Na imagem vemos Nimr as-Saadi al-Nimr, palestino de 12 anos, visivelmente angustiado, cuja legenda expõe um enraizamento emocional na ideia de vingança e resistência — um retrato simbólico do trauma individual que, em larga escala, alimenta processos de radicalização. Fotografias e vídeos de crianças baleadas, deslocadas ou em filas por ajuda humanitária são constantes em relatórios sobre Gaza; esse tipo de exposição cruenta e direta à violência explícita não é apenas um horror inconcebível a quem não o presencia, mas é também um fator quantificável na probabilidade de indivíduos jovens apoiarem ou se engajarem em movimentos de resistência ao colonialismo sionista – inclusive através de ações armadas.
Nessa equação, pressão econômica e desemprego são vetores fundamentais: antes e durante o conflito, taxas extremas de desemprego jovem aparecem nas estatísticas oficiais. Um boletim da OIT/ONU estima desemprego geral apenas em Gaza em níveis dramaticamente altos — campanhas recentes relataram números próximos a 70–80% de desemprego no território em momentos de pico — e avaliações do Banco Mundial apontam desemprego juvenil e colapso econômico como causas estruturais da fragilidade social. Jovens sem perspectivas econômicas têm, empiricamente, maior probabilidade de aceitar ofertas de renda, recrutamento ou participação em atividades paramilitares.
Em Gaza e na Cisjordânia, conjuntamente, cerca de 40% dos jovens enfrentam desemprego (somados), e entre graduados esse índice pode ultrapassar 50%. Essa desesperança econômica alimenta a adesão à militância como alternativa de sustento simbólico ou material, especialmente em contextos de ocupação prolongada e restrições severas de mobilidade social – e no caso palestino, não apenas de social, mas física também.
Palestinos fazem compras em um mercado improvisado montado ao lado de prédios destruídos em um ataque israelense, em meio à incursão israelense, em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza, em 22 de maio de 2024.
Pesquisas de opinião recentes indicam que mais de 40% dos jovens palestinos se identificam com o termo Islamiyya (ideologia político-religiosa voltada ao Islã político, cujo maior expoente na sociedade palestina atualmente é o movimento HAMAS – ou Movimento de Resistência Islâmica), com menos de 30% apoiando o nacionalismo secular (cujo maior expoente foi, e ainda á, o Al-Fatah de Yasser Arafat), mostrando inclinação ideológica não apenas para resistência de fato ao regime de ocupação sionista que os cercam, mas para uma resistência com características religiosas.
Manifestações em Gaza contra as incursões israelenses em al-Aqsa, abril de 2022.
Nesse âmbito de ideologia e partidos políticos, alguns estudos realizados sobre a situação da juventude palestina demonstram que muitos jovens percebem pouca ou nenhuma representação política de fato: 57% dos jovens afirmam que ninguém os representa, e 74% dizem não confiar nos partidos locais. Isso reforça a sensação e a crença (bem-fundamentada, diga-se de passagem) de que só a resistência e as forças “fora do sistema” podem lhes dar voz.
A tese de mestrado de 2008 de David Kreuer, “Youth in Palestine: Between Resistance and Mobility”, mostra que jovens frequentemente veem a militância como forma de afirmar identidade coletiva, especialmente em contextos de mobilidade restrita e falta de oportunidades – o que é claramente um eufemismo acadêmico para a situação calamitosa em que se encontram os jovens palestinos da Faixa de Gaza e Cisjordânia, especialmente após os eventos recentes do Genocídio perpetrado em Gaza pelo autoproclamado Estado de Israel.
Militantes da Frente Popular para a Libertação da Palestina se reúnem na Cidade de Gaza no 43º aniversário da fundação de seu partido, 2010.
A experiência direta de violência e mortalidade massiva é um determinante claro: pesquisas de opinião realizadas pela Palestinian Center for Policy and Survey Research (PSR) e reportagens agregadas pela Reuters registraram aumentos substanciais no apoio popular à “luta armada” — por exemplo, um levantamento indicou que 54% dos entrevistados passaram a apoiar formas de luta armada após picos de violência — correlação que acompanha ondas de vítimas civis, bombardeios e perdas familiares documentadas pelas Nações Unidas. Essas correlações estatísticas (vítimas → maior apoio à retaliação armada) aparecem de forma recorrente nas séries temporais das pesquisas.
