Como Hollywood justifica o assassinato de iranianos

Facebook
Twitter
WhatsApp

Texto de Zia Shahidi, publicado no Ajam Media Collective em 5 de setembro de 2026. Traduzido por Vinícius Tanure.

A série “Teerã” começa com um voo que parte de Amã para Nova Déli. O avião faz, porém, um pouso inesperado no Irã; dois passageiros, um casal de jovens israelenses que fazia um mochilão na região se encontram, repentinamente, em território indesejado. Eles são meros turistas que adquiriram uma passagem; não possuindo qualquer ideia de que o pouso foi armado pelo aparato de inteligência israelense, o Mossad, para infiltrar uma agente no Irã.

O casal é expulso do avião, têm seus passaportes tomados, são questionados e são repetidamente estapeados pelos oficiais. A luz está fraca e os homens iranianos não esboçam emoções. Os turistas, por outro lado, estão assustados, cada lampejo de terror demonstrado por eles merece a atenção do público. Em seus primeiros minutos, a série deixou claro de quem é o medo que devemos sentir.

Teerã é uma série de suspense da Apple TV que ganhou o prêmio de “melhor série dramática” do International Emmy Awards. Também é uma produção israelense, criada por Moshe Zonder, escritor do hit israelense “Fauda”. Teerã foi ao ar pela primeira vez na emissora pública israelense Kan 11 em 2020 e chegou ao público estadunidense e global através da Apple TV. Sua terceira e última temporada foi adiada depois da “Guerra dos 12 Dias” entre Israel e Irã em junho de 2025; foi então lançada numa programação semanal a partir de 9 de janeiro até 27 de fevereiro de 2026, na estreita janela entre a primeira guerra e a segunda guerra israelo-estadunidense contra o Irã que se seguiria dias depois.

Pôster promocional em hebraico para a segunda temporada de Teerã. (Foto: Kan 11)

Uma geração anterior de filmes de Hollywood construiu uma imagem do Irã como um país fanático, atrasado e selvagem: “Nunca Sem Minha Filha” mostrou um marido amoroso se transformar em um fanático; “300” retrata os antigos persas como inimigos do Ocidente; “Argo” reconhecia a aflição dos iranianos, mas logo os reduzia a uma multidão sem rosto. Juntos, esses filmes consolidaram uma imagem duradoura de um povo desprovido de uma vida interior comum.

Mais recentemente, programas israelenses levaram este legado adiante, não apenas reproduzindo a desumanização dos iranianos, mas transformando o Irã em uma zona de guerra ativa em nosso imaginário. Além disso, a falta de qualquer representação honesta do Irã na televisão estadunidense levou parte da diáspora a uma fantasia própria: a de um dourado e pré-revolucionário Irã, expurgada de sua verdadeira história; e levou atores iranianos-estadunidenses a dar um rosto para essa identidade.

O documentário Reel Bad Arabs, de Jack Shaheen, examinou como, ao longo do século XX, Hollywood retratou o povo do Oriente Médio através de estereótipos desumanizantes e orientalistas. Historicamente, estes estereótipos também foram amplamente empregados contra o Irã e os iranianos.

“Nunca Sem Minha Filha”, de 1991, apresentava Sayyed Mahmoody (Alfred Molina), um marido e médico afável e ocidentalizado que vivia uma vida confortável nos Estados Unidos e que passa por uma transformação quase no instante em que leva a esposa e sua filha para visitar sua família religiosa em Teerã.

O filme foi lançado depois de uma década em que os Estados Unidos apoiaram o Iraque em sua guerra contra o Irã, justamente quando o Irã buscava melhores relações com Washington. Ironicamente, o filme foi quase que inteiramente gravado em Israel, com atores israelenses interpretando o papel de muitos dos iranianos em cena.

Sally Field, Alfred Molina e Sheila Rosenthal interpretam Betty, “Moody” e sua filha Mahtob, respectivamente, no filme de 1991 “Nunca Sem Minha Filha”. (Foto: MGM)

Mais de uma década depois, “300”, de 2006, transformou os antigos persas num exército de monstros contra um punhado de nobres espartanos amantes da liberdade, considerados representantes do Ocidente. Lançado apenas alguns anos após George W. Bush classificar o Irã como parte de um “eixo do mal”, o filme era tão exagerado que a delegação do Irã na UNESCO protestou formalmente, classificando-o como um insulto deliberado e parte de uma guerra psicológica contra o Irã.

