Os Almoádas e Maimônides: ser Judeu em Época de Turbulência Política

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Em um período áureo da história islâmica, vimos nascer grandes impérios; um dos mais poderosos se encontrava na Península Ibérica, muitas vezes chamado pelos historiadores de Califado Almóada, devido às suas raízes magrebinas e à ambição globalizante desse movimento reformista, que abrangia as esferas política, religiosa e social. Seu surgimento se deu enquanto movimento islâmico, tendo como agente a doutrina de Ibn Tumart, que se disseminou, naturalmente, por todo o Magrebe.

O Califado Almóada em sua maior extensão. Wikimedia Commons.

A grandeza da construção almóada deriva, antes de mais nada, do fato de ter sido a única na história do Magrebe a abranger todos os países do Islã Ocidental. É verdade que essas regiões sofreram a perda da Sicília e de parte de al-Andalus devido às conquistas cristãs. Contudo, essa unificação foi arduamente conquistada: não devemos esquecer a longa luta de quase vinte anos, entre 1128 e 1147, contra o regime almorávida, durante a qual a coesão das tribos Masmudas [1], das montanhas do Atlas, foi forjada em torno da mensagem do Mahdi. Uma vez conquistada Marrakech, Abd al-Mumin conseguiu assumir o controle do Estado Hammadi sem muita dificuldade, impôs-se à força aos árabes Hilal, expulsou os últimos almorávidas de Granada, os castelhanos de Almería e os normandos das cidades costeiras de Ifriqiya.

O Magrebe Oriental [2] foi reduzido ao status de província dominada, embora nunca definitivamente subjugado, enquanto o segundo califa almóada teve que lutar ferozmente por uma década para estender seu domínio do oeste de al-Andalus, onde se estabeleceu sem muito esforço, para a parte oriental do país. Essa expansão territorial só foi concluída em 1203, quando as Ilhas Baleares foram conquistadas das tribos Banu Ghaniya [3], os almorávidas que mantinham uma longa resistência desde 1184 no Magrebe Oriental e nas franjas do Saara.

Mesquita de Tinmel, erguida em 1148 em homenagem a Ibn Tumart em Tinmel, que outrora fazia parte de um grande complexo fortificado, o primeiro quartel-general dos Almóadas.

Divergências religiosas e fundamentalismo

Os almóadas surgiram como uma reação fundamentalista aos almorávidas, acusando-os de “impiedade” e “obscurantismo”. Ibn Tumart criticava a interpretação literal do Alcorão pelos juristas malikitas [4] que apoiavam o regime almorávida, rotulando-os de antropomorfistas. Ibn Tumart, nascido entre 1078 e 1082 na região de Sous, no sul do atual Marrocos, era membro dos Hargha¹, uma tribo berbere da cordilheira do Anti-Atlas, parte da confederação tribal Masmuda.

Ele denunciou que os almorávidas tinham sucumbido às tentações da riqueza imperial e ao luxo, abandonando os ideais de pureza religiosa que inicialmente os caracterizavam. Portanto, ele chamava a si próprio e a seus seguidores de al-Muwaḥḥidūn (“aqueles que afirmam a unidade de Deus”), propondo um retorno às fontes originais do Islã e rejeitando as interpretações que consideravam falsas, buscando unificar os berberes sob um novo califado. Por isso, uma grande guerra culminou na conquista de Marrakech, a capital almorávida, pelos almóadas, em 1147, marcando o fim definitivo da dinastia almorávida.

Perseguição aos judeus, cristãos e muçulmanos

No seu auge, na década de 1170, os almóadas tinham controle sobre a maior parte da Espanha islâmica e não eram ameaçados pelas forças cristãs do norte. Assim que os almóadas assumiram o controle do sul da Espanha e de Portugal, introduziram uma série de leis religiosas muito rigorosas. Mesmo antes de assumirem o poder total na década de 1170, já tinham começado a remover os não muçulmanos de posições de poder. Tanto os judeus como os cristãos tiveram sua liberdade religiosa negada, com muitas fontes relatando que os almóadas rejeitavam o próprio conceito de dhimmi [5] (o status oficial de proteção, porém subordinado, de judeus e cristãos sob o domínio islâmico) e insistiam que todos deveriam aceitar Ibn Tumart como Mahdi [6]. Durante seu cerco contra os normandos em Mahdia, o regente Abd al-Mumin declarou infamemente que cristãos e judeus deveriam escolher entre a conversão ou a morte.

