A Grande Fome Persa, ocorrida aproximadamente entre 1917 e 1919, representa um dos capítulos mais sombrios e menos conhecidos da história iraniana moderna. Coincidindo com os anos finais da Primeira Guerra Mundial, esta catástrofe humanitária ceifou a vida de cerca de 2 milhões de pessoas, com algumas estimativas afirmando entre 8 a 10 milhões, como aponta Mohammad Gholi Majd (2013), tese essa que vem ganhando cada vez mais peso na Academia. Foi um período de sofrimento indescritível, causado por uma confluência de fatores naturais e humanos, que deixou cicatrizes profundas na memória coletiva do país.
As causas imediatas da fome foram múltiplas. Uma severa seca atingiu a região, reduzindo drasticamente as colheitas por vários anos consecutivos. A isto somou-se a desordem interna: a fragilidade do governo central Qajar, incapaz de manter a ordem e organizar a distribuição de alimentos, permitiu que senhores locais e mercadores acumulassem os poucos grãos disponíveis, especulando sobre os preços e agravando a escassez para a população comum. A infraestrutura precária do país dificultava ainda mais o transporte de alimentos das poucas áreas com excedentes para as regiões mais afetadas.
O contexto da Primeira Guerra Mundial foi um fator de grande relevância. Embora oficialmente neutra, a Pérsia foi invadida e ocupada por forças otomanas, russas e, especialmente, britânicas. A presença militar estrangeira desorganizou a já frágil economia agrícola. Importantes campos foram transformados em campos de batalha (vide, por exemplo, as batalhas entre o Império Otomano contra os russos), colheitas foram destruídas ou confiscadas e o gado foi requisitado para fins militares. A própria movimentação de tropas e refugiados ajudou a disseminar doenças como tifo e gripe espanhola (a famosa influenza), que encontraram uma população já debilitada pela fome, aumentando a taxa de mortalidade.
A situação piorou drasticamente com o papel britânico. As forças britânicas, presentes no sul da Pérsia e no atual Iraque, realizaram compras massivas e requisições de grãos e outros alimentos no mercado persa para sustentar suas tropas. Essa demanda artificial inflacionou enormemente os preços, tornando os alimentos inacessíveis para a maioria dos persas. Além disso, há evidências de que os britânicos dificultaram ou bloquearam a importação de alimentos para a Pérsia, inclusive dos Estados Unidos e da Índia (então sob controle britânico), priorizando suas próprias necessidades estratégicas e logísticas em detrimento da população local faminta.
Pessoas em Bijar correndo para pegar as entranhas de uma ovelha. Coleção do Australian War Memorial.
Pat Walsh (2016) aponta ainda as semelhanças das atitudes britânicas com as que tiveram com os irlandeses cerca de um século antes: os britânicos culparam os persas ao mesmo tempo que sugeriram que a construção de estradas para os seus militares era uma benevolente “medida de mitigação” para a ingrata população local. Abbas Amanat (2017) afirma ainda que, sem dúvidas, a ocupação estrangeira intensificou a fome persa, visto que grandes remessas de grãos e gêneros alimentícios foram compradas e confiscadas pelos exércitos russo e britânico para consumo de suas tropas, como dito acima.
Famintos fazem fila para receber ração em Bijar.
A memória da Grande Fome mal havia começado a cicatrizar quando, duas décadas depois, o país se viu novamente mergulhado em outra fome durante a Segunda Guerra Mundial. Em agosto de 1941, forças britânicas e soviéticas invadiram e ocuparam o país, sob o pretexto de garantir uma rota de suprimentos para a União Soviética (batizado de Corredor Persa) e neutralizar a influência alemã no país. Essa ocupação, que durou até depois do fim da guerra, colocou novamente uma enorme pressão sobre os recursos e a infraestrutura iraniana.
Uma característica marcante da ocupação Aliada foi o colapso da economia iraniana. A prioridade absoluta dada ao Corredor Persa para abastecer a União Soviética significou a requisição massiva de infraestrutura de transporte (como rodovias e a capacidade ferroviária) e de suprimentos alimentares. Esta política de extração, combinada com a presença de muitas tropas estrangeiras e a fragilidade econômica geral do país, bem como uma série de colheitas ruins em 1942, provocou uma inflação galopante e uma escassez crítica de alimentos, especialmente nos centros urbanos, atingindo seu ápice entre 1942 e 1944 sendo sentida até mesmo no período pós-guerra.
