Em uma revelação que “abalou as estruturas” do financiamento internacional, aptas a revolucionar o sistema bancário e transformar o sistema SWIFT para todo o sempre, o Ministério das Relações Exteriores de Israel apresentou ao mundo documentos que, supostamente, provam o “envolvimento direto” do Hamas no patrocínio da Global Sumud Flotilla.
A flotilha contou com a participação de cerca de 500 pessoas e mais de 40 embarcações.
A imagem é cinematográfica: em meio aos escombros de Gaza, tropas encontram a prova cabal, não um extrato bancário ou um comprovante de TED, mas sim documentos que ligariam o grupo a uma complexa operação humanitária. A pergunta que não quer calar, obviamente, é qual seria o método de pagamento. Teria o Hamas desenvolvido um aplicativo de PIX que funciona via rede de túneis, imune a sanções e bloqueios internacionais? Estaria Donald Trump de olho nesse sistema revolucionário, importando tão incrível tecnologia para ser utilizada no J.P. Morgan, Goldman Sachs e outros grandes bancos?
A primeira peça dessa evidência bombástica é uma carta de 2021, assinada pelo então líder do Hamas, Ismail Haniyeh. Nesta correspondência, Haniyeh endossa publicamente a Conferência Popular para Palestinos no Exterior (PCPA), uma organização da diáspora. A lógica da acusação é, portanto, evidente: se o líder do Hamas endossou uma organização em 2021, essa mesma organização estaria, por tabela, financiando com dinheiro do Hamas uma flotilha humanitária em 2025. Trata-se de um planejamento financeiro de longo prazo que faria inveja a qualquer consultor de investimentos, uma verdadeira aplicação em um fundo de solidariedade com rendimentos futuros. Esqueça CDI, CRA, criptomoedas, mercado de capitais ou até a famigerada poupança: os verdadeiros dividendos robustos estão em Gaza e em túneis!
Carta de 2021
A segunda prova é uma lista de “operativos da PCPA”, onde figuram nomes como Zaher Birawi, um dos organizadores da flotilha. Israel, que já havia designado a PCPA como um braço do Hamas em 2021, utiliza essa lista como prova da conexão. A equação é simples: Birawi está na lista da PCPA, a PCPA é um braço do Hamas, logo, Birawi é um “operativo do Hamas” e a flotilha é uma fachada. É uma linha de raciocínio tão direta que dispensa qualquer verificação independente, algo que, aliás, os próprios veículos de imprensa admitem não ter conseguido fazer.
Lista de operativos
Enquanto Israel pintava esse cenário de intriga internacional, os organizadores da flotilha ofereceram uma resposta um tanto quanto… sem graça. Um porta-voz descreveu as acusações como mera “propaganda”, uma tentativa de deslegitimar uma missão humanitária. Eles insistem que a iniciativa é da sociedade civil, sem vínculos com governos ou partidos, e pedem que os tais documentos sejam entregues a órgãos independentes. Uma exigência trivial, considerando a gravidade das acusações. Afinal, por que precisar de verificação quando a narrativa já está pronta? Israel claramente possui fé pública e é conhecido pela sua honestidade.
Zaher Birawi, o “operativo” em questão, parece não ter gostado da nova alcunha. Em uma declaração pública, ele rejeitou categoricamente as “alegações infundadas e potencialmente difamatórias”, classificando-as como “totalmente fabricadas, oferecidas sem um pingo de evidência”. Birawi descreve a campanha como um “esforço cínico e coordenado”, frequentemente incubado em instituições políticas israelenses e repetido acriticamente pela mídia. Uma crítica que sugere que, talvez, a história seja um pouco mais complexa do que uma simples transferência bancária subterrânea.
Zaher Birawi é presidente do grupo de defesa da Palestina, Europal Forum, com sede em Londres.
O mais irônico no currículo de Birawi é um pequeno detalhe de 2021. Naquele ano, ele venceu um processo judicial contra a World-Check, uma influente base de dados financeira, que o havia listado “erroneamente e injustamente” na categoria de terrorismo. A empresa foi forçada a remover seu nome e a pagar uma indenização. As fontes usadas para sua inclusão na lista negra? Segundo ele, “blogs politicamente motivados e publicações oficiais israelenses”. Parece que a estratégia de rotulá-lo não é exatamente uma novidade, mas da última vez, ela se provou bastante cara para quem a utilizou.
