Texto de Nick Orzech, publicado originalmente no Medium.
Quantas vezes já ouvimos esse versículo ser citado isoladamente, desprovido de qualquer contexto, para alimentar o medo e a desconfiança em relação aos muçulmanos? A implicação dessa citação é clara: os muçulmanos — por mais pacíficos que possam parecer — estão apenas esperando para matar seus vizinhos não muçulmanos “onde quer que os encontrem”.
O conceito de jihad no Islã é frequentemente deturpado como agressivo, brutal e motivado por nada mais do que o desejo de matar todos os não-muçulmanos. O que o próprio Alcorão diz sobre essa interpretação? Muito já foi escrito sobre esse tema (veja aqui, aqui e aqui alguns exemplos), portanto, meu objetivo não é apresentar provas exaustivas a partir do vasto corpus da literatura dos hádices ou da tradição jurídica da guerra no Islã. Em vez disso, deixarei que o Alcorão fale por si mesmo, fazendo algumas observações menores ao longo do caminho e, ocasionalmente, recorrendo às palavras do Profeta Muhammad ﷺ.
Uma barreira à compreensão do Alcorão por parte dos não-muçulmanos é a falta de familiaridade com a forma como o texto é lido. Muitos leitores curiosos esperam que seu conteúdo esteja organizado linearmente ou em ordem cronológica, como a Bíblia. Em vez disso, devemos ler o Alcorão como ele próprio nos ordena (e como os muçulmanos sempre fizeram): como um todo abrangente, com versículos em vários lugares iluminando diferentes facetas de um único tema.
Os versículos corânicos mais importantes relacionados à Jihad são, portanto, apresentados aqui em ordem aproximadamente cronológica, de acordo com o entendimento tanto da tradição islâmica quanto da maioria dos historiadores seculares. O objetivo não é apresentar uma narrativa abrangente das primeiras campanhas muçulmanas e do envolvimento do Alcorão com elas, nem apresentar todos os versículos sobre o assunto, mas mostrar como os princípios que regem a guerra e a violência foram introduzidos e aplicados. Os versículos mais importantes estão aqui, e o restante pode ser compreendido dentro desse quadro.
Perseguição e Paciência
Durante os primeiros treze anos, foi ordenado aos muçulmanos que não lutassem. Os companheiros do Profeta Muhammad ﷺ suportaram opressão, tortura brutal e martírio por causa de sua fé enquanto estavam em Meca, mas foram proibidos de responder com força ou violência. Em várias ocasiões, os companheiros do Profeta ﷺ imploraram-lhe que pedisse permissão a Deus para revidar, mas ele recusou. Um desses companheiros, Abd al-Rahman ibn Awf, dirigiu-se ao Profeta e disse-lhe:
“Ó Profeta de Deus, estávamos em posição de força quando éramos idólatras, mas agora que acreditamos, fomos humilhados.” Ele ﷺ respondeu: “Fui ordenado a perdoar — portanto, não lutem contra eles.” (Tafsir Ibn Kathir 4:77)
Os alicerces morais da comunidade muçulmana foram estabelecidos durante esse período. Isso se reflete em inúmeros versículos corânicos iniciais, entre eles:
1. “Jamais poderão equiparar-se a bondade e a maldade! Retribui o mal da melhor forma possível, e eis que aquele que nutria inimizade por ti converter-se-á em íntimo amigo! Porém a ninguém se concederá isso, senão aos tolerantes, e a ninguém se concederá isso, senão aos bem-aventurados.”
— Fussilat, 41:34-35
2. “E os servos do Clemente são aqueles que andam pacificamente pela terra e, e quando os insipientes lhes falam, dizem: Paz!”
— al-Furqan, 25:63
3. E tolera tudo quanto te digam, e afasta-te dignamente deles.
— al-Muzammil, 73:10
4. Persevera, pois, como o fizeram os inflexíveis, entre os mensageiros, e que foram ameaçados, pensarão não haver permanecido (no mundo terreno) mais do que uma hora de um só dia. Eis aqui a Mensagem! Porventura, serão aniquilados outros, além dos depravados?
