Texto de Lucas Ralla, Mansur Peixoto e Renzo Santos.
No mundo antigo, um eunuco era um homem que havia sido castrado, geralmente na infância ou início da adolescência, e era vendido ou apenas enviado para um corte real com o objetivo de lá servir, segundo os desígnios do soberano do qual era súdito. Assim, esses escravos e/ou servos castrados eram comumente empregados em papéis de confiança e influência, especialmente em cortes de residência real e palácios em diversas civilizações ao redor do mundo. Eles eram vistos como homens de confiança, pois não representavam uma ameaça sexual às mulheres da realeza ou da aristocracia, possuindo uma função política elevada. Eunucos também eram valorizados por suas habilidades administrativas e de gerenciamento, já que eram excluídos de certas ambições políticas e militares pessoais comuns a homens com prole e ambições dinásticas. A lógica milenar da função, imoral aos olhos modernos, fica expressa da melhor forma nas palavras do vizir e pensador político seljúcida medieval Nizam al-Mulk (1018-1092):
“Um escravo obediente é melhor do que trezentos filhos pois estes desejam a morte do pai, enquanto aqueles desejam a glória do seu mestre”.
– Siyāsatnāmeh
Eunucos seriam sempre leais para se perpetuar no poder, enquanto herdeiros de sangue seriam somente enquanto fosse útil para sua própria ascensão. Um bom eunuco, para fins da ordem e mitigação das disputas, era melhor do que um filho.
Os eunucos desempenharam papéis importantes em vários impérios agrários antigos, como o Egito, a Pérsia, a China, Índia e o Império Romano. Eles ocupavam posições de poder e influência, servindo como conselheiros, administradores e até mesmo generais, com muitos deles tendo ascendido a diversas posições influentes, como foi bem notável nas diferentes dinastias imperiais chinesas – que usavam extensivamente o emprego de eunucos palacianos até recentemente na história (o último eunuco imperial chines, Sun Yaoting, só foi dispensado da função em 1945, vindo a falecer em 1996 aos 94 anos).
Imperatriz bizantina Teodora e sua corte cristã (meados do século VI). O eunuco-chefe de Teodora segura a cortina.
Um grupo de eunucos em um mural do túmulo do príncipe Zhanghuai, 706 d.C. Os eunucos foram parte de diversos impérios – principalmente os chineses, até o advento do século XX.
No Império Otomano, entidade política com duração de 623 anos, os eunucos, negros e brancos, dos palácios dos sultões – de Edirne até Istambul – eram particularmente poderosos, atuando como guardiães do harém imperial e ocupando cargos de alto escalão na administração do império. Porém a prática de seu emprego só se tornou largamente adotada a partir do auge do império no final dos anos 1500, e não em seus anos iniciais. Isto foi devido ao rápido aumento da população do Palácio de Topkapi, incluindo entre os eunucos, cujos números aumentaram de 40 sob Selim I (r. 1512–1520) para mais de mil sob Murad III (r.1574-1595). Alguns eunucos otomanos, principalmente os de origem africana, chegaram a alcançar grande poder, influência e riqueza na estrutura e sociedade imperial, demonstrando a importância desse grupo no complexo sistema político e social do Império Otomano.
O sistema de eunucos otomanos foi fortemente influenciado pelos de governos islâmicos anteriores, incluindo os Abássidas, os Grandes Seljúcidas e suas várias dinastias subordinadas no Iraque, Irã e Ásia Central; os Seljúcidas de Rum na Anatólia; e o Sultanato Mameluco no Egito, Síria e sudeste da Anatólia. Cabe lembrar também que os otomanos sofreram a influência de dinastias não muçulmanas, principalmente os bizantinos, que foram modelos diretos para as instituições da corte otomana, embora certamente não os únicos modelos. Alguns desses eunucos tornaram-se famosos como, foram os casos de Hadim Mesih Pasha, um súdito otomano de origem bosníaca, que foi castrado após ser colocado na corte otomana, e Gazanfer Agha, um escravo de origem europeia, que foi castrado e entregue aos serviços do palácio imperial otomano. [1]
Eunuco negro otomano em seus trajes imperiais (c. 1809)
Os eunucos do Império Otomano vinham de duas origens principais, em sua maioria: o território europeu sob controle direto otomano (eunucos brancos) na Europa e suas adjacências, e regiões fora do Dar ul-Islam – ou seja, fora do território controlado pelos otomanos e seus aliados e/ou protegidos – na África (eunucos negros). Os eunucos brancos vindos das regiões imperiais da Europa (Bálcãs e Cáucaso) eram obviamente castrados nesses territórios. Isso significa que o Estado otomano era leniente no processo. As fontes otomanas fazem uso de discrição quanto ao papel do governo nisso por omissão (talvez pela prática ser proibida no Islã), mas dizem o suficiente para que se possam tirar inferências. No entanto, relatos estrangeiros, nem sempre os mais confiáveis ou menos sensacionalistas, relatam que a prática de castração dentro do Império, e até mesmo na própria corte, ocorria. Os eunucos negros, por outro lado, vieram da África subsaariana; especialmente do Sudão Bilad al-Sudan e da Etiópia/Abissínia. [2]
Esses africanos eram, principalmente, provenientes da África Central (Waday, Bornu, Bagirmi) e do Sudão (bacias do Nilo Branco e Azul, Cordofão e Darfur); já os etíopes eram trazidos do oeste da Etiópia, principalmente dos principados de Galla, Sidamo e Gurage. Da África, eles eram transportados pelas rotas do Deserto do Saara, pelo planalto etíope, pelo Mar Vermelho, pelo Vale do Nilo, pelo Golfo Pérsico e pelas rotas de peregrinação de e para a Arábia. Escravos circassianos, georgianos e de outras etnias chegavam ao império vindos do montanhoso Cáucaso. Dos gélidos cumes, os caucasianos eram transportados através do Mar Negro, da Anatólia/Armênia e do Mediterrâneo.
