O que está por trás dos conteúdos islamofóbicos de Bernardo Kuster, do Centro Dom Bosco e do Deputado Príncipe?

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Uma das teses centrais de sociólogos brasileiros clássicos, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, é a de que o Brasil precisa ser compreendido a partir de chaves analíticas nacionais. Dadas as especificidades do país (e de qualquer outro), importar categorias e soluções de outros lugares para questões brasileiras não funcionaria, e seria, na verdade, parte do problema.

A adoção de soluções “gringas” é tentada desde a independência e, nos últimos anos, além de pretensas soluções sociais, econômicas e políticas, passamos a importar uma nova categoria: a de conflitos e polêmicas que ocorrem em outros países, tendo como episódio mais recente o ataque irresponsável e coordenado de influenciadores, instituições e políticos à minoria muçulmana que vive no Brasil, evocando um “choque de civilizações” inexistente, mas que ainda assim precisa ser adotado como símbolo de aliança e devoção por um certo espectro político.

Os ataque

No último mês, seguindo-se à escalada da agressão de Israel e Estados Unidos contra o Irã (coincidência?), o deputado Luís Philippe de Orleans e Bragança, o Deputado Príncipe – apelido dado a ele por seu parentesco com a pretensa Família Real brasileira – propôs projeto de lei visando impedir o que classificou como “imposição da sharia (sic)” em solo brasileiro.

Na arena das redes sociais, testemunhamos uma vultosa publicação do Centro Dom Bosco, autointitulado como escola religiosa, de uma série de seis livros com “refutações ao Islã”, cuja publicidade tem sido feita com cortes de vídeos expondo o “verdadeiro caráter” dos muçulmanos e o perigo que representam.

Por fim, temos um vídeo do influenciador católico de direita, Bernardo Küster, denunciando como os muçulmanos se aproveitariam da tolerância de países europeus para invadirem seus territórios e subverterem suas instituições.

Um dos marcos iniciais da agressão israelo-estadunidense ao Irã em 2026 foi o bombardeio à escola infantil para garotas em Minab, no sul do país.

Todos esses ataques giram em torno do mesmo eixo central: a ideia de que os muçulmanos estão, a partir de movimentos de imigração, invadindo a Europa Ocidental e impondo por lá suas leis e valores religiosos, causando diversos tipos de caos e problemas. Diante disso, seria necessário que o Brasil reagisse para evitar que o mesmo ocorresse por aqui. Não é necessária uma análise detalhada dos discursos para concluirmos que se trata de argumentos falaciosos e desonestos. No entanto, mesmo assim, possuem um perigoso potencial para causar injúria e violência.

Em 14 de março de 2026, ao anunciar a sua campanha editorial de refutação ao Islã, o Centro Dom Bosco lançou um vídeo curto com cortes de entrevistas em que muçulmanos celebram, em perfeito português (trata-se de brasileiros natos), a presença de mesquitas[1] e salas de oração islâmicas na cidade de São Paulo.

Material promocional dos livros lançados pelo Centro Dom Bosco.

Logo depois, o vídeo muda para um trecho de uma entrevista em inglês do polemista e militante cativo de grupos anti-islâmicos conhecido por “Imam Tawhidi”, um suposto clérigo xiita que atua na Austrália. Esta figura é polêmica por si só, mas sua denúncia não cabe neste texto. Na entrevista, Tawhidi diz que o futuro dos Estados Unidos será islâmico, confirmando a paranoia. Estaria, portanto, comprovado o “perigo do Islã para o Brasil”.

Além de ser denunciado como fantoche da extrema-direita australiana, Tawhidi também já professou diversas opiniões sionistas em entrevistas e nas redes sociais.

O vídeo mira num público ignorante acerca da religião islâmica, de sua diversidade e nuances, repleto de (des)informações rasas. Para além da indução falaciosa de que o crescimento de mesquitas implica um passo a mais na “dominação do Brasil”, eles tomam as palavras do Imam Tawhidi como representativas da totalidade dos muçulmanos.

