Sem dúvida uma das grandes e mais dramáticas tragédias da história ocidental foi a perda da renomada Biblioteca de Alexandria – um baluarte de conhecimentos antigos remontando a períodos longínquos, resultado de séculos de acúmulo que tornariam a cidade uma “Meca” de filósofos e cientistas do Mundo Antigo. Hoje sabe-se que ela (assim como grande parte de seu acervo, embora não sua totalidade) teve seu ocaso nas mãos de outra figura igualmente lendária (e igualmente real): Júlio César. Durante uma guerra civil romana travada também no Egito no ano 48 antes da Era Comum, as tropas de Júlio César incendiaram navios inimigos no porto de Alexandria, e o fogo se espalhou para a região portuária e atingiu parte do acervo, destruindo milhares de rolos de papiro, embora a biblioteca principal tenha continuado a existir.
O Incêndio de Alexandria, de Herman Goll, em 1876.
Após isso, depois do nascimento de Cristo, a cidade de Alexandria sofreu com guerras civis, invasões (como a do imperador romano Caracala em 215 d.C.) e revoltas religiosas. Em 391 d.C., decretos do imperador Teodósio contra o paganismo resultaram na destruição do Serapeu de Alexandria (um templo associado ao complexo cultural), o que devastou grande parte (senão tudo) do que restava dos textos antigos, então em mãos dos perseguidos pagãos.
Com o Orientalismo no século XIX, surgiram boatos e lendas anti-islâmicas que logo se infiltraram na historiografia europeia sobre o assunto: segundo rumores infundados, a Conquista Árabe (642 d.C.) teria sido a responsável pela perda da biblioteca. Uma lenda popular culpava o califa Omar ibn al-Khattab e o general Amr ibn al-As (conquistadores do Egito) por tirarem o acervo das mãos de religiosos cristãos coptas e queimarem os livros restantes para aquecer os banhos públicos. No entanto, hoje em dia, os historiadores modernos consideram essa história absurda um mito sem comprovação real.
Mas e se, na verdade, tal mito tivesse sido inspirado numa conquista e saques reais? É apenas uma especulação, mas fato é que algo semelhante aconteceu no século XVI, embora da maneira inversa: em 1535, o imperador Habsburgo hispano-austríaco Carlos V empreendeu uma grande expedição contra Túnis, então um importante centro político e intelectual do Mediterrâneo islâmico. A cidade havia sido incorporada no ano anterior pelo almirante otomano Hayreddin Barbarossa, o mais famoso corsário otomano, transformando-se em uma importante posição estratégica do Império Otomano no norte da África. A expedição imperial conseguiu derrotar as forças otomanas e dos corsários e conquistar Túnis no verão de 1535, matando mais de 30 mil muçulmanos. O episódio teve consequências que ultrapassaram em muito a esfera militar: o saque da cidade atingiu também seu patrimônio intelectual e material, incluindo as bibliotecas e coleções de manuscritos acumuladas durante o período da Dinastia Hafsida.
Armada de Carlos V ataca La Goulette (Ḥalq al-Wādī).
O saque assumiu, assim, uma importância excepcional para a história islâmica – comparável à famosa e já citada destruição da Biblioteca de Alexandria por Júlio César durante o cerco da cidade, ou da biblioteca Dar al-Ilm em Tiro no Líbano, queimada pelos cruzados em 1109. Túnis havia sido um centro de ensino, produção e circulação de manuscritos durante todo o período hafsida (1230 – 1574). Um dos maiores pensadores muçulmanos da Idade Média, Ibn Khaldun, autor da Muqaddima, nasceu e estudou lá. As bibliotecas da cidade continham exemplares do Alcorão, obras religiosas de fiqh, kalam, tasawwuf (ciências islâmicas), além de obras jurídicas, filológicas e literárias, juntamente com documentos relacionados à administração e às instituições de ensino e caridade. Além de medicina, astronomia, alquimia e matemática.