— al-Ahqaf, 46:35
5. Deixai-los, pois, que se entretenham, e brinquem, até que topem com o seu dia, o qual lhes foi prometido!
— al-Ma’arij, 70:42
6. Não dês ouvido aos incrédulos; mas combate-os (jihad) com denoda, com este [Alcorão].
— al-Furqan 25:52
Este versículo final é de considerável interesse aqui, pois é um exemplo do uso da palavra jihad (combate) no Alcorão antes que a luta fosse permitida aos muçulmanos. Essa linguagem é invocada em inúmeros contextos na Sunnah e na biografia profética, como nas palavras do Profeta ﷺ:
“Aquele que verdadeiramente luta (mujāhid) no caminho de Deus é aquele que luta contra seu próprio ego em obediência a Deus…” (Ahmad 23958)
2. Permissão para Lutar
Foi concedida permissão aos muçulmanos para lutar no segundo ano após a migração do Profeta Muhammad e seus seguidores de Meca para Medina (por volta de 624 d.C.), cerca de catorze anos após o início de sua missão profética. O contexto apresentado nessa permissão é esclarecedor:
1. Ele permitiu (o combate) aos que foram atacados; em verdade, Deus é Poderoso para socorrê-los. São aqueles que foram expulsos injustamente dos seus lares, só porque disseram: Nosso Senhor é Deus! E se Deus não tivesse refreado os instintos malignos de uns em relação aos outros, teriam sido destruídos mosteiros, igrejas, sinagogas e mesquitas, onde o nome de Deus é frequentemente celebrado. Sabei que Deus secundará quem O secundar, em Sua causa, porque é Forte, Poderosíssimo.
— al-Hajj, 22:39-40
2. Não há imposição quanto à religião, porque já se destacou a verdade do erro. Quem renegar o sedutor e crer em Deus, Ter-se-á apegado a um firme e inquebrantável sustentáculo, porque Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo.
— al-Baqara, 2:256
Várias coisas notáveis se destacam nesses versículos. O primeiro afirma explicitamente que os muçulmanos foram autorizados a lutar porque estavam sendo atacados, haviam sido expulsos de sua terra natal e sofrido perseguição por sua fé nas mãos dos politeístas de Meca. Ele também explica claramente a sabedoria por trás da legitimidade da guerra justa: preservar a liberdade religiosa para todos os grupos de fé. O segundo versículo estabelece um princípio universal no Islã, a saber, que a fé não pode ser imposta e que a conversão forçada é inválida. É notável que isso tenha sido revelado depois que os muçulmanos estavam em uma posição de força e poder político.
3. “Está-vos prescrita a luta (pela causa de Deus), embora o repudieis. É possível que repudieis algo que seja um bem para vós e, quiçá, gosteis de algo que vos seja prejudicial; todavia, Deus sabe todo o bem que fizerdes, Deus dele tomará consciência.”
— al-Baqara, 2:216
4. Quando te perguntarem se é lícito combater no mês sagrado, dize-lhes: A luta durante este mês é um grave pecado; porém, desviar os fiéis da senda de Deus, negá-Lo, privar os demais da Mesquita Sagrada e expulsar dela (Meca) os seus habitantes é mais grave ainda, aos olhos de Deus, porque a perseguição é pior do que o homicídio. Os incrédulos, enquanto puderem, não cessarão de vos combater, até vos fazerem renunciar à vossa religião; porém, aqueles dentre vós que renegarem a sua fé e morrerem incrédulos tornarão as suas obras sem efeito, neste mundo e no outro, e serão condenados ao inferno, onde permanecerão eternamente.
— al-Baqara, 2:217
Este versículo foi revelado em resposta a um confronto entre um pequeno grupo de muçulmanos e uma caravana de Meca a caminho da Síria, transportando bens confiscados dos muçulmanos expulsos e de suas famílias. O Companheiro Abdullah ibn Umar explicou que fitnah (perseguição) aqui significa ser submetido a provações e oprimido por causa da própria religião. Da mesma forma, o estudioso da segunda geração Mujahid ibn Jabr definiu-a como “ser afastado da própria fé” — ou seja, opressão religiosa violenta, não mera diferença religiosa (Tafsir Ibn Kathir).
