Profeta Muhammad (Maomé)

Uma Biografia Ilustrada do Profeta Muhammad (Maomé)

Obs: O texto a seguir retrata um resumo da vida do Profeta Muhammad de um ponto de vista completamente histórico-politico, suprimindo muitos detalhes religiosos que tornariam este material demasiadamente extenso, porém mais “tocante”. Para uma analise mais detalhada, por favor conferir a bibliografia recomendada no final do texto bem como narrativas islâmicas de cunho mais espiritual-religioso.

Infância e adolescência de Muhammad

Muhammad Ibn Abdullah, ou como conhecido no mundo lusófono, Maomé, o Profeta do Islã, nasceu no ano de 570  no mês de Rabi al-Awwal do calendário lunar. Ele pertencia ao clã dos Banu Hashim, parte da tribo de Quraysh, nascendo em uma família árabe das linhagens mais nobres de Meca. A tradição coloca o ano de seu nascimento como correspondente ao Ano do Elefante, que é nomeado assim após a tentativa de destruição fracassada de Meca naquele ano por Abraha, o rei cristão etíope do Iêmen, que suplementou seu exército com elefantes. A vida do Profeta Muhammad é tradicionalmente definida em dois períodos: pré-hijra (emigração) em Meca (de 570 a 622) e pós-hijra em Medina (de 622 até 632).

”O nascimento de Muhammad”, pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV.

O pai de Muhammad, Abdullah, morreu quase seis meses antes dele nascer, deixando sua esposa, Amina sem muitos recursos. De acordo com a tradição islâmica, logo após o nascimento ele foi enviado para viver com uma família beduína no deserto, já que a vida isolada no deserto era considerada mais saudável para bebês, bem como um local mais propicio para a aprendizagem do idioma árabe puro. Muhammad viveu com sua mãe adotiva, Halimah bint Abi Dhuayb, e seu marido até os dois anos de idade. Aos seis anos, ele perdeu sua mãe biológica, Amina que morreu devido a doença. Nos dois anos seguintes, até os oito anos de idade, o então órfão ficou sob a guarda de seu avô paterno Abdul-Muttalib, do clã dos Banu Hashim, até sua morte. Após a morte do avô, ele então ficou sob os cuidados de seu tio Abu Talib, o novo líder dos Banu Hashim, a quem seria muito ligado ao longo de sua vida.

Em sua adolescência, Muhammad acompanhava seu tio Abu Talib em caravanas que iam à Síria para comercializar. A tradição islâmica afirma que quando tinha nove ou doze anos, enquanto acompanhava a caravana dos habitantes de Meca ao Levante, ele e seu tio encontraram um monge cristão chamado Bahira que identificou o menino como profeta.

 

”Jovem Muhammad encontra o monge Bahira que revelou suas visões do futuro do menino” em miniatura do Jami ‘al-Tawarikh (”Compêndio de Crônicas”), de Rashid Al-Din, século XIII.
“O profeta realizando suas abluções acompanhado de sua esposa Khadija” pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV.

Poucas narrações falam da juventude do profeta, mas devido ao seu caráter excepcional, ele adquiriu o apelido de “al-Amin” que significa “fiel, confiável” dentre os seus conterrâneos, e era procurado para resolver disputas como um árbitro imparcial.

Vida adulta de Muhammad

Sua reputação atraiu uma proposta de casamento em 595 de Khadijah, uma viúva de 40 anos que procurava alguém que cuidasse de seus negócios. Muhammad, com por volta de 25 anos, consentiu com o casamento, que, segundo todos os relatos, foi feliz. O casal teve seis filhos.

No ano de 605, a Pedra Negra, um objeto sagrado, foi removida durante as reformas no santuário da Caaba em Meca. Os líderes dos clãs da cidade não conseguiam concordar sobre qual clã teria a honra de coloca-la no seu lugar. Eles decidiram que iriam perguntar ao próximo homem que passasse pelo portão do santuário para tomar essa decisão; e por vias do destino, o escolhido foi Muhammad de 35 anos de idade. Para solucionar a contenda, ele pediu um pano e colocou a Pedra Negra em seu centro. Os líderes dos clãs seguraram as bordas do pano e juntos carregaram a Pedra Negra para seu lugar no santuário, onde Muhammad a ergueu e a posicionou, satisfazendo a honra de todos.

