Vlad Drácula: Herói cristão anti-otomano?

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Sem qualquer sombra de dúvidas, Vlad III é a personalidade mais famosa, polêmica e intrigante da história da Romênia. Vlad o Impalador (Tepes), o filho do dragão (Drácula). São muitos os nomes que o Voivoda da Valáquia adquiriu em seu tempo de vida; sem dúvidas, fruto da reputação negra que o príncipe romeno construiu em seu tempo de reinado e que foi finalmente sagrada na memória mundial através do clássico vampírico de Bram Stoker.

É no caótico cenário da península balcânica do século XV que a imagem quase-faustiana do Impalador é adquirida. Com a poderosa máquina militar otomana subjugando e invadindo todos os diversos estados espalhados pela região, restava ao Reino da Hungria o papel do protagonismo militar cristão contra as insaciáveis conquistas do estrangeiro muçulmano. Desde o final do século passado, a Valáquia era considerada um Estado vassalo do Império Otomano; diferentemente da Bulgária, o vizinho ao sul, este arranjo conservava as leis, instituições e a aristocracia reinante do principado romeno. Em contrapartida, o Voivoda (ou príncipe) da Valáquia devia fidelidade ao sultão otomano, sendo obrigado, entre outras coisas, a pagar impostos anuais e a responder aos chamados de guerra do Império contra seus vizinhos cristãos. Neste arranjo pragmático, o sultão resolvia a difícil tarefa de impor sua autoridade nos Estados-vespeiros do Leste Europeu e permitia aos valáquios aceitar um julgo mais brando.

Isto, é claro, não sanava a insatisfação de uma parcela dos dominados, especialmente quando esta insatisfação era compartilhada pelo Estado Húngaro, pelo Papa e pelas nações católicas da Europa, aterrorizadas com a ideia de conquista islâmica.

Se por um lado os otomanos procuravam garantir a fidelidade dos príncipes da Valáquia, por outro os húngaros procuravam exercer uma influência paralela, buscando alinhar os príncipes com a agenda político-militar húngara ou, se isso não fosse possível, apoiar boiardos (classe de grandes aristocratas) interessados em destronar príncipes leais aos otomanos. É neste cenário volátil que Vlad III, o filho do Dragão, se situa.

Este tipo de contextualização precisa ser estabelecido e tornado claro, especialmente porque a visão mais contemporânea – e politizada – desse assunto tende a ver os príncipes como heróis da causa cristã e de valores inegociáveis. A realidade, por outro lado, é menos gentil com essa fábula romântica. É claro que a maioria dos príncipes tinha pouquíssima simpatia pelo Turco. Contudo, a prospecção de poder e a própria frequência dos inúmeros golpes de Estado tornavam do turco um aliado valioso a se recorrer. Isto é ainda mais patente pela própria peculiaridade de monarquia eletiva valáquia: qualquer filho de um príncipe poderia sucedê-lo, mesmo príncipes de linhas ou dinastias passadas e descontinuadas, criando uma miríade de candidatos e conspiradores em potencial. Durante o século XV, o poder na Valáquia mudou de mãos 18 vezes, apenas através de meios violentos.

O próprio Drácula, como foi chamado, foi ele mesmo vítima e agente deste complicado emaranhado de conspirações. Na verdade, ele mesmo só chegou ao poder através de suporte otomano: quando o governante húngaro da Transilvânia (outro principado romeno junto da Valáquia e da Moldávia) coagiu o príncipe valáquio, Vladislav II, a segui-lo numa campanha contra os otomanos, Drácula buscou auxílio otomano para tomar o país na sua ausência, em 1448.

Contudo, um mês após o golpe, Vladislav II retornou, forçando Vlad a fugir para o Império Otomano. Por volta de 1456, as relações do príncipe Vladislav II com os húngaros se deterioraram. Drácula, agora com suporte húngaro, invadiria a Valáquia e mataria seu rival em duelo pessoal. Mas diga-se de passagem, o próprio Vladislav II só subiu ao poder por meio do assassinato do pai de Drácula, Vlad II Drácul (o dragão).

O próprio Drácul, seu pai, também teve um histórico de relações ambíguas com diversos potentados locais, chegando até mesmo a buscar assistência do decadente Império Bizantino para realizar um golpe de Estado contra um príncipe pró-otomano; o que não o impediu de buscar os otomanos para manter seu poder, trocando os próprios filhos – incluindo Drácula – na corte otomana como garantia de sua lealdade. No fim das contas, a política valáquia era uma das mais podres, intriguistas e maquiavélicas da Europa: uma mera análise de suas peculiaridades dificilmente prova o contrário.

Talvez seja esse cinismo que explique, ou pelo menos ajude a explicar, por que Drácula governou com tanta brutalidade. E embora os requintes de crueldade de seu governo beirem a psicopatia, eles parecem ter alguma motivação lógica por trás: exterminar e intimidar aristocratas valáquios, executar e torturar comerciantes da etnia saxã na Romênia e todos os casos de execução de emissários otomanos, camponeses valáquios e civis da Bulgária Otomana (sejam eles cristãos ou muçulmanos) todos parecem ser explicados por uma tentativa de projetar sua carreira como um governante poderoso e cruel, dos quais nenhuma pessoa poderia opô-lo sem sofrer consequências terríveis.

No fim das contas, Vlad seria preso por autoridades húngaras em 1462; uma prisão que até hoje não possui motivações claras, embora possa ser explicada pelo fato de que a própria Hungria não possuía condições de fazer guerra aos otomanos, como assim queria o príncipe da Valáquia. Ele só seria liberto em 1475, após abjurar de sua fé cristã ortodoxa em prol da católica romana.

Mesmo assim, nenhum suporte húngaro foi dado para recuperar o trono, agora sob posse de um lealista otomano. Eventualmente, Vlad morreria lutando contra os otomanos; de acordo com o relato de um diplomata italiano, seu corpo teria sido dilacerado em muitos pedaços, com a cabeça sendo enviada como presente para a corte do sultão Mehmet II. A história das crueldades de Vlad Drácula ficaria fresca na memória popular e na história, apesar de considerações do mesmo como um herói que se opôs ao “entreguismo” da aristocracia valáquia, supostamente pró-otomana. Seria o clássico de Stoker que firmaria a visão do governante negro como um poderoso lorde vampiro, o conde Drácula da Transilvânia. E por uma via oposta, mas não menos influente, a propaganda soviética do século passado trataria de imortalizar Vlad Tepes – assim como fizeram com o czar Ivan o Terrível – como um poderoso líder centralizador, patriota e inimigo das elites nacionais que enfraqueciam seu país; qualquer semelhança com o arquétipo stalinista não é mera coincidência.

Bibliografia

TREPTOW, Kurt W. Vlad III Dracula: The Life and Times of the Historical Dracula. The Center of Romanian Studies, 2000.

NDREESCU, Stefan. Military Action of Vlad Tepes in South-Eastern Europe in 1476. 1991.

BOIA, Lucian. History and Myth in Romanian Consciousness. Central European University Press, 1997.

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