O fim das castas guerreiras no Mundo Islâmico: o caso dos Mamelucos e dos Janízaros

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O artigo de hoje se pretende a fazer uma discussão histórica com duas castas guerreiras dentro do Mundo Islâmico – os mamelucos e janízaros –,  bem como de sua ascensão e queda e entender paralelos em comum, e as consequências do seu fim. As castas guerreiras são, por definição, um estamento ou agrupamento social que desempenha, dentro de uma determinada conjuntura social, a função de guerrear. A maioria das sociedades têm ou tiveram esse tipo de organização. E elas existem porque de alguma forma a guerra desempenha um papel importante nas dinâmicas sociais. O que diferencia, no entanto, uma casta das outras categorias, ou mesmo dos exércitos modernos é: a) O sentimento de grupo; b) A hereditariedade sanguínea – substituído pelo corporativismo nas sociedades contemporâneas; e c) O prestígio adquirido pela posse de armas.

Antes de irmos ao cerne de nossa análise, cabe aqui uma nota introdutória. Por que existem e/ou existiram as Castas Guerreiras? Em primeiro lugar, de acordo com Karen Armstrong:

“Lutar e obter riquezas eram inseparáveis e interconectados: libertos da necessidade de realizar trabalho produtivo, os nobres tinham o lazer de cultivar suas habilidades marciais. Certamente lutavam por honra, glória e pelo simples prazer da batalha, mas a guerra era, ‘talvez acima de tudo, uma fonte de lucro, a principal atividade do nobre’.” (ARMSTRONG, 2014, p. 84)

Em suma, antes da era industrial, a maioria das sociedades eram de cunho agrário, o que quer dizer que a base de sua sustentação era a agricultura. No entanto, os recursos agrícolas são finitos, têm um limite para o máximo de crescimento possível dentro daquele contexto. E isso se dá por muitos fatores, o esgotamento do solo, a presença de pragas, secas, inundações. E em segundo lugar, e também como consequência da realidade supracitada, classes guerreiras existiam como uma demanda social para manutenção da ordem pré-estabelecida – um exemplo disso é a ordem feudal que dividia as pessoas em clérigos, GUERREIROS, e servos. Dito isso, os reinos islâmicos, sendo reinos agrários, alguns em terras pouco férteis, também disponham de setores voltados à guerra e à defesa.

Os mamelucos

Os mamelucos (mamlūk, singular; mamālīk, plural), significa “controlado” ou “possuído” (no sentido de ser posse de alguém), surgiram a partir de soldados escravos formados no Califado Abássida (séc. IX). A maioria desses soldados escravos eram de origem étnica diversa, como curdos, albaneses, circassianos, búlgaros, gregos etc. Essa prática pode ser remontada a 625, quando soldados escravos africanos foram mencionados servindo sob Muhammad e o Califado Rashidun, passando pelos omíadas, no entanto, o uso em larga escala tornou-se prevalente apenas em meados do século IX.  O primeiro governante muçulmano a formar um exército de soldados escravos, antes dos califas abássidas, parece ter sido Ibrahim I ibn al-Aghlab (800–812), fundador dos aglábidas de Ifriqiya.

Três mamelucos com lanças a cavalo. Daniel Hopfer (ca 1470-1536).

A compra de escravos militares de diversas etnias era uma prática comum, e no caso da Dinastia Mameluca, ser auto-perpetuante, e atendia a dois critérios estratégicos. O primeiro era a formação de uma guarda especializada unida por laços de fidelidade direta aos Sultões. E a segunda, surge pela perícia desses grupos, a maioria turcos, no domínio da arquearia montada, que garantiu posição vantajosa contra os francos e bizantinos. A própria dinastia aiúbida se cercou desses escravos para garantir seu poderio, sendo Saladino um grande proprietário desses. A maior diferença desses escravos guerreiros para com os demais se devia ao seu status superior, garantido pela posse de armas e pela possibilidade de galgar novos postos na carreira militar. E, na maioria das vezes, alcançar a sua liberdade por tempo de serviço. Muitos desses guerreiros-escravos, acabaram por se tornar tropas sob o comando direto dos Sultões. Devido ao seu status social mais alto em relação aos escravos que executavam atividades domésticas, eles usufruíram de treinamento militar e educacional. Os mamelucos eram ensinados a ler e escrever a língua árabe, assim como a aderir, e posteriormente se converter, à religião islâmica. Com o tempo, essas milícias foram ganhando poder político, e no caso dos mamelucos, a identificação com a escravidão era um fator de coesão grupal, de modo que muitas delas foram responsáveis por golpes de Estado e, no caso egípcio, a criação de uma dinastia. 