 

“Muhammad erguendo a Pedra Negra”, miniatura persa do Jami ‘al-Tawarikh (”Compêndio de Crônicas”), de Rashid Al-Din, século XIII.

Sua aparência

De acordo com as descrições detalhadas nos hadiths (narrações descritivas dos ditos e atos do Profeta), Muhammad era de tamanho médio, não tinha cabelos lisos ou encaracolados, e lhe chegavam até os lóbulos das orelhas. Não era gordo nem muito magro, era proporcional, robusto, firme, tinha um peitoral e ombros largos, um rosto claro e circular, de pele clara, grandes olhos negros e longos cílios, coroados por sobrancelhas finas e longas, com uma veia no meio que costumava dilatar se ele se zangava. Quando andava, seu caminhar aparentava como se tivesse descido uma declividade com elegância. Tinha um nariz aquilino, e uma barba cheia e bem cuidada.

O início do Islã

Muhammad não era aderente ao paganismo idolatra predominante em Meca, e costumava meditar sozinho em uma gruta chamada Hira no Monte Jabal al-Nour, perto da cidade por várias semanas todos os anos. A tradição islâmica sustenta que durante uma de suas visitas àquela caverna, no ano de 610, o anjo Gabriel lhe apareceu de forma inesperada e ordenou que recitasse os primeiros versos das revelações que mais tarde seriam conhecidas como Alcorão.

Muhammad ficou profundamente angustiado ao receber suas primeiras revelações. Depois de voltar para casa, ele foi consolado e tranquilizado por Khadijah e seu primo cristão nestoriano, Waraka ibn Nawfal. A revelação inicial foi seguida por uma pausa de três anos (um período conhecido como fatra) durante o qual Muhammad se sentiu deprimido e se entregou a orações e práticas espirituais. Quando as revelações recomeçaram, ele foi tranquilizado e ordenado a começar a pregar a Mensagem.

”Muhammad recebendo sua primeira revelação do anjo Gabriel”, miniatura persa do Jami ‘al-Tawarikh (”Compêndio de Crônicas”), de Rashid Al-Din, século XIII.

De acordo com a tradição islâmica, sua esposa Khadija, foi a primeira a acreditar que ele era um profeta. Ela foi seguida pelo primo de dez anos de Muhammad, Ali ibn Abi Talib, seu amigo íntimo Abu Bakr, e filho adotivo Zaid. Por volta de 613, Muhammad começou a tornar suas pregações públicas. A maioria dos habitantes de Meca ignoraram e zombaram dele, embora alguns poucos se tornassem seus seguidores. Haviam três grupos principais de primeiros convertidos ao Islã, excluídos da sociedade principalmente: mulheres, escravos e membros de tribos sem status ou importância politica.

A oposição em Meca passou a se intensificar quando Muhammad proferiu versos do Alcorão (na época uma tradição oral ainda não reunida em livro) que condenavam a adoração de ídolos e o politeísmo. À medida que seus seguidores cresciam, ainda que fossem um movimento completamente pacífico, ele começou a ser visto como uma ameaça pelas tribos locais e os governantes da cidade, cuja riqueza repousava sobre a peregrinação a Caaba, o ponto central da vida religiosa do paganismo na Arábia. Mercadores poderosos tentaram convencer Muhammad a abandonar sua pregação; foi-lhe oferecido a admissão ao círculo interno de comerciantes poderosos, bem como um casamento vantajoso. Ele recusou ambas as ofertas.

A tradição registra longamente a perseguição e os maus-tratos em relação a Muhammad e seus seguidores. Sumayyah bint Khayyat, escrava de um proeminente líder de Meca, Abu Jahl, é famosa como o primeiro mártir do Islã; morta com uma lança pelo seu mestre quando ela se recusou a desistir de sua fé. Bilal, outro escravo muçulmano, foi torturado por Umayyah ibn Khalaf, que colocou uma pedra pesada em seu peito para forçar sua conversão. Em 615, alguns dos seguidores do Profeta emigraram para o reino etíope de Aksum e fundaram uma pequena colônia sob a proteção do imperador cristão etíope Aṣḥama ibn Abjar.

