Há alguns meses, o político holandês de extrema-direita Geert Wilders, líder do Partido para a Liberdade (PVV), mais uma vez se tornou o centro de uma polêmica ao compartilhar uma postagem em suas redes sociais. A imagem, que viralizou rapidamente, mostrava o rosto de uma mulher dividido ao meio: de um lado, uma jovem loira e sorridente rotulada com a sigla de seu partido, “PVV”; do outro, uma mulher mais velha, de aparência severa e usando um hijab, marcada com “PvdA”, a sigla do Partido Trabalhista holandês. A postagem causou reação imediata, e com a “Discriminatie”, uma rede nacional de agências regionais antidiscriminação que ajudam e aconselham pessoas que sofrem discriminação nos Países Baixos, recebendo mais de 2.500 queixas, tornando-se um dos casos mais denunciados da história da organização.
Imagem compartilha por Wilders no X (antigo Twitter).
Cerca de quatorze organizações islâmicas nos Países Baixos se uniram para registrar uma queixa-crime formal contra Wilders, acusando-o de incitar ódio, discriminação e violência. Para esses grupos, a imagem promovia uma era clara: a mulher loira era rotulada como “boa”, enquanto a mulher de hijab era a “má”. A organização Muslim Rights Watch foi ainda mais longe, afirmando que a imagem era assustadoramente semelhante à propaganda usada na Alemanha Nazista para desumanizar os judeus, retratando-os como perigosos e indesejados.
Perfis lado a lado de um judeu estereotipado e de uma mulher “ariana”.
Em que pese hoje quase tudo seja comparado com o regime nazista para fins retóricos, a comparação com a propaganda nazista não é um exagero, mas uma referência a uma estratégia histórica bem documentada de quando os judeus eram os “inimigos oficiais”. O jornal alemão Der Stürmer, publicado durante o regime de Hitler, era famoso por suas caricaturas virulentamente antissemitas. A publicação usava imagens grotescas para retratar os judeus como figuras feias, com traços faciais exagerados e corpos deformados, com o objetivo de associá-los a estereótipos perversos e criar uma imagem de “outro” ameaçador. Essa tática de propaganda visual buscava desumanizar um grupo inteiro aos olhos da população, tornando a discriminação e a violência contra eles mais palatáveis.
Essa postagem recente não é um caso isolado, mas sim o capítulo mais recente da longa e controversa carreira de Wilders (e lamentavelmente de outros políticos europeus), construída sobre uma plataforma abertamente anti-islâmica. Ele já declarou publicamente seu ódio ao Islã, descrevendo-o não como uma religião, mas como uma “ideologia totalitária” comparável ao nazismo, chegando ao ponto de comparar o Alcorão com o Mein Kempf, defendendo o banimento do livro sagrado do Islã nos Países Baixos.
Para Wilders, não existe distinção entre o “Islã moderado e o radical”, afirmando que “Islã é Islã, e é isso”. Suas falas são repletas de adjetivos como “mau, violento, odioso, bárbaro”, demonstrando um esforço contínuo para demonizar a fé e seus seguidores. Falar de Geert Wilders é falar de seu sentimento anti-islâmico, que longe de ser uma mera oposição ideológica ou um preciosismo por sua cultura (típico de civilizações moribundas), está mais para um sentimento patológico e uma obsessão que apenas um pisquiatra poderia diagnosticar com precisão.
Geert Wilders em uma de suas fotos embaraçosas.
Entretanto, Wilders não se limita apenas a discursos. Em 2008, ele produziu o curta-metragem Fitna, que combinava versos do Alcorão com imagens explícitas de ataques terroristas. O objetivo do filme era claro: retratar o Islã como uma religião inerentemente violenta e perigosa, onde os atos terroristas não seriam “distorções” dos ensninamentos islâmicos, mas sim a sua consequência natural. A produção gerou condenação generalizada de governos, grupos religiosos e organizações de direitos humanos em todo o mundo, além de ter levado a múltiplas investigações contra ele por incitação ao ódio e à discriminação contra os muçulmanos.
