História Islâmica

Saladino: Conheça a vida do Sultão curdo herói das Cruzadas

An-Nasir Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub (1137-1193), também conhecido como Saladino, nasceu em Tikrit, no atual Iraque. Seu nome era Yusuf, sendo Salah ad-Din um epíteto que significa “o justo da fé”, porém, no Ocidente, ele ficou conhecido pela latinização do mesmo, “Saladino”

De origem curda, de uma familia proveniente do vilarejo de Ajdanakan, próximo à cidade de Dvin na Armênia, o pai de Saladino, Najm ad-Din Aiyub, servia na andministração civil militar no governo do atabegue turco Imad ad-Din Zengi de Mossul, e mais tarde para seu filho, Nur-ad-Din. Entretanto, como um curdo em território sírio e governado até então por dinastias turcas, dificilmente ele poderia galgar em cargos mais elevados do que já havia conquistado, como por exemplo se tornar o novo governante da região.

Embora Najm ad-Din Aiyub não tenha conseguido alcançar o posto mais elevado da administração pública, seu filho Saladino demonstrava ser um jovem de muitas habilidades, o que diz muito a respeito de sua competência, ao ponto de ganhar reconhecimento das autoridades turcas.

Em 1146 o Nur-ad-Din se tornou o regente de Alepo e líder dos Zengidas. Agora, Saladino vivia em Damasco, cidade essa pela qual nutria certo carinho. A respeito de sua educação, Saladino é tido por seus biógrafos como alguém versado em Euclides, aritmética, direito e também, principalmente, no conhecimento a juriprudencia e teologia islâmica, se aderente da escola shafeita e da ordem sufi qadriyyah.

A carreira militar de Saladino começaria sob a supervisão de seu tio, Asad al-Din Shirkuh, comandante das forças de Nur-ad-Din do emirado zengida de Damasco e Alepo, sendo o mentor com maior influência em Saladino. Já em 1163, o vizir do califa fatímida al-Adid, Shawar, é expulso do Egito pelo seu rival chamado Dirgham, pedindo apoio militar de Nur-ad-Din, que enviou no ano seguinte o tio de Saladino, agora com 26 anos, para socorrer o vizir Shawar. Shirkuh levou o prodigioso sobrinho junto.

O papel de Saladino nessa intervenção militar foi pequeno, porém o mesmo viria a ser ordenado pelo tio a coletar os espolios de Bilbais. Entretanto, após o saque em Bilbais, Shawar combinaria suas forças junto com os Cruzados, vindo a enfrentar o exército de Shirkuh na batalha de al-Babein, traindo seus aliados turcos. Nessa batalha, Saladino teria um papel importante, comandando o lado direito do exército, enquanto seu tio controlava a ala central e um grupo curdo controlava o lado esquerdo. A batalha terminou com as tropas Zengidas saindo vitoriosa, apesar das grandes baixas. Mais tarde tio e sobrinho iriam para Alexandria, sendo muito bem recebidos. Posteriormente, Shirkuh dividiria seu exército para combater os cruzados com sua aliança egípcia, deixando Saladino na proteção da cidade.

Em 1169 Shawar viria a morrer, sendo Saladino nomeado como seu sucessor e vizir no califado fatimida. Seu tio também morreria mais tarde no mesmo ano. Em 1171, Saladino, vendo a brecha que se abria no potentado xiita egípcio com um jovem e fraco sucessor ao fraco califa al-Adid, dá um golpe de estado, e dissolve o Califado Fatimida de uma vez por todas, estabelecendo a hegemonia sunita no Oriente Médio.

Saladino, recentemente apontado como novo grão-vizir do jovem califa fatímida al-‘Adid, convidou seu irmão mais velho Turhan Shah para juntar-se a ele no Cairo. Contudo, Turhan não trouxe apenas sua família consigo, como também um substancial exército providenciado pelo sultão Nur al-Din da Síria. O jovem e doente califa de 19 anos recebeu Turhan amigavelmente, diante dos olhares e desaprovações da corte fatímida que viam isso com mais uma estratégia de Saladino para enfraquecer o califado xiita. O mais preocupado de todos na corte era o eunuco sudanês al-Mutamid al-Khilafah, que possuía uma posição elevada entre os escravos sudaneses do califa.
Na imagem: Saladino apresenta Turhan Shah a corte fatímida, Cairo, 1169. 

Após a morte de Nur-ad-Din no ano de 1174, Saladino iria afirmar para si a suserania através da Síria turca, de Mossul à Damasco, ficando também como árbitro entre as rivalidades e desavenças dos descendentes de Zengi.

