Texto de Adam Raz, publicado originalmente no Haaretz, em 27 de fevereiro de 2026.
Há cerca de dois anos, no fim de março de 2024, Ronit Zilberman, zoóloga, caminhava perto de sua casa no bairro de Ramat Hahayal, em Tel Aviv, quando percebeu caixas com o que rapidamente identificou como milhares de documentos que alguém havia deixado ao lado de uma lixeira.
Curiosa, Zilberman começou a folhear o material. O que descobriu foi um número extraordinário de documentos relacionados à Guerra da Independência, incluindo alguns marcados como confidenciais, outros descrevendo operações militares no nascente Estado de Israel e em países vizinhos, além de mapas e fotografias históricas que, ao que se constatou, jamais haviam sido tornadas públicas (entre elas imagens que aparecem nesta reportagem investigativa).
Documentação desse tipo e dessa magnitude deveria ser devidamente pesquisada e arquivada, pensou Zilberman. Embora as caixas fossem bastante pesadas, ela as levou para casa. O passo seguinte foi entrar em contato com o Instituto Akevot para Pesquisa do Conflito Israelense-Palestino, onde trabalho como pesquisador.
Uma criança palestina saindo de sua aldeia com seus vizinhos, em 1948. Esta e outras fotos nestas páginas faziam parte de um acervo de documentos raros coletados por Rafi Kotzer, que foi encontrado recentemente na rua.
A coleção revelou pertencer a Rafi Kotzer, um dos primeiros combatentes da brigada de infantaria Golani e fundador da unidade de comando do 12º Batalhão, que mais tarde se tornaria a Sayeret Golani, a força de reconhecimento de elite da brigada. Kotzer comandou várias batalhas em 1948 e posteriormente foi um dos fundadores da Organização de Veteranos Deficientes das Forças de Defesa de Israel.
Parte da coleção era de caráter pessoal — correspondência, boletins escolares, desenhos de crianças etc. — e, portanto, não tinha importância para fins de pesquisa. Mas também havia diários, anotações e resumos documentando, por exemplo, discussões do Mapam — o partido político de esquerda que desempenhou um papel central nas primeiras décadas de Israel — sobre diversos temas, entre eles o perigo das armas nucleares e o governo militar imposto à população árabe de Israel entre 1948 e 1966. Os documentos mais importantes para exame histórico mais aprofundado eram aqueles que tratavam da Guerra da Independência.
Um documento que se destacou entre os papéis jogados no lixo foi escrito por Yitzhak Broshi, comandante do 12º Batalhão da Golani durante a guerra. Tratava-se de uma ordem de julho de 1948 que Broshi enviou aos comandantes das companhias da brigada engajadas em combate no norte do país, intitulada “Conduta em aldeias capturadas onde há população”.
O conteúdo desse documento não é o tipo de material que se encontra nos livros de história israelenses.
Broshi informou aos oficiais que, após a captura de uma aldeia árabe, certificados de identificação deveriam ser emitidos para os habitantes. Se alguém transferisse seu certificado para outra pessoa, ambos deveriam ser fuzilados. Se alguém não se apresentasse a tempo para uma inspeção militar, deveria ser executado e sua casa deveria ser demolida com explosivos.
Caso um “árabe de fora” fosse encontrado em uma aldeia, segundo as diretrizes de Broshi, ele deveria ser morto imediatamente. De modo geral, a regra era executar “cada décimo homem” em uma aldeia capturada onde fossem encontrados forasteiros. Além disso, todos os homens de qualquer residência na qual fossem encontrados bens roubados de judeus deveriam ser executados.
Além disso, embora existisse uma ordem para arrasar aldeias, em alguns casos isso não era considerado suficiente. Por exemplo, no caso de Arab a-Zabah, uma comunidade beduína na Baixa Galileia, não deveria restar sequer uma pessoa ou vestígio. “Todo árabe entre os Zabahim deve ser morto”, dizia a ordem.
Não se tratava de diretrizes vagas transmitidas oralmente. Essa e outras ordens estavam registradas “em preto no branco” e assinadas por Broshi de próprio punho.
Em outra ordem datada de julho de 1948, Broshi instruiu suas tropas a realizar buscas por árabes que pudessem ter se escondido na área do Monte Turan, na Baixa Galileia, depois que o local já havia sido conquistado. A ordem era: “Matar qualquer um que esteja escondido”.
Entre os documentos há também um que afirma que “árabes em pequeno número estão vagando pelas aldeias [capturadas]”, aparentemente para recolher pertences e alimentos. Conforme as instruções contidas no documento: “A área deve ser limpa de árabes”. Sob o título “O método”, acrescenta-se que “todo árabe que for encontrado deve ser aniquilado”.
Quase 80 anos se passaram desde a Guerra da Independência, mas grande parte do material nos arquivos de Israel permanece classificada. O sigilo do país nesse aspecto deixou em aberto uma das questões mais fundamentais relacionadas à guerra: se cerca de 800 mil árabes fugiram por iniciativa própria e por orientação de seus líderes — ou se foram expulsos. E, caso tenham sido expulsos, qual foi o papel de massacres e assassinatos na aceleração desse processo? O fato de que Israel impediu o retorno dos árabes e demoliu suas aldeias — perpetuando deliberadamente sua remoção do país — muitas vezes está ausente do debate histórico.