“Muçulmanos perseguidos sendo recebidos pelo rei cristão etíope”. miniatura persa do Jami ‘al-Tawarikh (”Compêndio de Crônicas”), de Rashid Al-Din, século XIII.

O boicote aos muçulmanos

Em 617, os líderes dos Banu Makhzum e Banu Abd-Shams, dois importantes clãs da tribo de Quraysh, declararam um boicote público contra o clã dos Banu Hashim, para pressioná-los a retirar sua proteção de Muhammad. O boicote durou três anos, levando o Profeta, sua familia e seguidores a viverem num gueto desértico ao redor de meca com pouquíssimos recursos e em grande dificuldade, mas acabou entrando em colapso quando falhou em seu objetivo.

Durante esse tempo, Muhammad só foi capaz de pregar durante os meses sagrados de peregrinação em que todas as hostilidades entre árabes eram suspensas. A esposa de Muhammad, Khadijah e tio Abu Talib, morreram em 619, sendo o ano conhecido como o “Ano da Tristeza”. Com a morte de Abu Talib, a liderança do clã dos Banu Hashim passou para Abu Lahab, outro tio e tenaz inimigo do Profeta.

Logo depois de assumir a liderança do clã, Abu Lahab retirou a proteção sobre Muhammad. Isso colocou-o em perigo; a retirada da proteção do clã implicava que a vingança de sangue por sua morte não seria exigida. Muhammad então visitou Taif, outra importante cidade da Arábia, e tentou encontrar um protetor e local para que pudesse garantir a liberdade religiosa de sua comunidade, mas seu esforço fracassou e ainda o colocou em perigo físico, pois nela foi apedrejado por seus habitantes até seus sapatos ficarem encharcados de sangue.  Ele foi forçado a retornar a Meca. Um homem de Meca chamado Mut’im ibn Adi (e a proteção da tribo de Banu Nawfal) possibilitou que ele voltasse a entrar com segurança em sua cidade natal.

Miniatura otomana do século XVI retratando Abu Bakr defendendo o Profeta de um apedrejamento.

A Jornada Milagrosa

A tradição islâmica afirma que, em 620, Muhammad experimentou o Isra e Miaraj, uma jornada milagrosa que teria ocorrido com o anjo Gabriel. No início da jornada, o Isra, ele teria viajado de Meca em uma criatura conhecida como al-Buraq para Jerusalém. Mais tarde, durante o Mi’raj, Muhammad teria percorrido o céu e o inferno e falado com profetas anteriores, como Abraão, Moisés e Jesus, bem como com o próprio Deus (Allah). Foi neste evento milagroso que o Profeta recebeu as ordens para as cinco orações diárias, praticadas por muçulmanos até os dias de hoje.

lustração persa de 1543 do Isra wal Miaraj retirada do Khamseh, feita para o xá Tahmasp I.

Aliança com habitantes de Yathrib

Em Meca, na temporada de peregrinação de 620, o Profeta Muhammad encontrou seis homens dos Banu Khazraj da cidade de Yathrib, 454 quilômetros de distância de Meca, e propôs-lhes as doutrinas do Islã. Convencidos por elas, os seis abraçaram a religião e na Peregrinação de 621, eles trouxeram outros homens com eles.

Esses novos muçulmanos informaram Muhammad do início do desenvolvimento gradual do Islã em sua cidade, e assumiram uma promessa formal de lealdade. No ano seguinte, na peregrinação de 622, uma delegação de cerca de 75 muçulmanos dos Banu Aws e Khazraj de Yathrib vieram e, além de reafirmar as promessas formais, também asseguraram a Muhammad seu total apoio e proteção se ele e sua comunidade perseguida em Meca migrassem para sua cidade. Eles o convidaram para vir a Medina como um árbitro para reconciliar entre as tribos hostis.

