A régua usada para bater nos muçulmanos quebrou

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Após o fatídico 11 de setembro de 2001, o mundo testemunhou uma mobilização sem precedentes da comunidade muçulmana global. Sob o peso de uma culpa que não lhes pertencia, lideranças e cidadãos comuns — de taxistas e vendedores a acadêmicos — viram-se compelidos a um exaustivo ritual de dissociação. A condenação ao terrorismo tornou-se uma espécie de “pedágio de cidadania”. Nomes de peso, como os clérigos Yusuf al-Qaradawi e Muhammad Sayyid Tantawi, e até figuras políticas como o então presidente iraniano Mohammad Khatami, apressaram-se em enfatizar que o ataque a civis era uma violação flagrante da Sharia e da ortodoxia islâmica.

Nos Estados Unidos, no epicentro da crise, essa reação beirou o desespero. Movidas por um misto de vergonha e instinto de sobrevivência, quase todas as instituições islâmicas condenaram a ideologia dos perpetradores. Embora hoje essa postura possa soar submissiva, ela baseava-se em um princípio ético correto: o repúdio a crimes contra a humanidade. No entanto, a retribuição do Ocidente a essa clareza moral foi a desconfiança eterna.

Muçulmanos se reúnem para condenar ataques terroristas em Paris, em Barcelona, ​​Espanha, em 16 de novembro de 2015.

Mesmo após décadas de reafirmação de sua “moderação”, o muçulmano médio permanece sob suspeita. A pressão institucional nunca cessou, alimentando uma islamofobia que, embora condenada “da boca para fora”, é protegida sob o manto da liberdade de expressão quando convém. O resultado é trágico e mensurável em sangue: dos ataques em Christchurch, na Nova Zelândia, ao atentado ao Centro Cultural Islâmico de Quebec, no Canadá.

Vítimas do Massacre de Christchurch.

É neste ponto que a hipocrisia das democracias liberais e o “dois-pesismos” da comunidade internacional tornam-se gritantes.

Enquanto a identidade muçulmana é coletivamente punida por atos de grupos não-estatais, observa-se uma assimetria moral escandalosa na reação de parte da comunidade judaica institucional frente ao massacre, limpeza étnica e genocídio cometidos pelo Estado de Israel contra palestinos e libaneses. Se para o muçulmano a condenação ao extremismo é obrigatória para a sua aceitação social, para certas lideranças e organizações judaicas, a apologia à violência estatal parece ser um dever moral inquestionável.

Diferente do distanciamento crítico visto no pós-11 de setembro, o que vemos em grande parte das instituições da diáspora — inclusive no Brasil — é a celebração e a justificativa teológica da barbárie. Organizações como a Confederação Israelita do Brasil (CONIB) e a StandWithUs Brasil atuam como escudos retóricos, blindando o governo israelense de qualquer responsabilidade, mesmo diante de evidências irrefutáveis de crimes de guerra transmitidos ao vivo. Grupos como o Chabad exortam um apoio incondicional, rotulando o massacre de milhares de civis como um suposto “direito de defesa”, enquanto desumanizam as vítimas através da narrativa de uma “cultura de ódio” inerente ao povo palestino.

Essa desumanização ganha contornos cruéis no discurso religioso. Enquanto clérigos muçulmanos são monitorados e criminalizados por qualquer fala ambígua, figuras como o rabino Pedro Kauffman, de São Paulo, gozam de um passe livre para destilar ódio. Ao classificar palestinos como “monstros” e “pragas” em suas redes sociais, Kauffman não apenas nega os crimes documentados, como endossa abertamente o sentimento genocida.

Kauffman afirma que palestinos são monstros.

A contradição é insolúvel: o sistema internacional que exige do muçulmano uma prova diária de sua paz é o mesmo que silencia vozes críticas ao sionismo sob acusações estapafúrdias de antissemitismo. Não há projetos de lei para coibir o lobby pró-genocídio, nem pressão social para que as instituições judaicas se desvinculem das atrocidades cometidas pelo Estado de Israel.

Enquanto membros comuns da comunidade muçulmana ainda são forçados a provar sua lealdade aos valores ocidentais, o apoio ao extermínio de civis em Gaza por parte da maior parte do público israelense é tratado, nos corredores do poder e nas redações da mídia mainstream, como uma questão geopolítica complexa. A verdade, contudo, é simples: a régua moral da humanidade está partida, e o lado que exige desculpas das vítimas é o mesmo que oferece imunidade aos carrascos.

Referências:

MOSS, Aron. Como Explicar as Ações de Israel em Gaza? Chabad, 2010. Disponível em: https://pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1221898/jewish/Como-Explicar-as-Aes-de-Israel-em-Gaza.htm. Acesso em: 09/04/2026.

HORA DO POVO. Conib, que apoia massacre em Gaza, “distorce e manipula declarações de Lula”, diz Gleisi. 2 jun. 2025. Disponível em: https://horadopovo.com.br/conib-que-apoia-massacre-em-gaza-distorce-e-manipula-declaracoes-de-lula-diz-gleisi/. Acesso em: 09/04/2026.

SILVA, Junio; MARTINS, Jonatas. Rabino brasileiro acusa palestinos de “viverem como monstros”. Metrópoles, 23 mai. 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/rabino-brasileiro-acusa-palestinos-de-viverem-como-monstros. Acesso em: 09/04/2026.

THE ARAB CENTER FOR THE ADVANCEMENT OF SOCIAL MEDIA. Racism and Incitement Index 2024: Over 12 Million Violent Posts Against Palestinians on Digital Platforms. 12 mar. 2025. Disponível em: https://7amleh.org/post/racism-index-2024-en. Acesso em: 09/04/2026.

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