Texto publicado originalmente no site Historiographical Research em 15 de maio de 2026.
A narrativa histórica oficial promovida pelo sionismo como movimento ideológico e político conseguiu impor-se como a verdade dominante em Israel e em grande parte do Ocidente, apesar de, há décadas, uma série de investigações baseadas em arquivos desclassificados a terem questionado profundamente. Essa persistência não se deve à solidez dos fatos, mas a uma rejeição sistemática das evidências empíricas que lembra o pensamento da Terra plana: um dogma que ignora dados verificáveis em favor de crenças emocionais ou baseadas na identidade. A crítica aqui apresentada não é ideológica nem política, mas estritamente metodológica; baseia-se em fontes primárias israelenses e no princípio básico da historiografia: as afirmações sobre o passado devem ser sustentadas por documentos e testemunhos disponíveis, não por mitos concebidos para justificar um projeto nacional.
Este artigo explora como essa narrativa foi construída para legitimar o sionismo, como ela é reproduzida em instituições-chave e como opera como um sistema fechado, resistente à revisão. São analisados dois dogmas centrais refutados por historiadores israelenses que trabalham com os arquivos do próprio Estado. O objetivo é destacar a necessidade ética de uma história honesta, priorizando a verdade em detrimento da coesão, para tornar possível qualquer forma de justiça histórica.
1. A persistência de uma narrativa resistente às evidências
Nas últimas décadas, um fenômeno tem intrigado observadores e pesquisadores: como uma maioria significativa de israelenses e de apoiadores sionistas internacionais continua a aderir a uma narrativa histórica oficial que tem sido sistematicamente questionada e, em aspectos centrais, refutada por evidências documentais primárias. Essa manutenção contra as evidências não se deve à falta de dados, mas a um fechamento que prioriza a função de formação de identidade e legitimação da narrativa em detrimento da verificação científica do passado. A historiografia, como disciplina, exige que qualquer afirmação se sustente ou seja refutada com base nos documentos disponíveis; aqui, no entanto, fatos inconvenientes são descartados para preservar uma versão conveniente.
Desde o final da década de 1980, historiadores israelenses como Benny Morris, Ilan Pappé, Avi Shlaim e Tom Segev — conhecidos como os “novos historiadores”, um rótulo que o próprio Morris inicialmente rejeitou como supérfluo em comparação com a historiografia tradicional oficial, que operava sem acesso sistemático a arquivos desclassificados — têm aplicado métodos rigorosos a fontes do Estado israelense recém-abertas. Suas pesquisas revelaram, entre outras coisas, a existência de expulsões planejadas e execuções sistemáticas de palestinos durante 1948 (Morris, 2004; Pappé, 2006; Shlaim, 2000). Apesar do reconhecimento acadêmico internacional desses trabalhos, seu impacto no imaginário coletivo israelense tem sido marginal. Esse paradoxo não é meramente acadêmico, mas revela dinâmicas mais profundas nas quais as evidências são percebidas como uma ameaça, criando um fenômeno comparável ao pensamento histórico de que a Terra é plana.
2. A construção de uma narrativa legitimadora
Desde suas origens no século XIX, o projeto sionista compreendeu que a criação de um Estado judeu na Palestina exigia não apenas o controle territorial, mas também uma interpretação histórica que o justificasse perante a comunidade internacional e unisse internamente seus adeptos. Essa narrativa foi concebida para cumprir múltiplas funções: apresentar o sionismo como um movimento de libertação nacional, enfatizar a ligação ancestral dos judeus à terra e minimizar a presença e os direitos da população árabe nativa. Como observa Ilan Pappé (2006), “o sionismo não precisava apenas conquistar território, precisava também conquistar a história” (p. 15). Essa não é uma interpretação legítima entre muitas, mas uma versão que omite deliberadamente fatos inconvenientes para apoiar um projeto político de dominação sobre uma população pré-existente.
Após a declaração de independência em 1948, essa versão foi rapidamente institucionalizada no sistema educacional, na mídia, nas forças armadas e nos símbolos do Estado. A historiografia tradicional oficial apresentou a fundação do Estado como o retorno de um povo eternamente perseguido à sua terra ancestral, e a guerra de 1948 como uma luta defensiva contra uma agressão árabe unânime, na qual os palestinos teriam abandonado voluntariamente suas casas. Essa construção oferecia coerência moral e emocional, embora se baseasse na omissão sistemática de documentos que, décadas mais tarde, demonstrariam sua incompatibilidade com os fatos.
Essa legitimação inicial foi rapidamente consolidada após a fundação do Estado, onde a memória coletiva foi seletivamente fabricada para reforçar a ideia de um território vazio ou hostil, ignorando a história contínua da população palestina (Zerubavel, 1995; Kimmerling & Migdal, 2003). O resultado é uma ética questionável no ensino da história, priorizando a justificativa política em detrimento da verdade documental.