Durante o início do século VII, Yathrib era habitada por dois tipos de população: árabes judeus e pagãos. Os judeus ali tinham três clãs principais – Banu Qaynuqa, Banu Nadir e Banu Qurayza. Os pagãos árabes tinham duas tribos – os Banu Aws e Khazraj. Naquela época, os judeus de lá tinham a vantagem de seu grande assentamento e imensa propriedade. Antes do encontro entre Muhammad e os seis homens de Medina em 620, seguiu-se uma terrível batalha entre Aws e Khazraj, conhecida como a Batalha de Buath, na qual muitas personalidades importantes de ambos os lados morreram e deixaram Yathrib em um estado desordem.

As regras tradicionais para manter a lei e a ordem tornaram-se disfuncionais e, sem um homem neutro com autoridade considerável sobre as coisas, a estabilidade parecia improvável. Como os pagãos árabes de Medina viviam em estreita proximidade com os judeus, eles haviam adquirido algum conhecimento sobre suas escrituras e haviam ouvido os judeus esperando a chegada de um futuro profeta. É em parte por causa desse conhecimento, tomado em conjunto com a necessidade de um juiz, que os seis homens que encontraram Muhammad na temporada de peregrinação de 620 aceitaram prontamente sua mensagem.

De acordo com a tradição muçulmana, depois de receber orientação divina para partir de Meca, o Profeta começou a se preparar e informou Abu Bakr de seu plano. Na noite de sua partida, sua casa foi sitiada por homens dos coraixitas que planejavam matá-lo pela manhã. Muhammad pediu que Ali ficasse em sua cama, para que se fizesse passar por ele, sabendo que assim que os coraixitas o descobrissem, viriam que era seu primo.

Logo, Muhammad se juntou a Abu Bakr, deixou a cidade e os dois se abrigaram em uma caverna a alguma distância. Na manhã seguinte, os sitiantes ficaram frustrados ao encontrar Ali na cama de Muhammad. Enganados e contrariados pelo plano de fuga, eles vasculharam a cidade em busca dele, e alguns deles chegaram ao limiar da caverna, mas o sucesso lhes escapou.

Quando os líderes coraixitas souberam da fuga de Muhammad, anunciaram uma pesada recompensa por traze-lo de volta, vivo ou morto. Incapaz de resistir a essa tentação, os perseguidores se espalharam em todas as direções, mas novamente, não conseguiram encontrar o Profeta. Após oito dias de jornada, Muhammad entrou nos arredores de Yathrib por volta de junho de 622, mas não entrou diretamente na cidade.

Ele parou em um lugar chamado Quba, a alguns quilômetros da cidade principal, e estabeleceu uma mesquita lá. Depois de uma estada de quatro dias em Quba, Muhammad junto com Abu Bakr continuaram sua migração para Medina, e, ao chegarem à cidade, foram recebidos cordialmente por seu povo após doze anos sofrendo de dura perseguição e violência em Meca. A cidade de Yathirb doravante passou a ser conhecida como “Medinat al-Nabawi”, “A Cidade do Profeta”, ou simplesmente “Medina”.

“Monges cristãos servem uma refeição ao Profeta”, miniatura otomana do século XVIII.

Entre as primeiras coisas que o Profeta fez para aliviar os conflitos de longa data entre as tribos de Medina foi redigir um documento conhecido como a Constituição de Medina, estabelecendo uma espécie de aliança ou federação entre as tribos de Medina e os emigrantes muçulmanos de Meca; esses direitos e deveres específicos de todos os cidadãos e o relacionamento das diferentes comunidades de Medina (incluindo a comunidade muçulmana com outras comunidades, especificamente os judeus e outros “Povos do Livro”).

A comunidade definida na Constituição de Medina, Ummah, tinha uma perspectiva religiosa, também moldada por considerações práticas e preservou substancialmente as formas legais das antigas tribos árabes. Isto foi seguido pela aceitação geral do Islã pela população pagã de Medina, com algumas exceções. Os habitantes de Medina que se converteram ao islamismo e ajudaram os emigrantes muçulmanos a encontrar abrigo se tornaram conhecidos como os ansar (apoiadores), enquanto os vindos de Meca se tornaram os “muhajirun” (emigrantes).