Quando Saladino morreu em 1193, seu médico observou que em sua vivência, essa era a primeira vez que os súditos de fato haviam ficado em luto pelo rei. A sua justiça e gentileza eram de amplo reconhecimento por todos que tiveram contato com ele. Porém, alguns outros governantes do mundo islâmico o viam de outra maneira, muito provavelmente motivados pela inveja do sucesso que Saladino estava tendo, como o caso dos califas de Bagdá, sendo os “líderes nominais” do mundo islâmico, uma vez que Saladino acabou assumindo um posto de califa “de fato”.

Apesar de eventualmente ter provocado inveja e oposição dentro da comunidade islâmica, ainda eram poucos, até mesmo dentre seus inimigos, que negavam a generosidade e justiça de Saladino, assim como sua profunda religiosidade e seu temperamento estável e calmo.

Embora tenha seguido uma linha mais legalista no tratamento com as minorias religiosas, aumentando a rigidez se comparado com os Fatímidas do Cairo, Saladino ainda foi admirado por cristãos e judeus. No caso dos últimos, foi mantido a permissão de resolverem suas querelas com seus próprios juízes e tribunais1.

O sultão Saladino na representação do ator sírio Ghassan Massoud para o aclamado filme Cruzada (Kingdom of Heaven) de 2005 pelo diretor Ridley Scott VS. Como o sultão curdo Salah ad-Din Yusuf ibn Ayyub (1138-1193) do tempo das cruzadas realmente teria se vestido no século XII, baseado em representações artísticas da época, bem como relatos contemporâneos.

Após um atentado contra sua vida por parte de assassinos da seita dos hashashins, Saladino sempre andava com sua kazaghand (brigantina) sobre o cafetã, bem como o preto não era uma cor muito difundida na época, sendo utilizada geralmente por dervixes e membros da família real abássida. O uso do shawl (xale) provavelmente foi adotado pelo sultão durante sua estado no Egito, e o turbante verde ornado e barba fendida são retirados de um retrato seu de por volta do ano de 1185. O cafetã, baseado em um modelo seljúcida preservado do século XII, é ornado com a silhueta da águia, seu símbolo heráldico.

Saladino e as Cruzadas

O grande sultão é lembrado por conta de vários aspectos de sua vida e seu governo, porém as questões que ficaram eternizadas na história se devem ao seu contato com os exércitos Cruzados europeus.

Em 29 de setembro de 1182, Saladino atravessava o Rio Jordão para atacar Beisan, que foi encontrada vazia. No dia seguinte, suas tropas saquearam e queimaram a cidade, agora indo em direção ao Oeste, onde interceptaram reforços cruzados de Karak e Shaubak em Nablus, uma das rotas para Jerusalém. Enquanto isso, o principal componente do exército cruzado estava sendo liderado por Guido de Lusignan em direção à al-Fula. Desta feita, Saladino enviou 500 escaramuçadores2 para perturbar as tropas do líder francês, enquanto ele marcharia para Ain Jalut.

Quando os cruzados conseguiram avançar3, os Aiúbidas desceram pelo rio de Ain Jalut. Após algumas raides dos Aiúbidas, Saladino levou seus homens de volta através do rio, uma vez que seus suprimentos estavam se tornando escassos. A batalha de al-Fula duraria por cerca de uma semana.

Mais ataques cruzados iriam acontecer, dessa vez sob o comando do francês Reinaldo de Chântillon, que impediu as rotas comerciais com sua frota no Mar Vermelho. Tais rotas eram de extrema importância para Saladino, que certamente iria revidar para mantê-las abertas, mandando 30 galés para atacar Beirute em 1182. Após, Reinaldo ameaçou atacar as cidades sagradas do Islã, Meca e Medina, mas foi retalhado por Saladino, que cercou a fortaleza cruzada de Kerak duas vezes, uma em 1183 e outra em 1184. Reinaldo responderia em 1185, saqueando uma caravana de peregrinos muçulmanos que realizavam o Hajj4.

As duas únicas representações medievais conhecidas do sultão curdo do período das Cruzadas Salah al-Din Yusuf Ibn Ayyub, “Saladino”: a primeira é de um manuscrito do ano de 1185 do polímata muçulmano Ismail al Jazari, e a segunda é uma representação sua num dirrã de bronze cunhado entre 1174-1193, ambas anteriores a sua morte em 1193.

Após as tentativas fracassadas de dominar a fortaleza cruzada, Saladino voltou para suas conquistas de Mossul, atacando o território de Izz ad-Din, que havia se aliado ao governante do Azerbaijão e do Jibal, fazendo Saladino hesitar em suas investidas contra Mossul. Quando Saladino ficou doente, um acordo de paz foi realizado em 1186, uma vez que os inimigos do sultão também sabiam que havia apoio chegando para ajudar os exércitos Aiúbidas.