Na visão de muitos israelenses, se os árabes decidiram fugir, Israel não é responsável por criar a tragédia palestina. Mas, se Israel expulsou os palestinos e suas tropas aparentemente não hesitaram em derramar o sangue daqueles que se recusaram a partir, então uma nuvem muito sombria paira sobre o período de fundação do Estado. Se a missão subjacente do exército nascente não era garantir a “pureza das armas”, conforme concebida na época — isto é, que soldados não feririam inocentes e usariam suas armas apenas contra indivíduos que perpetrassem atos violentos —, mas sim perpetuar uma limpeza étnica, segue-se que a memória histórica em Israel é uma ilusão.
Se for esse o caso, até mesmo aqueles que enfatizam o contexto da guerra — o fato de que os países árabes rejeitaram o plano de partilha das Nações Unidas em 1947, que o Holocausto havia terminado apenas três anos antes e que outros conflitos naquele período terminaram com expulsões populacionais — terão de reconhecer o que realmente aconteceu.
Essa discussão histórica não diz respeito apenas ao passado. O reconhecimento da injustiça cometida pode ter implicações para o futuro de Israel e abrir caminho para a conciliação. A ausência desse reconhecimento, contudo, tem um preço. Aquilo que é reprimido coletivamente reaparece mais tarde de maneiras desagradáveis. Vale a pena dar uma chance ao poder da verdade.
O impulso para esta reportagem investigativa decorre de uma oportunidade recente de abordar esse passado esquecido de forma direta. A vasta coleção de Kotzer, parte da qual foi citada acima, integra um acervo de milhares de documentos judiciais de 1948 que foram desclassificados pelos tribunais militares em razão de procedimentos recentes iniciados pelo Instituto Akevot.
Esse rico material, cuja publicação foi autorizada pela censura militar, lança nova luz sobre a história da questão dos refugiados palestinos. Mais do que isso, desmonta completamente a narrativa israelense segundo a qual os habitantes árabes do país fugiram por vontade própria, atendendo a apelos de seus próprios líderes. Embora algumas instruções desse tipo tenham de fato circulado, e algumas pessoas tenham partido por iniciativa própria, pode-se agora confirmar, com base em um amplo conjunto de evidências, que as Forças de Defesa de Israel expulsaram árabes de forma sistemática e violenta durante a Guerra da Independência. A expulsão ocorreu por meio de massacres, assassinatos e de uma série de medidas destinadas a aterrorizar essa população civil e acelerar sua fuga.
Os documentos mais importantes liberados para publicação e que fundamentam esta reportagem dizem respeito a Shmuel Lahis. Lahis era comandante de companhia na Brigada Carmeli e, com as próprias mãos, massacrou dezenas de moradores de Hula, uma aldeia próxima ao kibutz Manara, no lado libanês da fronteira. Lahis é o único soldado israelense que já foi julgado pelo assassinato de árabes durante a Guerra da Independência — graças à insistência de seu oficial superior, o subcomandante do batalhão Dov Yermiya, em levá-lo à justiça. Lahis afirmou ter agido de acordo com ordens de seus comandantes e foi condenado a um ano de prisão. Na prática, porém, nunca foi encarcerado: cumpriu um breve período em uma base militar e logo recebeu perdão. Mais tarde viria a se tornar diretor-geral da Agência Judaica.
Gideon Eilat, um dos juízes do caso, observou que, durante a Guerra da Independência, ocorreram atrocidades piores do que as cometidas por Lahis e questionou por que apenas ele foi levado a julgamento. Segundo afirmou, nenhuma resposta havia sido dada pelo alto comando “a múltiplos crimes de guerra cometidos por comandantes e soldados”, e ele via claramente Lahis como um bode expiatório.
As observações do juiz Eilat não foram feitas no vazio. A linha de defesa adotada pelos advogados de Lahis — de que ele apenas seguira ordens — foi respaldada por muitos oficiais superiores que testemunharam em seu julgamento. Seus depoimentos estão sendo tornados públicos aqui pela primeira vez e também aparecem em um livro atualmente publicado pelo Instituto Akevot.
Uma das testemunhas no julgamento de Lahis foi Mordechai Maklef, oficial de operações da frente norte que quatro anos depois seria promovido a chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. “Houve operações nas quais o inimigo potencial, isto é, civis, foi aniquilado”, disse ele ao tribunal. “Por exemplo, em Safsaf, Jish, Ilaboun, Lod, Ramle e no sul, em larga escala. A intenção era expulsar. É impossível expulsar 114 mil pessoas que viviam [na Galileia] sem terror. Tinha de haver um elemento inicial de terror para que elas partissem.”
Maxim Cohen era comandante da Brigada Carmeli, uma das maiores e mais importantes brigadas de infantaria envolvidas na guerra, em 1948-49. Convocado a depor pelo advogado de Lahis, ele apresentou um testemunho brutal. “Como se expulsa uma aldeia?”, perguntou. “Você corta a orelha de um dos árabes diante dos olhos de todos os outros, e todos fogem. Na prática, nenhuma aldeia foi evacuada sem que alguém fosse esfaqueado no estômago ou por meios semelhantes. Vencemos apenas graças ao medo dos árabes, e eles tinham medo apenas de atos que não estavam de acordo com a lei.”