Início das Jihads

Após a emigração, o povo pagão de Meca tomou todas as propriedades que os muçulmanos que haviam viajado para Medina deixaram, tornando assim o estopim para uma resposta armada de uma comunidade religiosa que até então havia suportado pacificamente mais de uma década de morte e tortura. Muhammad então recebeu versos do Alcorão permitindo que os muçulmanos combatessem os habitantes de Meca que ainda os prejudicavam mesmo a distância, nascendo assim as primeiras “jihads”.

“O Profeta Muhammad liderando uma hoste de cavaleiros na Batalha de Badr” -pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV

Em março de 624, Muhammad liderou cerca de trezentos guerreiros em uma marcha a uma caravana mercante de Meca. Os muçulmanos montaram uma emboscada para a caravana nos arredores dos “Poços de Badr”. Conscientes do plano, a caravana de Meca escapou dos muçulmanos. Uma força de Meca compondo mais de mil homens foi enviada para proteger a caravana e confrontou os muçulmanos ao receber a notícia de que a caravana estava segura. A batalha de Badr começou. Embora em menor número que três para um, os muçulmanos venceram a batalha, matando pelo menos 45 pagãos, com quatorze muçulmanos mortos.

Eles também conseguiram matar alguns líderes de Meca, incluindo Abu Jahl, conhecido como o “Faraó dos Muçulmanos”, devido ao nível de perseguição empreendida por ele contra a comunidade islâmica. Setenta prisioneiros foram adquiridos como resultado da batalha, muitos dos quais foram resgatados. Muhammad e seus seguidores viram a vitória como confirmação de sua fé. Os versos do Alcorão deste período em Medina, ao contrário dos versos de Meca relacionados largamente com questões de credo, lidavam com problemas práticos do governo e questões como a distribuição de espólios.

A vitória fortaleceu a posição de Muhammad em Medina. Após a Batalha de Badr, Muhammad também fez alianças de ajuda mútua com várias tribos beduínas para proteger sua comunidade dos ataques da parte norte da Peninsula Arábica por parte dos aliados de Meca. No entanto, a comunidade muçulmana de Medina teria de enfrentar a primeira tensão por parte de seus aliados judeus. Depois de Badr, um dos chefes do clã judaico dos Banu Nadir, Ka’b ibn al-Ashraf, foi aos Coraixitas de Meca para lamentar a perda de Badr e incitá-los a pegar em armas contra os muçulmanos para recuperar a honra perdida, planejando abertamente um ataque por trás.

Relatos narram que uma mulher muçulmana visitou uma joalheria no mercado da tripo judia dos Banu Qaynuqa, e lá foi molestada. O ourives, um judeu, prendeu sua roupa de tal forma que, ao se levantar, ela foi despida. Um homem muçulmano que se aproximou da comoção resultante matou o comerciante em retaliação. Uma multidão de judeus da tribo Qaynuqa atacou o homem muçulmano e o matou. Isso se transformou em uma cadeia de assassinatos por vingança, e a inimizade cresceu entre os muçulmanos e os Banu Qaynuqa. O profeta considerou os acontecimentos uma violação do pacto de não-agressão dos quais esta tribo judia em especifico era signatária, então fora decidido por sua expulsão da cidade. Alguns membros da tribo escolheram ficar em Medina e se converter ao Islã.

A Batalha de Uhud

Os habitantes de Meca estavam ansiosos para vingar sua derrota em Badr. Para manter a prosperidade econômica, os habitantes de Meca precisaram restaurar seu prestígio, que havia sido reduzido após a derrota. Abu Sufyan, o novo líder pagão, reuniu um exército de 3.000 homens e partiu para um ataque a Medina.

Um batedor alertou Muhammad da presença e número do exército de Meca no dia seguinte. Na manhã seguinte, na conferência muçulmana de guerra, surgiu uma disputa sobre a melhor maneira de repelir os habitantes de Meca. Muhammad e muitas figuras importantes sugeriram que seria mais seguro lutar dentro de Medina e aproveitar as fortificações. Muçulmanos mais jovens argumentaram que os habitantes de Meca iriam destruir as plantações, e se amontoar nas fortalezas destruiria o prestígio muçulmano.