Argo, de 2012, começa reconhecendo o golpe de Estado de 1953, apoiado pelos EUA e pela Grã-Bretanha, que reinstalou o Xá e derrubou o governo democraticamente eleito do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh. No entanto, após este momento de clareza, o restante do filme reduz a maioria da população iraniana uma única multidão gritante, ávida por uma crise de reféns.

Lançado no período em que as sanções de Obama contraíam a economia iraniana, causando escassez de medicamentos e tornavam o ar de Teerã irrespirável, as intenções aparentemente nobres do filme se perderam em sua infeliz e comum desumanização dos iranianos como um todo.

Ben Affleck no Irã de 1979, durante as filmagens de Argo. (Foto: Warner Bros. Films)

Em todos estes filmes, entre as produções hollywoodianas mais populares sobre o Irã, há um padrão consistente: os iranianos são representados como uma multidão, como ameaçadores, como fanáticos e como monstruosos.

Nos últimos cinco anos, no entanto, o tom da desumanização mudou. As produções mais antigas negavam aos iranianos sua plena humanidade. A nova onda de séries produzidas em Israel e distribuídas nos EUA vai além, transformando o Irã numa zona de guerra a ser bombardeada.

“Homeland” é a ponte entre as duas eras. Esta série começou a ser exibida em 2011 e ganhou vários prêmios Emmy. Ela foi adaptada a partir da série israelense “Prisioneiros de Guerra”, criada por Gideon Raff, que também desenvolveu a versão estadunidense.

Claire Danes em um pôster promocional da quarta temporada de Homeland. (Foto: Showtime)

Após focar-se em outras partes da região, em sua terceira temporada, lançada em 2014, Homeland mirou no Irã. O programa enviou um agente estadunidense, Nicholas Brody (Damian Lewis), para o Irã a fim de matar o chefe da Guarda Revolucionária para que um agente americano infiltrado na inteligência iraniana pudesse assumir o seu lugar. O aparato de segurança iraniano é representado como algo que os estadunidenses são capazes de penetrar e controlar de dentro. Brody mata o comandante em seu próprio escritório; mas quando ele é capturado, é enforcado perante uma multidão numa praça pública.

Majid Javadi é interpretado por Shaun Toub, o mesmo ator iraniano que mais tarde seria o protagonista de Teerã, no papel de Faraz, oficial da Guarda Revolucionária. Um ator da diáspora, contratado para representar o aparato de segurança iraniano tanto para o imaginário estadunidense quanto para o israelense.

Homeland era baseado, em grande parte, na velha lógica de “americanos bons, iranianos maus”. Até mesmo o Washington Post o chamou de “o programa mais intolerante da televisão” e, em 2015, artistas árabes contratados para decorar um cenário incluíram a frase “Homeland é racista” em árabe num episódio da série, sem que ninguém percebesse até a sua exibição.

Enquanto Argo condenava a intervenção militar secreta dos EUA no Irã, Homeland convidava o público a considerá-la como uma opção potencialmente desejável. A série foi lançada justamente quando o Mossad realizava uma onda de assassinatos nas ruas de Teerã. Surpreende alguém que Homeland seja baseada em uma produção israelense?

No episódio final da terceira temporada de Homeland, o agente da CIA, Nicholas Brody, interpretado por Damian Lewis, é capturado e executado publicamente em Teerã. (Foto: Showtime)

Teerã merece ser analisado de perto justamente por não se ver como uma peça de propaganda e por se sentir prejudicada por essa acusação. Ao receber o Emmy, a produtora executiva Dana Eden descreveu a série como sendo “sobre entender o humano por trás de seu inimigo” e disse que esperava que iranianos e israelenses se encontrassem, um dia, em condição de amizade. Essa formulação pressupõe a própria resposta. Chamar alguém de “humano por trás de seu inimigo” significa que você já o classificou como um inimigo desumanizado.

A televisão israelense não surge dissociada do Estado que dramatiza: Fauda, o modelo para todo esse gênero (e que tem como foco os palestinos) foi criada por ex-integrantes das forças especializadas e contou com um elenco de ex-militares, muitos dos quais retornaram ao combate nos últimos anos. Esses programas também pertencem a uma longa tradição israelense que os críticos chamam de histórias de “atirar e chorar“, que permitem que o soldado lamente por sua própria violência, humanizando o autor do ato, enquanto as pessoas que sofrem as consequências mal são notadas. Teerã leva essa tradição mais além, nos convidado a sentir o peso moral carregado pela agente israelense, enquanto os iranianos com quem ela convive se tornam um mero pano de fundo para sua consciência.

