquilo que ficou de fora. Quem nunca leu Edward Said, Ilan Pappé ou Avi Shlaim, por exemplo, pode atravessar essas páginas sem conhecer sequer parte da vasta historiografia crítica sobre o sionismo, a Nakba, a ocupação e a experiência palestina. Pode também desconhecer documentos das próprias autoridades israelenses, das Nações Unidas e de tribunais internacionais. E aquilo que o leitor desconhece não enseja a formulação de perguntas. Para o leitor leigo, resta a paz. Para o autor também. Para mim, não.
É pelo preâmbulo de A Guerra de Narrativas que proponho começar esta leitura. Capa, sumário, chancelas, agradecimentos, prefácio e apresentação não são elementos neutros: emprestam autoridade, delimitam perguntas e preparam o terreno sobre o qual a obra será recebida. Tão importante quanto observar o que colocam diante dos nossos olhos é perceber o que deixam fora – e de onde falam aqueles que constroem e chancelam essa narrativa. Há um dado comum: mudam títulos, funções e credenciais, mas as vozes vêm do mesmo campo – são alinhadas a Israel. Não há ali uma voz palestina nem contraponto às violações do Direito Internacional atribuídas a Israel por órgãos e tribunais internacionais. Se ninguém ali fez esse contraponto, este artigo se propõe a fazê-lo: recuperar o que ficou de fora, formular as perguntas que não foram feitas e oferecer ao leitor contexto para que tire suas próprias conclusões.
E aqui há uma ironia difícil de ignorar. Israel construiu mundialmente a reputação de possuir alguns dos mais sofisticados serviços de Inteligência do planeta. Seria de esperar, portanto, que um livro escrito por um oficial de suas Forças Armadas sobre uma “guerra de narrativas” respeitasse ao menos um princípio elementar da análise de Inteligência: não basta avaliar a informação; é preciso avaliar a fonte, seus vínculos e seus interesses. E várias fontes alinhadas entre si não se transformam, pela multiplicação, em fontes independentes. Não é corroboração. É repetição.
Eu não consigo atravessar essas páginas em paz. A cada fato que Rozenszajn escolhe contar, salta aos meus olhos o que ficou de fora; a cada novo nome ou instituição convocado para apresentar, prefaciar ou chancelar a obra, pergunto: quem é, de onde fala e quais posições defende? É aí que a paz das omissões encontra sua condição ideal. A peça de propaganda de Rozenszajn e da linha editorial que sustenta A Guerra de Narrativas não precisa necessariamente mentir. Basta omitir os fatos que levariam o leitor a formular outras perguntas. Quem desconhece o que ficou de fora sequer sabe o que deveria questionar. É assim que a meia-verdade prospera: não necessariamente pela falsidade do que mostra, mas pelo efeito produzido por tudo aquilo que não mostra.
A ignorância do contexto é o oxigênio que mantém essa propaganda viva. E, na minha leitura, é justamente desse oxigênio que se alimenta a narrativa sionista oferecida neste livro a um público que parece não dispor dos elementos históricos e políticos necessários para perceber suas omissões. Mais difícil de compreender é quando esses elementos são conhecidos e, ainda assim, as violações sofridas pelos palestinos são relegadas às margens enquanto se enaltece a voz de quem representa as Forças de Defesa de Israel perante o público lusófono. Nesse caso, já não estamos diante apenas de um problema de informação. Estamos diante de uma escolha sobre quais vidas merecem entrar no nosso campo de preocupação moral – e quais podem permanecer fora dele.
Comecemos pela capa.
CAPA: a narrativa enganosa de Rozenszajn começa antes de abrir o livro
Antes de ler uma linha do livro, vale observar o que foi escolhido para apresentá-lo ao leitor. No alto da capa, não aparece simplesmente o nome do autor: ele vem precedido de seu título de major. Logo abaixo, outra credencial de autoridade: “Prefácio de André Mendonça – Ministro do STF”. Não sabemos ainda quais argumentos serão apresentados, quais documentos serão citados ou quais fatos sustentarão as conclusões do livro. Mas, antes de qualquer evidência, já recebemos duas credenciais institucionais: um major e um ministro do Supremo Tribunal Federal.
Essas informações são verdadeiras e podem ser pertinentes. O que me interessa é o efeito produzido por sua disposição na capa: a autoridade chega antes da evidência. Para quem pouco ou nada conhece do tema, a combinação é poderosa. Major. Ministro do Supremo. Com que instrumentos um leitor leigo contestaria tanta autoridade reunida numa única capa? “Eles certamente sabem do que estão falando. A mim, resta acreditar”, pensarão. E o livro ainda nem começou.