Muhammad acabou por conceder aos muçulmanos mais jovens e preparou a força muçulmana para a batalha. Muhammad levou sua força para fora até a montanha de Uhud (a localização do acampamento de Meca) e lutou na Batalha de Uhud em 23 de março de 625. Embora o exército muçulmano tivesse vantagem nos primeiros encontros, a falta de disciplina por parte dos arqueiros estrategicamente colocados levou a uma derrota muçulmana; 75 muçulmanos foram mortos, incluindo Hamza, o tio do Profeta, que se tornou um dos mais conhecidos mártires da tradição muçulmana.

Os habitantes de Meca não perseguiram os muçulmanos, em vez disso, eles marcharam de volta para Meca declarando vitória, provavelmente porque Muhammad foi ferido durante o combate, e considerado morto. Quando eles descobriram que o Profeta sobreviveu, os habitantes de Meca não retornaram devido a informações falsas sobre novas forças vindo em sua ajuda. O ataque não conseguiu atingir seu objetivo de destruir completamente os muçulmanos. Eles enterraram os mortos e retornaram a Medina naquela noite.

Abu Sufyan dirigiu seu esforço para outro ataque a Medina. Ele ganhou apoio das tribos nômades ao norte e leste da cidade; usando propaganda sobre a fraqueza de Muhammad, promessas de espólio, lembranças do prestígio dos coraixitas e de suborno. A nova política do Profeta seria agora de impedir alianças contra ele. Após a derrota pelos Coraixitas no Monte Uhud em março de 625, o clã judeu dos Banu Nadir passaram a desafiar abertamente a liderança do Profeta. Após duas conspirações de assassinato fracassadas, o Profeta decidiu por fim à ameaça de mais este clã judaico sitiando sua fortaleza por quatorze dias.

Eles esperavam que receberiam reforços de seus correligionários dos Banu Qurayza, porém, a ajuda não chegou, e os Banu Nadir se renderam. O Profeta fez um acordo com eles no qual podiam partir sem mais hostilidades levando todos os seus bens, com exceção das armas. Os judeus então formaram uma procissão de 600 camelos e partiram de Medina cantando músicas enquanto tocavam instrumentos, acompanhados por suas mulheres ricamente adornadas que desfilaram pela cidade, deixando todos impressionados.

“Muhammad recebe a rendição dos Banu Nadir”, miniatura persa do Jami ‘al-Tawarikh (”Compêndio de Crônicas”), de Rashid Al-Din, século XIII.

Batalha das Trincheiras

Com a ajuda dos exilados Banu Nadir, o líder militar de Meca, Abu Sufyan, reuniu uma força de 10 mil homens. Muhammad preparou uma força de cerca de 3.000 homens e adotou uma forma de defesa desconhecida na Arábia naquela época; os muçulmanos cavaram uma trincheira onde quer que Medina estivesse aberta ao ataque de cavalaria. A ideia é creditada a um persa convertido ao islamismo, Salman. O cerco de Medina começou em 31 de março de 627 e durou duas semanas. As tropas de Abu Sufyan não estavam preparadas para as fortificações e, após um cerco ineficaz, a coalizão decidiu voltar para casa.

Durante a batalha, a tribo judaica dos Banu Qurayza, localizada ao sul de Medina, entrou em negociações com as forças de Meca para trair o Profeta. Nenhum acordo foi alcançado após negociações prolongadas, em parte devido a tentativas de sabotagem por parte dos batedores do Profeta. Após a retirada da coalizão, os muçulmanos acusaram os Banu Qurayza de traição e sitiaram-nos em sua fortaleza por 25 dias. Os Banu Qurayza acabaram por se render; e, julgados de acordo com o próprio código judaico para traidores em tempos de guerra, seus homens foram mortos, porém mulheres e crianças poupados.

Tentativa de peregrinação menor (Umrah)

Embora o Profeta tenha proferido versos do Alcorão comandando o Hajj, os muçulmanos não o realizaram devido à inimizade com os pagãos de Quraysh. No mês de Shawwal do ano de 628, Muhammad ordenou a seus seguidores que obtivessem animais sacrificiais e se preparassem para uma peregrinação menor (Umrah) a Meca. Ao ouvir falar dos cerca de 1.400 muçulmanos, os coraixitas despacharam 200 cavaleiros para detê-los. Muhammad evitou-os, tomando um caminho mais difícil, permitindo que seus seguidores alcancem al-Hudaybiyya nos arredores de Meca.