5. Que combatam pela causa de Deus aqueles dispostos a sacrificar a vida terrena pela futura, porque a quem combater pela causa de Deus, quer sucumba, quer vença, concederemos magnífica recompensa. E o que vos impede de combater pela causa de Deus e dos indefesos, homens, mulheres e crianças? que dizem: Ó Senhor nosso, tira-nos desta cidade (Meca), cujos habitantes são opressores. Designa-nos, de Tua parte, um protetor e um socorredor!
— al-Nisaa, 4:74–75
Assim como o primeiro versículo desta seção, esta passagem final mostra claramente como os primeiros muçulmanos entendiam seu chamado às armas: como uma campanha contra a opressão e a tirania. Somente após anos de expulsão, perseguição e expropriação é que lhes foi finalmente permitido lutar — em defesa dos inocentes. Mesmo assim, o Alcorão deixa claro que a luta era odiada por eles, que os muçulmanos não desejavam a violência, mas foram arrastados para um conflito inevitável e estavam dispostos a se sacrificar por um propósito e ideais superiores. O objetivo não era a agressão, mas a proteção da vida e da liberdade de consciência.
Como o Profeta disse a seus companheiros antes de uma batalha:
“Ó povo, não desejeis encontrar o inimigo! Pedi a Deus por segurança. Mas se os encontrardes, então permanecei firmes e sabei que o Paraíso se encontra à sombra das espadas.” (Bukhari 2965)
3. Moderação na Guerra
Nos anos que se seguiram à autorização inicial para combater, o conflito entre os habitantes de Meca e a nova cidade-estado muçulmana de Medina se transformou em um conflito em grande escala, com várias batalhas importantes e figuras notáveis mortas em ambos os lados. Durante esse período, os versículos do Alcorão tornam-se mais explícitos em seu apelo, mas suas instruções aos crentes continuaram a exigir moderação, enfatizando que, mesmo em guerra aberta, o combate é condicional e limitado, não uma licença para a violência indiscriminada. É nesse contexto de guerra aberta que encontramos os seguintes versículos revelados:
1. “Combatei, pela causa de Deus, aqueles que vos combatem; porém, não pratiqueis agressão, porque Deus não estima os agressores.”
— al-Baqara, 2:190
Mais uma vez, a ordem surge explicitamente em resposta à agressão, acompanhada da ordem de não “pratiqueis agressão”. Ibn Abbas — primo e companheiro próximo do Profeta ﷺ — explicou este versículo da seguinte forma:
“‘Não pratiqueis agressão’ significa: não mateis mulheres, crianças ou idosos, nem ninguém que tenha deposto as armas e se retirado da luta. Se o fizerdes, então de fato transgredistes agressivamente.” (Tafsir Ibn Abi Hatim 1/325)
2. “Matai-os onde quer se os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo dos incrédulos.”
— al-Baqara, 2:191
Este versículo vem imediatamente após o anterior e é nosso primeiro exemplo do famoso “matai-os onde quer que os encontreis”. Observe que ele surge no contexto de uma guerra em curso. Além disso, o versículo é imediatamente seguido pela ordem:
3. “Porém, se desistirem, sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo. E combatei-os até terminar a perseguição e prevalecer a religião de Deus. Porém, se desistirem, não haverá mais hostilidades, senão contra os iníquos.”
— al-Baqara, 2:192-193
4. “Combatei-os até terminar a intriga, e prevalecer totalmente a religião de Deus. Porém, se se retratarem, saibam que Deus bem vê tudo o quanto fazem.”
— al-Anfaal, 8:39
5. “Os fiéis combatem pela causa de Deus; os incrédulos, ao contrário, combatem pela do sedutor. Combatei, pois, os aliados de Satanás, porque a angústia de Satanás é débil.”
— al-Nisaa, 4:76
6. “Mobilizai tudo quando dispuserdes, em armas e cavalaria, para intimidar, com isso, o inimigo de Deus e vosso, e se intimidarem ainda outros que não conheceis, mas que Deus bem conhece. Tudo quanto investirdes na causa de Deus, ser-vos-á retribuído e não sereis defraudados. Se eles se inclinam à paz, inclina-te tu também a ela, e encomenda-te a Deus, porque Ele é o Oniouvinte, o sapientíssimo.”
