Desde 2007, quando o controle político da Faixa de Gaza mudou, Israel impôs um bloqueio terrestre, marítimo e aéreo ao território, restringindo drasticamente a entrada e saída de pessoas e mercadorias. Esse bloqueio, justificado por Israel sob a lógica da “segurança nacional”, na prática transformou Gaza em um espaço sitiado, submetido a um regime de controle total que define desde a quantidade de alimentos que entram até os itens considerados “permitidos” para uso civil. Documentos oficiais revelaram, inclusive, que autoridades israelenses calcularam o número de calorias mínimas necessárias para evitar uma crise de fome completa, mas ainda assim impor desnutrição crônica à população. Esse gerenciamento biopolítico da sobrevivência dos palestinos, principalmente de Gaza, é um exemplo paradigmático do que estudiosos como Sara Roy chamam de “des-desenvolvimento deliberado”.
O bloqueio ao longo dos anos não se limitou a alimentos, mas também atingiu medicamentos, combustível e insumos básicos. Hospitais frequentemente relatam escassez de equipamentos vitais, como máquinas de diálise, remédios oncológicos e anestésicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, dezenas de pacientes, incluindo crianças, morreram nos últimos anos por não conseguirem permissões de saída para tratamento médico fora de Gaza. A política israelense, nesse contexto, não apenas limita a economia local e destrói a infraestrutura social, mas impõe um controle direto sobre a própria vida biológica da população palestina, regulando quem pode viver e em quais condições.
O isolamento de Gaza também tem dimensões coletivas: além da restrição a mercadorias e pessoas, Israel impôs um controle sobre o espaço aéreo e marítimo, restringindo a pesca a poucos quilômetros da costa e destruindo sistematicamente áreas agrícolas próximas à fronteira. Esse cerco econômico e territorial é complementado por ofensivas militares periódicas que devastam a infraestrutura já precária, tornando a reconstrução praticamente impossível sob as condições de bloqueio. A população, majoritariamente composta por refugiados de 1948 e seus descendentes, vive em um estado de encarceramento coletivo, sem acesso pleno ao mundo exterior.
Durante o atual genocídio em Gaza, iniciado em outubro de 2023, o bloqueio adquiriu proporções ainda mais brutais. Israel declarou um “cerco total”, interrompendo completamente o fornecimento de água, energia elétrica, combustível e alimentos. Autoridades israelenses afirmaram abertamente que Gaza não receberia nem “uma gota de água” até que seus objetivos militares fossem cumpridos. Esse bloqueio humanitário deliberado, amplamente documentado por agências da ONU e ONGs internacionais, constitui uma violação direta do Direito Internacional Humanitário, que proíbe o uso da fome como método de guerra (Convenção de Genebra, art. 54).
A fome passou a ser empregada como arma estratégica. Relatos das Nações Unidas apontam que mais de 80% das famílias palestinas em Gaza enfrentam insegurança alimentar grave, com casos crescentes de desnutrição infantil, sobretudo no norte do território, onde comboios humanitários foram sistematicamente barrados ou atacados. Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha e outras organizações denunciaram repetidamente que caminhões de ajuda foram impedidos de entrar ou retidos por semanas em fronteiras sob controle israelense. O resultado é um colapso humanitário sem precedentes, em que a população civil é intencionalmente levada à fome e à morte lenta como parte de uma política calculada de guerra.
Diante desse contexto de bloqueio prolongado e intensificado, surgem iniciativas internacionais de solidariedade popular para desafiar a hegemonia israelense no controle do acesso a Gaza. Entre elas, estão as flotilhas civis que, desde 2010 com a famosa Freedom Flotilla, buscam romper simbolicamente o cerco marítimo. Essas embarcações, compostas por ativistas, parlamentares, médicos e jornalistas, carregam suprimentos humanitários e tentam chegar diretamente à costa de Gaza, enfrentando o risco de interceptação violenta pela marinha israelense.