Negociações começaram com emissários viajando de al-Hudaybiyya para Meca, e um tratado programado para durar dez anos foi finalmente assinado entre os muçulmanos e os pagãos coraixitas. Os principais pontos do tratado incluíam a cessação das hostilidades, o adiamento da peregrinação de Muhammad para o ano seguinte e o acordo para enviar de volta qualquer muçulmano de Meca que emigrasse para Medina sem a permissão do chefe de seu clã.

Muitos muçulmanos não estavam satisfeitos com o tratado, porém mais tarde perceberam seu benefícios. Esses benefícios incluíam o reconhecimento de Muhammad como um oponente politico de respeito, uma maior liberdade para a consolidação do poder em Medina bem como mais liberdade religiosa para pregação e a admiração dos habitantes de Meca, que ficaram impressionados com os rituais de peregrinação islâmicos.

“Muhammad e seus companheiros ao redor da Caaba”, pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV.

 

Batalha de Khaybar

Depois de assinar a trégua, Muhammad montou uma expedição contra o oásis judeu de Khaybar, no que ficou conhecido conhecido como a Batalha de Khaybar. Isto possivelmente pelos judeus do oásis abrigarem os Banu Nadir que estavam incitando hostilidades contra os muçulmanos através de sua influência. Segundo a tradição muçulmana, Muhammad também enviou cartas a muitos governantes da época, convidando-os a tornarem-se muçulmanos. Ele enviou mensageiros (com cartas) a Heráclio do Império Bizantino (o Império Romano do Oriente), Cosroes II da Pérsia, o rei do Iêmen e alguns outros.

Os bizantinos estavam reocupando territórios árabes após o acordo de paz entre o imperador Heráclio e o general sassânida Sasharid Shahrbaraz em julho de 629, pós as terríveis guerras entre os dois impérios. Enquanto isso, Muhammad enviou seu emissário ao governante de Bosra. Enquanto estava a caminho de Bosra, ele foi executado na aldeia de Mu’tah pelas ordens de um oficial gassânida. Considerando a morte de seu emissário uma declaração aberta de guerra, o Profeta dirigiu suas forças contra os árabes gassânidas no solo bizantino da Transjordânia na Batalha de Mu’tah, onde seus três mil homens foram derrotados pelos dez mil dos vassalos árabes do Império Bizantino.

Fim da trégua da Hudaybiyyah

A trégua de Hudaybiyyah foi aplicada, porém durou apenas dois anos.  A tribo dos Banu Khuza mantinha boas relações com Muhammad, enquanto seus inimigos, os Banu Bakr, haviam se aliado aos habitantes de Meca. Um clã dos Bakr fez uma incursão noturna contra os Khuza, matando alguns deles. Os habitantes de Meca ajudaram os Banu Bakr com armas e, de acordo com algumas fontes, alguns deles também participaram dos combates. Após este evento, Muhammad enviou uma mensagem a Meca com três condições, pedindo-lhes para aceitar uma delas. Estes eram: ou os habitantes de Meca pagariam o dinheiro de sangue pelos mortos entre a tribo dos Khuza, ou se dissociariam dos Banu Bakr, ou eles deveriam declarar a trégua de Hudaybiyyah nula.

Os habitantes de Meca responderam que aceitavam a última condição. Logo eles perceberam seu erro e enviaram Abu Sufyan para renovar o tratado Hudaybiyyah, um pedido que foi declinado por Muhammad.

O Profeta começou a se preparar para uma campanha. Em 630, ele marchou sobre Meca com dez mil muçulmanos. Com o mínimo de baixas em escaramuças isoladas nos arredores, Muhammad conquistou Meca de forma largamente pacifica. Ele declarou anistia pelos crimes passados dos pagãos, com exceção de dez homens e mulheres que eram culpados de assassinato ou outras ofensas ou que desencadearam a guerra e perturbaram a paz. Alguns destes foram mais tarde perdoados .