A Batalha de Hattin

Por volta de julho de 1187, Saladino já tinha tomado quase todas as cidades das mãos dos cruzados. Entretanto, em 4 de julho de mesmo ano ele enfrentaria as forças cruzadas mais uma vez.

Acontece que pouco antes no mesmo ano, Reinaldo havia saqueado uma caravana muçulmana enquanto ainda estava no período de trégua com Saladino. Por conta disso, o Sultão jurou que mataria Reinaldo por violar o acordo entre os dois, enviando assim seu filho al-Afdal ibn Salah ad-Din juntamente com o emir e general Gokbori para atacar as terras francas ao redor de Acre. Gerard de Ridefort e os templários batalharam contra Gkbori no episódio que ficou conhecido como Batalha de Cresson em maio de 1187, onde as forças muçulmanas impuseram uma terrível derrota nos cruzados, sendo um prelúdio para o que viria a seguir em Hattin.

Em julho Saladino havia implementado cerco em Tiberias, onde a esposa de Raimundo III de Trípoli estava. Apesar disso, Raimundo disse que Guido não deveria atacar as forças Aiúbidas. Os Cavaleiros Hospitalários deram o mesmo aviso, que era melhor não provocar Saladino. Entretanto, Gerard de Ridefort recomendou que Guido avançasse em direção às tropas do sultão, sendo essa a decisão tomada.

Em 3 de julho, o exército franco ia em direção à Tiberias, sendo constantemente molestado por arqueiros muçulmanos. Passaram por Turan, que era insuficiente para prover água suficiente para todo o exército cruzado. Por volta do meio dia, Raimundo decidiu que o exército franco não chegaria em Tiberias ao cair ad noite, acordando com Guido em mudar o rumo e marchar mais para a esquerda em direção de Kafr Hattin, quase 10km de distância dali. De lá, poderiam marchar para Tiberias no dia seguinte. Entretanto, os muçulmanos se posicionaram entre o exército franco e as reservas de água, forçando os cruzados a acampar durante a noite em um planalto árido próximo da vila de Meskenah.

Com desvantagem em água, os cruzados foram desmoralizados durante toda a noite, pois os muçulmanos rezavam, cantavam, batiam tambores e até mesmo queimaram a grama seca, fazendo com que a garganta de cada franco ficasse cada vez mais seca5. Enquanto isso, os muçulmanos tinham amplo acesso à agua trazida do Mar da Galileia.

Na manhã seguinte os cruzados estavam praticamente cegos por conta da fumaça provocada pelos muçulmanos na noite anterior, sendo agora atacados por arqueiros montados da divisão comandada por Gokbori. Sedentos e desmoralizados, os cruzados tentaram ir em direção às fontes de Hattin, porém foram atacados pelas tropas de Saladino, que agora impediram tanto o avanço quanto o recuo das tropas francas. Porém, Raimundo conseguiu furar o bloqueio, fugindo assim da batalha.

Após a fuga de Raimundo, a situação para Guido e os demais se tornara cada vez mais desesperadora, até que os cruzados fossem cercados e aprisionados. Mais tarde, Saladino chamaria Guido e Reinaldo para sua tenda, onde Guido seria poupado e Reinaldo provavelmente executado ou pelo próprio Saladino ou pelos seus guardas ali presentes.

Poucos meses após a batalha de Hattin, Saladino estaria conquistando a cidade sagrada de Jerusalém.  Tendo vários de seus líderes aprisionados em Hattin alguns meses antes, o cerco de Jerusalém foi marcado pelas constantes rajadas de catapultas, fogo grego, flechas e demais armamentos do gênero, até que uma parte da muralha fosse derrubada pelo exército de Saladino. As forças cruzadas dentro de Jerusalém não mais conseguiriam segurar as investidas islâmicas.

Por volta do fim de setembro, Balião de Ibelin, líder de Jerusalém, foi se encontrar com Saladino para negociar sua desistência. Nessa ocasião, Saladino e Balião chegaram em um acordo, onde os cruzados pagariam uma certa quantia em dinheiro para que pudessem ir embora em paz, sem derramamento de sangue. Assim Saladino conquistou Jerusalém, impondo terríveis derrotas nas forças cruzadas, até que fosse novamente desafiado na Terceira Cruzada (1189-1192).

A Terceira Cruzada

A Terceira Cruzada, que chegou próxima a recapturar Jerusalém para a Cristandade, valeu-se dos contingentes da França, Alemanha e Inglaterra, enquanto Saladino possuía somente as tropas dos territórios que haviam reconhecido ele como soberano6.