— al-Anfaal, 8:60-61
7. “E quando vos enfrentardes com os incrédulos, (em batalha), golpeai-lhes os pescoços, até que os tenhais dominado, e tomai (os sobreviventes) como prisioneiros. Libertai-os, então, por generosidade ou mediante resgate, quando a guerra tiver terminado. Tal é a ordem. E se Deus quisesse, Ele mesmo ter-Se-ia livrado deles; porém, (facultou-vos a guerra) para que vos provásseis mutuamente. Quanto àqueles que foram mortos pela causa de Deus, Ele jamais desmerecerá as suas obras.”
— Muhammad, 47:4
O Alcorão ordena aos crentes que lutem com firmeza na batalha, mas é igualmente enfático ao afirmar que a paz deve sempre ser buscada e que, se o inimigo se inclinar para a paz, os muçulmanos devem concordar, lutando apenas contra aqueles que cometem agressão. Sob a orientação do Profeta Muhammad ﷺ, os primeiros muçulmanos aderiram a regras éticas rigorosas na guerra. Isso é exemplificado pela ordem do primeiro califa, Abu Bakr, ao exército muçulmano quando partiam para a Síria:
“Encarrego-vos de dez instruções: não mateis mulheres, crianças ou idosos. Não corteis árvores frutíferas e não destruais locais habitados. Não abatais ovelhas ou camelos, exceto para alimentação. Não queimeis tamareiras, nem as afogueis. Não vos aproprieis desonestamente dos espólios da batalha e não sejais covardes.” (Muwatta de Malik, Livro da Jihad 918)
4. Tratados, Traição e Quebradores de Juramentos
O Alcorão não ensina que todos os não-muçulmanos devam ser combatidos, nem que não se possa fazer alianças com eles em nenhuma circunstância. Pelo contrário, ao longo do período de Medina, a revelação enfatizou cada vez mais a importância de tratados formais e pactos de segurança com outras tribos e comunidades, consagrando tais acordos com juramentos divinos.
1. “Deus nada vos proíbe, quanto àquelas que não nos combateram pela causa da religião e não vos expulsaram dos vossos lares, nem que lideis com eles com gentileza e equidade, porque Deus aprecia os equitativos. Deus vos proíbe tão-somente entrar em privacidade com aqueles que vos combateram na religião, vos expulsaram de vossos lares ou que cooperaram na vossa expulsão. Em verdade, aqueles que entrarem em privacidade com eles serão iníquos.”
— al-Mumtahana, 60:8-9
2. “Cumpri o pacto com Deus, se houverdes feito, e não perjureis, depois de haverdes jurado solenemente, uma vez que haveis tomado Deus por garantia, porque Deus sabe tudo quanto fazeis.”
— al-Nahl, 16:91
3. “E se suspeitas da traição de um povo, rompe o teu pacto do mesmo modo, porque Deus não estima os traidores.”
— al-Anfaal, 8:58
Esses versículos mostram a grande ênfase que o Islã dá ao cumprimento de pactos e à proibição estrita da traição e da perfídia, mesmo em meio a guerras acirradas. Eles também esclarecem que a proibição de fazer aliados se aplica especificamente àqueles que lutaram contra os muçulmanos, expulsaram-nos de sua terra natal ou apoiaram outros a fazê-lo — e não aos não muçulmanos em si. Isso é extremamente relevante para as seguintes passagens, que apresentam o famoso “Versículo da Espada”:
4. “Cumpri o ajuste com os idólatras, com quem tenhais um tratado, e que não vos tenham atraiçoado e nem tenham secundado ninguém contra vós; cumpri o tratado até à sua expiração. Sabei que Deus estima os tementes.”
— al-Tawba, 9:4
5. “Mas quanto os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras, onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os; porém, caso se arrependam, observem a oração e paguem o zakat, abri-lhes o caminho. Sabei que Deus é Indulgente, Misericordiosíssimo.”
— al-Tawba, 9:5
6. “Se alguns dos idólatras procurar a tua proteção, ampara-o, para que escute a palavra de Deus e, então, escolta-o até que chegue ao seu lar, porque (os idólatras) são insipientes.”