A ascensão dos mamelucos ao poder no Egito deve ser compreendida dentro da conjuntura específica do século XIII, quando a dinastia aiúbida enfrentava pressões simultâneas das Cruzadas e da instabilidade sucessória. O momento decisivo ocorreu em 1250, durante a Sétima Cruzada liderada por Luís IX da França, quando o sultão al-Salih Ayyub morreu durante o cerco de Damieta. Essa morte precipitou uma crise dinástica que os mamelucos bahríes – assim denominados porque seus quartéis localizavam-se na ilha de Rawda, no Nilo – souberam explorar estrategicamente. Com a queda dos aiúbidas, o sultanato estabeleceu um sistema político singular, operando através de um mecanismo meritocrático militar que rejeitava explicitamente a hereditariedade dinástica. Diferentemente de outras casas reinantes baseadas na linhagem sanguínea, os sultões mamelucos não podiam transmitir o poder aos seus descendentes, criando um sistema de competição controlada entre os comandantes militares mais influentes. Além disso, o sistema iqta, baseado na concessão de terras em troca de serviço militar, garantia a sustentação econômica dessa estrutura complexa, perpetuando o poder mameluco por quase três séculos. A expulsão definitiva dos cruzados da Terra Santa, culminando na conquista de Acre em 1291, e as vitórias contra os mongóis em batalhas cruciais como Ain Jalut (1260) legitimaram seu poder. Foi nesse contexto que reavivaram o califado, que os mongóis haviam destruído em 1258, e instalaram um califa sob sua vigilância no Cairo. Seu patrocínio aos governantes das cidades sagradas da Arábia, Meca e Medina , só aumentou sua influência. O sucesso espetacular na guerra e na diplomacia foi sustentado economicamente pelo apoio dos mamelucos à indústria e ao artesanato, bem como pela restauração do Egito como a principal rota comercial e de trânsito entre o Oriente e o Mediterrâneo.

A queda de Trípoli (Líbano) para os mamelucos, abril de 1289.

Porém, a partir do século XVI, uma nova potência emerge no mundo Islâmico, o Império Otomano, que derruba o Sultanato Mameluco e torna o Egito uma província imperial. Eles mantém, porém, os mamelucos como classe dominante, ao mesmo tempo que estimulam as disputas internas. Os filhos dos mamelucos eram excluídos de servir em qualquer regimento que não fosse o de escravos e de ocupar cargos reservados aos mamelucos no Estado. Mas, sob o domínio otomano, esses privilégios não eram mais negados aos filhos, de modo que os princípios de lealdade e solidariedade mameluca foram minados por laços de parentesco. Consequentemente, em vez de se agruparem em facções militares que não durassem mais do que a vida de seus membros, os mamelucos otomanos formaram “casas” que se perpetuavam por meio de seus filhos. A importância dessas casas surgiu das tentativas de cada casa de dominar as demais; assim, um novo elemento de instabilidade, perpetuado pela hereditariedade, foi introduzido na instituição mameluca.

E foi esse elemento que trouxe a ruína. 