Haim Ben-David, oficial de operações da Brigada Carmeli que alcançou o posto de major-general nas Forças de Defesa de Israel e mais tarde se tornaria secretário militar do primeiro-ministro David Ben-Gurion, explicou em seu depoimento que a expulsão de árabes era algo rotineiro e que a “limpeza” de uma área “assume a forma de mortes”, dependendo das circunstâncias.
“Em nossas ordens operacionais tomávamos cuidado para não mencionar mortes. As ordens relativas à conduta eram transmitidas oralmente aos comandantes de batalhão”, explicou Ben-David, observando que as diretrizes escritas que vinham do Estado-Maior não pediam expressamente a destruição das aldeias, mas que as ações no terreno eram realizadas “com o conhecimento do Alto Comando”.
E se um árabe insistisse em permanecer em sua casa? Nesse caso, “ele leva um tiro”, disse Ben-David ao tribunal. “Conhecíamos as leis internacionais, mas também sei que muitas vezes não nos comportamos de acordo com essas leis. Recorremos a meios ilegais.” Segundo ele, tais meios também foram utilizados contra mulheres e crianças.
Outro oficial de alta patente chamado a depor foi Yosef Eitan, comandante da 7ª Brigada Blindada, que posteriormente se tornaria chefe do Comando Central. Eitan mencionou a disparidade entre as ordens escritas e aquilo que era transmitido oralmente às tropas: “Eu não vi [uma ordem escrita] para aniquilar cada alma viva, mas na forma de insinuações — sim.” Ele acrescentou que os oficiais no terreno tinham “permissão para interpretar a ordem”, observando que “nossos soldados aniquilaram habitantes” com base nas diretrizes que receberam.
Yisrael Carmi, comandante de batalhão da 7ª Brigada, testemunhou no julgamento de Lahis sobre a conquista de Be’er Sheva em outubro de 1948, explicando que o método era matar civis que resistissem à expulsão, prática utilizada tanto no norte quanto no sul.
“Eu conquistei a cidade”, afirmou Carmi em seu depoimento. “Ao limpar aquela área, dei ordem para aniquilar qualquer um que aparecesse na rua, resistisse ou não. Foi dada uma ordem para destruir tudo. Após a conquista da delegacia de polícia — depois da rendição — os assassinatos cessaram. Até então todos eram mortos — mulheres, crianças, todos. Depois foi dada ordem para que as pessoas fossem para Hebron. Quem não fosse era ‘removido’” (aspas no original).
Outro arquivo cujo conteúdo foi recentemente tornado público trata do julgamento de soldados que estupraram e assassinaram uma jovem beduína no sul, em 1949. Os documentos mostram como a morte de civis servia não apenas para acelerar a expulsão, mas também para impedir o retorno dos árabes às suas terras. Uma ordem operacional emitida por escrito aos soldados pouco depois dos acordos de cessar-fogo determinava que eles deveriam “atirar em todo árabe que se encontre na área até a linha de armistício”. Assinado: A. Rosenblum. Capitão. Comandante da linha.
A sentença nesse caso afirmou que as ordens dadas aos soldados eram “sem reservas: atirar em todo árabe — portanto não faz diferença se é homem ou mulher, se o árabe está armado ou não, se foge ou levanta as mãos e se rende. Se você viu um árabe enquanto estava em patrulha, está obrigado a atirar nele”.
Diante disso, observaram os juízes, é difícil considerar os soldados responsáveis por assassinato, e as contas deveriam ser acertadas com eles apenas pelo estupro. “Se o oficial tivesse matado a mulher árabe em vez de ‘tomá-la’, é possível que não tivesse recebido punição alguma.”
A coleção de documentos recentemente divulgada também se refere a outro caso, relacionado ao assassinato de três árabes idosos — duas mulheres e um homem — em Al-Bureij, ao sul de Hebron. Soldados das Forças de Defesa de Israel capturaram a aldeia em julho de 1948 e, três meses depois, perguntavam-se como lidar com quatro árabes que ainda permaneciam ali.
O soldado Arye Ben-Shem, do 143º Batalhão, relatou que um dos quatro foi considerado útil para as tropas na cozinha e decidiu-se poupá-lo. Quanto aos outros três, segundo o depoimento de Ben-Shem, o tenente Yosef Fishel ordenou que os soldados os colocassem dentro de um prédio e disparassem contra ele um projétil antitanque Fiat. “Acabem com eles”, ordenou Fishel.
Depois que o projétil errou o prédio, decidiu-se que os soldados lançariam granadas para dentro e depois o incendiariam. “Quando entrei na casa, um [homem] estava morrendo e eu disparei um tiro nele”, testemunhou um dos soldados. “A condição deles era que estavam deitados no chão. Dei chutes nas pernas dos outros dois. Eles não reagiram.”
Um dos documentos encontrados. “Houve operações em que o inimigo potencial, ou seja, civis, foi aniquilado.”
Um soldado declarou que “liquidar árabes por ordem de alguém com autoridade não era surpreendente, porque ouvi falar de muitos casos em que isso foi feito”.
Ao contrário de Lahis, acusado de assassinato no massacre de Hula, Fishel foi julgado e condenado por tentativa de homicídio. O tribunal explicou que a acusação havia sido negligente e não fizera o esforço necessário para provar que um assassinato de fato havia ocorrido. Fishel foi condenado a 60 dias de prisão — pena posteriormente ampliada para um ano de detenção em grau de recurso — e o tribunal observou que o acusado poderia ter sido levado a acreditar que seus atos eram justificados tanto moral quanto militarmente.
