Com os recentes acontecimentos envolvendo sanções dos Estados Unidos sobre produtos e autoridades brasileiras, o Brasil começou a experimentar uma ínfima fração do que é ter sua rotina afetada pelas ingerências de uma potência estrangeira que baseia sua política externa em ameaças e ataques, se portando feito um verdadeiro “bully global”. Em que pese uma parcela da população, por motivos misteriosos (ou nem tanto), apoie a interferência estrangeira em solo nacional – mesmo que isso custe a saúde da economia e sociedade brasileiras –, a realidade é que intervenções do gênero costumam causar uma maior união interna do povo afetado em prol dos interesses nacionais e contra a ameaça externa.
Apesar do cenário único enfrentado no Brasil, as sanções de Donald Trump se encontram em um contexto em que o presidente norte-americano saiu distribuindo tarifas pelo mundo inteiro, inclusive contra outros aliados históricos dos Estados Unidos. Contudo, existem países que enfrentam a mesma situação (em cenários muito piores) há décadas, sendo projeto de Estado do governo estadunidense o combate a essas nações, independentemente de ser um democrata ou republicano na presidência. Dentre esses países podemos mencionar o Irã, nação majoritariamente islâmica e alvo de ataques americanos há décadas. Mas, afinal, como é viver num país que realmente está em guerra com os EUA?
As sanções econômicas impostas ao Irã, notadamente as lideradas pelos Estados Unidos, constituem uma ferramenta de política externa cujos impactos transcendem o alvo governamental e atingem de forma severa e direta a população civil. Embora articuladas com o objetivo oficial de pressionar o governo iraniano a cumprir “regras internacionais” (leia-se: a vontade americana), especialmente em relação ao seu programa nuclear, as medidas criaram uma crise humanitária complexa, minando direitos básicos como o acesso à saúde, a um meio ambiente limpo e ao bem-estar econômico e social que uma sociedade almeja.
Em suma, embora as sanções visem o governo, sua complexidade, o “medo” generalizado no setor financeiro e a falta de canais humanitários eficazes resultam em graves consequências para a saúde, bem-estar e acesso a serviços básicos para a população iraniana comum e refugiados, mesmo com isenções “no papel”. Não podemos ser inocentes e ignorar o fato de que a piora na situação da população comum é uma forma de pressionar o governo direta ou indiretamente, visto que piores condições de vida ocasionam protestos, aumento da violência e assim sucessivamente.
A origem de tais medidas remonta à Revolução Iraniana de 1979, mas as sanções bilaterais e da ONU são um desenvolvimento mais recente. O objetivo declarado é forçar o Irã a se adequar às normas internacionais sobre seu programa nuclear. No entanto, o alcance dessas sanções, abrangendo restrições bancárias, de transporte, seguros e comércio, complicou profundamente os laços comerciais do Irã com o resto do mundo.
O setor da saúde é um dos mais drasticamente afetados. Apesar de medicamentos não estarem formalmente na lista de sanções, as dificuldades em obter licenças para exportação, realizar transações financeiras e garantir o transporte, somadas ao receio de sanções secundárias por parte de farmacêuticas e bancos internacionais, levaram a uma grave escassez de medicamentos específicos e insumos médicos nos últimos meses (GORJI, 2014).
Garota iraniana com epidermólise bolhosa. Portadores da doença são um dos grupos mais afetados pelas sanções estadunidenses.
Ainda segundo Goji (2014), este cenário é particularmente devastador para mais de seis milhões de pacientes que sofrem de doenças complexas, como hemofilia, esclerose múltipla, talassemia, epilepsia, diversas desordens imunológicas, além de pacientes em tratamento de câncer e diálise renal. A falta de anestésicos nos centros cirúrgicos e a interrupção no fornecimento de medicamentos essenciais já resultaram em mortes, configurando o que pode ser chamado de “assassinato silencioso”, o efeito mais pernicioso de sanções e isolamentos, em especial num mundo globalizado onde países se tornam altamente interdependentes.
