Texto de Flynt Lawrence Leverett e Hillary Mann Leverett. Publicado originalmente no Harpers’ Magazine.
Nos mais de trinta anos desde a Revolução Iraniana, analistas ocidentais têm rotineiramente retratado a República Islâmica como um Estado movido por ideologia, ilegítimo e profundamente instável. Sob essa perspectiva, o Irã teria demonstrado seu caráter fanático desde cedo, primeiro na crise dos reféns de 1979–81 e, logo depois, com o envio de soldados adolescentes em ataques de “ondas humanas” contra forças iraquianas durante os anos 1980. Supostamente, o mesmo “culto xiita do martírio” e a indiferença em relação às baixas persistiriam em uma profunda ligação com o terrorismo suicida que, caso o Irã adquirisse armas nucleares, culminaria em uma catástrofe. Alegações sobre a “irracionalidade” do governo iraniano estão inevitavelmente ligadas à ideia de que ele busca exportar sua revolução pelo Oriente Médio à força, está determinado a destruir Israel e depende tanto do antiamericanismo para sua legitimidade interna que não poderia sequer cogitar melhorar relações com os Estados Unidos.
Imagens do Irã como um Estado radical frequentemente são transmitidas por analogias com os regimes mais criminosos do século XX. Alguns — incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair, o ex-presidente da Câmara dos Representantes Newt Gingrich e diversos oficiais israelenses — compararam a República Islâmica à Alemanha nazista. Para Walter Russell Mead, destacado historiador da política externa americana, “é um argumento legítimo e tema de discussão saber se os iranianos são canalhas como Franco, que se acomodariam a enforcar homossexuais e torturar dissidentes em paz se deixados por conta própria, ou se são lunáticos megalomaníacos que interpretarão nossa tolerância como fraqueza — se lhes dermos a Tchecoslováquia, passarão a mirar a Polônia”. Bret Stephens, do Wall Street Journal, comparou o Irã ao “Japão dos anos 1930 e da Segunda Guerra Mundial — outra cultura não ocidental obcecada por martírio e com ambições globais”. Karim Sadjadpour, do Carnegie Endowment for International Peace, recorreu à União Soviética para traçar paralelos, argumentando que “a República Islâmica é um regime corrupto, ineficiente e autoritário”, com uma “ideologia falida”, cujos líderes, “como os homens que outrora governaram Moscou… derivam sua legitimidade interna ao desafiar o Tio Sam”.
Ainda mais extremo é o discurso sobre “mulás loucos” que, conspiratoriamente, “dão risadinhas por trás de suas barbas” enquanto buscam adquirir armas nucleares, que eles e/ou Mahmoud Ahmadinejad, então presidente civil do Irã, usariam para atacar Israel, os Estados Unidos e outros inimigos do Islã. Bernard Lewis e seus seguidores neoconservadores afirmaram que o Irã lançaria tal ataque para acelerar o retorno do Mahdi, o décimo segundo imã, preparando o cenário para o juízo final de Deus e um “fim da história” mais definitivo do que qualquer um imaginado por Francis Fukuyama. Em 2006, Lewis chegou a apontar uma data religiosamente significativa, 22 de agosto — que naquele ano correspondia ao vigésimo sétimo dia do mês islâmico de Rajab, quando os muçulmanos acreditam que o profeta Muhammad iniciou sua missão profética — como o momento em que o Irã poderia detonar sua primeira arma nuclear. Como Ahmadinejad observou com sarcasmo, muitos americanos parecem pensar que todos os iranianos estão “sentados no deserto, voltados para Meca, esperando morrer”.
