O custo humano da “Guerra ao Terror” americana nos países muçulmanos

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Entre 2001 e 2023, sob o pretexto de combater o terrorismo no mundo, as forças armadas dos EUA e da Europa orquestraram operações militares em ao menos 24 países diferentes, cujo grau de envolvimento variou desde a responsabilidade direta pela deflagração do conflito armado (guerras no Afeganistão, no Iraque e no Paquistão), seu escalonamento (queda de Gaddafi que inicia uma guerra civil ainda em curso na Líbia, além do envolvimento na Síria) ou apoio logístico-operacional (venda de armamento, treinamento de grupos táticos, ataques furtivos de drones no Iêmen, na Somália e nas Filipinas).

O saldo dessas “medidas preventivas”, acompanhamos desde sempre nos noticiários: Ataques aéreos que destroem vizinhanças inteiras; bombardeios que danificam hospitais, escolas e locais de trabalho; zonas de combate que aumentam a incidência de ameaças de mortes, de expulsões, de estupros e, em alguns casos, de massacres de povos inteiros. Por conta desse constante estado de terror, que nem a Al-Qaeda, o Boko Haram, o Talibã ou qualquer outro grupo considerado terrorista poderia instaurar, milhões são obrigados a deixar o lugar onde nasceram para poder garantir o mínimo: a sobrevivência.

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Crianças sírias em campo de refugiados na Jordânia

37 milhões é a estimativa mais conservadora de pessoas espalhadas pelo mundo como refugiadas, pleiteantes de asilo político ou deslocadas no interior de seu próprio país por conta de tais calamidades. Nas estimativas mais realistas, que consideram também as subnotificações, chega-se ao páreo de 64 milhões de vidas humanas, número comparável apenas ao total de atingidos pela Segunda Guerra Mundial. 26,7 milhões de pessoas retornaram após serem forçadas ao deslocamento interno ou externo, embora o retorno não apague o trauma do deslocamento e tampouco signifique que os deslocados necessariamente retornaram para suas casas originais ou para uma vida segura.

Àqueles impossibilitados de retornar ao seu local de origem, no entanto, tem duas possibilidades (trágicas) de destino: se aventurar no país vizinho mais próximo ou tentar a sorte nas fronteiras da União Europeia. Para o primeiro caso, importa destacar que os países que recepcionam refugiados estão à beira do colapso e têm de enfrentar a sobrecarga demográfica que passa a existir a partir de então. Há uma constante entrada e saída de refugiados entre o Iêmen e a Somália, bem como entre o Paquistão e o Afeganistão.

O Líbano, por exemplo, hospeda atualmente cerca de 1,5 milhão de refugiados sírios, representando 22% do total de habitantes no país. Apesar de sua moeda estar colapsada e o desemprego estar nas alturas, o preço da energia e dos alimentos estão inflacionados, graças aos efeitos acumulados tanto da pandemia de Covid-19 quanto da guerra na Ucrânia. Mais de 50% da população vive abaixo da linha da pobreza, sendo uma situação ainda mais gritante entre os refugiados sírios, em que 83% vivem em extrema pobreza.

Campos de refugiados sírios na cidade de Arsal, no Líbano, publicado pela Associated Press em 16 de junho de 2019

A carga demográfica acaba também sobrando para a Jordânia, que, além de sírios, alberga iraquianos e iemenitas, ao passo que a Arábia Saudita possui apenas 0,0015% de pessoas com status de refugiado em seu território e o Japão, 0,0013%, um exemplo de como a contribuição internacional efetiva para esse problema está bastante desbalanceada. Maior parte dos refugiados africanos ou asiáticos vítimas da Guerra ao Terror não vêm para Europa. Turquia, Irã e Uganda estão entre os 3 principais países que concedem asilo político no mundo. A Alemanha e a Polônia assumem respectivamente a 4ª e 5ª posição do ranking citado anteriormente, mas a situação não melhora para os que são obrigados a rumar ao subcontinente europeu.

Hungria, Croácia e Polônia, por exemplo, vêm militarizando suas fronteiras para impedir que refugiados do Oriente Médio e de outros lugares entrem em seu território (e na UE) desde 2015. A Comissão Europeia deu a esses estados milhões de euros para que eles pudessem aumentar seus esforços para interceptar os chamados “migrantes irregulares”. Esse regime rígido de vigilância e interceptação praticamente fechou as fronteiras da Europa para pessoas vulneráveis em movimento, e deixou muitas delas sem nenhuma rota legal para segurança. Os relatos de tortura, abuso sexual, roubo e agressões físicas praticados pelas autoridades de fronteira contra esses refugiados são abundantes.

Hungary's 'zero refugee' strategy – POLITICO

Um soldado húngaro observa os migrantes que fazem fila para comprar comida na fronteira entre Sérvia e Hungria em Horgos

A UE, e a maioria dos países do Leste Europeu em particular, são hostis a qualquer tentativa de flexibilizar acesso a refugiados, mas quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022, todos eles acionaram, em tempo recorde, a Diretiva de Proteção Temporária (DPT) para ajudar as pessoas que fugiam da guerra. A DPT tornou-se aplicável em 4 de março, oferecendo proteção imediata e um status legal claro por até três anos a milhões de pessoas. Até mesmo políticos de extrema direita, orgulhosamente anti-imigração e antirrefugiados de estados-membros da UE na Europa Central e Oriental começaram a defender os refugiados ucranianos. Em 23 de fevereiro de 2022, apenas um dia antes dos primeiros refugiados ucranianos começarem a deixar o país, Ahmed al-Shawafi, de 26 anos, do Iêmen, morreu de hipotermia na fronteira fechada entre a Polônia e a Bielorrússia, mostrando claramente, para o mundo inteiro ver, quem os europeus consideram humanos ou não!

Em 2023, quase 1 em cada 7 pessoas que estava na fila de espera para receber status de refugiado ou asilo político pela UE eram menores desacompanhados vindos da Síria, do Afeganistão e da Somália. Dos adultos, daqueles que conseguem garantir alguma ocupação/emprego, estão lotados em sua maioria em setores de serviços e cuidados pessoais, construção civil, mineração, transporte etc. Os Estados Unidos recebiam anteriormente quase 100.000 refugiados de reassentamento a cada ano e eram o maior destinatário de refugiados de reassentamento no mundo. Sob a liderança de Donald Trump, esse número foi bastante reduzido e, em 2020, os Estados Unidos receberam menos de 10.000 refugiados de reassentamento.

Referências

EUROPEAN COMISSION. Statistics on migration to Europe. 2024.

INVESTIGATIVE REPORTING WORKSHOP. Millions flee during 20-year war on terror. 2024.

AL JAZEERA. Why are Europeans suddenly so interested in helping refugees?. 2024.

NORWEGIAN REFUGEE COUNCIL (NRC). A few countries take responsibility for most of the world’s refugees. 2024.

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