Repressão, detenção e encarceramento também funcionam como propulsor de militância: organizações como B’Tselem e grupos de direitos humanos reportam milhares de palestinos detidos por “motivos de segurança”, incluindo centenas de menores (por exemplo, cerca de 100–700 crianças detidas anualmente em diferentes períodos; cerca de 9.000–11.000 prisões totais em momentos recentes, com mais de 3.000 em ‘detenção administrativa’ – eufemismo para prisão arbitrária, vulgo sequestro). A experiência e a memória coletiva da prisão, tortura e deportação aumentam significativamente a probabilidade de radicalização intergeracional e de adesão a grupos que prometem “vingança” ou proteção.
Caminhão com detidos palestinos na Faixa de Gaza, em 8 de dezembro de 2023.
Desse modo, a privação humanitária e a insegurança alimentar e social reforçam a dinâmica: relatórios do IPC, UNICEF e OMS documentaram níveis de insegurança alimentar aguda e crises de desnutrição infantil em Gaza, com picos que, em 2024–2025, colocaram grande parte da população em condição de falta crítica de alimentos e água — por exemplo, indicadores apontaram que dezenas por cento das famílias relataram saltos de dias sem ingestão adequada e registros de desnutrição infantil cresceram de forma exponencial em períodos de cerco. A correlação entre insegurança alimentar generalizada e apoio a ações de resistência é robusta em literatura sobre conflitos: quando as necessidades básicas não são garantidas, a adesão a atores armados aumenta por motivações tanto materiais quanto simbólicas.
Assustadas e desnutridas – assim crescem as crianças na Palestina. Na foto: Siwar Ashour.
No frigir dos ovos, estudos qualitativos e quantitativos convergem: a combinação de desemprego juvenil extremo (entre 45% a quase 80% dependendo do recorte temporal e geográfico), exposição maciça à violência e altas taxas de vítimas civis, níveis elevados de detenções e prisões — inclusive de menores — e insegurança alimentar, além do colapso frequente de serviços essenciais produzem um ambiente no qual o apelo à resistência armada alcança percentuais que, em sondagens, excedem a metade da população em momentos de escalada. Políticas de exclusão (movimento, emprego, acesso a serviços e necessidades básicas, como água e saneamento – tudo cerceado e frequentemente atacado pelo aparato sionista) e experiências pessoais de perda explicam estatisticamente a popularidade de movimentos tidos como “radicais” e “recusantes” em participar da velha política: a ocupação não dá futuro para a velhacaria, da mesma maneira que corta futuro dos jovens palestinos, e, quando se encurrala um tigre jovem e resoluto, é mais do que certo (e esperado) que ele lute com ferocidade, ainda que até a morte.