O trabalho da estudiosa Laura Hinrichsen demonstra que a destruição e a dispersão desses acervos não significaram simplesmente o desaparecimento físico dos livros, como previamente se acreditava: uma parte sobreviveu, mas foi retirada de seu contexto original e redistribuída por diferentes regiões e coleções, sobretudo na Europa. Surpreendentemente, nem tudo estava perdido como se pensava.
Hinrichsen demonstra que os livros provenientes das bibliotecas hafsidas foram incorporados a diferentes circuitos de colecionismo, sobretudo europeus, embora alguns também tenham chegado aos mercados do Norte da África e às coleções otomanas, especialmente em Istambul. A autora adverte, contudo, que nem todo manuscrito hafsida atualmente conservado na Europa pode ser atribuído diretamente ao saque de 1535: alguns poucos já haviam chegado à Europa antes da tomada de Carlos V, enquanto outros percorreram caminhos diferentes posteriormente. O saque de Túnis, entretanto, foi, pela sua dimensão, um dos fatores decisivos para a dissolução dessas bibliotecas e seu posterior influxo em direção a outros destinos.
Um dos resultados mais interessantes desse processo é que, ainda que numerosos manuscritos tenham sido destruídos durante e depois da pilhagem, a dispersão ocasionada por ela acabou permitindo aos pesquisadores modernos reconstruir parcialmente aquilo que foi perdido. Manuscritos conservados hoje em diferentes bibliotecas europeias apresentam marcas de posse, certificados de doação (chamados de tahbīs), colofões e outras evidências de códigos que permitem identificar sua origem tunisiana e reconstruir as antigas coleções. Hinrichsen cataloga, entre outros materiais, 26 manuscritos corânicos hafsidas e 61 manuscritos não-corânicos, além de documentos e certificados de dotação. Dessa maneira, aquilo que durante séculos pareceu simplesmente uma perda irreparável pode ser parcialmente reconstruído através dos fragmentos sobreviventes espalhados por bibliotecas e coleções privadas europeias.
O saque de Túnis de 1535 deve, portanto, ser entendido não somente como um episódio da guerra entre os Habsburgos e os otomanos, mas também como uma pilhagem destrutiva de conhecimento e material islâmico e africano para o mundo europeu – uma legítima pirataria intelectual. Paradoxalmente, essa apropriação contribuiu para a sobrevivência física de numerosos manuscritos, ao mesmo tempo que destruiu o contexto intelectual e institucional no qual eles haviam sido produzidos, copiados, estudados e preservados. É justamente essa tensão entre perda, dispersão e sobrevivência que constitui o principal objeto do estudo de Hinrichsen sobre as “bibliotecas perdidas de Túnis”.
Referências
- HINRICHSEN, Laura. The Lost Libraries of Tunis: Book Culture of Ḥafṣid Ifrīqiya and Arabic Manuscripts in Europe after the Sack of Tunis (1535). Berlin; Boston: De Gruyter, 2024. DOI: 10.1515/9783111343631.
- HINRICHSEN, Laura. “Appendix I: European Collectors of Ḥafṣid Manuscripts (sixteenth to early seventeenth century).” In: The Lost Libraries of Tunis: Book Culture of Ḥafṣid Ifrīqiya and Arabic Manuscripts in Europe after the Sack of Tunis (1535). Berlin; Boston: De Gruyter, 2024, p. 217–222. DOI: 10.1515/9783111343631-004.
- HINRICHSEN, Laura. “Bibliography.” In: The Lost Libraries of Tunis: Book Culture of Ḥafṣid Ifrīqiya and Arabic Manuscripts in Europe after the Sack of Tunis (1535). Berlin; Boston: De Gruyter, 2024, p. 275–296. DOI: 10.1515/9783111343631-011.
- HINRICHSEN, Laura. The Lost Libraries of Tunis — versão de acesso aberto disponibilizada pela De Gruyter.