Ibn Tumart é proclamado Mahdi. Fólio de um manuscrito do Nigaristan, Irã, provavelmente Shiraz, datado de 1573-74.

Do mesmo modo, os almóadas consideravam oficialmente todos os não almóadas, incluindo muçulmanos não almóadas, como falsos monoteístas e, em vários casos, massacraram ou puniram toda a população de uma cidade, tanto muçulmana quanto não muçulmana, por desafiá-los. Geralmente, no entanto, a aplicação dessa posição ideológica variava muito de lugar para lugar e parece ter estado especialmente ligada à resistência, ou não, das comunidades locais aos exércitos almóadas à medida que avançavam. No entanto, como os almóadas estavam em uma jihad autodeclarada, estavam dispostos a usar técnicas bastante radicais para apoiar sua guerra santa.

Em alguns casos, as ameaças de violência foram executadas localmente como um aviso a outros, mesmo que as autoridades não tivessem a capacidade de realmente concretizá-las em uma escala maior. Os cristãos nativos em al-Andalus, que viviam sob o domínio muçulmano até então, tinham a opção de escapar para terras controladas por cristãos ao norte, e muitos o fizeram. Afonso VII de Leão e Castela também os encorajou a fugir, oferecendo-lhes terras se migrassem para seu território. Os judeus, no entanto, eram particularmente vulneráveis, pois enfrentavam um status minoritário incerto tanto em territórios cristãos quanto muçulmanos, bem como porque viviam principalmente em áreas urbanas, onde eram especialmente visíveis às autoridades. Muitos foram mortos durante as invasões ou repressões almóadas.

A perseguição aos eruditos judeus e muçulmanos

Os almóadas reconheceram que muitas das conversões de judeus não eram particularmente sinceras, o que certamente não ajudou a promover a unidade social e religiosa. Eles responderam a isso impondo regulamentações severas aos negócios de ex-judeus. Abu Yusuf Yaqub al-Mansur estabeleceu um código de vestimenta rigoroso para os judeus que viviam no território almóada: os judeus tinham que usar azul-escuro ou preto, as cores tradicionais de luto no Islã, o que consolidou ainda mais a discriminação. O famoso filósofo judeu Maimônides, por exemplo, teria se convertido oficialmente ao islamismo sob o domínio almóada quando se mudou de Córdoba para Fez, antes de finalmente partir para o Egito islâmico, onde pôde viver abertamente como judeu novamente.

A casa de Maimônides em Fez, Marrocos, segundo a tradição local.

Mas a extensão da perseguição, como falamos antes, não poupou apenas não-muçulmanos. O Qadi Iyad, proeminente juiz e filósofo nascido em Ceuta, também sofreu ataques. Como descendente de uma família de estudiosos notáveis, ao crescer, Iyad se beneficiou do fluxo de estudiosos de al-Andalus, do Magrebe e do mundo islâmico oriental. Ele se tornou um estudioso prestigioso por direito próprio e conquistou o apoio dos mais altos escalões da sociedade ainda na época dos almorávidas. Além disso, ele recusou reconhecer Ibn Tumart como o Mahdi esperado, sendo esse um dos motivos de sua perseguição.

Mas será que os almóadas o mataram? Algumas fontes, incluindo uma escrita por seu filho Muhammad, descrevem como ele se insinuou com os almóadas em Marrakech e acabou morrendo de doença durante uma campanha militar. Outras fontes descrevem como ele morreu de morte natural enquanto atuava como juiz rural perto de Tadla, enquanto fontes posteriores tendem a presumir uma morte violenta nas mãos dos almóadas. Embora se opusesse aos almóadas e às suas ideias teológicas, ele não nutria inimizade pela escola zahirita do islamismo sunita, seguida pelos almóadas e por Ibn Hazm [7]. Qadi Iyad aderiu à escola ash‘ari. Ele defendeu e elogiou muito tanto o fundador Abu Hasan al-Ash‘ari quanto sua escola.

