Israel dá calote milionário em propagandistas do genocídio

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Após o início da guerra em Gaza, a máquina de propaganda internacional de Israel — conhecida pelo termo hebraico hasbara — passou a recrutar rapidamente influenciadores, consultores de comunicação e empresas de produção para defender a narrativa do governo no exterior. No entanto, reportagens recentes e processos judiciais revelam que muitos desses contratados afirmam que o próprio governo israelense deixou de pagar pelos serviços prestados, gerando uma crise dentro do sistema de propaganda estatal.

Investigações publicadas pelo jornal israelense Calcalist apontam que, logo após os eventos de 7 de outubro de 2023 e o início da guerra em Gaza, o governo israelense reorganizou às pressas sua estrutura de comunicação internacional. Com o fechamento do Ministério da Informação, a responsabilidade pela propaganda externa foi transferida para a Direção Nacional de Diplomacia Pública dentro do gabinete do primeiro-ministro. Em meio à urgência da guerra, procedimentos formais de contratação foram ignorados e diversos serviços passaram a ser contratados de forma improvisada, muitas vezes por meio de empresas intermediárias.

Esse sistema emergencial acabou criando um cenário de caos administrativo. Produtoras de mídia, consultores e ativistas afirmam que trabalharam durante meses organizando campanhas internacionais, produzindo conteúdo e coordenando entrevistas para autoridades israelenses — mas sem receber os pagamentos prometidos. O resultado foi uma série de processos judiciais que já somam milhões de shekels em valores cobrados do Estado israelense.

Entre os casos mais emblemáticos está o de empresas contratadas para apoiar a campanha internacional de comunicação durante a guerra. Uma delas, responsável por montar um centro de comunicação e financiar atividades de propaganda no exterior, entrou na Justiça exigindo cerca de 1,7 milhão de shekels após o governo se recusar a pagar parte do contrato. A empresa afirma ter custeado, entre outras coisas, viagens de propagandistas israelenses para Haia, onde ocorreram manifestações e audiências relacionadas ao processo contra Israel na Corte Internacional de Justiça.

Outro processo envolve uma companhia que montou um estúdio de entrevistas dentro do complexo militar da IDF, em Tel Aviv, utilizado por autoridades como o primeiro-ministro e o ministro da Defesa para entrevistas à imprensa internacional. Segundo a empresa, o governo solicitou a estrutura com urgência logo após o início da guerra, aprovando equipamentos e equipe por mensagens de WhatsApp. Depois de nove meses de serviço, porém, o Estado se recusou a pagar grande parte da dívida alegando que não havia ordem de trabalho formal assinada.

A crise também atinge indivíduos envolvidos diretamente na propaganda internacional. Um estudante que trabalhou na estrutura de comunicação do governo entrou com ação judicial cobrando salários não pagos referentes a dois meses de trabalho. Outros consultores e funcionários afirmam que receberam repetidas promessas de pagamento que nunca se concretizaram.

Mesmo figuras públicas associadas à narrativa oficial reclamam de valores devidos. O ex-porta-voz do governo israelense Eylon Levy afirmou que também tem pagamentos pendentes relacionados a seu trabalho como consultor para a máquina de propaganda, embora tenha optado por não processar o governo. Segundo ele, a burocracia e a desorganização impediram que seu contrato fosse formalizado adequadamente.

Autoridades israelenses reconheceram que há “irregularidades” na gestão da estrutura de comunicação. Uma funcionária do gabinete do primeiro-ministro chegou a ser investigada sob suspeita de falsificar assinaturas em documentos relacionados a contratos da campanha de propaganda. Durante audiências judiciais, representantes do governo admitiram que pagamentos foram suspensos devido a “irregularidades amplas” que ainda estão sendo examinadas.

O escândalo expõe as fragilidades da chamada frente informacional da guerra. Nos últimos anos, Israel investiu pesadamente em campanhas digitais e redes de influenciadores para moldar a opinião pública internacional. Um exemplo é o Esther Project, que previa pagamentos de cerca de US$ 7 mil por postagem a influenciadores para promover mensagens pró-Israel nas redes sociais.

Agora, porém, parte dessa mesma rede de comunicadores e empresas afirma que o governo não cumpriu suas obrigações financeiras. Ou seja, enquanto Israel tenta vencer a batalha da narrativa global, sua própria máquina de propaganda enfrenta acusações de má gestão, contratos improvisados e calotes milionários contra aqueles que foram contratados justamente para defendê-lo na arena internacional.

Referências

KALISCHER, Omri. תביעות במיליונים: גויסו להסברה בשיא המשבר וגילו שאין מי שישלם להם. Calcalist, 04 mar. 2026.

RAPAPORT, Nadav. Israel’s propaganda directorate being sued by unpaid activists claiming millions. Middle East Eye, 5 mar. 2026.

QUDS NEWS NETWORK. Unpaid Propagandists: Eylon Levy Among Figures Complaining Israel Owes Them Millions in Payments. 4 mar. 2026.

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