Texto de Terrence McCoy, publicado no The Washington Post.
A imagem indelével de Winston Churchill é a de um rabugento mascador de charutos, de olhar carrancudo por trás dos óculos, de feição deformada por anos de guerra, preocupações e vinho. No entanto, Churchill nem sempre foi assim. Houve uma época em que ele era um jovem soldado de rosto rechonchudo, tendo viajado para os confins do Império Britânico. Lá, no Noroeste da Índia e no Sudão, na virada do século XX, ele entrou em contato com uma religião que sua família temia que o consumisse.
Em 1907, Lady Gwendoline Bertie, que se casaria com o irmão de Churchill, Jack, escreveu uma carta exaltada para o futuro primeiro-ministro. Ela estava preocupada com o flerte de Churchill com aquilo que ela chamava de “Oriente”. “Por favor, não se converta ao Islã”, escreveu Gwendoline numa carta recentemente descoberta por um historiador de Cambridge e divulgada pela mídia britânica no domingo [28 de dezembro de 2014]. “Percebo em sua disposição uma certa tendência para se orientalizar… Se você entrar em contato com o Islã, sua conversão será efetuada com mais facilidade do que você pode imaginar, “chamado do sangue”, não sei se você sabe o que quero dizer, mas lute contra isso.”
Carta enviada por Lady Gwendoline Bertie na qual pedia que Churchill não se tornasse muçulmano
A carta lança uma nova luz sobre um dos personagens mais proeminentes do século XX – um homem que defendeu o direito da Grã-Bretanha de governar grandes áreas do Mundo Muçulmano e teve um papel de destaque na demarcação das fronteiras que definem e atormentam o Oriente Médio hoje. Sobretudo graças ao trabalho do historiador Warren Dockter, surgiu uma imagem mais matizada, com nuances, dos primeiros anos de Churchill, retratando uma época em que as predileções religiosas do futuro líder britânico eram fluídas.
Ele costumava jogar polo com muçulmanos, revelou Dockter (que está trabalhando num livro chamado “Churchill and the Islamic World”. Churchill, que às vezes demonstrava desejo em ser muçulmano, afirmou, em 1897, que gostaria de lutar pelo Império Otomano.
No mesmo ano em que a esposa de seu irmão lhe escreveu aquela carta, ele também escreveu uma, elogiando os otomanos. “Você me considerará um paxá,” escreveu Churchill à ativista britânica Constance Lytton, referindo-se a uma patente distintiva do Império Otomano. “Quem dera eu fosse…”
Naquela época, ele também estava em contato próximo com Wilfrid S. Blunt, um poeta e fervoroso defensor das causas muçulmanas – Dockter descobriu que eles, às vezes, vestiam roupas árabes juntos. “Blunt e Churchill se encontraram diversas vezes. A princípio, para discutir a iminente biografia do pai, escrita pelo jovem Winston, mas depois simplesmente como amigos,” escreveu Dockter no Journal of Historical Biography. “Em algumas ocasiões, eles se vestiam como árabes, uma tradição que Blunt e Churchill manteriam até o fim de sua amizade.”
Mesmo assim, apesar da admiração de Churchill pelo histórico de expansão territorial e perspicácia militar do Império Otomano, Dockter afirma que as preocupações da família de Churchill eram infundadas. “Churchill nunca considerou seriamente se converter”, disse o historiador ao The Independent. “Nessa época, ele era mais ou menos ateu. No entanto, ele tinha um certo fascínio com a cultura islâmica, algo comum entre os vitorianos.”
E as festas à fantasia que ele e seu amigo Blunt faziam? “Apesar de ele e Churchill serem amigos e se vestirem de árabe, às vezes, nas excêntricas festas de Blunt, eles não costumavam concordar em nada”, disse Dockter.
Por exemplo, Churchill criticava o papel do Islã em seu relato sobre o Sudão, “The River War”. “Alguns muçulmanos podem ter qualidades esplêndidas, mas a influência da religião paralisa o desenvolvimento social daqueles que a seguem”, Churchill observou. “Não há força mais retrógrada neste mundo. Longe de ser moribundo, o maometismo é uma fé militante de proselitista.”
Livre dos “preconceitos orientalistas” que aprisionavam muitos de seus contemporâneos, Dockter escreveu que Churchill tinha uma “compressão matizada das fronteiras do Império Britânico”. Embora o mapa que ele ajudou a desenhar talvez não seja a melhor representação dessa compreensão, admitiu Dockter, que disse ao The Telegraph que essas fronteiras deram luz ao “Oriente Médio que conhecemos, com todos os seus defeitos”.




