O plano de Gertrude Bell para dividir os árabes

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Poucas pessoas têm seu legado intelectual tão contraditório quanto Gertrude Bell (1968-1926). Uma mulher culta, independente, de espírito livre, mas ao mesmo tempo contrária ao Movimento Sufragista. Uma pesquisadora brilhante, arqueóloga, fluente em árabe, persa, turco, mas cujas pesquisas serviram de base para os interesses coloniais do Império Britânico. Tinha discurso de autodeterminação árabe, e ainda assim dizia que os árabes eram incapazes de se auto governar. Desse modo, ajudou a forjar um nacionalismo iraquiano on demand, sem respeitar a diversidade étnica dentro do território da Mesopotâmia, o que resultou em um conflitos que perduram até hoje.

The Life of Gertrude Bell, English Explorer in Iraq

Retrato de Gertrude Bell.

Gertrude Bell nasceu em uma família abastada do norte da Inglaterra em 1868, recebendo uma educação privilegiada que a distinguiu intelectualmente desde cedo. Filha de um industrial bem-sucedido, teve acesso aos melhores tutores privados antes de ingressar no Lady Margaret Hall, Oxford, em 1886, onde se destacou nos estudos de História Moderna sob a tutela de acadêmicos renomados como S.R. Gardiner. Sua formação em Oxford foi rigorosa e abrangente, incluindo estudos clássicos, literatura, filosofia política e história europeia, tendo se graduado com honras de primeira classe em apenas dois anos – um feito notável para qualquer estudante da época, quanto mais para uma mulher, fator que lhe impediu de obter o diploma. 

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Retrato de 1876 de Sir Hugh Bell, seu pai, e Gertrude, então com 8 anos. Retrato de Edward Poynter.

Após Oxford, Bell complementou sua educação através de viagens intelectuais pela Europa, estudando alemão em Berlim e aprofundando-se em arqueologia e história da arte, enquanto desenvolvia suas habilidades linguísticas. Bell visitou Constantinopla em 1889, seguida por uma visita a seu tio, Frank Lascelles, que era ministro britânico em Teerã em 1892. Nessa época, ela já havia dominado a língua persa a ponto de traduzir os poemas de Hafiz. Ela foi convidada a Jerusalém pelo cônsul alemão Friedrich Rosen em 1900, durante o qual teve a oportunidade de ver Petra, Palmira e Baalbek, o que lhe deu a oportunidade de praticar seu árabe e dar uma olhada na arqueologia síria. Então, em 1905, ela retornou a Jerusalém apenas para embarcar em uma jornada pelo deserto sírio até Konya, na Anatólia Central, onde conheceu o arqueólogo William Ramsay, com quem realizou vários estudos na região, seguidos de publicações acadêmicas. Depois disso, ela passou a maior parte do tempo fazendo trabalho arqueológico na Anatólia e na Mesopotâmia, publicando tanto seu trabalho acadêmico quanto suas observações pessoais da região, cultura, política e pessoas. Ao longo dos anos seguintes, ele empreendeu diversas viagens pela região, fazendo registros minuciosos, indo até o Hejaz, Basra, estabelecendo contato com lideranças locais, e mapeando zonas de interesse arqueológico e cultural. Vale lembrar que boa parte do pensamento europeu sobre o Oriente Próximo nesse final do XIX e começo do XX é profundamente marcado pela escola Orientalista, e que, malgrado a sua sólida formação intelectual, Bell não deixou de ser influenciada por essa escola e de ser uma voz ativa da mesma. É por isso que, quando os prenúncios da I Guerra começavam a se desenhar, esse conhecimento acabou sendo instrumentalizado contra as populações do Oriente Médio.

Fotografia de Konya, parte do acervo de Gertrude.

Entendamos um pouco melhor a geopolítica da regional até então. De um lado, havia o Império Otomano em franco declínio que controlava os territórios que vão do Egito até às fronteiras com o Irã, passando pelo Levante e península arábica. Do outro, havia as potências ocidentais, encabeçadas pela França e Reino Unido, que estavam interessadas nesses territórios e buscavam minar a influência dos otomanos através dos nacionalismos locais. Nesse contexto, os movimentos nacionalistas árabes ganharam força, alimentados tanto por aspirações genuínas de autodeterminação quanto pelos interesses estratégicos europeus. As potências ocidentais prometiam apoio à independência árabe em troca de alianças contra o Império Otomano, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando a questão se tornou ainda mais urgente. Simultaneamente, a descoberta de petróleo na região intensificou a corrida imperialista, transformando esses territórios em peças fundamentais no tabuleiro geopolítico mundial.