O advogado de Fishel afirmou não conseguir compreender “por que o acusado deveria cumprir pena. Por ter exagerado em suas ações? Ele cumpriu um dever desagradável e agiu pelas razões mais puras. Não foi um oficial que foi punido aqui — foi toda uma escola de pensamento.”
O fato de que atos de assassinato e expulsão eram considerados parte de “toda uma escola de pensamento” foi sendo obscurecido ao longo dos anos, aparecendo apenas ocasionalmente em estudos acadêmicos. E mesmo nesses casos o foco recaiu sobretudo na Operação Hiram, cujo objetivo era conquistar a Galileia e que foi lançada nos momentos finais da guerra.
Na realidade, os métodos descritos aqui já eram praticados na guerra local que ocorreu entre novembro de 1947 e maio de 1948, e de forma ainda mais intensa na etapa seguinte do conflito regional. De fato, os atos de violência aumentaram a partir de abril-maio de 1948, quando a Haganah — o exército pré-independência — passou à ofensiva. Durante esse período, muitas cidades árabes foram conquistadas e seus habitantes expulsos. Centenas de aldeias sofreram o mesmo destino nos meses seguintes.
Descrições desses acontecimentos aparecem em uma pesquisa abrangente sobre a Operação Hiram realizada nos anos 1950 pelo major Yitzhak Moda’i, que três décadas depois se tornaria ministro das Finanças de Israel. Elaborado a pedido do Departamento de História das Forças de Defesa de Israel, seu estudo baseou-se em documentos internos e não foi destinado ao público. Nele, Moda’i observa que Yigael Yadin, chefe de operações das Forças de Defesa de Israel durante a guerra e segundo chefe do Estado-Maior do país a partir do fim de 1949 — que posteriormente se tornaria um arqueólogo mundialmente famoso e teria uma longa carreira política — declarou de forma explícita em uma ordem escrita que “não estamos interessados em habitantes árabes”.
Moda’i também escreve que, “nas fases finais da Operação Hiram, o comandante da frente [norte] informou as brigadas da seguinte maneira: ‘Façam tudo o que puderem para efetuar uma limpeza rápida e imediata dos territórios conquistados de todos os elementos hostis. De acordo com as ordens emitidas, os habitantes devem ser ajudados a partir.’”
Em resumo, ele observou que unidades das Forças de Defesa de Israel tentaram remover a população árabe da Galileia “frequentemente e não necessariamente por meios legais e suaves”.
A ordem de expulsão citada por Moda’i em seu estudo foi atribuída ao comandante da frente norte, o major-general Moshe Carmel. O documento foi desclassificado pelos Arquivos das Forças de Defesa de Israel no final da década de 1990 e serviu de base para um livro do historiador israelense Benny Morris, “Correcting a Mistake: Jews and Arabs in Palestine/Israel, 1936-1956” (2000, em hebraico).
Em um estudo anterior e pioneiro, intitulado “The Birth of the Palestinian Refugee Problem, 1947-1949” (Cambridge University Press, 1987), Morris descreveu a expulsão de árabes como algo que gerou desordem e confusão, diante da ausência de uma política clara. Em seu livro posterior, ele buscou corrigir essa descrição e escreveu que a ordem escrita de Carmel — então já desclassificada — deixava claro que expulsar os habitantes locais era “extremamente urgente”.
Enquanto isso, a documentação referente à expulsão foi relegada à obscuridade nos arquivos das Forças de Defesa de Israel, juntamente com aquela que atestava crimes de guerra. Para compreender quão raros são os testemunhos e diretrizes citados aqui pela primeira vez, é preciso examinar a política de ocultação mantida por Israel durante décadas. Dos 17 milhões de arquivos existentes nos Arquivos do Estado de Israel e nos Arquivos das Forças de Defesa e do Estabelecimento de Defesa, mais de 16 milhões são inacessíveis ao público.
Um documento interno dos arquivos das Forças de Defesa de Israel, que permaneceu classificado até poucos anos atrás e foi recentemente descoberto pelo Instituto Akevot, especificava à equipe dos arquivos quais assuntos e temas deveriam tentar manter fora do escrutínio público. Entre eles, por exemplo, “material que possa prejudicar a imagem das Forças de Defesa de Israel [e mostrá-las] como um exército de ocupação desprovido de fundamentos morais, [que revele] comportamento violento contra uma população árabe e atos cruéis (morte, assassinato)”.
Além disso, documentação relacionada à “expulsão de árabes” não deveria ser revelada, assim como aquela relativa a “ordens para ferir infiltrados [árabes que tentavam retornar às suas aldeias]”. Também deveriam permanecer fora do alcance do público, instruía o memorando aos funcionários, materiais referentes a “comportamento violento contra prisioneiros, contrário à Convenção de Genebra (morte)”, bem como instruções “para não prestar atenção a bandeiras brancas”.
Os esforços de ocultação também abrangeram arquivos mantidos por partidos políticos e coleções privadas, um recurso alternativo para pesquisadores e jornalistas. Nos últimos 25 anos, funcionários do que em hebraico é chamado de Malmab — o escritório do diretor de segurança do establishment de defesa — passaram de arquivo em arquivo, garantindo que documentos potencialmente reveladores permanecessem fora do alcance do público, sem qualquer autoridade legal para fazê-lo.