A imagem central também merece ser lida. Na parte inferior aparece a bandeira de Israel, com a Estrela de Davi em seu centro. A Estrela de Davi é um símbolo histórico do judaísmo e, ao mesmo tempo, integra oficialmente a bandeira do Estado de Israel. Essa sobreposição entre símbolo estatal e símbolo religioso exige cuidado, sobretudo num debate em que críticas às ações do Estado israelense podem ser confrontadas com acusações de antissemitismo. Convém, portanto, estabelecer desde já uma distinção que será fundamental ao longo deste artigo: Israel é um Estado; judaísmo é uma religião e uma tradição; judeus são um povo com identidades diversas. Criticar atos de um Estado não equivale a atacar uma religião ou um povo.
Mas a posição dos elementos na imagem também comunica. A bandeira israelense ocupa a parte inferior. Acima dela aparece um microfone envolvido por tecido verde com inscrições árabes, numa referência visual ao Hamas. O microfone não é um objeto neutro numa obra intitulada A Guerra de Narrativas: ele remete justamente à voz, à comunicação e à capacidade de disputar a opinião pública. Na composição escolhida para a capa, portanto, Israel aparece embaixo, enquanto o elemento associado ao Hamas se projeta sobre ele e ocupa a posição superior.
Não é possível afirmar apenas pela imagem qual foi a intenção de quem a concebeu. Mas é possível analisar o que ela oferece ao olhar. A composição permite uma leitura em que Israel ocupa a posição visual da vítima, enquanto o Hamas aparece associado à força que se sobrepõe a ele e domina o espaço da comunicação. Antes da primeira evidência, portanto, a capa já oferece ao leitor personagens e posições.
O subtítulo completa o enquadramento: “Israel, Hamas, a batalha pela opinião pública e como isso pode afetar a sua vida.” Israel, Hamas e você. Um conflito a milhares de quilômetros de distância é trazido para dentro da vida do leitor brasileiro antes mesmo de o livro explicar de que maneira sua vida seria afetada. A batalha pela sua opinião, entretanto, já começou.
E é então que a ausência mais importante da capa se torna visível. Os dois polos escolhidos são Israel e Hamas. Mas Hamas não é sinônimo de Palestina. Onde está, então, a Palestina? Não há bandeira palestina. Não há referência visual à Palestina. A própria palavra está ausente. Um povo cuja história evidentemente não começou com o Hamas desaparece do enquadramento antes mesmo de o leitor abrir o livro.
É uma primeira demonstração do mecanismo que pretendo examinar: uma narrativa não se constrói apenas com aquilo que coloca diante dos nossos olhos. Constrói-se também com aquilo que deixa fora do quadro.
Na capa, além das autoridades, estão Israel e Hamas. A Palestina e os palestinos foram completamente omitidos. Não existem. São a variável retirada da equação. Restam Israel e os israelenses, visualmente colocados no lugar da vítima, e, sobre eles, o Hamas, no papel do algoz. Para o leitor que desconhece a história, o grupo, que espalha mentiras segundo a capa, parece surgir praticamente do nada: omitem-se ocupação, 1967, expulsões e deslocamentos de palestinos e a longa história de violência que antecede em décadas a criação do Hamas.
E essa história sequer começa com a fundação de Israel. Antes de 1948, organizações paramilitares sionistas já praticavam atentados e ataques contra palestinos e autoridades britânicas. O Irgun realizou o atentado ao Hotel King David, em 1946, e, com o Lehi, participou do massacre de Deir Yassin, em 1948. A Haganah tornou-se a principal base das Forças de Defesa de Israel, que também incorporaram milicianos do Irgun e do Lehi. A continuidade foi também política: Menachem Begin, comandante do Irgun, e Yitzhak Shamir, dirigente do Lehi, tornaram-se primeiros-ministros de Israel. A história que desaparece da capa, portanto, é muito mais antiga do que Hamas. A violência política e a invenção do terrorismo por esses grupos não entrou nessa história 7 de outubro de 2023 – apenas a narrativa escolheu começar por ali.
Sem esse passado, a equação fica extraordinariamente simples: Israel sofre; Hamas ameaça; Palestina não existe. O leitor recebe a vítima e o monstro, mas não recebe a história necessária para perguntar de onde veio o monstro, que realidade o precedeu e quais responsabilidades existem para além dele. Mas nós, que enxergamos nitidamente as omissões propositais de Rozenszajn entendemos: não fosse assim, a posição de vítima associada a Israel vendida por ele colapsaria.