Em 1915, Bell foi recrutada pelo exército britânico para integrar uma equipe de oficiais de inteligência no Cairo, sendo a primeira mulher a atingir o posto de Major. O posto mais tarde se tornaria o Arab Bureau. Sua principal tarefa era auxiliar na formulação de uma estratégia militar não convencional, que envolvia trabalhar com líderes árabes e sociedades secretas para minar o Império Otomano internamente. Bell foi uma contribuinte fundamental para o Arab Bulletin, uma série de relatórios secretos que detalhavam a estratégia britânica de colaboração com líderes locais para enfraquecer a autoridade otomana na região. É fundamental distinguir entre estratégia militar e grande estratégia ao analisar a atuação de Bell. A estratégia militar, conforme definida, refere-se ao uso de engajamentos para o objetivo da guerra. A grande estratégia, por outro lado, emprega vários instrumentos do poder nacional para fornecer uma abordagem mais ampla e de longo prazo para moldar uma região ou o mundo de forma a favorecer não os árabes, ou os curdos, ou os palestinos, mas as próprias potências interessadas nos espólios otomanos. Nesse contexto, o militar é apenas um dos instrumentos que um governo pode usar para perseguir a visão de longo prazo de um país. A grande estratégia de Bell, portanto, não se limitou a táticas de guerra, mas englobou uma visão abrangente para a região, buscando a segurança e a prosperidade para os interesses britânicos. Pode se dizer, grosso modo, que se assemelha à diferença entre Hard Power e Soft Power presentes na contemporaneidade. E ela tinha plena consciência de sua relevância para esse processo, tanto que expressou: “É tão bom ser um elo na roda, um que ajuda a girar, não um que atrapalha.”

Gertrude Bell

Gertrude Bell em Bagdá. Ela ajudou a estabelecer as fronteiras do Iraque e a redigir sua constituição

Em 1917 ocorreu a captura de Bagdá. Gertrude Bell é designada como secretária oriental pelo governo britânico e foi ali que ela desempenhou o auge tanto de sua carreira política quanto acadêmica. De acordo com Eugene Rogan:

Os britânicos elaboraram três acordos separados entre 1915 e 1917 para a divisão dos territórios árabes otomanos no pós-guerra: um acordo com o xarife de Meca para a criação de um reino árabe independente; um pacto europeu pela partilha da Síria e da Mesopotâmia entre a Grã-Bretanha e a França; e uma promessa ao movimento sionista de criar um Estado nacional judaico na Palestina. Um dos desafios da diplomacia britânica do pós-guerra foi encontrar uma maneira de cumprir tais promessas, contraditórias em muitos aspectos.

A derrocada do Império Otomano e a revelação dos acordos de Sykes-Picot pelos bolcheviques minaram a confiança das lideranças árabes sobre as verdadeiras intenções da França e Inglaterra. O que se mostrou um diagnóstico correto:  As palavras pomposas dos britânicos, endossadas pelos 14 pontos de Woodrow Wilson, não eram garantia de nada. As tentativas dos movimentos árabes pela manutenção de sua integridade territorial, e autodeterminação não só não foram atendidas, como se estimularam as rivalidades locais, a exemplo do clã Al Saud.

Abdul Aziz Ibn Saud, Sir Percy Cox e Gertrude Bell durante a visita de Ibn Saud a Basra.

Não havia interesse em um território árabe unido, pois isso atrapalharia as negociações já em curso. Como se disse acima, os territórios eram fundamentais para os interesses das grandes potências, pois garantia a posse do canal de Suez e um caminho de acesso à Índia. Bell entendia que, para esse fim, se fazia necessário negociar com as lideranças locais – foi nesse sentido que ela se opôs, por exemplo, à declaração de Balfour. Foi nesse sentido que ela defendeu o estabelecimento do rei Faisal da dinastia hachemita, descendente direta dos Profeta Muhammad, pois via nela um fator de legitimidade junto aos diversos grupos que compunham a Mesopotâmia – sunitas, xiitas, curdos, cristãos assírios e cada qual nutrindo seu próprio ideal de país. Gertrude Bell acreditava que colaborar com os nacionalistas árabes era fundamental – e menos oneroso – para os planos do Império. Não encontrou um clima propício para isso. Alguns como Sir Arnold Wilson estavam mais interessados em fazer do Iraque uma nova Índia. Não que ela acreditasse na autodeterminação do povo iraquiano, ela mesma escrevera “Os árabes não podem se auto governar, eu sei muito bem disso”. 