A Suprema Corte de Justiça também desempenhou um papel nessa política. Ao ser solicitada a permitir a publicação de documentos e imagens do massacre de 1948 na aldeia árabe de Deir Yassin, nos arredores de Jerusalém, a corte recusou-se a fazê-lo em 2010, citando o frágil argumento de que isso poderia prejudicar a política externa de Israel e as “relações com a minoria árabe” no país.
Da mesma forma, as atas das reuniões relevantes do gabinete ainda não foram desclassificadas, embora quase 80 anos já tenham se passado. Ainda assim, algumas trocas entre ministros foram disponibilizadas para consulta nos últimos anos, após pressão exercida pelos Arquivos do Estado.
Por exemplo, em uma discussão realizada na época sobre ordens para “limpar o território”, o ministro do Interior Yitzhak Gruenbaum declarou: “Quem observa de fora todas essas questões não encontra explicação para a fuga dos árabes. É razoável supor que foram levados a fugir porque [as pessoas] roubaram, estupraram, assassinaram, expulsaram.” Ele pediu que fosse emitida uma ordem para interromper as expulsões.
Outro ministro, Mordechai Bentov, afirmou em uma reunião do gabinete: “Expulsar é fácil, Hitler foi o primeiro”, acrescentando: “Tudo o que estamos fazendo é contrário às convenções internacionais.” Já o veterano ministro Moshe Haim Shapira sustentou que a violência das tropas israelenses contra os árabes havia atingido proporções epidêmicas.
Um tema recorrente nos documentos revelados aqui pela primeira vez é a diretriz contra a captura de prisioneiros. A definição de prisioneiro, ao que parece, era bastante ampla — às vezes incluindo mulheres e crianças — e foi mencionada no contexto da linha de defesa de Lahis. Argumentou-se que transferir os habitantes da aldeia conquistada para uma base militar na retaguarda era “contrário à ordem” que Lahis recebera de seu comandante, a saber: “que não precisamos fazer prisioneiros e que é necessário limpar todo o território do inimigo”.
O oficial de operações Ben-David, da Brigada Carmeli, testemunhou no julgamento de Lahis que a ordem sobre esse tema foi transmitida oralmente às tropas — e trazia uma mensagem inequívoca. “Estava claro para todos”, disse ele. “Ninguém fazia perguntas sobre o que significava não fazer prisioneiros.”
Durante a guerra, acrescentou Ben-David, jovens árabes “não eram considerados civis” e podiam ser mortos. O soldado Yitzhak Soroka declarou ao tribunal no mesmo processo que as instruções eram matar os homens que não fugissem de suas aldeias. Perguntado sobre a idade desses homens, ele disse que em certa ocasião recebeu “uma ordem operacional definindo a idade [como sendo] a partir de 15 anos”.
Um oficial de inteligência chamado Yaakov D. (seu nome aparece censurado nos documentos divulgados) referiu-se à execução de árabes capturados em suas comunidades: “Isso é claro e evidente no curso de oficiais de inteligência — quando se diz para não fazer prisioneiros, isso não significa expulsá-los, mas matá-los”, explicou Yaakov D., acrescentando que, nos casos em que tropas de combate faziam prisioneiros, eles eram mortos posteriormente. Segundo ele, os comandantes haviam recebido ordens para matar quem quer que permanecesse para trás, e isso ocorreu “em várias aldeias”.
As testemunhas chamadas a depor frequentemente se referiram à questão das convenções internacionais. “Conhecemos as leis internacionais”, disse Ben-David. “Mas também sei que muitas vezes não nos comportamos de acordo com essas regras. Usamos meios ilegais” — algo que, segundo ele, era feito com o consentimento do Alto Comando e até mesmo por sua iniciativa. Mordechai Maklef, por exemplo, afirmou que os soldados não estavam familiarizados com a Convenção de Genebra, enquanto o comandante da 7ª Brigada, Yosef Eitan, observou que é possível que as unidades tenham recebido informações sobre “as regras de Haia [mas] não prestamos atenção especial a isso”. Carmi, da 7ª Brigada, declarou que “nos comportamos [em relação ao prisioneiro] não de acordo com o acordo de Genebra”, e o comandante da brigada, Cohen, testemunhou que mesmo no período da força pré-estatal Haganah circulavam ordens segundo as quais “árabes desarmados devem ser mortos”.
Carmi acrescentou que, às vezes, uma diretriz era emitida para “não sobrecarregar a inteligência” — o que, na prática, significava permitir que os capturados fossem mortos. Em sua visão, todo “homem que tem mãos e cabeça constitui um perigo”, e o destino de uma pessoa seria decidido, para o bem ou para o mal, “pelos rostos”. Nos casos em que Carmi julgava os árabes que encontrava perigosos, ele os matava no local.
Além da liquidação de prisioneiros, em alguns casos os documentos analisados aqui também registram a morte de civis árabes que tentaram retornar às suas aldeias capturadas. Um exemplo são as atas de um julgamento de 1951 que tratou de tais atos na cidade árabe de Majdal (atual Ashkelon), em 1949. Estavam em debate as ações de uma companhia estacionada ali para impedir o retorno dos moradores. O tribunal concluiu que “os soldados às vezes se descontrolavam. Alguns pensavam que eram livres para se comportar com os árabes, especialmente os infiltrados, como quisessem.” Segundo diversos depoimentos, considerados confiáveis pelo tribunal, matar árabes “era considerado legal” pelas tropas — e o soldado que realizava o assassinato era até visto pelos companheiros como “um bom sujeito”.