A produção interna de medicamentos, que responde por 97% do consumo, é igualmente prejudicada. Os 3% de medicamentos importados são justamente os mais caros e especializados, representando 30% do valor de mercado. Crucialmente, cerca de 30% dos medicamentos produzidos localmente e 70% dos equipamentos médicos dependem de matéria-prima importada, cujo acesso é severamente restringido pelas sanções.
O impacto econômico direto na população é visível na alta da inflação, que atingiu cerca de 40% (38,7% em maio de 2025, já tendo atingido 55% em 2023). Esse aumento corrói o poder de compra das famílias iranianas e agrava a situação dos grupos mais vulneráveis, que incluem os pobres, os doentes, os idosos e os refugiados afegãos, que se tornaram ainda mais dependentes da ajuda humanitária que não chega. Desnecessário dizer também quem causou a crise de refugiados no Afeganistão e em outros países do Oriente Médio…
À medida que a inflação aumenta, os mais pobres encontram dificuldades em suprir suas necessidades mais básicas.
As sanções também geram um impacto ambiental severo. Especialistas da ONU apontam que as medidas não apenas impedem o governo de lidar de forma eficaz com seus problemas ambientais, mas contribuem para piorá-los. A poluição do ar, em particular, tornou-se uma crise de saúde pública, sendo uma das principais causas de doenças respiratórias e outras enfermidades. Mas como exatamente isso ocorre? Vejamos.
A aplicação das sanções, com ameaças de penalidades a empresas estrangeiras, levou os fabricantes de automóveis a se retirarem do mercado iraniano. Como resultado, o Irã depende de motores e equipamentos produzidos localmente que não incorporam as tecnologias mais recentes e limpas, agravando diretamente a poluição do ar. Além disso, as sanções criam uma barreira financeira que impede a transição energética do Irã para fontes renováveis, como vêm fazendo outros países da região, em especial os países do golfo. Projetos de grande escala, como a construção de usinas de energia solar, exigem um nível de investimento e expertise técnica que muitas vezes depende de capital e empresas estrangeiras. As sanções afugentam esse investimento, afinal de contas o risco é muito maior do que o aceitável para a esmagadora maioria das empresas.
Um funcionário iraniano trabalha em um carro Brilliance em uma linha de montagem da iraniana Pars Khodro, apoiada pela chinesa Brilliance Auto, em Teerã, Irã, em 23 de setembro de 2017.
Além do bloqueio tecnológico e financeiro, as sanções impõem um isolamento científico. O progresso na área ambiental depende da colaboração internacional, do intercâmbio de conhecimento e do acesso a pesquisas e dados atualizados. As sanções impedem cientistas iranianos de participar de projetos de pesquisa conjuntos e até mesmo de acessar recursos online essenciais. O mesmo já vimos ser feito com cientistas e demais profissionais da Rússia, China, Coréia do Norte, Cuba, dentre outros.
A poluição atmosférica é responsável por números alarmantes de mortes prematuras: estima-se que ocorram 4.000 mortes por ano em Teerã e 40.000 em todo o país. As sanções forçam a população a prolongar o uso de veículos antigos, que queimam combustível de forma menos eficiente, ao mesmo tempo que tornam impossível para o Irã obter equipamentos e tecnologias modernas para reduzir as emissões veiculares, conforme mencionamos mais acima.
A qualidade do ar em Teerã é uma das piores do mundo.
O setor privado, especialmente o bancário e empresarial, opera sob o que foi descrito como uma “cultura do medo”. O receio de violar as complexas regulações e sofrer multas bilionárias ou mesmo penas de prisão leva a uma “superconformidade” (overcompliance), onde instituições financeiras e empresas se recusam a processar até mesmo transações comuns legítimas, excedendo em muito o alcance legal das sanções, por medo de retaliação ao se envolverem com um “país inimigo” do Ocidente.