Na minha leitura, essa é a mensagem essencial da capa dessa peça de propaganda dirigida ao público leigo brasileiro: antes de apresentar uma única evidência, a capa já escolheu os personagens, distribuiu os papéis e retirou de cena aquilo que poderia perturbar a paz da narrativa permeada de omissões.
O leitor ainda não abriu o livro. Mas a narrativa já começou.
O SUMÁRIO: as perguntas que Rozenszajn não fez
O sumário de A Guerra de Narrativas é revelador não apenas pelas perguntas que formula, mas pelas perguntas que não formula. Ali estão temas como a “verdadeira causa das baixas civis palestinas”, os protocolos das Forças de Defesa de Israel, a ajuda humanitária, a proporcionalidade, as acusações de genocídio, o direito internacional e o apartheid. São questões legítimas. Mas, antes mesmo de procurar as respostas de Rozenszajn, proponho um exercício mais simples: observar aquilo sobre o que o livro não pergunta.
Comecemos pela cronologia. A ocupação israelense dos territórios palestinos remonta a 1967. O Hamas surgiu em 1987. Há vinte anos entre uma coisa e outra. Portanto, qualquer narrativa que coloque Israel e Hamas como os dois pólos explicativos fundamentais do conflito precisa responder a uma pergunta elementar: como explicar as duas primeiras décadas de ocupação sem Hamas? A própria Corte Internacional de Justiça, em seu parecer consultivo de julho de 2024, trata expressamente do território palestino ocupado desde 1967 e concluiu que a presença continuada de Israel no Território Palestino Ocupado é ilegal. A Corte também reafirmou o direito do povo palestino à autodeterminação e considerou que políticas e práticas israelenses vêm obstruindo seu exercício.
Essa cronologia importa porque impede que uma causa posterior seja transformada em explicação universal para uma realidade anterior. Hamas não explica 1967 porque Hamas ainda não existia. E, no entanto, no enquadramento proposto pelo livro, o grupo ocupa enorme espaço explicativo, enquanto a ocupação que o precede em duas décadas não recebe peso histórico equivalente.
A violência sofrida por civis israelenses em 7 de outubro de 2023 tampouco transforma aquela data no início da história. O que ocorreu naquele dia deve ser examinado com o mesmo rigor aplicado aos demais acontecimentos – distinguindo alvos, condutas e responsabilidades e incluindo as falhas israelenses de inteligência e segurança que precederam o ataque. Mas nenhuma dessas questões altera a cronologia elementar: a ocupação começou em 1967; o Hamas surgiu em 1987. O contexto não justifica a violência contra civis. Contextualizar não é absolver. É impedir que a história comece no ponto mais conveniente para quem a conta.
Há outra ausência significativa. O sumário pergunta pelos protocolos das FDI, mas não pela origem das próprias Forças de Defesa de Israel. Não pergunta pela Haganah, pelo Irgun ou pelo Lehi, organizações armadas sionistas que antecederam a criação das FDI e cujos integrantes foram posteriormente incorporados à nova estrutura militar israelense. Tampouco pergunta por episódios anteriores à criação do Estado de Israel, como Deir Yassin, em abril de 1948, quando forças do Irgun e do Lehi atacaram a aldeia palestina e mataram habitantes, incluindo mulheres e crianças. Se o objetivo é compreender como violência, terrorismo, resistência e legitimidade são nomeados por cada lado, por que a genealogia da violência de um dos lados merece ser investigada e a do outro pode desaparecer?
E então há uma ausência ainda mais simples, quase gráfica. Procure no sumário a palavra “Palestina”. Ela não está lá. Gaza está. Hamas está. Israel está. As FDI estão. Os palestinos aparecem como “baixas civis palestinas”. A gramática, às vezes, é indiscreta: “palestinas” aparece como adjetivo de “baixas”; “Palestina” não aparece como sujeito.
Não estou propondo que um livro sobre os acontecimentos posteriores a 7 de outubro comece com Theodor Herzl ou reconte integralmente mais de um século de história. Estou propondo algo muito mais elementar: se a pretensão é explicar uma “guerra de narrativas”, é indispensável perceber onde cada narrativa escolheu começar a história – e quais fatos desapareceram quando esse ponto de partida foi escolhido.
Porque o sumário não apenas organiza capítulos. Ele organiza perguntas. E quem controla as perguntas já delimitou uma parte importante das respostas que o leitor encontrará.
Antes mesmo de abrir o primeiro tema do livro, portanto, uma pergunta continua diante de mim: onde está a Palestina?