3. Um Estado em conflito permanente não promove o pensamento crítico
A teimosa persistência dessa narrativa explica-se, em grande parte, pelo contexto estrutural em que Israel se desenvolve: um Estado fundado em meio à guerra e que, desde então, vive em um estado quase constante de conflito ou de alerta máximo. Nessas condições, a história não funciona, em primeiro lugar, como uma disciplina científica voltada para a crítica e a revisão, mas como um instrumento de coesão coletiva e justificação existencial. Daniel Bar-Tal (2011) argumentou que, em sociedades presas em conflitos intratáveis, as narrativas coletivas tendem a se tornar monolíticas, autojustificativas e profundamente resistentes a qualquer forma de autocrítica. Essencialmente, para manter o moral do grupo e a coesão social, são criadas versões simplificadas nas quais o próprio lado é sempre a vítima inocente e o outro, o agressor irracional, tornando extremamente difícil aceitar fatos que desafiem essa imagem binária.
No caso israelense, essa dinâmica é particularmente evidente na forma como a crítica histórica é percebida como uma ameaça direta à identidade nacional e à percepção de segurança. É compreensível que uma sociedade em guerra busque coesão, mas não é aceitável que o faça à custa de falsificar seu próprio passado. A própria legitimidade do Estado está ancorada em uma visão mítica do passado que apresenta sua existência como uma necessidade histórica inevitável; qualquer revisão substancial dessa visão é vivida como um risco existencial que coloca em questão os próprios alicerces do projeto nacional (Khalidi, 2020).
4. A reprodução da narrativa desde a infância
O sistema educacional israelense desempenha um papel central e sistemático na transmissão intergeracional da narrativa oficial. Inúmeros estudos acadêmicos demonstraram que os livros didáticos apresentam uma versão altamente despolitizada e descontextualizada do conflito árabe-israelense, na qual a população palestina aparece invisível, marginalizada ou retratada como uma ameaça genérica (Podeh, 2002). Nurit Peled-Elhanan (2012), após uma análise exaustiva de livros didáticos e mapas escolares, conclui que esses materiais reproduzem “uma ideologia etnocêntrica que legitima o controle sobre os territórios ocupados e desumaniza o Outro palestino” (p. 49), fomentando desde cedo uma visão que justifica a dominação.
Essa socialização precoce é posteriormente reforçada pela experiência do serviço militar obrigatório, uma instituição na qual a narrativa de Israel como vítima histórica permanente diante de inimigos existenciais é repetida e internalizada.
Além disso, a predominância dos discursos da mídia raramente incorpora vozes dissidentes ou perspectivas críticas, criando um ambiente informativo fechado. O resultado é um profundo fechamento epistêmico: a maioria dos cidadãos israelenses cresce e se desenvolve sem exposição significativa a evidências empíricas que contradigam a versão oficial institucionalizada (Ram, 1998).
5. Dois dogmas centrais refutados pela historiografia crítica
A narrativa oficial baseia-se em uma série de afirmações que entram em conflito direto com as evidências documentais disponíveis. A seguir, apresentamos dois dos dogmas mais fundamentais:
5.1 Os judeus eram o povo indígena original e, em determinado momento, constituíram a maioria demográfica na Palestina.
Essa afirmação, repetida incansavelmente para justificar o “retorno” sionista como uma restauração legítima, ignora que o Levante era habitado por múltiplos povos antes do surgimento dos antigos israelitas, incluindo cananeus, filisteus, jebuseus e outros grupos semíticos que formaram a base da população contínua na região ao longo de milênios.
Além disso, dados demográficos coletados durante o final do período otomano e o Mandato Britânico confirmam que os judeus sempre foram uma minoria integrada à sociedade árabe antes da imigração em massa promovida pelo sionismo: em 1800, representavam aproximadamente 2–3% da população (6.000–7.000 de um total de 275.000 habitantes); em 1880, cerca de 3–5% (24.000 de 500.000); em 1914, cerca de 8% (60.000 de 750.000); em 1931, 17% (174.000 de 1.035.000); e em 1947, às vésperas da partição, 32% (630.000 de 1.970.000), dos quais mais de 70% eram imigrantes que chegaram após 1919 (McCarthy, 1990; Bachi, 1977; Morris, 1999).