Em 2025, a iniciativa da Flotilha Sumud (do árabe صمود, “resistência firme”) ganhou destaque como a maior tentativa já organizada para romper o bloqueio. Com dezenas de embarcações e ativistas de diferentes continentes, a flotilha foi organizada como um ato de desafio não apenas logístico, mas político e moral, denunciando o caráter ilegal e desumano do cerco. Diferente de iniciativas anteriores, a Sumud enfatiza a necessidade de ação conjunta da sociedade civil global para responsabilizar Israel por crimes de guerra e garantir que Gaza não permaneça isolada do mundo.
Segundo os organizadores, a Sumud carrega não apenas ajuda material, mas também uma mensagem simbólica: a de que o bloqueio não pode ser naturalizado. Inspirada por princípios de solidariedade internacionalista e resistência pacífica, a flotilha reafirma que a liberdade de Gaza é indissociável da dignidade humana universal. Em meio a um genocídio em curso, a ação da Sumud ecoa como uma denúncia viva e arriscada contra o uso da fome como arma e contra o encarceramento coletivo de mais de dois milhões de pessoas, representando um esforço da sociedade civil em desafiar a política de cerco e afirmar o direito fundamental dos palestinos à vida, direito esse que lhes são negados em todos os âmbitos possíveis da existência pelo regime sionista.
É assim, nesse contexto de desafio à um regime necropolítico, genocida e de apartheid que opera uma catástrofe humanitária proposital contra o povo palestino que o idealizador e fundador do projeto História Islâmica, Mansur Peixoto, está embarcando na Flotilha Sumud. Mansur, ao decidir integrar a flotilha, marca um acontecimento sem precedentes entre os produtores de conteúdo brasileiros engajados na questão palestina — sendo o único precedente comparável a participação do ativista Thiago Ávila no passado, junto da conhecida ativista climática Greta Thunberg, a bordo do veleiro Madleen, tendo sido detidos pelas forças de ocupação israelenses antes de chegarem a seu destino. Sua presença nessa missão de resistência internacional não apenas projeta a causa palestina em um novo patamar de visibilidade dentro do Brasil, mas também reforça um elo de solidariedade concreta com a comunidade árabe e muçulmana do país, que historicamente tem denunciado o bloqueio de Gaza, mas raramente contou com figuras midiáticas dispostas a arriscar-se pessoalmente em ações diretas.
Obviamente que é uma missão perigosa, afinal, a flotilha se encaminha para uma região assolada por guerra e genocídio de uma potência nuclear amplamente apoiada pelas potências ocidentais… mas o olhar da história está atento sobre nós todos, e ele será implacável com aqueles que apoiaram ou se omitiram diante do primeiro genocídio e limpeza étnica transmitidos em tempo real. Arriscar-se para expor a verdade numa era de pós-verdade é o mínimo que se pode fazer.
Referências
REUTERS. Largest flotilla for Gaza hopes to pressure Israel to end blockade. 29 ago. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/largest-flotilla-gaza-hopes-pressure-israel-end-blockade-2025-08-29/.
ANADOLU AGENCY. Massive civilian flotilla set to sail for Gaza late August to break Israeli siege. 21 ago. 2025. Disponível em: https://www.aa.com.tr/en/middle-east/massive-civilian-flotilla-set-to-sail-for-gaza-late-august-to-break-israeli-siege/3650424.
Z NETWORK. Global Sumud Flotilla: We are sailing to Gaza – Here’s why. 19 ago. 2025. Disponível em: https://znetwork.org/znetarticle/global-sumud-flotilla-we-are-sailing-to-gaza-heres-why/.
GENEVA CONVENTION relative to the Protection of Civilian Persons in Time of War. Geneva, 12 August 1949.
GISHA. Scale of Control: Israel’s Continued Control of Gaza. Tel Aviv, 2018.
REUTERS. Israel blocks aid trucks bound for Gaza. Reuters, 2023. Disponível em: https://www.reuters.com.
ROY, Sara. Engaging the Islamist Social Sector. Princeton: Princeton University Press, 2016.
WHO. Health access in the occupied Palestinian territory. Geneva: World Health Organization, 2018.
WHO. Situation report: Gaza crisis 2024. Geneva: World Health Organization, 2024.



