Gangue de exterminadores veteranos da Guerra do Iraque foi contratada para distribuir comida em Gaza

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A operação de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, um esforço supostamente destinado a aliviar o sofrimento de uma população faminta, está sendo marcada pelo uso de mercenários e outros grupos de índole no mínimo duvidosa. Dentre esses grupos, podemos vislumbrar a contratação de membros de uma notória gangue de motoqueiros norte-americana, a Infidels MC (Infiéis Motoclube), para gerir a segurança dos locais de distribuição de alimentos. Fundada por veteranos da Guerra do Iraque, esta organização não apenas carrega um histórico de retórica e atos anti-islâmicos, como também se autodenomina de “cruzados modernos”. A presença desses homens, financiados indiretamente pelo governo dos EUA, expõe a hipocrisia e a brutalidade que podem se esconder sob o véu da caridade internacional.

A ideologia da Infidels MC é abertamente hostil e se manifesta em seus símbolos e ações. Seus membros ostentam tatuagens com a data “1095”, o ano em que o Papa Urbano II convocou a Primeira Cruzada, um evento histórico marcado por massacres de muçulmanos e judeus, bem como de outros grupos cristãos (como o caso dos cristãos ortodoxos em Constantinopla na Quarta Cruzada). A gangue, que se opõe ao “movimento jihadista” e ao “extremismo islâmico”, já organizou eventos como um “assado de porco” durante o Ramadã, um ato deliberado de provocação e desrespeito. Essa mentalidade beligerante foi transportada para Gaza, onde sete membros da gangue ocupam cargos de liderança sênior, supervisionando a distribuição de ajuda a civis predominantemente muçulmanos. É no mínimo de uma inocência infantil acreditar que esses sujeitos estão lá pois se comoveram com a dor de outro ser humano.

A liderança da operação em Gaza reflete o caráter reconhecidamente problemático da gangue. Johnny “Taz” Mulford, o líder do grupo e ex-sargento do Exército dos EUA, atuou como “chefe da equipe local” para a empresa de segurança UG Solutions. Mulford não é um veterano qualquer; ele foi punido anteriormente por associação criminosa para cometer o crime de suborno; por roubo e por prestar falsas declarações às autoridades militares. Foi ele quem usou as redes sociais para recrutar outros veteranos com habilidades de combate, prometendo salários que chegam a 1.580 dólares por dia para líderes de equipe, transformando a crise humanitária em uma oportunidade de negócio lucrativo para seus companheiros de gangue.

A cultura de violência e provocação é ainda mais evidenciada por outros membros. Josh Miller, um líder de equipe em Gaza, postou uma foto de contratados segurando uma faixa com os dizeres “Make Gaza Great Again”, uma apropriação do slogan de Trump que carrega um tom de escárnio e dominação. A faixa divulgava sua empresa de vestuário, que vende camisetas com slogans como “abrace a violência” e “Surfe o dia todo, foguetes a noite toda. Verão de Gaza 25”.

Este ato de transformar o genocídio em mercadoria revela um profundo desprezo pela vida palestina e uma celebração da destruição, tudo isso enquanto supervisionam a entrega de comida a pessoas desesperadas. Certamente essas pessoas não estão em Gaza por um zelo humanitário, mas pelo mais puro sadismo em ver um semelhante sofrendo, afinal se trata de uma população majoritariamente islâmica, então está “justificado” dentro dessas mentes doentias e perversas. Isso, claro, se eles próprios não possuírem o intuito de ocasionar mais vítimas.

O resultado da presença dessa milícia privada nos locais de ajuda tem sido catastrófico. Relatórios de especialistas das Nações Unidas indicam que pelo menos 859 pessoas foram mortas perto dos locais de distribuição da Fundação Humanitária de Gaza (GHF) desde maio. As acusações são de que forças israelenses e seguranças privados têm usado “fogo aberto e indiscriminado contra pessoas que procuram ajuda”. O modelo militarizado de distribuição de ajuda, dependente de veteranos com mentalidade de combate em vez de profissionais com experiência em ajuda humanitária, criou um ambiente de caos mortal, onde buscar um saco de farinha pode ser uma sentença de morte.