Tawhidi é um pseudo-mulá xiita australiano. Sua postura atrai críticas de muçulmanos e não-muçulmanos: além de não ser reconhecido na Austrália como uma autoridade relevante em matéria de Islã, costuma confirmar em entrevistas para canais de direita quaisquer preconceitos de seus financiadores, com suas opiniões servindo apenas legitimar o identarismo fundamental por trás do discurso da nova direita ocidental, fazendo uso de um “homem de pele marrom, de barba e de turbante, que confirma nossos medos”.

Quanto aos seis livros, lançados três dias após essa primeira publicação, trata-se de meros materiais apologéticos católicos (três deles escritos por padres) datados, com tentativas de refutar teologicamente à religião islâmica usando argumentos medievalescos.

A descrição do livro 5 chama a atenção: ele acusa o Islã de ser uma religião que não se limita ao culto, mas busca estruturar um projeto jurídico, cultural e civilizacional. É irônico que esse comentário provenha da apologética de uma Igreja que dominou de forma política, jurídica, cultural e civilizacional uma porção considerável do mundo por séculos (no Brasil, já no ensino fundamental, aprendemos que a divisão global que inaugura nossa história, o Tratado de Tordesilhas, que dividia o controle do planeta entre reinos católicos, foi ratificado por um papa).

Divisão do mundo de acordo com o Tratado de Tordesilhas.

Nas sociedades medievais cristã e islâmica não existia uma separação entre a religião e outros aspectos da vida, simplesmente porque essa separação só surge a partir de um processo moderno, que toma forma com o surgimento dos valores seculares na Europa do século XVI.

Instâncias que hoje são reguladas pelo Estado secular, como normas jurídicas e políticas, estavam a cargo de autoridades religiosas, já que essas sociedades eram regidas por suas respectivas cosmologias religiosas. Se hoje o catolicismo não possui o mesmo espaço que o Islã em orientar suas sociedades para além de um mero culto privado, isso se deve ao grande espaço ocupado pelo secular nas sociedades cristãs[2], que removeu o catolicismo de diversas esferas da vida pública através do derramamento de muito sangue e revoluções.

Ilustração retrata o assassinato de quase 200 católicos que se recusaram a prestar juramento em apoio à constituição civil do clero no contexto da Revolução Francesa.

Não vejo qualquer problema em haver refutações teológicas católicas ao Islã. Isso sempre ocorreu e faz parte das dinâmicas entre as religiões, sobretudo aquelas de credo universalista, como são Islã e Cristianismo. Há também no mundo islâmico um sem-número de obras refutando as premissas cristãs. O problema é a instrumentalização dessas refutações para alertar a um suposto perigo da presença de muçulmanos no Brasil, ainda utilizando sem autorização imagens de pessoas reais que se tornam avatares das fobias e alvos de violência. A crítica teológica é abstrata, o ataque a minorias tem rosto, endereço e consequências potencialmente mais graves.

Os vídeos de Bernardo Kuster, embora mais curtos, possuem argumentação potencialmente mais perigosas que os do Centro Dom Bosco, embora sejam tão falaciosos quanto.

Bernardo Kuster é um influenciador apologético católico, que ganhou certa proeminência durante a virada ideológica da direita brasileira, sob a influência do falecido Olavo de Carvalho. Nos últimos anos, após a adoção de pautas mais pragmáticas por esse grupo político, a morte de Olavo de Carvalho e a decadência do discurso ideológico direitista, a projeção nacional do influenciador diminuiu drasticamente.

Bernardo chegou a ser condenado a pagar R$ 110 mil por fake news contra o teólogo Leonardo Boff.

O principal argumento em seu recente vídeo é que não existe um “muçulmano moderado”, que a dominação social como meta é prática intrínseca da religião islâmica. Os muçulmanos seriam inspirados pelo Profeta Muhammad a defender tolerância nos ambientes nos quais são minoria, mas, ao ganhar números e força numa sociedade, exigiriam a adaptação dela a normas e preceitos islâmicos. Mais uma vez, o exemplo utilizado é o suposto dos países europeus.

Kuster sustenta seu argumento utilizando passagens do Alcorão, lidas de forma propositadamente incompletas para induzir a um entendimento errôneo. Não entrarei em detalhes porque essa leitura desonesta já foi exposta e refutada em nossos vídeos[3].