Antes de chegar nas terras otomanas, esses escravos geralmente eram castrados em centros de castração especializados fora do controle otomano para servir ao comércio de eunucos, que geralmente era mais lucrativo do que o simples comércio de escravos. Os castradores eram, em sua maioria, padres e religiosos coptas, que faziam essas operações nos confins do Egito e já detinham uma certa ‘proficiência ancestral’ na prática, herdada dos períodos bizantino e egípcio ptolomaico antigo. A prática era comum na região há milênios, e transcendia todos os tabus religiosos. Há uma menção a centros de castração — chamados de “lugares terríveis, semelhantes a matadouros” em um decreto imperial que avalia suas situações, nas cidades de Jirya, Fayyum e do Cairo.
A corte de eunucos negros e o eunuco chefe do sultão Osman II (r. 1618-1622).
Essa era uma forma de escravidão antiquíssima, que foi não apenas herdada, mas também impulsionada em grande parte pela demanda de estados imperiais com grande extensão territorial, tal como foi o caso do Império Otomano. A província otomana do Egito, por sua vez, serviu como um repositório onde esses eunucos de origem subsaariana passaram e foram ensinados a serem assimilados à instituição dos eunucos já estabelecida desde tempos romanos e bizantinos na região. Portanto, o governador otomano do Egito era responsável por satisfazer a demanda das cortes otomanas por eunucos, apesar da oposição da Sharia (a lei religiosa islâmica) para com essa prática.
Enfrentando a oposição dos ulemás (sábios e jurisconsultos religiosos do Islã), a castração logo foi vetada pelos Sultões e pelos Juízes islâmicos (Qadi). Damat Ali Pasha, o Grão-Vizir do Império Otomano entre 1713 e 1716, que nomeou tanto o governador otomano local quanto os membros do judiciário no Egito para pôr fim ao uso e ao comércio de eunucos. O primeiro passo foi proibir estritamente a prática da castração. No entanto, parece que o raciocínio de Damat Ali Pasha se baseava mais em argumentos políticos do que na moralidade da questão. Alguns dos eunucos da corte otomana (Kizlar Agha ou ‘Chefe Eunuco Negro’) detinham considerável poder político e influência sobre o sultão, formando uma espécie de estado paralelo de eunucos, de modo que, em algumas ocasiões, tinham o poder de facto na corte. [3]
Os eunucos formavam uma casta social que tinha acesso às mulheres da corte devido a sua condição física, assim como aos homens, à educação dos príncipes, e a influenciar a escolha das futuras sultanas e favoritas do Harém Imperial e quem iria se tornar a próxima, não menos influente, Valide Sultana (rainha-mãe). Se a corte otomana fosse um jogo de xadrez, seriam a peça da rainha se movendo para todos os lados.
No século XVII e a Sublime Porta (Governo Central Otomano) emitiu decretos proibindo a castração de meninos com base na imoralidade da prática, seguindo a agenda dos ulemás para tentar coibir a prática, com a fatwa (decisão judicial religiosa) do Grão-Mufti de Istambul como apoio. Um deles foi um decreto imperial enviado ao governador e aos juízes otomanos do Egito. Nele, mencionava-se a castração como uma prática desumana – tanto aos olhos da Sharia quanto do Sultão – que deveria ser interrompida. Mas aparentemente os ulemás também não se opuseram ao uso dos próprios eunucos pelo estado ou pela sociedade, apesar de saberem que isso era o que impulsionava a demanda pela castração de meninos em primeiro lugar, o que os torna parcialmente cúmplices da questão.