— al-Tawba, 9:6
Conforme mencionado no início deste artigo, os críticos do Islã frequentemente citam este versículo do meio (9:5), mas convenientemente omitem o contexto fornecido pelos versículos imediatamente antes e depois dele. A inclusão desses versículos deixa clara a natureza explicitamente limitada da ordem. Não se trata de uma ordem generalizada para matar todos os politeístas, mas sim de forças hostis que violaram seus acordos e conspiraram para a destruição dos muçulmanos.
O primeiro desses três versículos (9:4) deixa claro que os pagãos que não haviam violado seus tratados não deveriam ser combatidos enquanto o tratado permanecesse em vigor. O versículo seguinte ordena lutar corajosamente contra um grupo específico de pagãos que violaram seus tratados, mas mesmo isso é restringido pela passagem seguinte (9:6), que ordena que, se um membro das forças pagãs solicitar segurança — mesmo no meio da batalha —, ele deve receber proteção e ser escoltado para um local seguro onde ouvirá a mensagem do Alcorão e estará a salvo, quer se converta ou não. Como o próprio Profeta Muhammad ﷺ disse:
“Quem matar uma pessoa com quem haja um tratado não sentirá a fragrância do Paraíso, embora sua fragrância possa ser percebida a uma distância de uma viagem de quarenta anos.” (Bukhari 3166)
5. Lealdade Política e Traição
De acordo com o Alcorão e os ensinamentos do Profeta Muhammad ﷺ, a guerra e a paz não são determinadas por diferenças religiosas. Pelo contrário, a revelação deixa claro que as regras da guerra eram regidas pela necessidade de garantir a sobrevivência da comunidade muçulmana perseguida e de sua cidade-estado sitiada, por meio do estabelecimento de uma nova ordem moral e política. Isso exigia a definição de alianças e obrigações com diferentes grupos, mantendo-se atento às ameaças da hipocrisia e da dissidência, tanto internas quanto externas.
1. “Não reparaste naqueles, aos quais foi dito: Contende as vossas mãos, observai a oração e pagai o zakat? Mas quando lhes foi prescrita a luta, eis que grande parte deles temeu as pessoas, tanto ou mais que a Deus, dizendo: Ó Senhor nosso, porque nos prescreves a luta? Por que não nos concedes um pouco mais de trégua? Dize-lhes: O gozo terreno é transitório; em verdade, o da outra vida é preferível para o temente; sabei que não sereis frustrados, no mínimo que seja.”
— al-Nisaa, 4:77
2. “Por que vos dividistes em dois grupos a respeito dos hipócritas, uma vez que Deus os reprovou pelo que perpetraram? Pretendeis orientar quem Deus Desvia? Jamais encontrarás senda alguma para aquele a quem Deus desvia. Anseiam (os hipócritas) que renegueis, como renegaram eles, para que sejais todos iguais. Não tomeis a nenhum deles por confidente, até que tenham migrado pela causa de Deus. Porém, se se rebelarem, capturai-os então, matai-os, onde quer que os acheis, e não tomeis a nenhum deles por confidente nem por socorredor.”
— al-Nisaa, 4:88–89
O primeiro versículo aqui relembra o período anterior de Meca, no qual os muçulmanos estavam proibidos de lutar, mostrando que, quando a luta foi finalmente ordenada, ela expôs tanto a fraqueza de alguns crentes quanto a hipocrisia descarada de outros em Medina. O espaço não permite uma explicação detalhada sobre os munāfiqūn (hipócritas) mencionados na seleção a seguir; basta observar que uma facção em Medina aceitava externamente a liderança do Profeta ﷺ enquanto secretamente conspirava com os pagãos de Meca contra sua comunidade. A ordem para lutar separou, assim, o joio do trigo: alguns simplesmente se recusaram a lutar, enquanto outro grupo deixou a comunidade e se juntou aos seus inimigos, continuando a professar o Islã na presença dos muçulmanos.
