Um soldado israelense declarou que ele e seus companheiros, posicionados em um posto militar perto de Gaza, receberam ordens para não realizar sua patrulha matinal habitual na cerca da fronteira em 7 de outubro de 2023, noticiou a mídia israelense em 17 de julho.
No horário em que a patrulha de fronteira normalmente teria sido realizada, membros do braço armado do Hamas, as Brigadas Qassam, cruzaram a cerca para atacar bases do exército e assentamentos israelenses (kibbutzim).
Shalom Sheetrit, um soldado da Brigada Golani, revelou a diretriz ao prestar depoimento em uma reunião do lobby de reservistas no Knesset israelense.
Ele declarou que na noite anterior ao ataque de 7 de outubro, ele e outros dois soldados, Yotam Sror e Itamar Ben Yehuda, estavam junto ao rádio do batalhão no posto militar de Pega, perto do Kibutz Be’eri.
“Estávamos mexendo no celular [às 5:20 da manhã] e de repente chega uma mensagem estranha do meu comandante de batalhão”, explicou o soldado, “e o que ele diz na chamada é algo como: ‘Não sei por que, mas foi emitida uma ordem para que não haja patrulhas na cerca até as nove da manhã.’”
Sheetrit disse que os soldados do posto realizavam patrulhas na cerca da fronteira todas as manhãs “porque você está em um batalhão operacional e isso faz parte do serviço.”
Combatentes do Hamas atacaram o posto de Pega e mataram 14 soldados israelenses no local durante a Operação Dilúvio de Al-Aqsa.
Quando perguntado se era por isso que muitos soldados no posto ainda estavam dormindo quando o ataque do Hamas começou, Sheetrit declarou: “Não sei como responder a isso dessa forma. Em nosso departamento de morteiros, houve um alerta ao amanhecer, e nós acordamos. É possível que nos departamentos de patrulha eles tenham sido instruídos a não acordar. Não sei. Eu não quero simplesmente afirmar isso.”
Sheetrit afirmou que as unidades militares estacionadas no posto de Pega eram responsáveis pela proteção do Kibutz Be’eri, que também foi atacado pelo Hamas.
“Infelizmente, não estávamos à altura da tarefa. Eram dezenas contra centenas de terroristas, 25 contra 150, e então não conseguimos chegar, infelizmente. Estou longe de ser um militar que pode dar respostas a essas perguntas, a situação me machuca assim como machuca a todos”, explicou o soldado.
Um grande confronto ocorreu em Be’eri, na qual mais de 100 israelenses foram mortos.
Após o início do ataque, a força aérea israelense enviou helicópteros Apache, tanques e drones para bombardear o kibutz e a fronteira de Gaza nas proximidades, a fim de impedir que o Hamas levasse cativos com eles de volta para Gaza.
Como resultado, as forças israelenses queimaram até a morte centenas de civis israelenses e combatentes do Hamas em ataques aéreos em Be’eri e outros kibbutzim perto da fronteira, bem como no Nova Music Festival, seguindo uma política secreta conhecida como Diretiva Hannibal. As mortes foram todas rapidamente atribuídas ao Hamas.
“Eu tentei perguntar ao militares por que e o que aconteceu lá. O sangue dos meus amigos e o sangue de muitas pessoas no país foi derramado em uma tragédia enorme, e eu tentei entender por que aconteceu e como”, acrescentou Sheetrit.
A estranha ordem para cancelar patrulhas de rotina ao longo da fronteira de Gaza se soma às evidências de que os líderes políticos e militares de Israel sabiam com antecedência sobre o plano do Hamas de atacar em 7 de outubro – e permitiram que acontecesse para justificar a conquista e a limpeza étnica de Gaza e a construção de assentamentos judaicos sobre as ruínas das cidades da faixa, que em breve seriam destruídas.
Autoridades militares e de inteligência israelenses ignoraram muitos sinais na noite anterior ao ataque, e nas semanas e meses anteriores, que indicavam que o Hamas estava planejando um grande ataque para capturar reféns em troca de prisioneiros palestinos.
Soldadas israelenses encarregadas de observar a atividade na fronteira de Gaza emitiram múltiplos avisos a seus superiores de que um ataque era iminente, mas foram ignoradas.
“Em retrospecto, poderíamos ter feito muitas coisas, poderíamos ter ouvido as observadoras, poderíamos ter acionado a força aérea, e essas coisas não aconteceram”, concluiu Sheetrit.
“Essa é a falha. Não é uma falha dos combatentes no local, mas dos altos escalões do exército, de pessoas que foram para Eilat mesmo tendo sido informadas com uma semana de antecedência de que havia informações de inteligência.”
Texto original do The Cradle. Tradução de Guilherme Freitas.