Organizações humanitárias não governamentais (ONGs) enfrentam barreiras quase intransponíveis. Organizações como a Child Foundation, que apoia 6.000 crianças vulneráveis, e o Conselho Norueguês para Refugiados (NRC) encontram extrema dificuldade para operar devido à impossibilidade de encontrar rotas financeiras viáveis. A falta de canais para transferir fundos paralisa a ajuda essencial para quem mais precisa. Não podemos nos esquecer do amplo domínio que os EUA possuem sobre o sistema bancário, operadoras de cartões e do próprio sistema SWIFT, vide as sanções recentes sobre o Ministro Alexandre de Moraes do STF com a aplicação da Lei Magnitsky, ao qual não entraremos em maiores detalhes por fugir do tema deste artigo e da própria página, mas que ilustra bem o poderio concreto e em potencial do governo norte-americano no setor bancário.
A natureza dessas sanções também fomenta a corrupção. A ausência de um canal financeiro viável para transações humanitárias cria um sistema fragilizado, no qual o governo pode se tornar dependente de “intermediários” para movimentar moedas de maneira não transparente, um terreno fértil para práticas corruptas, ainda que o governo tenha a responsabilidade de combatê-las.
Especialistas da ONU concluem que é imperativo que essas medidas sejam aliviadas ou completamente suspensas, pois contradizem a posição dos próprios EUA sobre o direito a um ambiente limpo e saudável e impedem que os iranianos acessem seus direitos à saúde, à vida e a outras condições favoráveis.
Convenhamos, é difícil acreditar nos EUA no assunto Direitos Humanos quando ele é o país dos (i) linchamentos públicos de minorias raciais e demais episódios de massacres (ao ponto de ter avião bombardeando pessoas negras em 1921 no massacre de Tulsa); (ii) lei Jim Crow e demais episódios segregacionistas chancelados pelo Estado; (iii) duas bombas nucleares; (iv) uso de armas químicas em guerras (ex: Vietnã); (v) encarceramento em massa; (vi) Guantánamo e outros presídios conhecidos pela violação sistemática dos Direitos Humanos onde se praticavam torturas brutais; (vii) invasão e/ou desestabilização de países feito Síria, Iraque, Afeganistão, Líbia etc. ocasionando milhões de mortos e outros milhões de refugiados; (viii) 251 intervenções militares desde 1991 até 2022; (ix) aproximadamente 750-877 bases militares espalhadas por 80-95 países e territórios ao redor do globo sendo utilizadas como meio de intimidação; (x) instrumentalização do narcotráfico para desestabilizar governos na América Latina; (xi) apoio irrestrito ao genocídio em curso em Gaza perpetrado por Israel e assim sucessivamente, numa lista infindável de violações aos direitos humanos que chega a ser exaustivo mencionar.
Em suma, os EUA só ligam para o tema “direitos humanos” quando é conveniente usá-lo como porrete contra países que não se curvam ao imperialismo ianque.
Referências
ATLANTIC COUNCIL. The humanitarian impact of US sanctions on Iran. Disponível em: <https://www.atlanticcouncil.org/event/the-humanitarian-impact-of-us-sanctions-on-iran/>. Acesso em: 8 ago. 2025.
GORJI, A. Sanctions against Iran: The impact on health services. Iranian journal of public health, v. 43, n. 3, p. 381–382, 2014.
THE ECONOMIST. American sanctions bring more agony to Iran’s dysfunctional economy. 8 ago. 2018. Disponível em: <https://www.economist.com/middle-east-and-africa/2018/08/08/american-sanctions-bring-more-agony-to-irans-dysfunctional-economy?utm_campaign=shared_article>. Acesso em: 8 ago. 2025.
UNITED NATIONS. US sanctions violate Iranian people’s rights to clean environment, health and life: UN experts. Disponível em: <https://www.ohchr.org/en/press-releases/2022/12/us-sanctions-violate-iranian-peoples-rights-clean-environment-health-and>. Acesso em: 8 ago. 2025.