Em seus argumentos, Kuster alega que as passagens do Alcorão que foram reveladas durante a residência do Profeta Muhammad em Meca, quando os muçulmanos eram minoria religiosa perseguida, falavam em paciência e convivência pacífica com outras religiões. Já no período em que o Profeta viveu em Medina, onde se formou uma comunidade muçulmana, as revelações teriam caráter intolerante, bélico e punitivo. Mais uma vez, assim como nas publicações do Centro Dom Bosco, o alvo são pessoas que nada sabem de Islã, e que podem facilmente ser convencidas por esse discurso de pseudo-entendedor.

Qualquer estudioso da religião e que conheça o mínimo da estrutura do Alcorão sabe que as diferenças nas revelações de Meca e Medina são, primeiramente, temporais. O Alcorão foi revelado durante 23 anos, e as primeiras revelações (em Meca) tinham por objetivo anunciar a religião e ensinar seus princípios básicos, como a unicidade Divina. No período de Medina, 10 anos depois, já havia muitos muçulmanos e os princípios da fé estavam bem estabelecidos. Livres da perseguição sofrida em Meca, em Medina os muçulmanos puderam criar uma sociedade baseada em seus preceitos e valores morais. Daí que as revelações medinenenses são de cunho civilizacional, contendo regras, direitos e deveres para o estabelecimento de uma sociedade sacra[4].

Como dito acima, nas religiões tradicionais não existia uma separação entre esfera civil e religiosa, já que toda a visão de mundo de suas sociedades era formada a partir da crença espiritual. O que ocorre na Europa hoje é algo distinto, que abordaremos mais adiante. Mas, mesmo levando a sério a premissa de Bernardo, o axioma se torna ainda mais fraudulento quando é fato que diversas suratas que falam de tolerância, como a que contém o famoso verso de que “a religião não pode ser forçada” (2:256), é do período de Medina, não de Meca.

Em outros vídeos, Bernardo corta trechos de um tratado jurídico xiita para afirmar que o Islã aprova relação sexual com crianças, além de, em um terceiro, falar que políticas públicas de São Paulo que tentam atrair turistas muçulmanos são um perigo potencial, implicando em supostos planos de imposição islâmica arquitetados pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira e pela Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), num estrondoso esforço para que tenhamos nossos próprios “pânicos satânicos” nacionais.

O terceiro ataque é o mais grave, já que sai da esfera privada das redes sociais e adentra a esfera política do Estado brasileiro, tendo como autor um agente público eleito utilizando seu cargo para espalhar desinformação e propagar ódio a uma parte da população de seu país. Trata-se do Projeto de Lei 284/2026, do Deputado Federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL). No seu caput, o projeto propõe vedar a aplicação e prática da lei da Sharia no Brasil, com o intuito de proteger mulheres, crianças e minorias. Mais uma vez a justificativa evocada é o exemplo europeu, no qual comunidades islâmicas teriam se utilizado do pretexto de liberdade religiosa para introduzir regras paralelas às leis nacionais em países como Reino Unido, França e Alemanha. A proposta ressalta que práticas religiosas pessoais continuariam permitidas, e só aquelas que atentem contra a Constituição e os valores tradicionais da sociedade brasileira seriam proibidas.

O “Deputado Príncipe” defende a criação de uma constituição nos moldes da constituição imperial de 1824, a criação de um quarto poder (moderador) e se envolveu em controvérsias por ameaçar membros do STF.

Irônico que o ataque mais oficial dos três citados seja o mais raso intelectualmente, chegando a ser absolutamente ilógico.

Não é preciso grande esforço mental para perceber que se trata de um projeto sem substância e vazio. Explico: se práticas religiosas privadas continuarão permitidas, nós muçulmanos poderemos continuar a orar, jejuar, fazer caridade, respeitar nossos pais e familiares (tudo isso faz parte da sharia). Quanto às práticas que o projeto visa proibir, por serem “incompatíveis com a Constituição Federal[5]” (PL284/2026, Art. 45-A), já são vedadas pela própria Constituição Federal. Em resumo, o projeto se propõe a proibir coisas que já são proibidas no país, levando, portanto, “do nada a lugar nenhum”, sem qualquer valor prático. Me pergunto se o deputado não fez esse simples exercício intelectual ao escrever tal letra morta. Se fez, então utilizou recursos públicos e tempo de trabalho para escrever algo por pura perseguição e para “lacrar” para suas bases. Se trata de limitação intelectual ou de desonestidade.