UMA PÁGINA (QUASE) VAZIA: a chancela da CONIB
Terminado o sumário, viro a página. Ela está praticamente vazia. No centro, apenas três linhas: “A diretoria da Confederação Israelita do Brasil parabeniza o autor do livro, Major Rafael Rozenszajn, pela importante obra.”
Três linhas. Nenhuma explicação sobre quem é a Confederação Israelita do Brasil, quais posições defende ou por que sua diretoria aparece ali, antes mesmo do prefácio, conferindo sua chancela ao livro de um oficial das Forças de Defesa de Israel. O leitor recebe o nome da instituição, mas não recebe o contexto necessário para compreender de onde ela fala.
E esse contexto importa. A própria CONIB se define como “órgão de representação e coordenação política da comunidade judaica brasileira” e declara oficialmente que “apoia o Estado de Israel, o movimento sionista”. Em outra manifestação institucional, afirmou que as boas relações do Brasil com Israel constituem um de seus “objetivos centrais” e vinculou a existência de um Estado judeu forte e soberano à defesa dos valores judaicos. Nada disso é clandestino; está publicado pela própria entidade. Mas nada disso acompanha as três linhas oferecidas ao leitor.
É por isso que, na minha leitura, aquela página quase vazia não contém uma apresentação neutra. Contém a chancela de uma organização de atuação política que assume publicamente seu apoio a Israel e ao movimento sionista. Vista nesse contexto, a expressão “importante obra” ganha outro significado: importante para quem, e para quê? Para mim, o livro se insere precisamente nessa disputa de narrativas e funciona como mais um instrumento de reforço de uma perspectiva pró-Israel – aquela que privilegia sua condição de vítima, enquanto fatos capazes de confrontar essa construção são frequentemente deslocados para fora do enquadramento.
Tenho razões pessoais para não tratar essa atuação institucional como abstração. Foi essa entidade que apresentou ao Ministério Público Federal (MPF) uma notitia criminis contra mim por manifestações críticas a Israel, requerendo investigação e responsabilização penal e medidas contra minhas publicações. O caso foi arquivado pelo MPF, cujo parecer argumentou que eu não negara ou minimizara o Holocausto, não dirigira ódio ou discriminação ao povo judeu nem enaltecera o ataque do Hamas; ao contrário, identificou uma posição crítica a Israel em sua relação histórica com a Palestina. A conclusão foi contundente: “(…) o estudo da notícia-crime e de toda argumentação nela contida sugere que seus autores pretendem calar CLÁUDIA ASSAF por meio do braço forte e excepcional do Direito Penal”. A Justiça Federal acolheu o arquivamento. O procedimento é público: Notícia de Fato nº 1.16.000.003756/2023-90. Confiram.
E meu caso não é o único que suscita esse debate. A atuação judicial da entidade contra críticos de Israel já provocou, inclusive, manifestação do Conselho Nacional de Direitos Humanos. Em nota pública de 2024 intitulada “Nota em repúdio à tentativa de censura por parte da Confederação Israelita do Brasil”, o Conselho afirmou, a respeito das ações movidas contra o jornalista Breno Altman, que a entidade tinha o direito de contestar suas ideias, mas não de tentar coibir sua liberdade de expressão; o documento referiu-se ainda a “outras pessoas que expressam livremente suas opiniões”.
Nada disso é informado naquela página. Ali não existe uma entidade política que apoia Israel e o movimento sionista, atua institucionalmente em defesa do Estado israelense e recorre também ao Judiciário contra manifestações legítimas de denúncias dos crimes de Israel, rotulando essas manifestações de antissemitas. Como se não bastasse, no texto minúsculo da página vazia, a CONIB parabeniza um major por uma “importante obra”.
É uma pequena demonstração, antes mesmo de chegarmos ao prefácio, do mecanismo que atravessa este artigo. A página não precisa mentir. Basta não contar. E talvez seja justamente por isso que esteja quase vazia.
OS AGRADECIMENTOS: quando fatos e palavras também são armas
Estamos nos agradecimentos, nem chegamos ao conteúdo principal, e é justamente ali que Rozenszajn fornece uma das informações mais importantes para compreender o que virá depois. Ele conta que passou 17 anos nas Forças de Defesa de Israel como promotor militar e assessor jurídico de unidades operacionais e que posteriormente assumiu a função de porta-voz. Em cada entrevista, explica, carregava “a responsabilidade de representar o Exército”. Ao agradecer aos colegas das FDI que atuaram naquilo que chama de “frente invisível”, escreve: “Juntos, lutamos não só com armas nos campos de batalha, mas também com palavras, dados, fatos e valores.”