A atriz israelense Niv Sultan aparece sobreposta à Torre Azadi de Teerã em material promocional da série. (Foto: Kan 11/Apple TV+)

Isso pode ser visto no que ocorre aos homens iranianos nas três temporadas de Teerã. O caso mais claro é o de Milad Kahani (Shervin Alenabi), o hacker e dissidente iraniano que é introduzido como um dos alvos de Tamar (Niv Sultan), a protagonista israelense da série. Ele se torna amante e parceiro de missão dela. A série permite que ele tenha desejos próprios. A segunda temporada começa com a promessa de fuga: Tamar pode deixar o Mossad e escapar para o Canadá consigo; por um tempo, a série nos faz acreditar nessa possibilidade de uma vida comum, com duas pessoas partindo e construindo um futuro longe do regime que ele despreza.

Esse momento, no entanto, nunca chega. No episódio final da segunda temporada, quando ele e Tamar tentam fugir do Irã juntos, Milad é morto por uma bomba instalada em seu carro, sendo consumido pelas chamas enquanto ela escapa com vida. Sua morte deixa Tamar sozinha em Teerã e estabelece seu isolamento para a próxima temporada. A série passou dois anos nos fazendo amar Milad antes que ele seja repentinamente descartado, servindo à sobrevivência e ao crescimento da protagonista israelense.

Shervin Alenabi como Milad Kahani em Teerã. (Foto: Kan 11/Apple TV+)

Os personagens israelenses ganham tudo que é negado aos iranianos. Quando uma missão coloca um de seus em risco, o Mossad a cancela, em vez de perder um único agente. As vidas dos israelenses são preciosas, contadas e protegidas uma de cada vez. A própria Tamar é escrita com uma consciência verdadeira: na terceira temporada, ela argumenta contra um plano de bombardear a cidade, preocupada com os iranianos que morreriam. Seu medo e suas dúvidas em relação aos seus superiores ganham espaço na tela. Os israelenses são pessoas sobre quem recai o peso de suas escolhas, enquanto os iranianos são apenas o chão em que eles pisam – figuras descartáveis para a série e para a trama.

As instituições são organizadas de forma semelhante, com o mesmo desequilíbrio. O centro de operações do Mossad é um lugar brilhante, tecnológico, repleto de indivíduos humanos e complexos. O Irã é retratado em meio à poeira e à luz fluorescente agressiva: repleto de agentes de segurança intimidadores, interrogadores que torturam, policiais aparentemente incompetentes e um Estado que ensina aos seus oficiais que a lealdade importa mais que a família.

Quando a série busca retratar um iraniano de forma simpática, costuma escolher alguém que anseia pelo Ocidente, que tira o véu da cabeça ou que odeia o governo; isso significa que a simpatia lhes é concedida na exata medida em que concordam com a visão sobre o país já difundida no exterior. Ao fazer isso, a série também sugere que os iranianos que se opõem ao seu próprio governo deveriam buscar um amigo em Israel que, longe de ser um regime genocida e segregacionista, é retratado como uma mão amigas por aqueles que lutam pela liberdade.

Na terceira temporada, a ficção já está alinhada com a realidade. Enquanto as duas primeiras temporadas giravam em torno de interesses pessoais, espionagem, sabotagem e vingança, a terceira temporada se reorganiza quase que inteiramente em torno do programa nuclear iraniano. A série apresenta um Irã que corre atrás da bomba – uma ficção que não coincidentemente tem sido o argumento central de décadas de demandas do Estado israelense acerca da urgente necessidade de atacar o Irã.

Vassilis Koukalani interpreta Qasem Mohammadi, um general da Guarda Revolucionária Islâmica. (Foto: Kan 11/Apple TV+)

Inspetores percorrem os corredores de inspeção de Natanz enquanto as autoridades ocultam suas verdadeiras capacidades. Uma ogiva nuclear é construída discretamente para um eventual teste e um clérigo aparece na tela citando as escrituras para justificá-la (enquanto, na realidade, as autoridades religiosas iranianas declararam repetidamente que as bombas nucleares não são permitidas no Islã). A série transforma o Irã em uma ameaça nuclear completa, enfatizando para o público que a guerra não está apenas no horizonte; ela é necessária.

O que a série nunca menciona é o verdadeiro arsenal nuclear da região: o estoque de Israel não é declarado e está fechado para inspeções internacionais. Isso fica completamente fora da história.

Para muitos espectadores, uma série como esta é sua forma de se informar sobre o Irã. Eles absorvem a essência do país de forma mais vívida através de uma série de televisão do que por meio do noticiário. Quando as bombas caírem, a audiência não apenas está ciente da história dado o que assistiram na TV; eles também entendem que a guerra contra o Irã é algo natural e justificado, porque já testemunharam seu desenrolar e absorveram suas (falsas) justificativas.