A indignação com essa situação chegou ao Congresso dos EUA. O deputado Sean Casten e o senador Pete Welch expressaram sua revolta, classificando a Infidels MC como um “grupo de ódio islamofóbico”. Casten liderou uma tentativa fracassada de proibir o financiamento governamental para a GHF, afirmando ser “inaceitável que os Estados Unidos financiem uma organização ligada a um grupo de ódio islamofóbico”. A denúncia dos legisladores aponta para uma cumplicidade direta do governo dos EUA na criação de um cenário perigoso e mortal, onde agressores ideológicos são pagos com dinheiro público para policiar suas vítimas.

A contratação da Infidels MC não é um desvio ou um acidente, mas a manifestação de uma ideologia profundamente enraizada no establishment de segurança americano após o 11 de setembro. É o produto da “Guerra ao Terror”, que institucionalizou a islamofobia e a desumanização de muçulmanos. A presença da gangue em Gaza é a continuação lógica de uma política externa que vê o mundo através de uma lente de “confronto de civilizações”, onde a violência de mercenários como os da Blackwater no Iraque é justificada e replicada. A Infidels MC é, portanto, a “Blackwater renascida em jaquetas de couro”, conforme expressão utilizada por Benjamin Ashraf do Mondoweiss. É um sintoma de um império que projeta seu preconceito como política de segurança.

A comparação mais contundente veio de grupos de direitos civis. Edward Ahmed Mitchell, do Conselho de Relações Americano-Islâmicas (CAIR), resumiu a absurdidade da situação nos seguintes dizeres: “Colocar o clube de motoqueiros Infidels no comando da entrega de ajuda humanitária em Gaza é como colocar a KKK no comando da entrega de ajuda humanitária no Sudão. Não faz o menor sentido”. Não é possível acreditar que isso foi um engano e não uma escolha deliberada.

As respostas das organizações envolvidas foram evasivas e defensivas. A UG Solutions afirmou que não seleciona funcionários com base em “hobbies ou afiliações pessoais”, uma desculpa esfarrapada que ignora o fato de que a ideologia da gangue é central para sua identidade e diretamente conflitante com uma missão humanitária. A GHF, por sua vez, declarou ter uma “política de tolerância zero para qualquer preconceito ou conduta odiosa”, uma afirmação que se torna vazia diante da esmagadora evidência de que contrataram, precisamente, um grupo de ódio para executar suas operações. O nome, a identidade, a ideologia fundante, absolutamente tudo no Infidels MC destila preconceito. Caso a política de tolerância zero da GHF fosse real, essa gangue de criminosos em duas rodas sequer seria cogitada, quem dirá contratada e defendida por respostas evasivas e insuficientes.

Com o financiamento de contribuintes americanos, um grupo que celebra a violência e o ódio religioso foi encarregado de supervisionar civis desesperados, resultando em um banho de sangue. A política moderna, em especial dos países que se arrogam na posição de defensores da liberdade, democracia e direitos humanos, na verdade demonstra uma terrível falência moral nunca antes vista.

Referências

ASHRAF, Benjamin. The Islamophobic biker gang running Gaza aid sites is just the U.S. empire in a leather jacket. The Intercept, 2025.

CARLOTTI, Tatiana. Gangue de motoqueiros anti-Islã é contratada como ‘segurança’ para locais de ajuda em Gaza. Opera Mundi, 2025.

EICHNER, Itamar. Gaza aid group hires anti-Islamic biker gang members, sparking backlash. Ynet News, 2025.

SLEDGE, Matt. Gaza Aid Security Contractor Hired Members of “Islamophobic Hate Group” Biker Club, Dem Rep Says. The Intercept, 2025.

THE TIMES OF ISRAEL. Report: Staff at Israel-backed Gaza aid sites include members of anti-Islam biker gang. The Times of Israel, 2025.

VERITY, Andy; BEAL, Tom; DAHLGREEN, Will. Anti-Islamic US biker gang members run security at deadly Gaza aid sites. BBC News, 2025.

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