Após o início da trégua e cessar-fogo entre as forças palestinas de Gaza e as forças invasoras israelenses dos últimos dias (mediados pelos EUA com o apoio de diversos países árabes), diversos vídeos recentes que circulam nas redes mostram execuções sumárias em Gaza. Enquanto as narrativas sionistas retratam tais feitos como exemplo da opressão do H4M4S direcionada contra a população de Gaza, fontes jornalísticas verificadas indicam que muitos desses registros correspondem, na verdade, a operações de segurança de grupos em áreas onde houve confrontos com milícias que – como os veículos oficiais de Gaza disseram – têm festejado e lucrado em cima da miséria da intensificação (desde 2023) do genocídio palestino.
Diversas imagens de execuções públicas têm circulado no último mês.
Relatos oficiais de Gaza e investigações jornalísticas independentes identificaram que parte das pessoas executadas foram classificadas pelas autoridades como “colaboradores” ou membros de gangues envolvidas no roubo sistemático de caminhões de ajuda humanitária. Episódios anteriores, como o saque de 109 caminhões de ajuda em 16 de novembro de 2024 por essas gangues apoiadas por Israel (daí a alcunha de “colaboradores”) foram documentados por diversos organismos internacionais desde a publicação dos vídeos e imagens.
A principal dessas gangues visadas são as “Forças Populares”, liderada por Yasser Abu Shabab, ligado ao grupo terrorista Estado Islâmico. O grupo surgiu no vácuo de poder em Gaza, sob conivência (e patrocínio) israelense. Eles foram acusados de saquear ajuda humanitária, sustentar laços com as forças israelenses em áreas sob controle militar e de extorquir palestinos famintos através da venda de alimentos superfaturados. Consequentemente, várias operações de “consolidação da ordem” por parte da autoridade local – isto é, as forças de segurança de Gaza – visaram a neutralização desses criminosos.
Yasser Abu Shabab, líder da gangue apoiada por Israel contra o H4M4S em Gaza.
Há evidências de que as gangues controlaram rotas de entrada da ajuda humanitária — e que, em alguns casos, entraram em confrontos armados com o H4M4S. Relatórios apontam que milícias armadas operam com uma agenda política alinhada aos interesses de Israel, desmantelando a narrativa simplista de que o “H4M4S executa civis”. Investigações jornalísticas registraram casos em que essas milícias locais, apoiadas e toleradas por Israel, lucraram com o desvio de ajuda humanitária, criando um cenário de violência e desespero alimentado pela política de controle do território.
É crucial distinguir entre execução de civis inocentes e punição, arbitrária ou não, de combatentes ou de membros de gangues num contexto de guerra e catástrofe social: até a própria Constituição Brasileira de 1988 prevê, em tempos de Guerra, a aplicação da pena de mortes para casos de traição (que incluem colaboração com o inimigo) após devido julgamento. Conforme o artigo 5º, inciso XLVII, alínea “a”: “Não haverá penas de morte, salvo em caso de guerra declarada, nos termos do artigo 84, XIX”. Além disso, o artigo 355 do Código Penal Militar também prevê pena de morte para o crime de traição nas mesmas linhas.
De acordo com relatos da mídia local, as forças de segurança e o Ministério do Interior Palestino em Gaza iniciaram uma “campanha de segurança” para restabelecer o Estado de Direito em Gaza e punir criminosos, incluindo pessoas suspeitas de colaborar com Israel – tudo isso antes de Israel e os grupos da Resistência aceitarem com o cessar-fogo de 10 de outubro de 2025.
A força de segurança “Rada’a”, afirmou no comunicado que “conduziu uma operação precisa no centro da Cidade de Gaza, resultando na neutralização de vários indivíduos procurados e foras da lei […] varreduras e prisões de indivíduos que participaram de tiroteios, assassinatos de deslocados e ataques a civis”. Eles declararam que as execuções foram realizadas “após a conclusão de todos os procedimentos legais e judiciais”.
A segurança de Gaza têm sido realizada pelo próprio H4M4S.
O próprio presidente Donald Trump, um dos responsáveis pelo arranjo do cessar-fogo, publicou em suas redes sociais que havia dado “farol verde” para que as foças de segurança de Gaza “limpassem” a cidade do que chamou de “gangues más” – antes de voltar atrás, é claro, provavelmente pressionado pelo lobby sionista que banca essas mesmas gangues.
Assim, é dificilmente algo “absurdo” ou “impensável” o que a Rada’a está fazendo, já que é algo reconhecidamente costumeiro de se fazer em situações de guerra, previsto em diversas constituições e códigos de leis militares ao redor do mundo, das Américas até a Oceania. Dado o fato de que estes gangsters não são apenas milicianos colaboracionistas, mas exploradores da miséria do próprio povo, é no mínimo estranho que haja qualquer tipo de aceno favorável a esses condenados à morte; não se tratam de pobres civis, como os mais de 60 mil civis mortos por Israel até agora, mas parte do problema vivido pelos palestinos nos últimos dois anos.
É justamente isso que o que máquina de propaganda sionista faz: coloca bandidos como vítimas indefesas de “terríveis opressores” que, por sua vez, estão apenas tentando reestabelecer a ordem e a dignidade numa sociedade devastada pelos mesmos poderes que criaram e alimentaram essa mesma malta de bandidos. Israel e seus papagaios estão, efetivamente, defendendo bandidos – os “direitos dos manos” como alguns apelidaram aqui no Brasil.
O H4M4S está realizando o esperado enquanto governante de um território em guerra. Isso se soma ao papel de Israel na criação dessa mesma calamidade pública e humanitária, junto ao vácuo de segurança, na promoção e colaboração com milícias criminosas, gerando fatores determinantes – e óbvios – para compreender quem mata e por quê mata em Gaza.
Referências:
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