Israelenses hoje e alemães nos anos 1940 – uma comparação justa?

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Nos últimos dois anos e meio, perante a sucessão quase diária de massacres e crimes praticados pelo Estado de Israel, principalmente contra palestinos em Gaza, mas também na Cisjordânia, e também contra libaneses, sírios e iranianos, virou comum críticos de Israel usarem o termo “sionazi” para descrever o regime de Tel Aviv e seus apoiadores. O termo é uma mistura de “sionismo”, a ideologia fundadora e vigente do Estado israelense, e “nazista”, referenciando o terrível regime que governou a Alemanha nas décadas de 30 e 40 do século passado. O uso desse termo busca criar uma conexão entre os dois regimes, tendo em vista que ambos praticaram diversos crimes de guerra e contra a humanidade, notavelmente o pior deles: genocídio. Mas ele também busca comparar e assemelhar os apoiadores médios de ambas as ideologias.

Mas será que o uso desse termo é correto? Seus apoiadores certamente pensam que sim, pois acreditam que a crueldade de ambos é, no mínimo, equiparável, e querem chamar a atenção da opinião pública global e seus governos para esse fato, em uma tentativa de aumentar a pressão internacional para que Israel pare com suas agressões e seja responsabilizado por seus crimes. Já seus críticos dizem que o uso desse termo é, além de tecnicamente errado — pois eles acreditam que Israel não comete os crimes de que é acusado, portanto não pode ser comparado com um regime intrinsecamente criminoso como o dos nazistas — também é inerentemente antissemítico, pois querem comparar atos do regime que cometeu o Holocausto, o genocídio do povo judeu europeu, com as ações do “Estado Judeu” é algo desumano e preconceituoso.

Todavia, será mesmo que existe alguma equivalência nesses termos? Neste artigo, eu gostaria de propor uma análise alternativa: para julgar se sionistas “merecem” ser taxados como uma espécie de novos nazistas, vou comparar as atitudes dos alemães que viveram durante o regime de Hitler e o grau de apoio que eles davam ao seu governo, com as atitudes que os judeus sionistas israelenses têm em relação às ações de seu governo.

Durante os anos de 1945 e 1950, o Exército dos Estados Unidos, através do Escritório do Governo Militar dos Estados Unidos (OMGUS – Office of Military Government, United States), conduziu uma larga pesquisa de opinião nos territórios da Alemanha Ocidental, entrevistando milhares de pessoas de diferentes idades, sexos, classes sociais, enfim, de um amplo espectro da sociedade até recentemente nazista da Alemanha. Esses dados foram posteriormente analisados e publicados em dois estudos da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. A intenção dos militares americanos era entender a mente do nazista alemão para criar políticas educacionais e públicas de desnazificação, e são, portanto, um bom indicador da mentalidade do nazista médio.

Fronteira da zona americana em Tannbach, Mödlareuth, entre a Turíngia e a Baviera, em 1949.

Essas pesquisas mostram dados estarrecedores: 61% dos entrevistados reportaram atitudes racistas e antissemitas, com 33% concordando com a afirmação de que “judeus não devem ter os mesmos direitos que os membros da raça ariana”. A mesma pesquisa ainda mostrou que 37% dos respondentes concordavam com a afirmação de que “o extermínio dos judeus, poloneses e outras raças não arianas foi necessário para a segurança da Alemanha”. Isso tudo apesar de 59% dos respondentes admitirem que a Alemanha havia “matado e torturado milhares de europeus inocentes”. Isso demonstra que, mesmo após ficarem cientes dos crimes cometidos em “seu” nome, uma parcela substancial dos alemães ainda concordava e justificava não apenas o racismo e a discriminação sistemática, como também o assassinato em massa de inocentes, que eram uma ameaça existencial à nação e ao povo alemão somente em virtude de sua origem étnica. Existem poucas coisas mais depravadas e imorais do que isso.

E como as atitudes dos judeus israelenses para com o “Estado Judeu” se comparam com as atitudes dos alemães? Para isso, vamos analisar diversas pesquisas conduzidas por fontes renomadas e de reconhecida idoneidade e honestidade acadêmica, tais como o Pew Research Center, o Israel Democracy Institute, a Universidade de Tel Aviv e a Universidade de Haifa.

Um estudo do Pew Research Center de 2016 revelou que 48% dos judeus israelenses concordam ou concordam plenamente que “os árabes devem ser expulsos ou transferidos de Israel”. Além disso, uma pesquisa do Israel Democracy Institute de 2022 revelou que cerca de 49% dos judeus israelenses acreditam que os cidadãos judeus deveriam ter mais direitos do que os não-judeus. Aproximadamente 59% dos judeus israelenses apoiam a priorização de candidatos judeus em detrimento de candidatos árabes para empregos no setor público. E, finalmente, cerca de 63% dos judeus israelenses veem os cidadãos árabes como uma “ameaça demográfica e de segurança” para o Estado.

Manifestantes em Jerusalém pedem a expulsão dos palestinos e a construção de assentamentos judaicos em Gaza. Os cartazes dizem: “Ocupação, expulsão, assentamento!” e “Só a transferência trará a paz”. Fevereiro de 2025.

Qualquer análise desses números leva a uma conclusão estarrecedora: os atuais judeus israelenses, em pleno século XXI, possuem atitudes mais racistas do que os alemães nazistas. Compare os 33% dos alemães que concordavam que não arianos deveriam ter menos direitos com os 49% dos judeus israelenses que acham que os próprios cidadãos israelenses de origem árabe não devem gozar dos mesmos direitos. Pior, e mais perigosa ainda, é a afirmação de 63% dos judeus israelenses de que os árabes-israelenses são uma “ameaça à segurança nacional”, e vejam como isso ressoa com os alemães nazistas, que expressavam o seu apoio ao genocídio e massacres de judeus e outros não arianos segundo a mesma justificativa.