Se as elites políticas ocidentais se esforçassem para compreender o Irã e suas motivações, descobririam que a República Islâmica tem se mostrado um ator altamente racional na condução de sua política externa. O governo iraniano não iniciou uma guerra santa contra o Iraque nos anos 1980; ao contrário, lutou para defender seu povo contra uma invasão iraquiana brutal, diretamente apoiada por muitos de seus vizinhos e também por potências ocidentais, incluindo os Estados Unidos. Quando, ao longo dessa guerra, o Irã foi submetido durante anos a ataques com armas químicas, o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da República Islâmica, e seus associados optaram por não transformar seus estoques de agentes químicos em armas, o que teria permitido responder na mesma moeda. E, há anos, os principais líderes políticos e religiosos do país rejeitam a aquisição e o uso de armas nucleares, tanto por razões estratégicas quanto por entenderem que tais armas violam a moral islâmica.
O apoio de Teerã ao terrorismo é outro tema recorrente nas narrativas ocidentais. No entanto, o estudo mais abrangente até hoje sobre terrorismo suicida, Cutting the Fuse: The Explosion of Global Suicide Terrorism and How to Stop It, de Robert Pape e James Feldman, concluiu que nunca houve um homem-bomba iraniano. Embora o Irã apoie grupos que os Estados Unidos classificam como organizações terroristas — como Hezbollah e Hamas — ou que tenham ameaçado forças militares americanas no Iraque e no Afeganistão, esse apoio se concentra em cenários nos quais Estados Unidos, Israel ou países sunitas aliados de Washington atuam para minar interesses iranianos relevantes. Durante anos após o 11 de Setembro, alguns neoconservadores chegaram a alegar que Osama bin Laden vivia “no luxo” no Irã, afirmação amplificada em um “documentário” de 2010 promovido pela Fox News. A acusação foi reproduzida por jornalistas mais centristas, como George Stephanopoulos, da ABC, que pressionou Ahmadinejad em entrevista sobre se o Irã estaria abrigando bin Laden. (Ahmadinejad respondeu: “Ouvi dizer que Osama bin Laden está em Washington, D.C.”.) Para além do absurdo da alegação, declarações públicas de líderes da Al-Qaeda e documentos obtidos por forças especiais americanas no complexo de bin Laden em Abbottabad, em 2011, mostram que a relação entre a Al-Qaeda e a República Islâmica sempre foi profundamente antagonista.
Se os ocidentais analisassem com sobriedade os fatos, perceberiam que o Irã não está exportando sua revolução de forma agressiva. É verdade que, nos anos imediatamente posteriores à queda do xá, o conceito de sudur-e enqelab (“exportar a revolução”) foi proclamado por Khomeini como princípio da política externa iraniana. Mas o significado dessa expressão foi intensamente debatido: deveria a República Islâmica tentar replicar ativamente sua revolução em outros países, ignorando normas internacionais de soberania, ou concentrar-se em tornar-se um modelo exemplar de governança islâmica que pudesse inspirar outros? Khomeini fez declarações que pareciam apoiar ambas as posições. Contudo, a constituição pós-revolucionária — na qual a expressão não aparece — afirma que a República Islâmica deve abster-se rigorosamente “de todas as formas de intervenção agressiva nos assuntos internos de outras nações”. Além disso, todas as principais figuras da liderança iraniana após Khomeini, incluindo Ali Khamenei e Ali Akbar Hashemi Rafsanjani, comprometeram-se claramente com a abordagem exemplarista. No início de seu mandato como líder supremo, Khamenei declarou que “a Revolução Islâmica do Irã ocorreu e foi simultaneamente exportada ao mundo. Foi exportada uma vez, e isso encerra a questão”.