A frase merece atenção porque elimina uma possível controvérsia interpretativa. Não sou eu quem caracteriza a comunicação das FDI como parte do confronto. É o próprio autor quem coloca armas, palavras, dados e fatos lado a lado e afirma que, com eles, “lutamos”. Isso não significa que seus dados sejam falsos ou que os fatos apresentados não tenham acontecido. Significa algo mais importante para esta análise: Rozenszajn reconhece que palavras, dados e fatos integravam a missão que desempenhava como representante do Exército israelense. A partir daí, cada fato apresentado no livro exige uma segunda pergunta: qual fato ficou de fora?
Os próprios agradecimentos oferecem um primeiro teste. Ao homenagear os soldados israelenses mortos, Rozenszajn escreve: “Honramos os que caíram com a integridade de nossas ações e a coragem de nossas convicções.” A expressão “integridade de nossas ações” vai além da homenagem aos mortos: contém uma afirmação sobre a conduta das forças às quais o autor pertenceu. E essa conduta foi objeto de investigações internacionais. Mas isso é omitido. Propositalmente, claro.
A Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas documentou palestinos submetidos a nudez pública forçada, tratamento humilhante e degradante e formas de violência sexual e de gênero. A Comissão também examinou imagens de soldados israelenses exibindo e manipulando roupas íntimas femininas retiradas de casas palestinas, como todos nós assistimos mês após mês, analisando essas práticas como formas de humilhação e degradação sexualizadas. A Reuters verificou independentemente diversas publicações de militares com roupas íntimas encontradas em Gaza; consultadas pela agência, as FDI afirmaram que comportamentos incompatíveis com suas ordens e valores seriam examinados e poderiam resultar em investigação. Até hoje, nada aconteceu contra os vários indivíduos que violaram as suas vítimas palestinas.
Nada disso aparece na homenagem. Muito pelo contrário: aparece “a integridade de nossas ações”. Eis novamente o mecanismo da meia-verdade. Não é preciso negar o soldado morto, seu sacrifício ou a dor de sua família. Tudo isso pode ser verdadeiro. Basta contar essa parte e deixar fora da página os fatos que perturbariam a imagem produzida por ela — inclusive condutas graves praticadas por integrantes das mesmas forças que estão sendo homenageadas. A morte não transforma retrospectivamente toda conduta em íntegra, nem uma homenagem pode servir de absolvição coletiva. A omissão não apaga o fato narrado; altera aquilo que o leitor consegue concluir a partir dele. Resta a imagem do soldado tombado; desaparece da página a pergunta sobre aquilo que ele e as forças às quais pertencia fizeram antes de tombar.
O mesmo mecanismo reaparece no último parágrafo dos agradecimentos. Rozenszajn escreve que “por trás de cada manchete e de cada distorção, existem vidas humanas pagando o preço mais terrível”. A formulação parece universal. Mas basta continuar a leitura para perceber que essa universalidade dura pouco: as vidas que imediatamente ganham rosto e descrição são as israelenses – homens, mulheres, crianças e idosos arrancados de suas casas em 7 de outubro e levados como reféns.
São vítimas. O sequestro de civis é crime, sua dor é real. Reconhecê-lo não exige ignorar a pergunta que o texto deixa sem resposta: se o sujeito da frase é “vidas humanas”, onde estão as outras? As vítimas civis palestinas. Onde estão os homens, mulheres, crianças e idosos palestinos mortos por ações israelenses? Os feridos, amputados com ou sem anestesia, deslocados e órfãos? Os pais que perderam filhos, as famílias que perderam suas casas, os corpos sob os escombros? Omissão cruel e proposital. Afinal, a Palestina nem é citada no livro.
O PREFÁCIO: quando a autoridade também escolhe o que não contar
André Mendonça faz algo semelhante em seu prefácio – desta vez, com a própria Constituição brasileira. Ministro do Supremo Tribunal Federal, ele recorre reiteradamente ao artigo 4º, que estabelece os princípios que regem as relações internacionais do Brasil. Cita a defesa da paz e a solução pacífica dos conflitos; depois, o repúdio ao terrorismo e ao racismo; e termina invocando a cooperação entre os povos para o progresso da humanidade. Tudo isso está, de fato, na Constituição. A meia-verdade começa justamente no que também está lá, mas não chegou ao prefácio.
Ficaram de fora, no mesmo artigo, a prevalência dos direitos humanos e, sobretudo, a autodeterminação dos povos. E esta última omissão é particularmente eloquente em um prefácio sobre Israel e Palestina: um ano antes, a Corte Internacional de Justiça havia reafirmado o direito do povo palestino à autodeterminação, considerado que políticas e práticas israelenses violam esse direito e concluído que a presença continuada de Israel no Território Palestino Ocupado é ilegal. O artigo 4º chegou ao prefácio. O palestino como povo titular do direito à autodeterminação, não. Eis a meia-verdade em funcionamento.