5.2 A guerra de 1948 foi defensiva e moral; a agressão partiu exclusivamente dos árabes.
Embora a intervenção formal dos exércitos árabes regulares tenha ocorrido em 15 de maio de 1948, as forças judaicas — Haganah, Irgun e Lehi — realizaram operações ofensivas sistemáticas a partir de dezembro de 1947, incluindo ataques diretos a aldeias palestinas, campanhas de terror psicológico e massacres documentados. O Plano Dalet, aprovado em março de 1948, ordenava explicitamente a ocupação de territórios fora daqueles designados pela ONU e a “limpeza” de aldeias árabes em áreas consideradas estratégicas. Antes da entrada dos exércitos árabes, as forças judaicas já haviam conquistado aproximadamente 25% do território previsto para o Estado Árabe e expulsado mais de 250.000 palestinos por meio de ataques militares diretos, da destruição de mais de 200 aldeias e de uma série de massacres confirmados até mesmo por historiadores israelenses (Morris, 2004; Pappé, 2006; Khalidi, 1992).
6. A nova historiografia versus o pensamento histórico simplista
No final da década de 1980, a desclassificação em massa de arquivos militares, diplomáticos e políticos israelenses deu origem a uma corrente de historiografia crítica baseada em fontes primárias. Figuras como Benny Morris, Ilan Pappé, Avi Shlaim e Tom Segev aplicaram, pela primeira vez, métodos rigorosos aos próprios documentos do Estado, demonstrando a natureza planejada de muitas expulsões palestinas e questionando a historiografia oficial tradicional, que o próprio Morris criticou por sua dependência de narrativas secundárias (Morris, 2004; Shlaim, 2000).
No entanto, essa inovação acadêmica foi recebida com hostilidade generalizada em Israel: seus autores foram marginalizados academicamente, desacreditados publicamente ou rotulados como traidores. Até mesmo Benny Morris, pioneiro na documentação de expulsões sistemáticas, adotou posteriormente posições mais nacionalistas sem retratar suas descobertas empíricas (Morris, 1999).
Essa rejeição coletiva das evidências documentais ilustra perfeitamente uma sociedade incapaz de confrontar sua própria história e, assim, constrói um sistema fechado no qual qualquer evidência contrária à narrativa oficial é percebida como uma ameaça externa ou conspiração, priorizando a função legitimadora e emocional do mito em detrimento da verificação científica do passado (Masalha, 2012).
Conclusão
A narrativa histórica oficial de Israel não se mantém graças às evidências, mas apesar delas. Sua persistência se explica pelo entrelaçamento de fatores políticos, militares, educacionais e psicológicos que a protegem de uma crítica rigorosa. Enquanto Israel continuar a operar sob um estado de exceção permanente e seu sistema educacional instrumentalizar a história para justificar políticas irracionais do presente, a sociedade israelense terá dificuldade em compreender a diferença entre o discurso público dominante e a realidade histórica verificável.
Reconhecer essa dinâmica epistemológica — análoga ao pensamento da Terra plana em sua rejeição sistemática de fatos estabelecidos — representa um convite para desmistificar o passado, confrontá-lo com honestidade intelectual e construir uma memória compartilhada que torne possível a justiça histórica e a reconciliação (Bar-Tal, 2011; Khalidi, 2020).
Referências
Bachi, R. (1977). The population of Israel. Hebrew University.
Bar-Tal, D. (2011). Intractable conflicts: Socio-psychological foundations and dynamics. Cambridge University Press.
Khalidi, W. (Ed.). (1992). All that remains: The Palestinian villages occupied and depopulated by Israel in 1948. Institute for Palestine Studies.
Khalidi, R. (2020). The hundred years’ war on Palestine. Metropolitan Books.
Kimmerling, B., & Migdal, J. S. (2003). The Palestinian people: A history. Harvard University Press.
Masalha, N. (2012). The Palestine Nakba: Decolonising history, narrating the subaltern, reclaiming memory. Zed Books.
McCarthy, J. (1990). The population of Palestine: Population statistics of the late Ottoman period and the Mandate. Columbia University Press.
Morris, B. (1999). Righteous victims: A history of the Zionist-Arab conflict, 1881–1999. Knopf.
Morris, B. (2004). The birth of the Palestinian refugee problem revisited. Cambridge University Press.
Pappé, I. (2006). The ethnic cleansing of Palestine. Oneworld Publications.
Peled-Elhanan, N. (2012). Palestine in Israeli school books: Ideology and propaganda in education. I.B. Tauris.
Podeh, E. (2002). The Arab-Israeli conflict in Israeli history textbooks, 1948–2000. Bergin & Garvey.
Ram, U. (1998). The colonization perspective in Israeli sociology. In I. Pappé (Ed.), The Israel/Palestine question (pp. 55–80). Routledge.
Shlaim, A. (2000). The iron wall: Israel and the Arab world. W.W. Norton.
Zerubavel, Y. (1995). Recovered roots: Collective memory and the making of Israeli national tradition. University of Chicago Pres