Referências
KREUER, David. Youth in Palestine: Between Resistance and Mobility. ResearchGate, 2008. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/357555384_Youth_in_Palestine_Between_Resistance_and_Mobility
ASI, Yara M. Young Palestinians’ Aspirations for the Future. Arab Center Washington DC, 15 maio 2023. Disponível em: https://arabcenterdc.org/resource/young-palestinians-aspirations-for-the-future/
INTERPEACE. Case Study: Palestine – Youth, Identity and Civic Participation. Genebra: Interpeace, 2018. Disponível em: https://www.interpeace.org/wp-content/uploads/2018/04/2018-IP-case-study-Palestine-v3.pdf
AGENZIA. Cotidiano de jovens palestinos e israelenses revela guerra desigual. Agenzia, 2024. Disponível em: https://agenzia.inf.br/cotidiano-jovens-palestinos-israelenses-sob-ofensiva-militar/
LE MONDE DIPLOMATIQUE BRASIL. Juventude palestina não se vê como vencida. Le Monde Diplomatique Brasil, 2024. Disponível em: https://diplomatique.org.br/juventude-palestina-nao-se-ve-como-vencida/
BRASIL DE FATO. ‘A Palestina não está à venda’, diz Ualid Rabah. Brasil de Fato, 25 abr. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/04/25/a-juventude-e-a-vanguarda-da-consciencia-publica-do-mundo-diz-ualid-rabah-sobre-o-papel-dos-jovens-na-luta-palestina/
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (OIT). A Year of War in Gaza — Bulletin 5. Genebra: ILO, 5 out. 2024. Disponível em: https://www.ilo.org
WORLD BANK. Gaza Strip Interim Damage Assessment. Washington, DC: World Bank, 29 mar. 2024. Disponível em: https://thedocs.worldbank.org/en/doc/14e309cd34e04e40b90eb19afa7b5d15-028001
PALESTINIAN CENTER FOR POLICY AND SURVEY RESEARCH (PSR). Polls on Palestinian public attitudes (2024–2025). Ramallah: PCPSR, 2024–2025. Disponível em: https://www.pcpsr.org
B’TSELEM — The Israeli Information Center for Human Rights in the Occupied Territories. Statistics on detainees and minors in custody. Jerusalém: B’Tselem, 2024–2025. Disponível em: https://www.btselem.org
UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF HUMANITARIAN AFFAIRS (OCHA) / WHO / UNICEF / IPC. Relatórios e SitReps sobre Gaza (2023–2025). Disponível em: https://www.ochaopt.org; https://www.unrwa.org; https://www.unicef.org https://www.who.int; https://www.ipcinfo.org
GALLUP. Dim Outlook for Peace in the Middle East. Disponível em: https://news.gallup.com/poll/650636/dim-outlook-peace-middle-east.aspx.
WORLD BANK. Impacts of the Conflict in the Middle East on the Palestinian Economy – April 2025*. Washington, DC: World Bank, 2025. Disponível em: https://thedocs.worldbank.org/en/doc/0f21311c2ebb0df4bf9b493a8034997c-0280012025/original/82687546-6fc3-46fa-80ba-5ce29d2148bc.pdf
B’TSELEM. Statistics on Administrative Detention. Disponível em: https://www.btselem.org/administrative_detention/statistics
PALESTINIAN CENTER FOR POLICY AND SURVEY RESEARCH. Public Opinion Poll No. 95. Disponível em: https://www.pcpsr.org/en/node/997
PALESTINIAN CENTER FOR POLICY AND SURVEY RESEARCH. Index of PSR Polls. Disponível em: https://www.pcpsr.org/en/node/154
UNITED NATIONS OFFICE FOR THE COORDINATION OF HUMANITARIAN AFFAIRS. Data on Casualties – Occupied Palestinian Territory. Disponível em: https://www.ochaopt.org/data/casualties
REUTERS. Poll Shows Rise in Support for Armed Struggle by Palestinians. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/poll-shows-rise-support-armed-struggle-by-palestinians-2024-06-13/
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION. A Year of War in Gaza – Bulletin 5, October 2024. Disponível em: https://www.ilo.org/sites/default/files/2024-10/A%20Year%20of%20War%20in%20Gaza-Bulletin%205-October%202024-FINAL%28en%29.pdf
THE GUARDIAN. No Family Stability: Social Fabric Harm Inflicted on Gaza Children Is Incalculable. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2025/oct/10/no-family-stability-social-fabric-harm-inflicted-gaza-children-incalculable
GALLUP. West Bank and East Jerusalem: Palestinian Life Charts. Disponível em: https://news.gallup.com/poll/695645/west-bank-east-jerusalem-palestinian-life-charts.aspx
INSTITUTE FOR NATIONAL SECURITY STUDIES. Swords of Iron Survey: Palestinian Public Opinion in the West Bank. Disponível em: https://www.inss.org.il/publication/survey-palestinians/
DARTMOUTH. Palestinian Pollster Discusses Attitudes Toward Hamas. Disponível em: https://home.dartmouth.edu/news/2024/10/palestinian-pollster-discusses-attitudes-toward-hamas
SABA NEWS AGENCY. Opinion Poll Shows Palestinian Popular Support for Resistance in Truce Negotiations. Disponível em: https://saba.ye/en/news3515765.htm