A maioria dos habitantes de Meca, que se converteram voluntariamente ao islamismo, junto com Muhammad, destruíram todas as estátuas de deuses pagãos e em torno da Caaba. De acordo com alguns, Muhammad poupou pessoalmente pinturas ou afrescos de Maria e Jesus, mas outras tradições sugerem que todas as imagens foram apagadas.

“Bilal, o ex-escravo etíope outrora torturado por seu mestre em Meca, sobre no alto da Caaba após a conquista da cidade e proclama o Azan.” pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV.
“Muhammad e seus companheiros marcham para a Conquista de Meca” pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV.

Os anos seguintes foram marcados por algumas poucas campanhas militares contras ainda hostis tribos pagãs, que terminaram em acordos amistosos e a conversão das mesmas à religião islâmica. Em 632, no final do décimo ano após a migração para Medina, Muhammad completou sua primeira verdadeira peregrinação islâmica a Meca, dando precedência à Grande Peregrinação anual, conhecida como Hajj. No dia 9 de Dhu al-Hijjah, ele proferiu seu Sermão de despedida, no monte Arafat, a leste de Meca.

Neste sermão, ele aconselhou seus seguidores a não seguir certos costumes pré-islâmicos. Por exemplo, ele disse que um branco não tem superioridade sobre um negro, nem um negro tem qualquer superioridade sobre um branco exceto pela piedade e boa ação. Ele aboliu antigas disputas de sangue e disputas baseadas no antigo sistema tribal. Comentando sobre a vulnerabilidade das mulheres em sua sociedade, Muhammad pediu aos seus seguidores masculinos fossem bons para suas esposas.

Ao longo de sua vida, o Profeta treze mulheres no total (embora dois de seus relacionamentos tenham contas ambíguas, Rayhana bint Zayd e Maria al-Qibtiyya, sendo descritas como esposas ou concubinas). Após a morte de sua primeira esposa, Khadijah, foi sugerido a Muhammad que ele deveria se casar com Sawda bint Zama, uma viúva pobre, de idade um pouco avançada, ou Aisha, filha de Um Ruman e seu melhor amigo Abu Bakr. Muhammad é dito ter pedido arranjos para casar-se com ambas. Os casamentos de Muhammad após a morte de Khadija foram realizados principalmente por razões políticas ou humanitárias. As mulheres eram viúvas de muçulmanos mortos em batalha e ficaram sem um protetor, ou pertenciam a famílias ou clãs importantes a quem era necessário honrar e fortalecer alianças.

“Profeta Muhammad em seu leito de morte rodeado por seus familiares mais próximos’, pintura em miniatura otomana do Siyer-ı Nebi,século XIV.

Os hadiths falam que em casa Muhammad realizava tarefas domésticas, como preparar comida, costurar roupas e consertar sapatos, tendo uma vida extramente humilde e ainda que fosse um poderoso líder, costumava passar fome. Diz-se também que ele havia acostumado suas esposas ao diálogo, jamais sendo rude com elas. Khadijah é dito ter tido quatro filhas com Muhammad (Ruqayyah, Umm Kulthum, Zainab e Fatimah) e dois filhos (Abdullah e Qasim que morreram na infância). Todos, exceto uma de suas filhas, Fatimah, morreram antes dele. Maria al-Qibtiyya lhe deu um filho chamado Ibrahim, mas a criança morreu quando tinha dois anos de idade. Nove das esposas do Profeta sobreviveram após sua morte, e seus descendentes continuaram através de seus netos filhos de sua filha Fatimah, Hassan e Hussein.

Poucos meses depois da Peregrinação de Despedida, o Profeta ficou doente e sofreu durante vários dias com febre e fraqueza. Ele morreu numa segunda-feira, 8 de junho de 632, em Medina, aos 62 ou 63 anos, na casa de sua esposa Aisha. Com a cabeça apoiada no colo de Aisha, ele pediu a ela para se desfazer de seus últimos bens mundanos (sete moedas) que foram dadas em caridade, depois falou suas últimas palavras e desfaleceu.

Bibliografia

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Equipe História Islâmica

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