A população urbana, em particular, enfrentou fome severa e muita miséria, o que gerou protestos e instabilidade social num país já mergulhado no caos, um custo humano direto das exigências impostas pelas potências que ocupavam o território iraniano. A título de exemplo da crise na época, o índice de custo de vida emitido pelo Banco Nacional do Irã subiu de 100 em 1939 para 269 em 1942, 650 em 1943 e 757 em 1944. Em algumas partes do país, o aumento foi até maior (ver KEDDIE, 2006, p. 108).
Manifestantes protestam contra a escassez de pão nas dependências da Assembleia Nacional em 7 de dezembro de 1942.
Este padrão de políticas de potências estrangeiras contribuindo para a fome em territórios sob sua influência encontra um paralelo trágico e bem documentado na Fome de Bengala de 1943, na Índia Britânica. Cerca de 3 milhões de pessoas morreram, a maioria camponeses muçulmanos e hindus. Fatores como a militarização da economia regional, a priorização do abastecimento militar sobre as necessidades civis, as políticas de “negação” (confisco de barcos e arroz) em antecipação a uma invasão japonesa (estratégia de “terra arrasada”), o enorme influxo de imigrantes vindos de Burma (fugindo dos ataques japoneses) e a consequente quebra da confiança e o colapso dos mercados de alimentos, combinados com uma resposta administrativa colonial inadequada e tardia, foram cruciais na transformação de uma situação de escassez em uma fome de larga escala.
Órfãos que sobreviveram à fome em Bengala.
Situações análogas podem ser observadas em outros contextos. No Egito, durante a Primeira Guerra Mundial, o controle britânico levou à requisição maciça de animais, suprimentos e mão de obra (para o Camel Transport Corps e o Egyptian Labour Corps), desestruturando a economia rural e causando dificuldades e escassez alimentar entre a população camponesa (os chamados fellahin), predominantemente muçulmana. Avançando para o final do século XX, o Iraque, após a Guerra do Golfo de 1991, foi sujeito a um regime de sanções econômicas abrangentes liderado pelos EUA e Reino Unido via ONU durante o governo de Saddam Hussein. Estas sanções tiveram um impacto devastador na população civil, causando, segundo relatórios da própria ONU e de ONGs internacionais, centenas de milhares de mortes, especialmente entre mulheres e crianças, especialmente devido à desnutrição e falta de medicamentos.
Concluindo, as fomes na Pérsia em 1917-19 e 1942-44 não foram eventos isolados, mas se inserem num padrão histórico mais amplo onde as ações e políticas de potências externas, notadamente a Grã-Bretanha, tiveram consequências catastróficas para as populações do Oriente Médio e Sul da Ásia. Seja através de requisições diretas em tempos de guerra, manipulação de mercados, bloqueios ou sanções econômicas, a priorização de interesses militares e geopolíticos sobre as necessidades básicas da população local resultou repetidamente em sofrimento e morticínio de literalmente milhões de pessoas, afetando desproporcionalmente populações civis, muitas das quais muçulmanas. Isso, obviamente, para ficarmos apenas em alguns países do dito “mundo islâmico”.
Bibliografia
ABRAHAMIAN, Ervand. A History of Modern Iran. Cambridge University Press, 2008.
ABRAHAMIAN, Ervand. Iran Between Two Revolutions. Princeton University Press, 1982.
AMANAT, Abbas. Iran: A Modern History. Yale University Press, 2017.
FAWAZ, Leila Tarazi. A Land of Aching Hearts: The Middle East in the Great War. Harvard University Press, 2014.
GRAHAM-BROWN, Sarah. Sanctioning Saddam: The Politics of Intervention in Iraq. I.B. Tauris, 1999.
KEDDIE, Nikki R. Modern Iran: Roots and Results of Revolution. Yale University Press, 2003.
MUKHERJEE, Janam. Hungry Bengal: War, Famine and the End of Empire. Oxford University Press, 2015.
MAJD, Mohammad Gholi. The Great Famine & Genocide in Persia, 1917-1919. University Press of America, 2013.
WALSH, Pat. Who Remembers the Persians? (2016).