Curiosamente, o deputado Luiz Philippe é tetraneto de Dom Pedro II, último imperador do Brasil, conhecido por sua alta intelectualidade (era fluente em árabe, inclusive), pelo respeito a todos os povos (tendo viajado para territórios islâmicos e se encontrado com lideranças espirituais e políticas islâmicas, sendo premiado pelo califa reinante em Istambul) e por ter incentivado a imigração árabe para o Brasil, de onde justamente deriva a atual comunidade muçulmana nacional. Pelo visto, as altas capacidades intelectuais e humanistas do imperador devem ter sido herdadas por alguma outra parte da família.

D. Pedro II montado no camelo, Egito, 1871. Acervo Fundação Biblioteca Nacional do Brasil.

O Islã na Europa

Os três ataques chamam atenção para os problemas que os muçulmanos estariam causando em países europeus, a partir da imigração em massa. Mas, de fato, o que ocorre na Europa com relação aos muçulmanos? Esse é um problema de raízes históricas, sociais e econômicas, e não pode ser reduzido a um simples embate religioso.

A grande corrente migratória para países europeus decorre de sua relação com suas ex-colônias na África e Ásia. A maior parte da imigração atual se dá pela necessidade da importação de mão de obra para os países europeus, em face do envelhecimento de suas populações nativas.

Centenas de refugiados e migrantes a bordo de um barco de pesca momentos antes de serem resgatados pela Marinha italiana, como parte de sua operação Mare Nostrum, de junho de 2014.

A maioria dos emigrantes das ondas recentes é de pessoas de alto nível de miserabilidade e marginalidade, que sofreram as agruras deixadas por anos de colonização e exploração de seus países que, principalmente na África subsaariana, ainda não acabaram.

Eles vão para a Europa atraídos por uma promessa de vida melhor, e, ao se depararem com barreiras de integração social, econômica e cultural, uma parcela muito pequena pode acabar envolvida em dinâmicas de marginalização ou processos de radicalização. É certo que os maus comportamentos e crimes devem ser punidos com todo rigor, e cabe aos países europeus definirem sua política imigratória, se ela deve continuar a ser estimulada ou não. Esse é um problema deles, não nosso.

O erro é vincular os episódios de crimes e violência (que são bem menores do que os alarmistas fazem acreditar) à religião das pessoas, colocando todos os muçulmanos numa mesma categoria generalista. A maioria dos muçulmanos emigrados é trabalhadora e contribui positivamente para os países que os receberam. E justamente por isso que os recebem. Pessoas radicalizadas existem em qualquer grupo, religioso ou não, e devem ser combatidas adequadamente.

Uma das teorias que mobiliza os ânimos anti-islâmicos é a da grande substituição – “Eurábia” –, popularizada pela autora Bat Ye’or, uma reciclagem contemporânea de velhos medos europeus travestidos de teoria geopolítica. Seu argumento central, de que a Europa estaria prestes a ser “substituída” por uma população muçulmana, simplesmente não se sustenta nos números. Muçulmanos representam cerca de 5% da população europeia, um contingente significativo, mas muito distante de qualquer possibilidade plausível de maioria no médio ou longo prazo. Para que essa “substituição” ocorresse, seria necessário um cenário demográfico completamente irreal, envolvendo taxas de natalidade absurdas e migrações em escala impossível.

A própria origem dessa narrativa já denuncia seu caráter ideológico. Muito antes de ganhar verniz “acadêmico”, essa paranoia foi dramatizada no romance “O Campo dos Santos”, de Jean Raspail, que retrata uma invasão caricatural e desumanizante de imigrantes não-europeus. A mensagem implícita é clara: o “outro” é uma ameaça existencial e, portanto, qualquer reação contra ele seria justificável.