Se não é o Hamas, quem financia mais de 40 navios e 500 ativistas? A resposta, segundo os organizadores, é decepcionantemente transparente. A Flotilha da Liberdade opera com base em doações de base e crowdfunding, com páginas públicas em plataformas como GoFundMe e Donorbox. Além disso, é apoiada por uma coalizão de ONGs independentes de vários países, como a İHH da Turquia e a “Ship to Gaza” da Suécia. Alguns grupos, como a campanha suíça, chegam a declarar explicitamente que não recebem fundos de governos ou corporações. Um modelo de negócios muito menos empolgante do que o PIX clandestino vindo diretamente dos túneis do Hamas ou um novo método de pagamento que faria os bancos e países aderentes do SWIFT reverem seus métodos.
A Fundação de Assistência Humanitária (IHH) participa de operações de limpeza e remoção de escombros em Gaza.
Para Birawi, o objetivo final dessa campanha de difamação não é apenas manchar sua reputação, mas sim “atacar e desmantelar o impulso coletivo dos movimentos de solidariedade”. A acusação de terrorismo funciona como uma ferramenta para silenciar a dissidência e desacreditar aqueles que expõem as políticas israelenses. Ao transformar um ato de solidariedade civil em uma operação terrorista, a narrativa busca isolar e criminalizar o apoio à causa palestina em escala global, transformando “causa palestina” em sinônimo de terrorismo, como se a causa em si estivesse necessariamente atrelada ao Hamas ou qualquer outro grupo e não ao “simples” fato de que centenas de milhares de vidas inocentes já foram massacradas por Israel nos últimos 80 anos.
Enfim. De um lado, o governo de Israel apresenta documentos encontrados em uma zona de guerra, cronologicamente ambíguos e sem verificação independente, para sustentar uma acusação de terrorismo. Do outro, uma coalizão de ativistas apresenta um modelo de financiamento aberto, baseado em doações individuais e ONGs, e um histórico de vitórias legais contra acusações semelhantes. A questão não é se Greta Thunberg, Thiago Ávila, Mansur Peixoto e outros 500 ativistas receberam um PIX do Hamas.
A verdadeira questão é a eficácia de usar o espectro do terrorismo para minar a legitimidade de uma missão humanitária que, por sua própria existência, desafia um bloqueio militar considerado ilegal por múltiplos órgãos internacionais. A resposta a essa pergunta parece depender menos das provas e mais de qual lado da história o espectador decide acreditar. Enquanto isso, a tecnologia do PIX via túneis permanece, infelizmente, no campo da ficção. Talvez não seja tão cedo que teremos mais uma inovação tão fantástica para abalar as estruturas do mercado financeiro global.
Referências
EURONEWS. Gaza-bound flotilla rejects Israeli claims of Hamas funding. Euronews, 2025. Disponível em: <https://www.euronews.com/my-europe/2025/09/30/gaza-bound-flotilla-rejects-israeli-claims-of-hamas-funding>. Acesso em: 17 out. 2025.
ISRAEL claims documents show links between activist flotilla and Hamas. The Times of Israel, 2025. Disponível em: <https://www.timesofisrael.com/liveblog_entry/israel-claims-documents-show-links-between-activist-flotilla-and-hamas/>. Acesso em: 17 out. 2025.
MIDDLE EAST EYE. Palestinian activist receives damages after being placed on World-Check blacklist. Middle East Eye, 2021. Disponível em: <https://www.middleeasteye.net/news/zaher-birawi-palestinian-activist-world-check-terrorism-list>. Acesso em: 17 out. 2025.
MIDDLE EAST MONITOR. Freedom flotilla official responds to media defamation campaign. Middle East Monitor, 2025. Disponível em: <https://www.middleeastmonitor.com/20250613-freedom-flotilla-official-responds-to-media-defamation-campaign/>. Acesso em: 17 out. 2025.