O julgamento nesse caso tratou de um incidente no qual jovens árabes “infiltraram-se” em Majdal para visitar seus pais, que estavam entre as poucas centenas que permaneceram na localidade então sob controle israelense durante um processo gradual de expulsão. Eles foram capturados por soldados, que os executaram. Em uma rara exceção, os pais testemunharam no julgamento.
“Meu filho veio de Gaza para minha casa em Majdal”, declarou o pai. “Eu lhe disse: depois do fim do toque de recolher, vou entregá-lo aos judeus.” Em seguida, relatou a descoberta do corpo do filho. “Vi balas no peito do meu filho e três ou quatro balas na cabeça e nas costas. Desmaiei e caí no chão. Havia sinais de espancamento.”
Os testemunhos citados nesta reportagem investigativa não existem no vazio. Na última década e meia, surgiu uma onda de publicações sobre a expulsão dos palestinos em 1948, mas elas não se consolidaram em uma narrativa coerente nem geraram um debate público amplo. Algumas sequer foram traduzidas para o hebraico.
O material em questão provém de fontes diversas: pesquisas israelenses (Alon Confino, Shay Hazkani); pesquisas palestinas (Saleh Abd al-Jawad, Adel Manna); ficção árabe (Elias Khoury, Salman Natour); reportagens jornalísticas (Hagar Shezaf no *Haaretz*); livros de não ficção (por exemplo, *My Promised Land*, de Ari Shavit); filmes documentários (Neta Shoshani, *Remember, Remember Not*; Alon Schwarz, *Tantura*; e Einat Weizman, *Agenda Item: Erasure*); e atividades de organizações da sociedade civil (as ONGs Zochrot e Instituto Akevot).
O best-seller de Shavit em inglês, que provocou muito debate nos Estados Unidos mas não foi traduzido para o hebraico, relata em detalhes a conquista árabe de Lod em 1948, com base em numerosas entrevistas com oficiais e soldados. O autor descreve como a cidade foi capturada rapidamente, após o que milhares de moradores foram levados para duas mesquitas e uma igreja. No dia seguinte, dois veículos blindados jordanianos entraram na cidade por engano e desencadearam uma nova onda de violência, porque os moradores pensaram, equivocadamente, que se tratava de uma força auxiliar árabe que viera libertá-los. As Forças de Defesa de Israel responderam disparando em todas as direções e lançaram um projétil antitanque Fiat contra uma das mesquitas onde os árabes estavam concentrados.
Shavit, citando a confissão do soldado que disparou o projétil, escreve que, em 30 minutos, 200 civis foram mortos. Acrescenta que, após cessarem os tiros, Ben-Gurion ordenou a Yigal Allon, comandante do Palmach (a unidade de comando da Haganah), que expulsasse os habitantes. Shavit cita uma ordem escrita que outro comandante do Palmach, Yitzhak Rabin — que participou da conquista de Lod como parte da Operação Dani — enviou à Brigada Yiftah e que foi difundida logo depois: “Os habitantes de Lydda [Lod] devem ser expulsos rapidamente, sem consideração pela idade.”
O mesmo projétil Fiat também é mencionado em documentos relacionados ao julgamento de Lahis, revelados aqui. Segundo Carmi, comandante de batalhão, “em Lod, centenas de árabes foram levados para uma mesquita e projéteis Fiat foram disparados contra ela”.
O filme de Shoshani também aborda os acontecimentos em Lod, citando um diário conjunto mantido pelos soldados da Brigada Yiftah: “Depois do café da manhã, dois veículos blindados inimigos apareceram de repente e começaram a se aproximar. Cano de rifle surgiu imediatamente de cada janela. Rebelião. Superamos o inimigo, mas mais 15 feridos e três mortos foram acrescentados [ao total].
“Os rapazes ferviam de raiva; estavam prontos para matar no local. Foi dada uma ordem para realizar uma limpeza completa, e de fato a limpeza foi realizada. Um mau cheiro surgiu e envolveu cada canto. O restante do dia transcorreu relativamente tranquilo, exceto pelos bons momentos que tivemos.”
No filme, Shoshani também apresenta um testemunho sombrio que lança luz adicional sobre um dos episódios mais duros da guerra: o massacre de Dawayima em outubro de 1948, na região de Lachish, no norte do Neguev. Esse testemunho, que já havia chamado a atenção de historiadores no passado, foi mantido sob sigilo em um arquivo por funcionários do Malmab, mas acabou sendo tornado público graças à pressão do Instituto Akevot. Ele aparece em uma carta escrita por um membro do Mapam chamado S. Kaplan a Eliezer Peri, editor do jornal do partido, *Al Hamishmar*, e apresenta o relato de uma testemunha ocular, um soldado chamado Meir Efron:
“O soldado, um dos nossos, é um intelectual, cem por cento confiável. Ele chegou à aldeia imediatamente após a conquista. Não houve batalha e não houve resistência. Os primeiros conquistadores mataram de 80 a 100 árabes [homens], mulheres e crianças.”
“Um comandante ordenou ao sapador que colocasse duas velhas árabes dentro de uma determinada casa e a explodisse com elas lá dentro. Outro soldado se gabou de ter estuprado uma mulher árabe e depois tê-la matado a tiros. Uma mulher que segurava um bebê recém-nascido trabalhava como faxineira. Trabalhou por um ou dois dias e, no fim, atiraram nela e em seu bebê.”