É importante notar que essa comparação pode, inclusive, estar subestimada. Enquanto os dados alemães de 1946 foram colhidos sob o medo da ocupação aliada e da pressão por “desnazificação”, o que incentivava a negação de crenças radicais, os dados israelenses atuais surgem em um ambiente de intensa polarização. Ainda que setores seculares possam moderar suas respostas publicamente por receio da opinião pública global, a lógica estatística sugere que o apoio privado ao extermínio tende a ser igual ou superior ao admitido abertamente, reforçando a simetria entre as mentalidades de ambos os períodos.

Agora, vamos mexer com um conjunto de dados ainda mais assustador: o apoio de judeus israelenses para com as ações militares israelenses contra palestinos em Gaza.

Uma pesquisa da Pew mostrou que 39% dos judeus acreditavam que as forças militares israelenses estavam usando força apropriada em Gaza, enquanto 34% achavam que o exército israelense estava usando “pouca força”. É importante frisar que isso veio num contexto em que Israel estava sendo acusado de cometer genocídio em Gaza, com o caso sendo inicialmente aceito pela Corte Internacional de Justiça (CIJ). O período entre outubro de 2023 e os primeiros meses de 2024 foi o mais brutal e sanguinário da guerra, com uma taxa de mortalidade na casa de dezenas por dia, e imagens diárias de crianças literalmente despedaçadas sendo transmitidas ao vivo pela internet.

Mas a coisa piora. Uma pesquisa da Penn State University mostra que 47% dos judeus israelenses concordam com a afirmação de que todos os habitantes – homens, mulheres e crianças – de uma cidade conquistada por militares israelenses devem ser mortos. Essa proporção sobe para 67% entre os sionistas religiosos (Dati-Leumi e Hardal, subgrupos de judeus israelenses que mesclam religiosidade com sionismo político). Quando comparados à proporção de alemães que apoiavam o Holocausto e o genocídio de judeus – 37% – chegamos à única conclusão lógica possível de que sionistas são, quantificadamente, piores que os cidadãos da Alemanha nazista.

Palestinos se realocam da região central de Khan Yunis após as Forças de Defesa de Israel emitirem ordens de evacuação em 3 de junho de 2025.

A afirmação dos defensores do sionismo de que tais comparações são infundadas é, portanto, vazia, especialmente quando analisamos o fator “consciência”. Enquanto muitos alemães dos anos 40 podiam alegar ignorância sobre o funcionamento dos campos de extermínio devido à censura estatal, o cidadão israelense do século XXI testemunha o massacre em Gaza em tempo real, através de redes sociais e transmissões ao vivo. O fato de o apoio ao uso de “força apropriada” ou “insuficiente” manter-se alto mesmo diante da exposição crua ao sofrimento alheio indica que não estamos diante de um impulso emocional passageiro, mas de uma convicção ideológica profunda que normalizou a desumanização do outro. Os dados são claros: se genocídio foi cometido ou não em Gaza é irrelevante, pois para 47% dos judeus israelenses (e 67% entre as categorias mais religiosas e ferrenhamente sionistas) genocídio DEVE ser cometido quando os soldados da IDF tomam controle de uma cidade, enquanto “apenas” 37% dos alemães que viveram durante a Segunda Grande Guerra justificavam o genocídio de judeus.

O sionismo contemporâneo, conforme refletido nestas pesquisas, demonstra métricas de desumanização que superam as registradas na população alemã do pós-guerra. Não é, portanto, inverossímil dizer que, de um ponto de vista moral, os sionistas são potencialmente piores do que os nazistas; portanto, o termo “sionazista” é perfeitamente aplicável para aqueles que continuam defendendo as ações do Estado de Israel a esse ponto da história.

Referências

GERMAN HISTORY IN DOCUMENTS AND IMAGES. OMGUS Survey of Prejudice and Antisemitism (April 1948). 15 abr. 2026.

GERMAN HISTORY IN DOCUMENTS AND IMAGES. Attitudes toward Collective Guilt. 15 abr. 2026.

ROPER CENTER FOR PUBLIC OPINION RESEARCH. Public Understanding of the Holocaust, From WWII to Today. 26 jan. 2015.

SILVER, Laura; SMERKOVICH, Maria. Israeli Views of the Israel-Hamas War. Pew Research Center, 30 mai. 2024.

PEW RESEARCH CENTER. Israel’s Religiously Divided Society. 8 mar. 2016.

SILVER, Laura; SMERKOVICH, Maria. How Israelis view their government, institutions and leaders. Pew Research Center, 2023.

HERMANN, Tamar et al. The Israeli Democracy Index 2022. The Israel Democracy Institute, 2023.

SCHEINDLIN, Dahlia. A Grim Poll Showed Most Jewish Israelis Support Expelling Gazans. It’s Brutal – and It’s True. Haaretz, 3 jun. 2025.

RAPAPORT, Nadav. Nearly half of Israelis support army killing all Palestinians in Gaza, poll finds. Middle East Eye, 24 mai. 2025.

SOREK, Tamir. The Bible, the Holocaust, and eliminatory stands among Israelis: a survey analysis. Ethnic and Racial Studies, 2025.

SOREK, Tamir. Mainstreaming a Genocidal Imagination in Israeli Society: Settler-Colonialism, Settler Anxiety, and Biblical Cues. Journal of Genocide Research, 2026.

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