Esse tipo de narrativa não fica restrito ao campo das ideias. Ela já serviu de combustível para violência real, como nos ataques de Atentados de 2011 na Noruega e no massacre de Ataques de Christchurch, na Nova Zelândia, em 2019, ambos motivados, em parte, por teorias de “substituição populacional”.

Atirador de massacre na Nova Zelândia é condenado a prisão perpétua - 26/08/2020 - Mundo - Folha

Autor do Massacre de Christchurch, Brenton Tarrant, pintou os instrumentos e armas usadas no ataque com referências a conflitos religiosos contra muçulmanos.

Isso não significa negar que existam mudanças demográficas ou tensões culturais em grandes centros urbanos europeus, especialmente em países com histórico colonial. Mas transformar essas mudanças em uma narrativa apocalíptica de “invasão” é ignorar tanto os dados quanto o contexto histórico: muitos desses fluxos migratórios são consequência direta das relações construídas pela própria Europa ao longo de séculos.

A “Eurábia”, no fim das contas, diz menos sobre o futuro da Europa e mais sobre um velho padrão: o uso do medo do estrangeiro como ferramenta política. Uma história que o continente conhece bem e que, apesar de repetidamente desmentida pela realidade, continua sendo reciclada sempre que conveniente.

Outdoor vandalizado do partido de extrema-direita alemão, AfD, tenta convencer o eleitorado fomentando o medo da “Eurábia”.

Dito isso, é falsa a ideia de que há grupos impondo a sharia e alterando as leis desses países. Se assim fosse, os próprios governos não teriam o poder para impedir essa atrocidade? Em verdade, a maior parte das “denúncias” dessa situação vem de pessoas incomodadas com a presença de muçulmanos no espaço público europeu, com mulheres de véu e pessoas rezando nas ruas, coisas que são (ou deveriam ser) garantidas pelo sistema político secularista, que afirma a liberdade religiosa e que foi criado pela mesma Europa e exportado (muitas vezes de maneira brutal) para o resto do mundo.

O Islã no Brasil

Se podemos falar em tensões na Europa entre nativos e muçulmanos emigrados (tensões que estão longe de serem puramente religiosas, repito), no Brasil isso não ocorre. As dimensões continentais e o ambiente multicultural e diverso que há no país fazem dos muçulmanos mais uma das “cores” que compõem o estrato da população, junto a católicos, protestantes, umbandistas, candomblecistas, judeus, espíritas e outros.

Dados do Censo Demográfico de 2022 e comparação com outros anos. Os muçulmanos sequer são citados nominalmente.

Há muçulmanos no Brasil desde o início da colonização, com navegadores contratados pelo Império Português, relatos de cristãos novos denunciados pela Inquisição pelo crime de serem manterem práticas e até ensinar o Islã para nativos, e com a vinda de milhares de escravizados muçulmanos do Oeste Africano trazidos para cá. O historiador João José Reis mostra que a presença muçulmana era totalmente comum na cidade de Salvador durante o século XIX, com o infame antropólogo Nina Rodrigues, inclusive, relatando a dinâmica da principal mesquita e seus frequentadores na capital baiana no começo do século XX.

Malês em Penedo, Alagoas. Fotografia tirada em 24 de agosto de 1887 por Carvalho Sobrinho.

Atualmente os muçulmanos compõem menos de 1% da população brasileira, o que não chega perto da ameaça que os propagandistas citados estão vociferando. Muçulmanos e muçulmanas vivem e trabalham de forma integrada no país. Há médicos, dentistas, advogados, professores universitários e de ensino básico, jornalistas, comerciantes, influenciadores digitais, trabalhadores da indústria, atores e assim por diante. Os muçulmanos estão à frente de um dos mais importantes setores do agronegócio brasileiro, o de exportação de carnes e derivados halal[6] para países árabes, que gera um superávit de US$23,68 bilhões para a balança comercial brasileira. Muçulmanos são, portanto, plenos integrantes da sociedade brasileira que contribuem positivamente para seu desenvolvimento e bem-estar.