3. “Exceto àqueles que se refugiarem em um povo, entre o qual e vós exista uma aliança, ou os que, apresentando-se a vós, estejam em dúvida quanto ao combater-vos ou combater a sua própria gente. Se Deus tivesse querido, tê-los-ia feito prevalecer sobre vós e, seguramente, ter-vos-iam combatido; porém, se eles se retirarem, não vos combaterem e vos propuserem a paz, sabei que Deus não vos faculta combatê-los.”
— al-Nisaa, 4:90
Este versículo segue imediatamente o anterior, mostrando que, mesmo em meio a esse grave perigo, o Alcorão busca restringir a violência — mesmo contra traidores — por meio de um sistema de pactos e tratados vinculativos. Além disso, se um grupo se afastar da agressão e buscar a paz, então toda hostilidade contra ele é proibida.
4. “Os fiéis que migraram e sacrificaram seus bens e pessoas pela causa de Deus, assim como aqueles que os ampararam e os secundaram, são protetores uns aos outros. Quanto aos fiéis que não migraram, não vos tocará protegê-los, até que o façam. Mas se vos pedirem socorro, em nome da religião, estareis obrigados a prestá-lo, salvo se for contra povos com quem tenhais um tratado; sabei que Deus bem vê tudo quanto fazeis.”
— al-Anfaal, 8:72
5. “Quanto aos incrédulos, são igualmente protetores uns aos outros; e se vós não o fizerdes (protegerdes uns aos outros), haverá intriga e grande corrupção sobre a terra. Quanto aos fiéis que migraram e combateram pela causa de Deus, assim como aqueles que os apararam e os secundaram – estes são os verdadeiros fiéis – obterão indulgência e magnífico sustento.”
— al-Anfaal, 8:73-74
Esses versículos estabelecem um sistema de lealdade e obrigação compartilhadas entre os crentes que transcende os laços tribais. Ao mesmo tempo, essa unidade permanece sujeita a convênios: mesmo o dever de ajudar os irmãos na fé não permite traição, perfídia ou agressão infundada. O resultado é uma forma de solidariedade política — nova na Península Arábica — que é universal e baseada em princípios, marcando o surgimento de uma nova identidade comunitária: a Ummah muçulmana.
“A proteção concedida pelos muçulmanos é única; mesmo o mais humilde deles pode conceder proteção, e ela é vinculativa para todos eles.” (Muslim 3163)
Conclusão
O que, então, diz o próprio Alcorão sobre as alegações feitas a respeito da suposta natureza agressiva e violenta do Islã?
O Alcorão não apresenta a violência como algo incondicional ou intrinsecamente louvável, nascido do desejo de matar os incrédulos. Como mostram esses versículos, a revelação primeiro proibiu a luta, depois a permitiu em resposta à perseguição, em seguida a regulamentou em meio ao conflito e a inseriu em um sistema de tratados, obrigações e lealdades políticas — um sistema que mais tarde se desenvolveria nas tradições jurídicas islâmicas de guerra e arte de governar.
“Matem-nos onde quer que os encontrem” dificilmente é uma ordem incondicional. Pelo contrário, é profundamente contextual e restrita em sua aplicação de acordo com o próprio Alcorão — mesmo antes de recorrer às palavras do Profeta Muhammad ﷺ ou dos juristas muçulmanos.
O que é frequentemente apresentado como um apelo à violência indiscriminada é, de acordo com o próprio testemunho do Alcorão, muito mais limitado e razoável.
Leitura recomendada
Ghazi bin Muhammad, Ibrahim Kalin, and Mohammad Hashim Kamali, eds. War and Peace in Islam: The Uses and Abuses of Jihad. Amman: Royal Islamic Strategic Studies Centre, 2013.
David Cook. Understanding Jihad. Berkeley: University of California Press, 2005.
Justin Parrott, “Jihad in Islam: War and Peace, Justice and Mercy.”
Hassan Shibly, “War, Islam, and the Sanctity of Life: Non-Aggression in the Islamic Code of Combat.”
Rashad Ali and Hannah Stuart. A Guide to Refuting Jihadism: Critiquing Radical Islamist Claims to Theological Authenticity. London: The Henry Jackson Society, 2014.
Surkheel Sharif, “Is Islam a Conquest Ideology? On Jihad, War, & Peace.”