Com o tempo, os mamelucos se tornaram uma elite conservadora resistente a quaisquer mudanças e apegados aos seus código de conduta e táticas militares. Acontece que a instituição foi formada no século IX, e os elementos que a fizeram inovadora à época tinham se tornado obsoletos. Essa obsolescência militar pôde ser comprovada quando no século XVI se debateram com as forças otomanas, que já dominavam o uso de armas de fogo, contra as quais a outrora poderosa cavalaria Mameluca nada poderia fazer. Quando, porém, eles se tornaram uma casta nobiliárquica, no sentido mais clássico da palavra, o conservadorismo estava mais voltado a manter o jogo de poder do que ao domínio militar, de modo que eles eram uma casta guerreira apenas nominalmente, resistindo a qualquer forma de modernização. Quando os exércitos de Napoleão invadiram o Egito, mais uma vez ficou comprovada a ineficácia. O golpe final veio quando Muhammad Ali Pashá promoveu um massacre dos mamelucos em 1811, marcando o fim da ordem, num evento conhecido como “Massacre da Cidadela”, onde cerca de 400 mamelucos foram assassinados.

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O Massacre dos Mamelucos no Cairo. Horace Vernet, 1819.

Os janízaros

Os janízaros surgem como uma força militar de Elite, no mesmo esteio da escravidão militar. O seu uso se instituiu sob o sultão Murad I, a partir um tributo cobrado da população Dhimi – cristãos e judeus sob proteção muçulmana, apesar de não haver registros de judeus servindo no corpo dos janízaros – o devşirme. Esse imposto consistia em levar meninos de 8 a 18 provenientes dos Bálcãs para servirem ao Estado Otomano como guardas de elite dos Sultões. Nesse sistema, as crianças das populações cristãs rurais dos Bálcãs eram recrutadas antes da adolescência e criadas como muçulmanas. Ao atingir a adolescência, essas crianças eram matriculadas em uma das quatro instituições imperiais: o palácio, os escribas, o clero muçulmano e o exército. Aqueles matriculados no exército se tornariam parte do corpo dos janízaros (1363) ou parte de outro corpo. Os mais promissores eram enviados para a escola do palácio (Enderûn Mektebi), onde eram destinados a uma carreira dentro do próprio palácio e podiam atingir o mais alto cargo de estado, Grão-vizir , o poderoso ministro-chefe e deputado militar do sultão. 

Agha dos Janízaros e um Bölük dos Janízaros. Lambert Wyts, 1573.

O sistema devşirme, entretanto, não estava alheio à críticas, uma vez que dentro do escopo religioso consistia uma clara violação da lei islâmica em relação ao direito dos Dhimis, e quanto à conversão forçada. Não poucas vezes acabou gerando revoltas que eram duramente reprimidas, como a revolta albanesa do século XV. No entanto, não poucas pessoas viam nele uma oportunidade de ascensão social.

À medida que o corpo dos janízaros foi se consolidando enquanto corporação de elite no Império Otomano, mais ganhava espaço político e poder de influência no palácio do Sultão. A consequência disso foi que nenhum governante otomano poderia ignorar suas reivindicações sem temer represálias e mesmo assassinatos. No final do século XVI, o sultão otomano Selim II cedeu às pressões do Corpo de Janízaros e permitiu que crianças janízaras se tornassem membros do Corpo, uma prática estritamente proibida por 200 anos. Consequentemente, as regras de sucessão, antes rígidas, tornaram-se abertas à interpretação. Eles ganharam seu próprio poder, mas impediram que o sistema mudasse de outras maneiras progressivas. Já no século XVII eles eram uma força que ameaçava a estabilidade do império. Um dos eventos que personifica isso é o assassinato do sultão Osman II. A partir daí, uma série de revoltas janízaras marcaram o tom da relação com o Império. De guardas de elite para uma verdadeira casta corrupta e reacionária, resistindo a toda mudança de modernização proposta. Esse período também marcou a decadência do Império Otomano. 