Conclusão

Chamo à atenção de que esses ataques não configuram meras opiniões pessoais. São intencionais, coordenados, falsos e com alto potencial lesivo. Discordar ou não gostar de uma religião ou modo de vida não dá o direito a alguém de induzir ao ódio e mentir a respeito dela. Infelizmente já podemos observar o reflexo dessas ações criminosas, com o aumento de atos de violência contra muçulmanos (sobretudo mulheres) no Brasil. Há pouco mais de um mês duas muçulmanas foram agredidas por um homem num shopping no Paraná[7], gerando bastante repercussão. Menos de um mês antes, uma mulher foi assediada num supermercado em São Paulo. Quanto tempo mais até que outros episódios se repitam, até mesmo com consequências fatais?

Registro em foto do vídeo da muçulmana espancada em shopping de Foz do Iguaçu.

Por fim, um último ponto. Será acaso que o recrudescimento desses ataques ao Islã no Brasil ocorra no exato momento em que Estados Unidos e Israel atacam criminosamente o Irã? Estariam nossos “cruzadistas digitais” a serviço de entidades e interesses estrangeiros? Seja qual for a resposta, fato é que o episódio revela o quão desesperadamente eles tentam compartilhar (entrando pela “porta dos fundos”) de uma identidade “ocidental” que nunca foi nossa (europeus e estadunidenses nos veem como latinos, não como ocidentais), importando servilmente e desonestamente categorias e problemas estrangeiros que não fazem sentido algum aqui. É, como diria Nelson Rodrigues, a mais recente expressão do “complexo de vira-latas”.

Referências bibliográficas

ASAD, Talal. A construção da religião como uma categoria antropológica. Cadernos de Campo, v. 19, n. 19, p. 263–284, 2010.

BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº 824/2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=3089854&filename=PL%20824/2026. Acesso em: 22 mar. 2026.

CENTRO DOM BOSCO. Da Europa para as Américas! Publicação no Facebook (Reel), 14 mar. 2026. Disponível em: https://www.facebook.com/reel/909737765175043. Acesso em: 22 mar. 2026.

COMEX DO BRASIL. Exportações para países árabes cresceram 22% em ano marcado pela estagnação junto a outros parceiros. Disponível em: https://comexdobrasil.com/exportacoes-para-paises-arabes-cresceram-22-em-ano-marcado-pela-estagnacao-junto-a-outros-parceiros/. Acesso em: 22 mar. 2026.

MARON, Rafael Magalhães Vasconcelos. A mística islâmica em análise: estudo bibliográfico de produções acadêmicas sobre o sufismo. 2024. Dissertação (Mestrado em Antropologia) — Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2024.

PEIXOTO, Mansur (@mansur.peixoto). Minoria moderada? Publicação no Instagram, 20 mar. 2026. Disponível em: https://www.instagram.com/p/DWHke4tivSB/. Acesso em: 22 mar. 2026.

REIS, João José. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos malês em 1835. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

Notas

[1] A disponibilidade de mesquitas em diferentes pontos numa cidade grande é importante para que os muçulmanos que trabalham ou estudam possam realizar com facilidade suas orações do dia.

[2] Os países islâmicos também são governados pela ótica secular, ao contrário do que as pessoas pensam. Mas, neles, o secular não surgiu de dentro, como na Europa, e sim foi imposto a partir das colonizações do século XIX, o que gera uma configuração na relação religioso-secular bem diferente daquela dos países europeus. Para uma leitura mais profunda à respeito, sugiro Asad (2010).

[3] https://www.instagram.com/reels/DWHke4tivSB/

[4] Allah não dá a uma alma um fardo superior às suas capacidades (Alcorão, 2:286).

[5] A pena capital para crimes graves, por exemplo

[6] Significa “permitido em árabe”. No caso em questão, tratam-se de derivados de animais abatidos conforme regras da religião islâmica, o que torna esse produto lícito para consumo por um muçulmano.

[7] https://veja.abril.com.br/brasil/islamofobia-agressor-e-preso-depois-de-atacar-mulheres-mulcumanas-em-shopping-do-parana/

Sobre o autor

Rafael Magalhães Vasconcelos Maron é graduado em História, mestre e doutorando em Antropologia. Sua área de interesse é Antropologia da Religião, com ênfase na Religião Islâmica.

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