Historicamente, a polícia brasileira do século XIX e muitos historiadores posteriores enquadraram os escritos dos africanos muçulmanos (conhecidos como malês) em duas categorias limitadas e comumente estereotipadas: ou eram planos subversivos de revolta, ou eram meras “mandingas” e feitiçaria. No entanto, uma análise mais profunda – e não precisa de muito, bastando abandonar preconceitos infundados – desses documentos revela que essa visão subestima o legado intelectual desses indivíduos.
Ao invés de “mandingas”, os escritos confiscados contêm provas de uma vida intelectual rica, abrangendo desde sermões de casamento até poesia clássica árabe, contradizendo a ideia de que esses papéis serviam apenas para garantir uma espécie de proteção mística.
Entre os achados mais surpreendentes está a presença da Qasīdat al-Burda (“O Poema do Manto”), uma célebre obra do século XIII escrita por al-Busiri. Embora trechos desse poema fossem usados para fins de cura ou proteção (o que se confundia com a ideia de “mandinga”), sua presença indica um alto nível de conhecimento literário. Versos desse poema foram encontrados tanto na Bahia quanto em um manuscrito confiscado em Porto Alegre, demonstrando que a alta literatura islâmica circulava pelo Brasil. Estamos falando aqui de poesia sofisticada, de um clássico da literatura árabe-islâmica, algo como encontrar as poesias de Li Bai ou Du Fu.
A criatividade dos copistas fica evidente na figura de Domingos, um escravo de nação hauçá na Bahia. Além de reproduzir os textos, Domingos também compunha arranjos poéticos que misturavam súplicas religiosas com versos clássicos. Em seus escritos, encontram-se adaptações fonéticas que mostram como o árabe era ouvido e falado por africanos no Brasil. Ele transcrevia versos complexos que aludiam a histórias tradicionais, como o milagre da aranha que teceu uma teia para esconder o Profeta Muhammad em uma caverna, um episódio central na narrativa islâmica recriada em solo brasileiro.
Outro tesouro ignorado é um livro manuscrito encontrado em Porto Alegre, doado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) por volta de 1855. Esse documento contém versos de Zuhdiyyat, que é um gênero de poesia ascética focado na sabedoria e na educação moral. Os textos ensinam sobre a vaidade do mundo e a importância do saber, comparando o conhecimento a um adorno muito mais valioso que o ouro.
O conteúdo desses poemas de sabedoria denota uma forte resistência cultural em solo estranho. Em um dos trechos reconstituídos do manuscrito de Porto Alegre, o autor alerta contra a extravagância e exalta o estudo: “O conhecimento é adorno e honra para o seu dono”. Há até versos que dizem que, se um homem é mal-educado, não importa se ele tem linhagem nobre ou se é árabe; o que vale é a sua conduta e saber. Essas palavras, escritas por mãos escravizadas e que são profundas até hoje, certamente devem ter tido um peso infinitamente maior do que podemos imaginar, em especial para àqueles que sofriam com os grilhões da escravidão e dos maus-tratos.
Além da poesia religiosa e moral, os Malês também conheciam a literatura de entretenimento e narrativa, como as Maqamat de al-Hariri. Esta obra é famosa no mundo árabe por contar as histórias de um “vagabundo astuto e eloquente”. Encontrar citações dessa obra no Brasil, como a “oração para grande sucesso” (que na verdade é um trecho literário), sugere que esses africanos trouxeram na memória não só a religião, mas o gosto pelas histórias e pela bela escrita (o adab, a etiqueta, a moral, os bons costumes), preservando fragmentos de uma cultura cosmopolita.
Outro ponto que destoa da tese estereotipada da “magia negra” ilegível é o uso do Ajami. Muitos desses escritos não estavam em um árabe desfigurado ou corrompido, como pensavam os policiais, mas sim em línguas africanas (como hauçá, mandinga e soninquê) escritas com caracteres árabes. Em alguns talismãs, há instruções práticas em mandinga sobre como manter o amuleto perto do corpo ou para sucesso no comércio.
Por fim, é fundamental reconhecer que a produção escrita desses africanos no Brasil era uma extensão direta das escolas e tradições da África Ocidental. A presença de versos sobre gramática (Mulhat al-I‘rab) e poesia ascética conecta diretamente os escravizados no Brasil aos centros de ensino do Mali e da Nigéria. Eles não estavam inventando “feitiços”, mas sim tentando, com os poucos recursos que tinham, manter viva uma tradição acadêmica e literária, resistindo à desumanização da escravidão através da pena e do papel.
Referência: DOBRONRAVIN, Nikolay. Não só mandingas: Qaṣīdat al-Burda, poesia ascética (zuhdiyyāt) e as Maqāmāt de al-Ḥarīrī nos escritos dos negros muçulmanos no Brasil oitocentista. Afro-Ásia, Salvador, n. 53, p. 185-226, 2016.