Dizer que os eunucos eram “ilícitos” enquanto empregados levaria centenas de pessoas com altos cargos em funções estatais, religiosas e em casas nobres a total indigência da noite para o dia, afinal, eram escravos originalmente brutalizados sem família vindos de terras distantes, então condenava-se a origem pecaminosa da escravidão-castrante, porém não era desejável, do ponto de vista da piedade, arcar com o peso da ruína da vida dos já existentes. Então a missão do fim da prática da castração com a também demissão dos eunucos e a condenação para o emprego (sim, muitos eram assalariados e bastante ricos) ficava sempre para a geração seguinte, e o ciclo continuava.
Mas o que dizia a religião islâmica a este respeito em suas fontes? O costume de usar eunucos como servos para mulheres dentro dos haréns islâmicos teve um exemplo anterior na própria vida do Profeta do Islã, que teria empregado o eunuco Mabur como servidor na casa de sua consorte Mariyam al-Qibtiyya; ambos provenientes do Egito enviados pela autoridade copta. Porém Mabur não foi castrado pelo Profeta ou sob suas ordens. Numa região do mundo onde há milênios eunucos eram parte da sociedade, a posição do Profeta Muhammad era bem clara, ele disse que castrar escravos era proibido e, mais enfaticamente; “quem quer que os castre, o castraremos [também]” (Sunan an-Nasai, hadith n° 4736.) tendo ele mesmo feito seu máximo para abolir esse antigo costume dentre os muçulmanos enquanto viveu, dando a libertação compensatória imediata a um que soube ter sido castrado. [8]
O Harem Ağası, chefe dos eunucos negros do Harém Imperial Otomano. Apesar da oposição dos ulemás, os eunucos – ainda que não numerosos – formavam uma parte integral e importante da administração e vida palaciana otomana durante a segunda metade final do Império.
Obviamente que a ingerência profética em proibir a castração era a fonte da oposição dos ulemás otomanos às práticas, mas não apenas isso: a oposição dos sábios otomanos, seguidores da Escola Hanafi do Islã estava em consonância uníssona com as outras escolas, também firmes em seu repúdio à prática.
Juristas das quatro escolas clássicas (Hanafi, Maliki, Shafi’i e Hanbali – além de outras que não mais existem) proibiram a castração de seres humanos, considerando-a como uma forma de mutilação (muthla), uma violação da dignidade criada por Deus e algo que não poderia ser feito nem com o “consentimento” do escravo, pois a sua autonomia era limitada.
Imam al-Nawawi (Shafi’i) declarou em suas obras jurídicas que a castração de seres humanos era ilícita sem exceção, inclusive em tempos de guerra. Imam Malik (fundador da Escola Maliki) foi claro ao considerar haram mutilar escravos, mesmo que o objetivo fosse facilitar sua “função” na casa de seus donos. O jurista andaluz Ibn Hazm (Zahiri) denunciava todo tipo de mutilação e opressão desnecessária a escravos como sendo uma ‘inovação condenável’ (bid’ah) e, portanto, contrária à justiça divina. Ibn Qayyim al-Jawziyya, aluno de Ibn Taymiyyah (Hanbali), escreveu sobre os limites da escravidão e criticou práticas que desumanizavam os escravos, incluindo a castração forçada.
Assim, mesmo que a castração fosse feita fora dos domínios islâmicos, a compra e o uso de eunucos castrados continuava sendo problemático, pois perpetuava uma prática haram (ilícita) e réproba, mas que, ainda assim, persistia por diversos outros fatores.
Escusado dizer que, mesmo com seu ingresso absurdamente traumático no mundo dos eunucos na juventude, não havia dentro deles mesmos um imenso movimento para pôr fim a forma que lhes permitia chegar ao poder, advindos de origens das mais humildes possíveis. O mesmo pode ser dito dos janízaros.