O fim da casta aconteceria sob o Sultão Mahmud II em um evento chamado “Incidente Auspicioso”. Após décadas de crescente tensão e insurreições que minavam a autoridade central, decidiu empregar uma estratégia calculada para eliminar essa casta guerreira que havia se transformado numa fonte permanente de instabilidade política. Usando as palavras da historiadora Caroline Finkel: “Mahmud II então exibiu o estandarte sagrado do Profeta Muhammad, convocando todos os verdadeiros crentes a se reunirem sob ele e, assim, reforçar a legitimidade de seu ataque contra os janízaros rebeldes.” (FINKEL, 2012, p. 586). O sultão deliberadamente provocou a insurreição janízara ao anunciar, mediante fatwa religiosa, a criação de um novo exército moderno organizado segundo padrões europeus (Sekban-Cedit), sabendo que tal medida seria percebida como uma ameaça existencial pelos janízaros e os levaria inevitavelmente à revolta. Preparando-se discretamente durante anos para esse confronto, Mahmud II conseguiu tomar as medidas necessárias para o cerco coordenado dos quartéis janízaros com artilharia e o ataque pelos flancos através dos sipahis, eliminando assim, de uma só vez, tanto a resistência física quanto a justificativa moral da corporação. Além disso, o Imperador conseguiu preparar a população civil, já descontente com com os abusos e corrupção, de tal modo que o massacre foi tido como, se não como justificado, pelo menos como inevitável.

Um mosqueteiro janízaro. Todo o corpo de janízaros foi dissolvido durante o Incidente Auspicioso. Christoph Weigel baseado no trabalho de Caspar Luyken, 1703.

Em 1602, Miguel de Cervantes pública D. Quixote de La Mancha, um dos maiores clássicos da literatura que, a priori, nasce como uma sátira aos livros de cavalaria. No entanto, há um locus social, usando as palavras de Bourdieu, que é interessante ao nosso tema. O Fidalgo que mais tarde se tornaria o Cavaleiro da Triste Figura é descrito pelo autor como um “dos de lança em cabide, rocim magro e galgo corredor”. Ou seja, membro de uma nobreza que há muito abandonara as armas e só vivia dos impostos que não pagava e em uma completa decadência. De tal modo que os romances de cavalaria representavam esse retorno a uma gloriosa era, fantasiosa, em que ele era relevante. O resto do romance é essa tentativa de viver numa Espanha rural e barroca, as aventuras dos romances que o enlouqueceram. A cena dos moinhos de vento é a mais emblemática. Mas já dizia o nosso poeta Cartola “o mundo é um moinho, vai triturar teus sonhos tão mesquinhos, vai reduzir as ilusões a pó”. A obsolescência tecnológica e militar é uma realidade que muitas das casas guerreiras não conseguem admitir e acabam, como no caso dos fidalgos, mamelucos e janízaros, criando uma entidade mitológica que já não serve à realidade social que mudou.

De igual modo, e com tintas mais rubras, pode ser vista a decadência dos samurais durante a era Meiji (1868). A abolição de privilégios feudais, iniciada com a emissão dos editos de 1869–1871, liquidou as terras dos daimios e, em seguida, a reforma tributária substituiu o pagamento em kokudaka por impostos monetários, corroendo a base econômica da classe samurai. Em 1873, a instituição do serviço militar obrigatório – o Conscripção Ordinária – retirou dos samurais o monopólio da função bélica, convertendo todos os cidadãos em soldados em potencial. O golpe final veio com o edito de Haitōrei (1876), que proibiu o porte de armas em público. A medida visava combater os ronīn, samurais sem senhor, que haviam se tornado arruaceiros anacrônicos, e minou o status simbólico destes. Houve tentativas de resistência, como a revolta de Satsuma, mas esta foi rapidamente controlada e o restante deles teve que se incorporar à sociedade. Em resumo, os tempos mudam, e com eles, a guerra. O alistamento militar moderno, o uso de novas tecnologias, o deslocamento social – e a teimosia de insistir em um tempo passado –, todos eles serviram como fator de queda dessas classes guerreiras. 

Referências

BOGONI, Annie Venson. Escravidão como identidade: os mamelucos turcos no Egito medieval. São Paulo: Conselho Editorial, [s.d.]. p. 46.

ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Janissary. 7 mai. 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Janissary.

ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. Mamluk. 7 abr. 2020. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Mamluk-soldier. Acesso em: 21 jul. 2025.

FINKEL, Caroline. Osman’s Dream: the story of the Ottoman Empire, 1300–1923. London: John Murray, 2005. xix, 660 p. ISBN 0719555132.

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