Há, porém, uma palavra no prefácio que merece ser retirada da frase e examinada sozinha. Mendonça qualifica a reação militar de Israel como “impositiva e inevitável”. Inevitável exatamente o quê? Era inevitável ordenar a evacuação de hospitais com pacientes em terapia intensiva, recém-nascidos em incubadoras e pessoas dependentes de suporte vital, colocando médicos diante da escolha entre abandonar seus pacientes ou permanecer sob bombardeios? A Organização Mundial da Saúde condenou as ordens israelenses de evacuação de 22 hospitais no norte de Gaza e advertiu que, para muitos daqueles pacientes, a transferência poderia equivaler a uma sentença de morte. Era inevitável atacar áreas onde civis deslocados se amontoavam em tendas? Era inevitável que pessoas fossem mortas enquanto tentavam obter comida ou água?
Responder ao ataque de 7 de outubro pode ser apresentado como inevitável. Transformar em “inevitável” a forma escolhida para responder é outra coisa. É precisamente aí que deveriam começar — e não terminar — as perguntas sobre distinção, proporcionalidade, precaução e proteção da população civil. E faltou dizer ao leitor leigo algo ainda mais elementar: uma população civil não pode ser punida coletivamente pelos crimes cometidos por indivíduos ou por um grupo armado. O artigo 33 da Quarta Convenção de Genebra, de 1949, proíbe expressamente as penas coletivas, e sua imposição pode constituir crime de guerra. Se o crime foi cometido pelo Hamas, a responsabilidade não se transfere por contágio à população palestina. Isso também ficou fora da palavra “inevitável”.
Mas o prefácio já entrega ao leitor uma moldura antes que essas perguntas sejam formuladas. A chancela de autoridade é empurrada ao leitor camuflada na forma aparentemente convencional de um prefácio. Na capa, André Mendonça não é apresentado por sua trajetória ou por elementos que permitiriam ao leitor contextualizar sua posição: é simplesmente “Ministro do STF”. Não se diz, por exemplo, que chegou ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro — posteriormente condenado definitivamente pela tentativa de golpe de Estado e hoje cumprindo pena de 27 anos e três meses. Tampouco se informa que Mendonça havia participado, em janeiro de 2024, de uma viagem a Israel organizada pela CONIB e pela StandWithUs Brasil e integralmente custeada pelas duas entidades. Segundo a Folha de S.Paulo, o objetivo da comitiva era apresentar o conflito aos magistrados “a partir da perspectiva israelense”. São informações públicas e relevantes para que o leitor possa contextualizar quem lhe apresenta a obra.
É esse prefaciador que apresenta Rozenszajn como “testemunho autorizado”, afirma que ele fala “de forma não passional”, que “comprova, com dados e fontes, o que diz” e que contribui para o “esclarecimento da verdade”. Seus 17 anos nas Forças de Defesa de Israel são apresentados como credencial de autoridade quando deveriam ser, também, razão para escrutínio. Rozenszajn não é um observador externo examinando duas partes de um conflito: é oficial e porta-voz de uma delas. Conhecimento institucional não é sinônimo de neutralidade.
Eis novamente a força da omissão: o que aparece é fato incontestável — André Mendonça é ministro do Supremo; Rozenszajn conhece as FDI por dentro. O que é omitido é o contexto necessário para que o leitor possa avaliar o peso dessas credenciais. Antes mesmo da introdução, uma das narrativas já lhe chega revestida da autoridade de um ministro do STF e apresentada como “não passional”, comprovada por “dados e fontes” e comprometida com o “esclarecimento da verdade”. No mesmo prefácio, determinadas posições críticas são associadas à “manipulação do debate público”, à “estratégia político-ideológica” e até à “camuflagem de um antissemitismo”. Não parece uma chancela porque vem vestida de prefácio. E talvez seja justamente por isso que funcione tão bem como chancela.
Parafraseando Roberto Carlos: são tantas omissões. E elas ainda nem terminaram. Mal entramos no livro. Acontece comigo um fenômeno que já deve estar ficando familiar ao leitor deste artigo: quanto mais me dizem o que devo enxergar, mais salta aos meus olhos aquilo que decidiram omitir.