Características dos Eunucos
Os Kizlar Agha eram os eunucos negros formalmente chamado de “Agha (chefe) da Casa da Felicidade”, tido como chefe dos eunucos que guardavam o Harém Imperial Otomano no Palácio de Topkapi, na capital imperial de Istambul. Estabelecido em 1574, o posto foi classificado entre os mais importantes da administração palaciana otomana até o início do século XIX, especialmente após a supervisão das duas cidades sagradas de Meca e Medina e de todas as fundações de caridade do Império terem passado para sua alçada. A riqueza assim acumulada, a proximidade com o sultão e o papel que as damas do harém desempenhavam nos esquemas e politicagens da corte (o chamado “Sultanato das Mulheres”) significavam que seu ocupante tinha considerável influência política; vários kizlar agha foram responsáveis pela queda de grão-vizires e pela ascensão de sultões ao trono. Logo após sua criação e até sua abolição, próximo à própria abolição do sultanato otomano após a Primeira Guerra Mundial, o posto passou a ser ocupado exclusivamente por eunucos negros africanos, como dito antes [4].
Retrato do século XVII de um Kizlar Agha junto do Sultão na corte, proveniente do Livro de Costumes de Rålamb. Wikimedia Commons.
O Kapi Agha (“Agha do Portão”), formalmente chamado de “Agha do Portão da Felicidade”, era o chefe dos servos eunucos do império Otomano até o final do século XVI, quando este posto foi assumido pelo Kizlar Agha. Em justaposição com o último cargo, também conhecido como ‘Eunuco Negro Chefe’, o Kapi Agha também ficou conhecido como “Eunuco Branco Chefe”.
O poder dos eunucos em Meca e Medina
Quando o viajante otomano do século XVII Evliya Çelebi visitou a cidade de Medina e o túmulo do Profeta Muhammad, o Rawdah Mubarak, ele disse que “havia 700 eunucos negros que serviam ao Profeta, cada um vestindo uma magnífica pele de zibelina”. [5] Esses eunucos eram servos do Eunuco-chefe, o Sheykh al-Haram, do santuário. A cidade de Medina, lar do túmulo do Profeta do Islã dentro da mesquita chamada de al-Masjid an-Nabawi (“A Mesquita Profética”), estava profundamente conectada ao Império Otomano desde a conquista do Sultanato Mameluco em 1517 e simultaneamente desconectada das estruturas padrão da autoridade imperial otomana. Nesse espaço, a contraparte de Medina, que era Meca, era governada pelos sharifs de Meca, que frequentemente se autodenominavam o “Sultões de Meca” durante o início da era moderna e mantinham, também, certas reivindicações sobre a administração da cidade de Medina e de seus santuários. No entanto, no final do século XVII, os sharifs de Meca perderam grande parte de suas reivindicações nominais sobre Medina para um poderoso líder na cidade, o então eunuco Sheykh al-Haram do túmulo do Profeta. Em Meca governavam os sharifs, e em Medina, os eunucos.
Dois eunucos negros, funcionários do Harém Imperial junto de concubinas imperiais, final do século XIX.
No século XVII, o Sheykh al-Haram era por tradição um eunuco africano que se havia aposentado do harém imperial otomano em Istambul. Essa conexão informal direta com o palácio otomano forneceu o apoio necessário ao sultão Mehmed IV, no final do século XVII, para declarar que, mesmo que Medina e a região maior do Hejaz (a porção ocidental montanhosa e fértil da Península Arábica) não fossem formalizadas em uma província otomana, o Sheykh al-Haram de Medina serviria como o “Governante de Medina”.
Investido de tamanha autoridade pelo sultão, o Sheykh al-Haram deveria não apenas zelar por seus santuários, mas também “administrar o governo” de Medina com o apoio de cerca de quinhentos soldados.[6] Esta declaração, que serviu para reconhecer o poder dos eunucos africanos em Medina, estabeleceu a cidade até então como a única grande cidade moderna fora do continente africano consistentemente governada por líderes de ascendência africana até a evento da Revolução Haitiana nas Américas, em 1791.
Contudo, o Sheykh al-Haram não era o único eunuco africano em Medina, existindo também o Agawat, reservado para os eunucos adjacentes ao túmulo do Profeta. Nos registros de estipêndios e doações otomanos de 1671, cerca de 1.500 pessoas são mencionadas como possivelmente eunucos ou parentes deles em Meca e Medina, com a maioria sendo encontrada na cidade de Medina, segundo diz a professora Jane Hathaway.[7] A proeminência dos eunucos de Medina é mostrada quando se vê que nos registros anuais de estipêndios otomanos para a cidade uma das maiores quantias de pagamentos de estipêndios é designada para a manutenção dos dormitórios dos eunucos do túmulo do Profeta.
O Imã da Mesquita do Profeta, Shaykh Shawkat Pasha, e três dos famosos “aghwat”, eunucos etíopes encarregados com a nobre função do zelo pelo túmulo do Profeta Muhammad em Medina, Império Otomano, 1880. Acredita-se que a prática de empregar eunucos para o cuidado dos santuários em Medina tenha começado durante o reinado do califa omíada Yazid I (647-683), outros atribuem ao reinado do abássida al-Mansur (714-775), e outros até mesmo ao próprio Saladino (1138-1193).