Como se disse acima, a partilha dos territórios otomanos não seguiu critérios baseados nos anseios de suas populações. Ao mesmo tempo, os nacionalismos eram potencializados para outros fins. O Iraque surgiu a partir de três províncias otomanos muito diferentes, foi desenhado pelos britânicos e posto em prática por Gertrude Bell era uma colcha de retalhos feita, não para dar coesão, mas causar divisão. Um dos grandes exemplos disso são os cursos, condenados até hoje a ser um povo sem pátria. De acordo com Eugene Rogan:

Os curdos apresentavam um desafio particular à integridade e identidade do Estado iraquiano. Ao contrário dos sunitas e xiitas, os curdos não são árabes, e se ressentiam dos esforços do governo para moldar o Iraque como um Estado árabe, acreditando que isso negava sua identidade étnica distinta. Alguns na comunidade curda não se opunham às reivindicações iraquianas ao arabismo, mas as utilizaram como um pretexto para exigir maior autonomia nas partes do norte do Iraque onde constituíam maioria absoluta.

Ele mesmo havia sido entronado enquanto assinava um contrato dando amplos poderes aos britânicos. Ao mesmo tempo, os grupos xiitas eram sempre delegados a posições de sub-representação, segundo modelos totalmente alheios às realidades locais. As consequências disso se fizeram sentir na revolta de 1920 que começou de forma pacífica, mas foi duramente reprimida pelas tropas britânicas. O próprio Rei Faisal refletiria sobre isso:

Ainda não há — e digo isso com o coração cheio de tristeza — um povo iraquiano, mas massas inimagináveis de seres humanos desprovidos de qualquer ideia patriótica, imbuídos de tradições e absurdos religiosos, carentes de qualquer laço comum, dispostos a dar ouvidos ao mal, propensos à anarquia e sempre prontos a se levantar contra qualquer governo, qualquer que seja a razão.

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Dignitários britânicos e iraquianos em Bagdá em 1923, durante o Mandato Britânico do Iraque. Bell é a única mulher na foto.

A dedicação de Gertrude Bell ao Império Britânico, a fragilidade de sua saúde ao longo dos anos, o stress da situação política e o declínio da situação econômica da família Bell fez com que sua saúde deteriorasse, levando-a a óbito por ingestão de comprimidos de dormir. Não se sabe se foi suicídio ou acidente. O que se sabe é que o legado de Bell é vasto, bem documentado – seja por livros, cartas, relatos – e contraditório. O que podemos dizer é que, de acordo com as palavras de Eugene Rogan, o Estado Iraquiano tem sido tão duradouro quanto seus problemas. 

Sempre que pensamos em fatos históricos temos que ter o cuidado de olhar com o prisma do afastamento temporal e teórico que o tema exige. O que se aponta é a materialidade do fato. Nesse sentido, as contradições da pessoa – e da persona – de Gertrude Bell podem nos fornecer pontos de leitura interessantes sobre os lugares comuns que são fornecidos ao se ler sobre o Oriente Médio: a instabilidade perene, o fanatismo. Mas um ponto interessante ao se ler o documento histórico de sua biografia reside exatamente no papel das mulheres nesse período. Um dos pontos levantados foi que Bell conseguiu o que conseguiu exatamente por ser mulher e por adentrar em espaços que os homens não entravam. Ainda que para fins questionáveis. Por outro lado, um contraponto interessante seria colocar a sua figura em comparação com o papel predominante das mulheres nos movimentos nacionalistas árabes da mesma época, como Huda Shaarawi ou o movimento das mulheres palestinas. Dois protagonismos opostos, um fato histórico… a história é um movimento de contradições, ou como ela mesma diria: “Nós lançamos os dados, e agora temos que jogar o jogo.”

Referências

UNIVERSITY OF OXFORD – Ertegun House. Owning the past: Gertrude Bell and the making of the Middle East. Disponível em: https://www.ertegun.ox.ac.uk/article/owning-past-gertrude-bell-and-making-middle-east. 

WALLACH, Janet. Desert Queen: The Extraordinary Life of Gertrude Bell. Middle East Journal, v. 53, n. 2, p. 307–308, 1999. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/3853395. 

MCKENNA, Amy. The Grand Strategy of Gertrude Bell: From the Arab Bureau to the Creation of Iraq. Defense Technical Information Center, 2023. Disponível em: https://media.defense.gov/2023/Mar/03/2003172278/-1/-1/0/THE%20GRAND%20STRATEGY%20OF%20GERTRUDE%20BELL%20-%20FROM%20THE%20ARAB%20BUREAU%20TO%20THE%20CREATION%20OF%20IRAQ.PDF. 

PÚBLICO. Ela devia ser tão famosa como Lawrence da Arábia. E já foi. Público, 13 ago. 2016. Disponível em: https://www.publico.pt/2016/08/13/culturaipsilon/noticia/ela-devia-ser-tao-famosa-como-lawrence-da-arabia-e-ja-foi-1741158. 

ROGAN, Eugene. Os árabes: uma história. Tradução de Marlene Suano. 1. ed. São Paulo: Zahar, 2021. 792 p. ISBN 978‑65‑5979‑020‑3.

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