A APRESENTAÇÃO: “escolha o lado da verdade”
Como se não bastasse o prefácio, chegamos à Apresentação – e o livro propriamente dito ainda nem começou. Quem assina é o rabino Sany Sonnenreich, presidente do Instituto Rav Sany de Comunicação e Cultura Judaica, sediado em São Paulo. Neto de sobreviventes do Holocausto, realizou parte de sua formação religiosa em Israel e recebeu formação rabínica em Jerusalém. Seu Instituto dedica-se à disseminação de valores judaicos, ao combate ao antissemitismo e declara entre seus objetivos “estreitar cada vez mais os laços entre o Estado de Israel e a sociedade maior brasileira”. Novamente, antes de examinar o que a fonte diz, convém saber de onde ela fala.
A defesa de Israel aparece aqui também revestida de uma moldura religiosa. Sonnenreich recorre ao Talmud e a textos bíblicos – Levítico, Provérbios e Salmos – enquanto fala de Israel, do povo judeu, de seus inimigos, da verdade, do bem e do mal. Estado de Israel, Judaísmo e povo judeu acabam aproximados no mesmo campo discursivo. A distinção é fundamental: criticar um Estado, seu governo ou suas forças armadas não é criticar uma religião nem um povo.
A esta altura, se algumas das entidades pró-Israel que atuam no Brasil chegaram até aqui, talvez já estejam começando a redigir a petição inicial contra mim, dando continuidade a uma judicialização que já experimentei pessoalmente e que identifico como assédio judicial contra críticos de Israel. Poupo-lhes um argumento: não estou escrevendo contra judeus nem contra o Judaísmo. Estou examinando o Estado de Israel, seu governo, suas forças armadas e aquilo que identifico como a indução a equivalências falaciosas entre Israel, Judaísmo, antissionismo e antissemitismo. Criticar Israel não é atacar judeus, e antissionismo e antissemitismo, embora possam se sobrepor em determinados discursos, não são sinônimos.
Feita a distinção, voltemos a Sonnenreich. Sua apresentação dirige-se “ao povo de bem, ao leitor atento e à consciência do mundo”. Confesso que parei no “povo de bem”. Quem está incluído nessa categoria – e quem fica de fora? Em um livro sobre disputa de narrativas, é curioso começar conferindo uma qualificação moral à audiência antes mesmo de apresentar os argumentos.
Essa divisão moral atravessa o texto. Rozenszajn é apresentado como “defensor da verdade”; seu livro, como um “farol” contra a mentira. Mas uma afirmação não precisa ser mentira para enganar. Mentir e omitir são duas faces de uma mesma moeda: a construção de uma realidade em que apenas um lado da história é colocado sob a luz. É o território perfeito para as meias-verdades. Alguém avisa isso ao rabino, por favor?
Israel aparece associado a tecnologia, cura, inovação, cultura e luz; seus inimigos, a ódio, manipulação, terror, morte e escuridão. Ao final, o leitor é conclamado a “escolher o lado da verdade”. A arquitetura moral está pronta: de um lado, verdade, luz e bem; do outro, mentira, escuridão e mal. A escolha é oferecida ao leitor depois que a Apresentação já lhe disse qual deve ser a resposta.
Sonnenreich afirma ainda que Israel é “a única democracia do Oriente Médio”, onde “judeus, árabes, cristãos, drusos e tantos outros vivem em uma coexistência possível e protegida”. Mas coexistência não é simplesmente viver lado a lado. É viver lado a lado sob direitos iguais. Cidadãos árabes de Israel votam e participam das instituições do Estado, mas a Lei Básica de 2018 estabelece que o direito à autodeterminação nacional no Estado de Israel é exclusivo do povo judeu. E, na Cisjordânia ocupada, colonos israelenses e palestinos vivem no mesmo território, mas submetidos a regimes jurídicos e direitos diferentes. Em 2024, a Corte Internacional de Justiça examinou esse sistema de separação e discriminação, declarou ilegal a presença continuada de Israel no Território Palestino Ocupado e reafirmou o direito palestino à autodeterminação. A palavra “democracia”, sem esse contexto, conta muito menos do que parece contar.
O rabino faz uma ressalva importante: “Hamas não representa o povo palestino.” Concordo. Mas a arquitetura narrativa nem sempre preserva a distinção que ele proclama. Na capa, os polos são Israel e Hamas; a Palestina sequer é nomeada. E Sonnenreich afirma ainda que “essa guerra não é contra o povo palestino”, enquanto sua apresentação fala de escudos humanos, hospitais como esconderijos, escolas como arsenais e crianças ensinadas a odiar. Onde estão, nesse enquadramento, os palestinos mortos, feridos, amputados, órfãos, deslocados e as famílias que perderam suas casas e seus filhos?