Qadi Iyad, seu legado e sua fama foram tão grandes que ganhou uma universidade em seu nome, a famosa Cadi Ayyad, no Marrocos, também conhecida como Universidade de Marrakech. Ele é reconhecido também como um dos sete santos de Marrakech e está sepultado perto de Bab Aïlen.

Tumba de Qadi Iyad em Marrakesh.

Apesar disso tudo, ocorreu uma reviravolta sob o califado de Idris al-Ma’mun, um pretendente almóada tardio que governou de 1229 a 1232 em partes do Marrocos: os almóadas renunciaram a grande parte das doutrinas anteriores, como as teorias apocalípticas, incluindo a identificação de Ibn Tumart como o Mahdi e a negação do estatuto de dhimmi. Esse novo califa permitiu que os judeus praticassem sua religião abertamente em Marrakech e até permitiu uma igreja cristã lá, como parte de sua aliança com Castela. Na Península Ibérica, o domínio almóada entrou em colapso no século XIII e foi sucedido por vários reinos taifa, que permitiram que os judeus praticassem sua religião abertamente.

Referências

RALLA, Lucas. Quem foi Ibn Tumart, o pai do movimento Almóada? História Islâmica, 18 fev. 2026. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/quem-foi-ibn-tumart-o-pai-do-movimento-almoada.

RALLA, Lucas. Moçárabes: a História e a Vivência dos Cristãos Arabizados em al-Andalus. Históra Islâmica, 30 mai. 2025. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/mocarabes.

HISTÓRIA ISLÂMICA. Ibn Qasi, santo-guerreiro muçulmano de Portugal. 18 fev. 2026. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/ibn-qasi-santo-guerreiro-muculmano-de-portugal.

ALMYRANTIS, Dimitris. Why did the Almohad dynasty establish a caliphate if there was already one claimed by the Abbasid dynasty? Quora, 2019. Disponível em: https://www.quora.com/Why-did-the-Almohad-dynasty-establish-a-caliphate-if-there-was-already-one-claimed-by-the-Abbasid-dynasty#qAQOG.

CATLOS, Brian. Kingdoms of Faith: A New History of Islamic Spain. Basic Books: 2018.

Notas

[1] Os Masmudas são uma antiga confederação de tribos berberes sedentárias, originárias do Alto Atlas, em Marrocos, cruciais na história magrebina. Conhecidos pela agricultura, fundaram o movimento almóada no século XII, unificando o Magrebe e o Alandalus sob a liderança de Ibn Tumart, perdendo influência política após a queda da dinastia.

[2] Magrebe (“Ocidente” em árabe) é uma região no noroeste da África, composta principalmente por Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia, Mauritânia e Saara Ocidental. Caracterizada pela Cordilheira do Atlas e proximidade com o Mediterrâneo.

[3] Os Banu Ghaniya ou Ganiânidas foram uma dinastia berbere da tribo Massufa (ramo dos Sanhaja) e leais remanescentes almorávidas que governaram as Ilhas Baleares e, posteriormente, vastas áreas da Ifríquia (Tunísia/Argélia) no século XII e início do XIII.

[4] A escola malikita (Maliki), uma das quatro principais correntes do direito islâmico sunita (fiqh), baseia-se nos ensinamentos de Malik ibn Anas, focando no Alcorão, Sunnah e práticas de Medina. Predominante no Norte e Oeste da África, seus juristas proeminentes moldaram a jurisprudência, o sufismo e a teologia, especialmente entre os séculos XI e XIX.

[5] Dhimmi ou “protegido” é um conceito jurídico islâmico histórico que designa os povos não muçulmanos — originalmente judeus, cristãos e sabeus (povos do Livro) — vivendo sob domínio islâmico.

[6] Mahdi ou al-Mahdī, “o Guiado” é uma figura messiânica na escatologia islâmica, entendido como um líder redentor que aparecerá no fim dos tempos para restaurar a justiça, a equidade e a verdadeira religião na Terra antes do Juízo Final.

[7] Ibn Hazm foi um polímata, historiador, tradicionalista, jurista, filósofo e teólogo muçulmano andaluz, nascido no Califado de Córdoba, atual Espanha.

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