O oitavo e último episódio da terceira temporada, intitulado “Dia Zero”, mostra a destruição do programa nuclear do Irã. A temporada se encaminha para um ataque israelense destinado a acabar de vez com a ameaça e expor o segredo do Irã ao mundo, com Israel desempenhando o papel heroico de salvar o planeta ao atacar o Irã.

O episódio final da temporada foi lançado nos Estados Unidos no dia 27 de fevereiro de 2026.

A guerra israelo-americana contra o Irã começou em 28 de fevereiro em 2026.

Iranianos fogem de ataques aéreos israelenses no centro de Teerã (Foto: Morteza Zangene/ISNA).

A linguagem empregada na série faz um trabalho silencioso, rotulando repetidamente o Estado iraniano como sendo “O Regime”. Enquanto produções mais antigas representavam os iranianos como amplamente ligados ao seu governo, a nova onda os representa como uniformemente opostos a ele.

O filósofo Omid Mehrgan tem um nome para onde isso vai parar: isso “torna o Irã bombardeável”. Ele argumenta que uma constante divisão retórica entre o povo iraniano e seu “regime” permite que um ataque ao país seja apresentado como uma ação que poupa a população e pune apenas os seus governantes, já que o Estado é visto como “uma entidade que existe, mas que carece de legitimidade popular”, algo estranho à população que governa.

Visto que o Irã é imaginado como “ocupado”, suas cidades se transformam em alvos e o culpado por sua destruição será o governo, não as potências estrangeiras que realizam o morticínio. Teerã apresenta essa divisão ao público em cena da série.

A estrutura ao redor desta ideia sugere que os iranianos precisam de um salvador externo, reproduzindo quase literalmente os apelos por uma “missão de resgate” que Reza Pahlavi, estreitamente alinhado a Israel, utilizava para defender o ataque israelo-americano contra o Irã. A simpatia da audiência é direcionada ao agente de um estado que está bombardeando o país retratado na tela.

Não são apenas os iranianos fictícios que são posicionados em oposição ao seu governo na tela; muitos dos atores que os interpretam são de ascendência iraniana. Isso inclui Navid Negahban, o ator iraniano que interpreta Masoud, o agente alinhado com o Mossad na série Teerã e o mentor terrorista Abu Nazir em Homeland. Seja conscientemente ou não, muitos atores da diáspora iraniana acabam interpretando papéis que implicitamente justificam a guerra contra seu próprio país.

Navid Negahban interpreta o agente do Mossad Masoud Tabrizi em Teerã. Negahban também dá vida a Abu Nazir, membro da Al-Qaeda na Pátria. Antes de interpretar Faraz Kamali em Teerã, Shaun Toub deu vida a Majid Javadi, vice-chefe da inteligência iraniana, na terceira e sexta temporadas de Homeland. (Foto: Kan 11/Apple TV+)

Em julho de 2024, o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, foi assassinado em Teerã numa operação amplamente atribuída a Israel. Em resposta, a atriz Niv Sultan, que interpreta a agente do Mossad no centro da série, postou um vídeo de si mesma bebendo café e piscando para a câmera. Veículos de comunicação israelenses e internacionais interpretaram a piscadela como uma referência à profissão da personagem.

Um assassinato real na Teerã da vida real tornou-se uma oportunidade promocional para a agente fictícia do Mossad. Assim como uma série de ficção sobre um ataque ao Irã abriu caminho para uma guerra real que deixou milhares de iranianos mortos.

***

O consentimento por uma guerra não emerge na manhã que as bombas caem. Ele é construído ao longo dos anos, no lento acúmulo de imagens que se sedimentam antecipadamente, na definição de qual morte será recebida como tragédia e qual morte não passará de ruído de fundo. O fanático no cartaz, a multidão sem rosto, o iraniano em Teerã descartado para servir à narrativa de outra pessoa: nada disso está dissociado da guerra.

A obra mais cruel da imagem não é a falsidade em si. É fazer com que a mentira pareça conhecimento, de modo que, quando chegar o momento de desviar o olhar do que está sendo feito aos iranianos, esse desvio pareça justificado, naturalizado e normalizado.

Antes de os iranianos serem mortos, eles tiveram de se tornar “matáveis”, e séries como Homeland e Teerã fazem exatamente isso.

“Iranianos malvados do cinema” em Hollywood (Imagem criada por Laila Errazzouki).

ÚLTIMOS ARTIGOS PUBLICADOS