Os privilégios concedidos aos eunucos nos espaços sagrados do Harameyn (termo para os espaços sagrados de Meca e Medina) tinham a ver com a ideia de que esses espaços sagrados tinham noções semelhantes de espaço público e privado como o harém doméstico, encontrado em discussões sobre a cultura da corte no mundo islâmico.
A professora Jane Hathaway observa que “os eunucos eram os ocupantes lógicos do espaço liminar entre o espaço sagrado do túmulo e o espaço público fora do recinto do túmulo”, o que é paralelo ao papel do eunuco no harém imperial no palácio em Istambul. Portanto, como interlocutores entre um dos espaços mais sagrados do Islã, o túmulo do Profeta, e a esfera política pública da gestão de Medina, os eunucos desempenharam um papel vital para o poder otomano na cidade de Medina.
Cartão postal fotográfico do eunuco-chefe do sultão otomano Abdül Hamid II, fotografado no Palácio Imperial em 1912.
Com a abolição do Império por Mustafa Kamal 1922, não havia mais lugar para a instituição. Os eunucos permaneceram em Medina, mas não seriam mais “manufaturados” para a função, continuando com seu status social de honra e prestígio, como os únicos muçulmanos com acesso ao compartimento interno do túmulo do Profeta Muhammad, e reverenciados não pelo poder político, mas pelo seu status espiritual. Em 2013 o fotógrafo saudita Adel Quraishi foi incumbido com a missão de fotografar os últimos agawat ainda vivos, oito, já bastante idosos, como Abdo Ali Sheikh, que eram as últimas testemunhas vivas de milênios da história política dos eunucos:
Notas de Rodapé
[1] Gazanfer Agha (falecido em 3 de janeiro de 1603) foi um cortesão e político otomano de origem veneziana. Ele ocupou o cargo de Kapı ağası do Sultão Murad III, fazendo parte de uma rede de espiões dedicada a manipular a política otomana em favor de Veneza.
[2] Bilad-al-Sudan significa “a terra dos negros”, referindo-se à região ao norte da África Central abrangendo os impérios locais através do comércio de caravanas. Ali existiram os sultanatos do Sudão oriental eram Darfur, Bagirmi, Sennar e Wadai; no Sudão central, o Império Kanem-Bornu e os Reinos Hauçá.
[3] Damat Ali Pasha, também chamado de Silahdar Ali Pasha, foi um general e grão-vizir otomano.
[4] Kizlar Agha Eunuco chefe negro, o posto de kızlar ağası foi criado no reinado de Murad III (r. 1574–1595) em 1574, com o Habeshi Mehmed Agha como seu primeiro ocupante.
[5] Evliya Çelebi escritor que viveu no século 17 foi um viajante e escritor turco que viajou através do Império Otomano e territórios vizinhos durante quarenta anos.
[6] O xeque al-ḥaram era o eunuco chefe da mesquita de Mesquita al-Haram na Arábia Otomana na cidade de Meca e Medina.
[7] Agawat são conhecidos desde a Idade Média, descritos como eunucos escravizados de ascendência indiana e africana não muçulmana, e são conhecidos como os guardas do túmulo do Profeta Maomé em Medina.
[8]. Para mais informações, veja em:
Abu Amina Elias – Hadith on Maiming: The Prophet prohibits cruelty to slaves
Brill – Eunuchs in the Sunnī Legal Discourse: Reflections on the Gender of Castrated Men
Princeton University – NES – Eunuchs and Sacred Boundaries in Islamic Society
Referências Bibliográficas:
- Evliya Çelebi, Evliya Çelebi in Medina: The Relevant Sections of the Seyahatname, ed. and commentary Nurettin Gemici, trans. Robert Dankoff, (Leiden: Brill: 2012),
- Jane Hathaway, The Chief Eunuch of the Ottoman Harem: From African Slave to Power Broker, (Cambridge: Cambridge University Press, 2018) P.125.
- GAIÃO, Pedro. Eunucos: Castrados pelas Igrejas e vendidos aos Árabes. História Islâmica. Disponível em: https://historiaislamica.com.br/eunucos-castrados-pela-igreja-e-vendidos-aos-arabes/
- ISLAM QUESTION & ANSWER. The ruling on castration. 13 fev. 2015. Disponível em: https://islamqa.info/en/answers/126987/the-ruling-on-castration