Essa retórica incendiária já o levou aos tribunais. Em 2016, Wilders foi condenado por insultar um grupo e incitar a discriminação. O caso foi motivado por um comício em que ele perguntou a seus apoiadores se eles queriam “mais ou menos marroquinos” no país. Apesar de ter sido considerado culpado, o tribunal decidiu não impor nenhuma pena, como multa ou prisão, o que foi visto por muitos como uma vitória para o político. A condenação, sem uma punição real, serviu mais para validar sua narrativa de mártir do que para coibir seu discurso.
Durante o comício em questão, após fazer a pergunta à plateia, a multidão gritou em uníssono: “Menos! Menos!”. Com um sorriso no rosto, Wilders respondeu: “Nós vamos cuidar disso”. O evento gerou mais de 6.400 queixas à polícia e, durante o julgamento, promotores apresentaram testemunhos de holandeses-marroquinos que afirmaram que os comentários de Wilders os fizeram sentir como “cidadãos de terceira classe”, marginalizados e indesejados em seu próprio país.
A reação de Wilders ao julgamento de 2016 foi de total desprezo e desafio. Pouco tempo depois da decisão, ele foi ao Twitter para chamar o veredito de “loucura”. Em sua publicação, ele acusou “três juízes que odeiam o PVV” de declararem que marroquinos são uma raça e, com isso, o condenarem junto com “metade da Holanda”. Essa declaração reforça sua estratégia populista de se posicionar como a voz de uma maioria silenciosa que estaria sendo perseguida por uma elite judicial e política “politicamente correta”, coisa que o eleitorado ocidental já está bem acostumado, inclusive o brasileiro.
Paradoxalmente, processos judiciais e a atenção da mídia parecem fortalecer Wilders em vez de enfraquecê-lo. Analistas apontam que o julgamento, na prática, forneceu ao líder populista exatamente o que ele precisa para prosperar: uma plataforma para promover sua mensagem política e uma enorme atenção da mídia. Para seus apoiadores, o processo apenas reafirmou a crença de que ele é um líder corajoso, disposto a enfrentar uma elite que tem medo de discutir os “verdadeiros problemas” da imigração e do Islã, o que explica por que seu partido continuava a liderar as pesquisas na época.
No centro de seus confrontos legais está o debate sobre a liberdade de expressão, outro lugar-comum da direita global, que normalmente se vale de uma importação descabida e caricata do conceito norte-americano para outros sistemas jurídicos. No caso de Wilders, ele consistentemente argumenta que seus comentários são protegidos por esse direito fundamental. No entanto, os juízes no tribunal de Schiphol determinaram que existem limites para essa liberdade, especialmente quando ela é usada para infringir a liberdade de outros, neste caso, um grupo minoritário. O juiz presidente, Hendrik Steenhuis, foi categórico ao afirmar que a liberdade de expressão não pode ser um escudo para o crime, deixando claro que a lei não protege o discurso que cruza a linha da incitação ao ódio e à discriminação.
Protesto contra a islamofobia em Haia, Países Baixos, 2023.
Apesar disso, é certo que Wilders continuará sua “cruzada” contra os muçulmanos em seu país e na Europa, possivelmente influenciando políticos de outras nações (como o Brasil) a importarem problemas imaginários enquanto fazem vista grossa para os problemas reais de seus países. Logo veremos político no congresso brasileiro colocando peruca e hijab para problematizar a “islamização” inexistente do país, tudo isso enquanto ignora questões concretas como saneamento, saúde, industrialização, infraestrutura e segurança pública (discutida seriamente e longe de chavões punitivistas genéricos).
Referências
AFP. Dutch hotline flooded with complaints after Wilders post. The Hague, 2023.
BBC NEWS. Netherlands trial: Geert Wilders guilty of incitement. Londres, 2016.
TRT WORLD. How Dutch far-right politician Geert Wilders continues to demonise Muslims. 2025.
BOZTAS, Senay. Offensive, hostile and unrepentant: Geert Wilders in his own words. The Guardian. 24. nov. 2023.