Da mesma forma, o Irã não busca destruir Israel. Um dos mitos mais difundidos sobre Ahmadinejad é que ele teria feito tal ameaça — uma afirmação tão consolidada no discurso ocidental que parece fato. No entanto, trata-se de uma falsidade, como admitiu em 2012 o ministro de Inteligência de Israel. A alegação baseia-se em uma tradução equivocada de um discurso de Ahmadinejad em 2005, amplamente divulgada por veículos como o New York Times. Segundo essas versões, ele teria dito que Israel deveria ser “varrido do mapa”, evocando uma campanha de extermínio semelhante à nazista. Na realidade, Ahmadinejad citou uma frase de Khomeini: “Este regime que ocupa Jerusalém deve desaparecer da página do tempo”. Para aqueles que insistem em equiparar antissionismo a antissemitismo, a distinção pode parecer irrelevante. Mas não há, nessa frase ou em qualquer parte do discurso, uma ameaça de destruição de Israel. Posteriormente, Ahmadinejad comparou o eventual desaparecimento do “regime sionista” ao colapso da União Soviética — resultado de falhas internas, não de agressão externa. Os formuladores de políticas iranianos adotam uma visão de longo prazo, esperando que a insustentabilidade, no século XXI, de arranjos semelhantes ao apartheid leve ao fim da atual estrutura política israelense — e não à aniquilação do povo judeu.
Os ocidentais também deveriam considerar que, da perspectiva de Teerã, Israel está efetivamente em guerra com a República Islâmica. Autoridades israelenses frequentemente ameaçam usar força contra o Irã, e os iranianos sabem que Israel patrocina diversas ações encobertas contra seu país, incluindo assassinatos de cientistas e atentados letais. Vale lembrar ainda que, antes de ser celebrado como “homem de paz”, Anwar Sadat fez declarações mais abertamente antissemitas do que qualquer coisa dita por Ahmadinejad, além de ter iniciado uma guerra que matou milhares de israelenses. Antes de ser alçado a “parceiro da paz”, Mahmoud Abbas publicou um livro sobre a “relação secreta entre o nazismo e o movimento sionista”, no qual chamou o Holocausto de “fantasia”. Após os Acordos de Oslo de 1993, declarou: “Quando escrevi isso, estávamos em guerra com Israel. Hoje não faria tais afirmações”.
O histórico também mostra que o Irã não tem sido obstinadamente hostil aos Estados Unidos. Nas últimas duas décadas, Teerã cooperou de forma consistente em questões nas quais Washington solicitou sua ajuda e frequentemente explorou possibilidades de melhorar as relações bilaterais. Foram os Estados Unidos que repetidamente interromperam esses episódios de cooperação e rejeitaram iniciativas iranianas, reforçando a suspeita dos líderes do país de que Washington jamais aceitará a República Islâmica.
A República Islâmica continua a basear sua política externa em princípios que refletem suas raízes religiosas e revolucionárias. Contudo, há muitos anos define suas estratégias diplomáticas e de segurança nacional em termos amplamente não ideológicos, fundamentados em interesses nacionais legítimos: estar livre de ameaças de ataque e de interferência externa; ter seu governo aceito por seus vizinhos e pela maior potência militar do mundo. Por mais de vinte anos, o Irã tem demonstrado capacidade de agir racionalmente para defender e promover esses interesses. Os americanos podem não gostar de suas escolhas estratégicas e táticas — seus vínculos com facções políticas e milícias no Afeganistão e no Iraque, seu apoio ao Hamas e ao Hezbollah, sua busca por capacidades no ciclo de combustível nuclear. Mas essas escolhas estão longe de ser irracionais, especialmente diante da contínua hostilidade de Washington.
Estereótipos que retratam o Irã como um país agressivamente radical não são apenas incorretos, mas perigosos, pois distorcem o pensamento ocidental na direção da inevitabilidade do confronto. Em janeiro de 2011, Tony Blair afirmou a uma comissão britânica sobre a guerra do Iraque que a República Islâmica era um “desafio iminente”, “negativo e desestabilizador”, que precisava ser “confrontado e transformado”. Seu apelo por mudança de regime no Irã foi acompanhado por um coro de líderes neoconservadores nos Estados Unidos, parlamentares de ambos os partidos e um número crescente de elites europeias. Daí a importância de compreender com precisão a política externa e a estratégia de segurança nacional iranianas. Pois, se o mito da irracionalidade da República Islâmica não for desfeito, a crença ocidental de que a guerra com o Irã é inevitável acabará se tornando uma profecia autorrealizável.