Financiada na Inglaterra através de uma taxa especial, e também em partes da França, a Terceira Cruzada seria uma nova empreitada em resposta às derrotas sofridas pelos francos em Hattin e a conquista de Jerusalém por Saladino em 1187.

Nessa nova incursão, Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra, iria liderar o cerco de Guido na cidade de Acre, matando após a conquista da cidade cerca de 3 mil prisioneiros muçulmanos, incluindo mulheres e crianças7. Baha ad-Din, que fazia parte da corte de Saladino e presenciou o ocorrido, narrou que:

Os motivos para esse massacre são contados de maneira diferente; para alguns, os prisioneiros foram mortos em represália pela morte dos cristãos que haviam sido mortos pelos muçulmanos. Para outros, se dá pelo fato de que o rei da Inglaterra, decidido em conquistar Ascalon, pensou que não seria inteligente deixar para trás tantos prisioneiros após sua partida. Apenas Deus sabe qual foi o real motivo.”8

Em 7 de setembro de 1191 os exércitos de Saladino e do rei Ricardo se encontrariam em batalha, ocasião em que Saladino se viu obrigado a recuar. Após sua vitória, Ricardo ocupou Jaffa e fortaleceu suas fortificações, assim como realizou outros preparativos na cidade para mais tarde avançar em direção à Jerusalém. Enquanto isso, Saladino movia-se para o sul em direção à Ascalon, uma cidade estratégica que não poderia permanecer nas mãos dos cruzados.

Reconstrução artística de Saladino por Angus McBride.

Em janeiro de 1192 Ricardo conquistaria uma vila muito próxima de Jerusalém chamada Beit Nuba. Ao invés de marchar para Jerusalém, o rei inglês decidiu ir para Ascalon, onde restaurou as fortificações que haviam sido destruídas por Saladino.

Em julho de mesmo ano, Saladino atacou Jaffa, ocasionando um cerco na cidade, quase a capturando. Porém, Ricardo chegou no local poucos dias depois, vencendo o exército de Saladino em uma batalha fora dos muros de Jaffa.

A batalha ocorrida em Jaffa foi a última tentativa militar da Terceira Cruzada, sendo reocupada por Ricardo e tendo suas fortificações novamente restauradas. Porém, o rei e o sultão decidiram negociar, até que Ricardo concordasse em demolir as fortificações realizadas na cidade, enquanto Saladino reconheceria o controle por parte dos cruzados da costa palestina do Tiro (Líbano) até Jaffa.

Peregrinos cristãos para a Terra Santa receberiam permissão para adentrar Jerusalém, e o reino de Saladino estaria em paz com os reinos cruzados pelos próximos três anos.

Saladino morreria em 1193 de febre, deixando para trás um imenso legado lembrado até hoje por cristãos, muçulmanos e judeus. Ele conseguiu angariar respeito e até mesmo admiração tanto por parte de seus aliados e muçulmanos, quanto por parte de seus inimigos cruzados, sendo até mesmo lembrado na Divina Comédia do italiano Dante Alighieri como um dos “pagãos virtuosos”.

Notas

[1] Ver HINDLEY (2007, p. 14);

[2] Unidades de ataque rápido;

[3] Os cruzados possuíam tropas muito menores que as de Saladino;

[4] A peregrinação para Meca que ocorre todos os anos, sendo obrigação de cada muçulmano realiza-la ao menos uma vez na vida;

[5] RUNCIMAN (1968, p. 458);

[6] HINDLEY (2007, p. 13);

[7] HODGSON (1958, vol 2. p. 267);

[8] Ver relato de Baha-ad-Din em ARCHER, T.A. The Crusades of Richard I (1889);

Bibliografia:

FRANCE, John. Hattin: Great Battles Series. Oxford: Oxford University Press. 2015;

HINDLEY, Geoffrey. Saladin: Hero of Islam. Pen & Sword. 2007;

RUNCIMAN, Steven. A History of the Crusades. Volume II: The Kingdom of Jersualem and the Frankish East. Cambridge University Press. 1968;

RILEY-SMITH, Jonathan. The Crusades: A History. Continuum International Publishing Group. 2005;

PHILLIPS, Jonathan. The Crusades. 1095-1187. New York: Longman. 2002;

GIBB, Sir Hamilton Alexander Rosskeen. The Rise of Saladin. 1169-1189. A History of the Crusades: The First Hundred Years. London: University of Winsconsin Press. 1969;

Beha-ed-Din, apud Archer, T.A., The Crusade of Richard I (1889); Gillingham, John, The Life and Times of Richard I. 1973.

Equipe História Islâmica

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