Há, então, uma pergunta ainda mais incômoda. Se Hamas não representa o povo palestino, por que acaba funcionando como álibi narrativo quase universal para justificar o que é feito aos palestinos? Gaza é bombardeada: Hamas. Civis morrem: Hamas. Hospitais são atacados: Hamas. Mas, na Cisjordânia, ocupação, assentamentos e apropriação de terras atravessam décadas. Hamas surgiu em 1987; a ocupação começou em 1967. Sua existência pode explicar determinados acontecimentos; não pode justificar retrospectivamente vinte anos de ocupação anteriores ao seu nascimento nem servir de resposta automática para tudo o que Israel faz ao povo palestino.
Ao falar dos reféns israelenses, Sonnenreich escreve: “Cada um com um nome, uma família, uma história.” Tem razão. Os civis sequestrados em 7 de outubro são vítimas. Mas os palestinos também têm nomes, famílias e histórias. Reconhecer a humanidade de uns não exige apagar a dos outros.
Já que Sonnenreich decidiu invocar a Bíblia para sustentar sua apresentação, permito-me fazer o mesmo. Por que não Jeremias 22:3, que manda fazer justiça, libertar o oprimido e não derramar sangue inocente? Por que não Provérbios 31:8-9, recomendação particularmente apropriada a um livro sobre narrativas: dar voz a quem não pode falar por si mesmo e defender os direitos dos necessitados?
Sonnenreich escolheu suas passagens, mas omitiu outras. Até na Bíblia, importa observar não apenas o que foi citado, mas também o que ficou de fora.
E então chegamos à frase do próprio rabino que talvez resuma, involuntariamente, todo este artigo: “A paz verdadeira não nasce da omissão, mas da coragem.”
Aqui, quase agradeci. Dificilmente encontraria palavras melhores.
Nisso, pelo menos, estamos inteiramente de acordo.
MINHA CONCLUSÃO: a paz que depende da omissão
Até aqui, analisei apenas o preâmbulo do livro: nem chegamos à introdução. As omissões que encontrei ao longo da obra também não são poucas, mas demonstrá-las exige voltar às passagens, cotejar fontes, reconstruir cronologias e recuperar antecedentes.
Em A Guerra de Narrativas, Rozenszajn seleciona fatos que, na minha leitura, conduzem o leitor leigo a enxergar Israel como vítima e o Hamas como contraponto palestino e algoz, enquanto deixa de fora fatos capazes de perturbar essa construção – e a paz de quem não sabe o suficiente para perceber o que não lhe foi contado. Talvez seja esse o preço do conhecimento: ele nos tira a tranquilidade diante das injustiças de que ficamos sabendo ao investigar. Quando o contexto omitido reaparece, conclusões aparentemente sólidas podem desmoronar.
Se identifico uma omissão, preciso demonstrá-la. Não quero que o leitor acredite em mim por autoridade ou convicção – precisamente o que combati neste artigo. Quero que confira, compare, pesquise e discorde. Não recorro à “comunicação estratégica” — expressão que, significativamente, dá nome ao novo livro de Rozenszajn – para conduzi-lo à conclusão que desejo. Não quero vencer uma guerra de narrativas. Quero tornar desnecessário escolher em quem acreditar.
Mudam as funções – autor, entidade que avaliza, prefaciador, apresentador –, mas a perspectiva pouco muda. Rozenszajn conhece profundamente as FDI; isso lhe confere conhecimento privilegiado, não independência. Como já disse, várias fontes alinhadas não se transformam, pela multiplicação, em fontes independentes. Não é corroboração. É repetição. E, diante de um público pouco familiarizado com a história que está sendo narrada, repetição acompanhada de autoridade pode facilmente adquirir aparência de verdade incontestável.
Foi mais ou menos assim que, depois de poucos meses na Síria e meia dúzia de frases bem pronunciadas, meus amigos brasileiros concluíram que eu falava árabe. Nenhum deles mentiu. Eu tampouco precisava mentir. Bastava que ninguém ali soubesse árabe o suficiente para fazer a pergunta seguinte.
Talvez seja essa, afinal, a melhor síntese da paz das omissões: ela dura enquanto ninguém na sala conhece o suficiente para perceber o que não está sendo dito.
Demonstrar, com fontes, documentos, cronologia e contexto, todas as omissões que identifiquei em A Guerra de Narrativas não caberia em um artigo. Exigiria um livro.
Uma ideia que, depois de escrever este texto, não está de todo descartada.
[1] Cláudia Assaf é Diplomata de carreira e internacionalista. As opiniões da autora não refletem as do Itamaraty.