O documentário *Tantura*, de Alon Schwarz, acrescentou informações valiosas sobre o massacre ocorrido em maio de 1948 naquela aldeia, situada na costa ao norte de Zichron Yaakov, incluindo vários testemunhos em primeira mão. “Eu nunca falei com ninguém sobre isso”, diz um veterano da Brigada Alexandroni. “O que eu iria contar, que fui um assassino?” Segundo outro testemunho, “um [soldado] os levou e os assassinou nos currais. Eles enlouqueceram em Tantura, foi algo horrível.” Uma terceira testemunha recordou: “Muitos foram mortos. Eu os enterrei.”
Enquanto cineastas judeus se concentravam na Nakba em documentários, escritores árabes optaram por publicar memórias de sobreviventes em forma de ficção. Esse formato, sem provas corroborativas ou notas de rodapé, permitiu que historiadores israelenses descartassem os testemunhos brutais e os considerassem pouco confiáveis. Em um livro publicado há uma década, *Memory Talked to Me and Walked Away*, Salman Natour descreve uma execução de maneira quase idêntica à descrição presente nos documentos que fundamentam esta reportagem.
Segue uma cena do livro que descreve a invasão de uma aldeia árabe por soldados das Forças de Defesa de Israel:
“‘Mãos para cima!’ Eles levantaram as mãos. ‘De joelhos.’ Eles se ajoelharam no chão. ‘Fiquem de pé.’ Eles se levantaram. ‘Entreguem as armas.’ Eles não tinham armas. ‘Você, você, você e você. Venham comigo.’ Quatro jovens, ainda sem 30 anos.
“Ele ordenou a um soldado que os levasse e se afastasse. Ele se afastou com os quatro por cerca de 50 metros. ‘Levantem as mãos. De costas para a parede.’ Ele recuou alguns metros e apertou o gatilho. Ouviram-se sussurros: ‘Calem-se. Calem-se, seus burros.’ Bum. Bum. Bum. Bum. Em poucos segundos os corpos estavam diante de nossos olhos.”
E aqui, quase como um reflexo no espelho, está o testemunho de um soldado sobre o massacre em Hula, retirado do julgamento de Lahis:
“O primeiro-tenente Shmuel Lahis me pediu 15 pessoas entre os habitantes árabes. Ele escolheu os mais jovens. Mandou que eu fosse com eles até uma casa isolada na aldeia. O comandante da companhia estava armado. Tinha uma pistola e uma metralhadora Sten. Eu tinha um rifle.
“Quando chegamos lá, o comandante da companhia lhes disse, por meu intermédio, que virassem o rosto para a parede. Eles viraram o rosto para a parede. Então o primeiro-tenente Lahis me mandou perguntar onde estavam as armas. Eles disseram que não tinham armas. Depois disso, Lahis começou a atirar neles com a Sten. Ele disparou rajadas, e os árabes imploravam e gritavam, e depois caíam. Os gritos e os pedidos de misericórdia não influenciaram ninguém.”
O próprio Lahis disse ao tribunal que o comandante do batalhão, Avraham Peled, afirmou que a companhia “iria e realizaria a vingança em nome de seus companheiros”. Lahis então se voltou para o soldado Ephraim Huberman e disse: “Se você quer se vingar, ainda há quatro vivos, leve-os e vingue-se.”
Um livro do historiador Shay Hazkani (*Dear Palestine: A Social History of the 1948 War*, Stanford University Press, 2021) cita uma carta escrita por um soldado que visitou a Galileia, a qual ilumina esse motivo da vingança. “Acho que uma conquista assim é obra do diabo”, escreveu ela. “Os cadáveres chegavam até os joelhos.” Ela viu soldados que se comportavam “com uma brutalidade terrível”, mas dizia compreendê-los por causa do que haviam sofrido. “Os primeiros rapazes na Galileia… eles também deveriam poder explodir e matar assim, por vingança e prazer.”
Leitores de hebraico interessados na história da guerra podem consultar obras de historiadores e documentaristas israelenses. Mas e quanto ao lado palestino? Durante muitos anos, pesquisadores palestinos e outros cronistas não se concentraram em recolher testemunhos e enfrentar os horrores dos acontecimentos ligados à guerra de 1948.
Houve várias razões para isso: o simples desejo de sobreviver após a expulsão brutal em massa; o redobrado esforço para promover a luta nacional; vergonha; medo de represálias israelenses contra aqueles que falassem; e a dispersão do povo palestino pelo mundo, do Oriente Médio ao Chile. No entanto, nas muitas décadas após a Nakba, houve alguns que recolheram depoimentos de sobreviventes.
Em 2017, Adel Manna, historiador palestino e cidadão israelense, publicou um estudo intitulado *Nakba and Survival: The Story of the Palestinians Who Remained in Haifa and the Galilee, 1948–1956* (em hebraico). Ele afirmou que “os massacres na Operação Hiram foram organizados ‘de cima’ e tinham como objetivo provocar a fuga”. O historiador Morris criticou o livro, sustentando que “Manna não tem provas corroborativas que liguem essas coisas”. No entanto, evidências que continuam a surgir mostram que Manna está certo: as Forças de Defesa de Israel iniciaram massacres e assassinatos para estimular a fuga dos árabes. Como testemunhou Mordechai Maklef: “Era preciso haver um elemento inicial de terror para que eles partissem.”
Mas quão extensa foi essa carnificina? Morris enumerou 24 massacres. O autor destas linhas já afirmou, nestas páginas, que houve muitas dezenas desses atos. Hoje parece que até esse número foi conservador. Nesse contexto, um dos estudos mais impressionantes sobre a Nakba foi conduzido por um grupo de pesquisadores da Universidade Bir Zeit, na Cisjordânia, sob a coordenação do historiador palestino Salah Abd al-Jawad.
Seu trabalho abrangente baseia-se em 300 entrevistas aprofundadas com sobreviventes, realizadas a partir do final da década de 1990. Os pesquisadores chegaram até a decidir que as testemunhas deveriam ser entrevistadas sob juramento. Posteriormente, os depoimentos foram confrontados entre si e comparados com diversos documentos.
Inicialmente, al-Jawad concluiu que mais de 70 massacres haviam sido perpetrados entre 1947 e 1949. No entanto, nos últimos anos, em um estudo de acompanhamento baseado em diversas fontes e em um novo conjunto de testemunhos orais, al-Jawad constatou que pelo menos 100 massacres ocorreram. Em outras palavras: civis foram massacrados em uma a cada cinco aldeias que foram capturadas pelas forças militares.
Os massacres podem ser divididos em cinco tipos: assassinato generalizado em grande escala (Dawayima); mortes indiscriminadas durante a conquista (Be’er Sheva); assassinatos decorrentes de um desejo de vingança provocado pela morte de soldados (Balad ash-Sheikh); execução seletiva de um grupo de homens não combatentes por fuzilamento (Majd al-Kurum); execução de todos os prisioneiros do sexo masculino (Hula); e assassinato de civis que tentaram retornar para casa (Majdal).
A literatura de pesquisa mais recente permite mapear um grande número desses massacres com alto grau de certeza. Segue uma lista parcial: os três episódios mais graves – isto é, aqueles em que 100 ou mais civis foram mortos – ocorreram em Deir Yassin, Dawayima e Lod. Seis massacres fizeram entre 50 e 100 vítimas: em Jish, nas encostas do Monte Miron; em Safsaf e Ein Zeitun, perto de Safed; em Salha, na fronteira com o Líbano; em Abu Shusha, perto de Ramle; e na aldeia de Bureir, ao norte de Gaza.
Algumas dezenas de civis foram massacrados em Tantura, Be’er Sheva, Kafr Inan (na região de Safed), Tira (na região de Haifa) e Hula, na fronteira com o Líbano. Houve cerca de 20 vítimas em Ilaboun, a oeste do Lago Kinneret; em Nasir al-Din, perto de Tiberíades; em Sabbarin, adjacente a Haifa; em Al-Bassa, ao norte de Acre; e em uma comunidade beduína ao sul de Acre. Outros massacres relevantes ocorreram em Majd al-Kurum, em Kfar Sava, em Rehovot (na aldeia de Zarnuga), ao sul de Nahariya e perto de vários kibutzim: Kabri, Negba e Kfar Menahem.
Em 2021, uma seleção de testemunhos compilados pela equipe de al-Jawad, consistentes com aqueles recolhidos do lado israelense, foi publicada em forma de livro sob o título *Voices of the Nakba: A Living History of Palestine* (Pluto Press). Com base nesses depoimentos dilacerantes, o autor identificou um padrão recorrente de quatro etapas durante as conquistas daquela época: cerco das aldeias por três direções, enquanto eram aterrorizadas por tiros e bombardeios; permissão para que parte dos moradores fugisse para países vizinhos; assassinato dos habitantes que não partiram, especialmente homens entre 15 e 50 anos; e explosão e incêndio das estruturas — muitas vezes com pessoas ainda dentro.
Também essa é uma herança da Guerra da Independência.
Quase oito décadas se passaram desde aqueles acontecimentos ensanguentados, mas em Israel ainda existe um profundo abismo entre memória e autoimagem, de um lado, e realidade, de outro. Os crimes cometidos em 1948 são ocultados e reprimidos, encobertos por uma cultura de silêncio. Em grande medida, o reconhecimento dos crimes do passado — e da negação que normalmente os acompanha — é essencial para compreender o presente de Israel. Uma sociedade que, ao longo de gerações, reprime atos de massacre, assassinato e expulsão que ela própria perpetrou, encontra mais facilidade para fechar os olhos ao que tem sido fomentado na Faixa de Gaza nos últimos dois anos.
Essa memória coletiva defeituosa não surgiu por acaso — e a culpa por inculcá-la não recai apenas sobre os livros didáticos. Trata-se de todo um sistema: político, judicial, midiático. A academia israelense também colaborou com a política de ocultação e negação, seja por identificação com ela, seja por preguiça ou apatia.
E, como então, agora mais uma vez “não combatentes” são mortos, crimes são ocultados e os responsáveis não são levados a julgamento. Esse tem sido o padrão o tempo todo. Israel causou a morte de cerca de 100 mil palestinos na Faixa de Gaza após 7 de outubro, mas nem um único soldado foi acusado de assassinato ou homicídio culposo. Até o momento em que este texto foi escrito, um soldado foi julgado — por saque.
A negação dos crimes de 1948 alimentou décadas de conflito. O que a negação dos crimes de Gaza trará sobre nós?











